13 de jan de 2010 | By: @igorpensar

Eleições: se posicionando (Parte I)

Por Igor Miguel

As eleições se aproximam e ontem, em conversa com um amigo sobre o assunto, lhe perguntei: você, enquanto cristão, como se posiciona ideologicamente ante as opções partidárias ou de candidatos nas próximas eleições?

Estou longe de ser um crítico político. Mas, sou cidadão. E em minha diversidade confessional, pertenço a uma comunidade com valores filosóficos e religiosos específicos. Neste sentido, me incomoda, e muito, as contradições existentes entre ideologia, partidarismo e candidatura. Estas coisas podiam ser uma só, mas foram compartimentadas. Um candidato pode pertencer a um partido de esquerda e ser ideologicamente liberal. Ou pode ser ideologicamente liberal e em termos práticos adotar uma postura conservadora. Ou pode ser neo-liberal e pertencer a um partido de esquerda, que só é de esquerda nos ideais, mas porta-se bem aos moldes da burguesia. A politica partidária no Brasil é uma "hidra de sete cabeças", um pandemônio.

Há alguns anos, ouvi um cientista político dizer que o Brasil não tem política partidária ou ideológica, tem política privada narcisista. De fato, o recente filme a respeito do "messias sindicalista" deixa bem claro que as intensões políticas giram em torno de sujeitos e não do agregamento de pessoas com uma determinada posição ideológica.

Apesar da descontinuidade na tríade ideologia-partidarismo-candidatura, um teísta, cristão ou judeu, deveria se posicionar politicamente a partir de pressupostos ideológicos muito claros, rejeitando qualquer pretensão partidária que esbarre em seus valores judaico-cristãos.

Isto não é moralismo. Como afirmo frequentemente neste blog, minha visão de mundo é religiosa sim! Não admito que minha teologia seja ostracizada para dentro do universo eclesiástico, ou a uma pretensa espiritualidade privada, apesar desta ser a proposta da agenda secular.

Minha visão de mundo é religiosa sim! Acredito que ela é ordeira, humanizadora, justa e que os valores da cultura judaico-cristã, desde que orientada a partir de uma tradição correta, pode desencadear transformações profundas na sociedade e cultura.

Poderia citar aqui, filósofos, teólogos e juristas judeus ou cristãos, cujos pressupostos podem iluminar um engajamento político biblicamente orientado. Quando digo biblicamente, não proponho um fideísmo obtuso, mas me refiro a valores bíblicos estruturados dentro de determinada tradição hermenêutica, pois são aplicações de valores fundamentalmente bíblicos, contextualizados a determinados desafios e demandas sócio-culturais.

Termino a primeira parte deste post, com a seguinte pergunta: é possível a elaboração de uma ideologia política para além do binarismo esquerda-direita? Existe possibilidade de um cristão se alinhar ideologicamente com partidos de orientação marxista ou liberal?

No próximo post, em continuação a este, comentarei sobre minhas impressões de um estadista holandês, cuja posição política e ideológica é extremamente esclarecedora neste sentido.

[Continua...]

8 comentários:

victor disse...

Tá aí uma questão que sempre me incomodou. Me considero de centro e apartidário. Mas cada vez mais tem ficado difícil escolher em quem votar. Os valores hoje estão perdidos. Os que se dizem cristão, roubam. Não dá mais para acreditar em ninguém. É triste termos que nivelar por baixo e votar no que achamos menos pior.

Abraz,
Victor

Igor Miguel disse...

Victor,

Pois é. Aguarde o próximo post. Não temos um partido biblicamente orientado. Mas, podemos eleger (ou não) um candidato orientados por pressupostos cristãos. Falarei sobre uma percepção política e filosófica cristã que transformou a Europa em meados do século XIX e que pode trazer alguma luz sobre nossa postura política. Um candango sempre ajuda nestes quesitos... passe por aqui mais tarde.

Ana Laura disse...

Igor:

Concordo com seu texto.
Mas, não vejo no momento algum candidato que possa preencher os requisitos...
Confesso que minha maior preocupação é colocar o atual partido o mais distante possível do poder.
Sendo assim, não vejo outra opção senão votar na direita(de acordo com a visão deles).
Há um repúdio cada vez mais notório pelos valores que seguimos por parte do governo do PT.
Qualquer pessoa que se posicione a favor de valores morais e éticos,
é automaticamente taxado de direitista, elitista, pseudo-intelectual...
As distorções são tantas e tão profundas, que não é possível descrever um perfil político de usando os termos academicamente corretos.Temos que "adaptar" o vocabulário para não sermos "mal
interpretados"...
O tema é complexo, e é dos meus preferidos...não tenho como prosseguir.Só quero deixar claro aqui e sempre que possível,que me coloco firmemente contra os ideais do governo atual.
Sou oposição FERRENHA.

abçs,

AL

victor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
victor disse...

Ana Laura, eu votei e votaria de novo no Lula. Corrupção tem dos dois lados (vide a situação do GDF). O que veio à tona no governo Lula já acontecia. Ele simplesmente não escondeu. Ao ler que você se diz oposição ferrenha pelo fato de falta de ética e moral da situação, eu tive que discordar. Sem contar o Lula trouxe bastantes benefícios ao país. Teve escorregadas (e feias), porém também teve acertos. E outra coisa, você se diz contra aos ideais do governol atual, mas esqueceu de levar em conta que a própria oposição acusa o Lula de não ser mais esquerda, ou seja, se tornou igual aos que o fazem oposição. Eu sei que é triste a nossa situação atual, pois os DOIS lados estão pervertidos.

Onias disse...

Shalom! Igor, li seu comentário, tenho algumas duvidas, sempre fui apolítico,não sei se posso chamar assim, aquele que não gosta, não fala, vota por obrigação, e na maioria das vezes que podia aproveitava e criava uma viagem para justificar o voto, hoje me encontro em uma situação totalmente diferente,meu nome foi indicado por um grupo de Apóstolos do Rio grande do Sul.
Agora preciso saber muito sobre este assunto, também preciso pedir a Graça de Deus, p/ me manter com a mesma conduta ilibada de sempre.

Jorge Fernandes Isah disse...

Igor,

é a primeira vez que comento no seu blog, e o conheci através de um pequeno diálogo no blog do Roberto Vargas, lembra? Sobre um post seu?

Bem, a questão é que, no Brasil, não existe verdadeiramente partidos de direita, quanto mais que se norteem pelos valores judaíco-cristãos.
Ao meu ver, o marxismo tem contaminado de tal forma a sociedade, e encontra-se enraizado em todos os segmentos, variando apenas do mais ou menos à esquerda, que, por exemplo, na próxima eleição, não haverá nenhum candidato que se oponha ao pensamento vigente.
Parece-me que o último "direitista" foi o Enéas, ainda que tenha sido um estereótipo ou um direitista sem muita convicção.
Na verdade, somos reféns da mentalidade de esquerda, ela está presente nas igrejas, no meio acadêmico, na mídia, nos lares, nas artes, em todos os lugares onde a mente se encarregou de apenas ecoar seus dogmas nefastos, como um replicante irracional.
Sinceramente, até agora, não tenho a menor idéia de em quem votar. Pelo quadro atual, provavelmente, anularei o meu voto, pois não vejo ninguém capaz de representar exatamente o pensamento judaíco-cristão de que você falou, nem mesmo os que se dizem cristãos.
Ao que parece, os caminhos pelos quais o país está trilhando o levará a uma ditadura marxista, em breve. Ainda mais se a ex-guerrilheira chegar ao poder. É esperar para ver... ainda que seja melhor não esperar, mas fazer algo.
Aguardarei o próximo post. Por acaso, você falará do Abraham Kuyper?

Grande abraço!

Igor Miguel disse...

Jorge,

Concordo com você. Meu desconforto com essa "esquerdização" generalizada, é que ela nasce de um pressuposto idólatra e reducionista. Sem mais detalhes.

Por outro lado, penso comigo, se não valeria investirmos energia, ao menos para nos posicionar, em uma postura crítica ante a esta tendência. Não quero ficar nas nuvens, no idealismo, mas temo que a abordagem de uma política "pragmática" também não seja o ideal.

Sendo assim, você acertou, no próximo post, darei início a uma série de reflexões, sobre a abordagem política de Abraham Kuyper, e como sua agenda política na Europa, pode iluminar nossa posição por aqui. O Neocalvinismo foi é a única proposta política que conheço que nasce do pensamento cristão-bíblico (de uma tradição) e não sintetiza cristianismo com uma ideologia política "a priori" como fez a "teologia da libertação".