9 de out de 2009 | By: @igorpensar

Sabedoria para além do racionalismo

Por Igor Miguel

Minha investigação no mestrado tem sido uma tentativa de aproximar o conceito hebraico de sabedoria (chochmá | חכמה) e as novas perspectivas educacionais, neste caso, os modelos que procuram aproximar ética, cognição e afetividade.

Uma das coisa que percebi em minha investigação, principalmente no livro
Provérbios de Salomão, também conhecido em hebraico pelo nome Mishlei [משלי], é que o conceito de sabedoria ali apresentado diferenciava em muito da forma moderna e popular da idéia de sabedoria. A primeira definição do termo no Dicionário Aurélio é: "grande conhecimento, erudição, saber, ciência.", curiosamente, não é este o conceito de sabedoria presente entre os antigos judeus.

Chochmá (sabedoria) na Bíblia é um tipo de habilidade específica, que envolve desde de habilidades técnicas como a metalurgia (p.ex. Bezalel que trabalhava com ouro e bronze), a costura (p.ex. as mulheres que faziam roupas sacerdotais e cortinas para o tabernáculo), indo até a gestão, a capacidade administrativa, por exemplo aplicado ao sábio Rei Salomão.

Porém, no livro de
Provérbios de Salomão, onde o termo ocorre com mais freqüência, a sabedoria está associada a uma série de princípios éticos de cunho comportamental. De alguma forma, não há uma separação entre o "conhecer" e o "fazer", não há dicotomia entre o "logos" e a "práxis", o que se vê é um conhecimento tácito, tão tácito, que o sábio de provérbios recorre frequentemente à natureza para obter exemplos e analogias para orientar determinados comportamentos. A orientação de que o preguiçoso deveria ir às formigas para aprender a diligência é interessantíssima. De fato o homem socrático obteria tal orientação nos mitos, ou mesmo, na metafísica, ou ainda na transcendência, mas para Salomão, a resposta esta lá na Criação, nas coisas feitas por Deus.

Chochmá tem aspectos multidisciplinares, quando envolve desde o conhecimento técnico, passando pelo comportamento ético, ao conhecimento natural e chegando até a associação rabínica de "sabedoria" à Torá.

Mas, de onde veio a concepção moderna de "sabedoria" ligada ao conhecimento enciclopédico, à performance cognitiva e à algum tipo de conhecimento puramente teórico?

São Tomas de Aquino, considerado o pai da escolástica, introduziu no pensamento europeu a dicotomia entre graça e natureza, separando a esfera
metafísica-teológico-espiritual da dimensão natural-material-objetiva. Descartes, mais tarde, foi o responsável por separar (no sopro da teologia tomista) o sujeito que pensa (res cogitans) da coisa extensa (res extensa), ou seja, Descartes separou a mente do corpo, as ideias da natureza, a inteligências das emoções, resultado? Uma ênfase na racionalidade em detrimento da dimensão física e da realidade chamada "objetiva", assim nasce o racionalismo-moderno.

A percepção cartesiana de mundo foi tão eficiente, que até hoje pessoas percebem o mundo ou si mesmas dentro do seguintes esquemas binários: razão/emoção, subjetividade/objetividade, espírito/corpo, metafísico/físico, sobrenatural/natural, teoria/prática e outros pares.

Quando retomamos a percepção bíblico-judaico-cristã de
sabedoria, encontramos um modelo pré-moderno e digamos pós-moderno, de superação da percepção de mundo cartesiana. Chochmá é integradora, sabedoria é "saber viver" e não apenas "saber pensar".

O sábio, no sentido bíblico, é alguém integrado com Deus e com a criação, está enraizado na realidade, interage com ela e com os outros seres humanos. O sábio bíblico não é um filósofo grego, não é alguém que vive em um
gueto intelectual, em um areópago de devagações metafísicas, é alguém enraizado na vida, nos círculos sociais, na comunidade e na natureza. O sábio articula toda sua integridade humana, em toda sua complexidade (alma, corpo, mente, emoções e intelecto) a serviço da vida e da existência.

A sabedoria hebraica, não é racionalista, naturalista ou materialista, ela não permite reducionismos, é integradora. A sabedoria está com a costureira, o ferreiro, o rei, o guerreiro, a dona-decasa e é o princípio ativo da criação, arquiteta do mundo.

Curiosamente, sob muitas críticas, especialistas classificam diversos tipos de inteligência (como a teoria das inteligências múltiplas de Gardner), esta abordagem é uma tentativa de superação do modelo cartesiano de restringir as habilidades humanas à dimensão da razão, à lógica. Como a história e a experiência demonstram, há pessoas profundamente articuladas no campo da racionalidade, mas são desarticuladas na vida social e nas relações humanas.


A sabedoria bíblica, não permite esta fragmentação, propõe, pode-se dizer uma "inteligência integral", um saber holístico, integrado com a ação, o comportamento e a responsabilidade ética.

Um pergunta final: então por que o mundo ocidental ignora estas fontes? Por que a modernidade é tão resistente à tradição judaico-cristã? Aí, seria necessário outro post!

10 comentários:

Roberto Vargas Jr. disse...

E vamos pensando que pensamos com todo este irracionalismo racional tão típico de nosso tempo!
Vamos eu disse. Mas não me refiro a nós!

Excelente postagem, Igor. Com sua autorização, reproduzirei em meu blog.

No amor do Senhor,
Roberto

Igor Miguel disse...

Prezado Roberto,

Fique à vontade, amo seus posts e sua paixão pela causa bíblica, principalmente dentro de tão sólida tradição teológica como o calvinismo.

Em Cristo,
Igor

Thaís Oliviera disse...

PROFESSOR: amei esta postagem e encontrei nela a definição mais simples e objetiva do que seria sabedoria... "saber viver". Ligamos a sabedoria a fragmentos de sua propria formação. Sabedoria não se limita a apenas muito estudo ou ter bons conselhos, eu diria que é um estilo de vida! São nossas escolhas e atitudes. É realmente saber viver.
Esse texto falou comigo.
Obrigada por visitar meu blog
Deus abençoe você e sua Família.
Thaís
Sua aluna...

Renato Fontes disse...

Belo post... Só uma observação pertinente: "siderurgia" tem a ver com ferro e aço. Ao se referir ao bronze e/ou outros metais, diga "metalurgia".

Allan Ribeiro disse...

Caro Igor,

Vim do blog do Roberto, amei a postagem e vou usá-la com meus alunos de ética.

Abraços fraternos!

Igor Miguel disse...

Renato, obrigado pela observação, estava errado mesmo, fiz a correção.

Igor Miguel disse...

Allan, muito obrigado por sua visita ao blog. Você é professor de ética? Tenho muito interesse na temática, atualmente estou fazendo uma disciplina na USP da área da psicologia moral. Quem sabe trocamos umas figurinhas...

maurilio disse...

Shalom, meu caro amigo Shaul hashaliach.Tudo que leio e ouço vindo de vc me edifica. Você não sabe, mais foi ouvindo vc que mudei mtos conceitos relacionais entre a minha vida espiritual e profissional. Muito obrigado por tanta sabedoria vinda dos céus.
Que o Senhor te abençôe e te guarde, mais por favor, no amor do Mashiach FICA.
Maurílio Appolonio,Juiz de Fora.

Leonardo Bruno Galdino disse...

Excelente post, Igor. Fiquei muito interessado nessa sua pesquisa. Depois posta mais coisa pra gente!

Abraços!

@igorpensar disse...

Leo, veja aí outro texto: http://pensarigor.blogspot.com/2009/11/pedagogia-da-sabedoria-aprender-viver.html