6 de jul de 2010 | By: @igorpensar

Inovadoramente Tradicional

Por Igor Miguel

Sei da tirania da história. Esta coisa de nascermos e nos depararmos com a vida não é brincadeira. Apesar de que nas brincadeiras da infância simulávamos a vida adulta como algo prazeroso, cheio de ludismo e trabalho criativo. A vida adulta, vida que temia quando criança, é cheia de desafios e desatinos, muito pouco lúdica, com ilhas de devaneios.

Ou nos entregamos à filosofia do “deixa a vida me levar” ou admitimos que nossa presença na história tem um desígnio, tem uma causa e um fim de ser. Como nos portaremos diante do tempo que se foi e que virá? O que faremos diante da realidade do hoje?

O “entregar-se” à historicidade, ao tempo, é uma passividade preguiçosa, um suicídio biográfico. Seria como receber um papel em branco e esperar que dele saia espontaneamente alguma obra de arte, algum tipo de rabisco, pelo menos. Talvez, mais interessante seria pensar que esse papel já vem com algum esboço, com alguma escrita, incompleto, tentadoramente inacabado. Irresistível como quando nos entregam um desenho pra colorir e uma caixa de lápis de cor. Deliciosamente tentador.

Não damos conta do inacabamento, não suportamos a “falta” e o “hiato”. Temos um chamado para cultivar o jardim!

Há três tipos de reação diante do mundo. A primeira, aceitar a estabilidade e a estagnação, a confortabilidade dogmática, aprisionada por um determinado gueto cultural. Um estado de permanência no útero materno. A segunda, um salto no escuro, uma vida sem raiz, sem memória, sem tradição, lançado no novo, no relativismo e no vazio. Um estado de orfandade. Ou finalmente, a terceira reação, sermos como ''o escriba versado no reino dos céus, que é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas.” [1] Um estado de sabedoria.

Nem estagnação, nem desenraizamento. O desafio é manter uma postura hermenêutica, como um intérprete que sabe lidar com as novas demandas sem perder a memória. Ele sabe tocar no mundo novo sem perder a referência da história. Consegue ler as novas tendências sem perder o frescor dos clássicos.

Não dá para viver o novo sem as ferramentas do antigo. Não dá para ler o mundo sem as letras que a história nos legou. Nem como feto, nem como órfão, apenas como ancião sá
bio pelas mechas brancas.
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[1] Mt 13:52.

11 comentários:

Guilherme de Carvalho disse...

Great!

Wagner Pessoa disse...

Muito bom meu amigo. Vc tocou em um ponto q sempre me gerou um certo desconforto com o existencialismo - a falta de raiz, de um esboço na folha em branco. Sim da para notar q o ser também se faz na existência, mas dizer q tudo q somos se resolve só aqui, não deu para engolir..Me lembro de como uma moça se sentiu mal na sala ao ouvir na leitura de um texto de Sartre q antes de existir não somos nada.E ela ficou perguntando: como assim nada? nada, nada mesmo? Foi como a busca de um "novo" elo perdido...rs.

Geralda disse...

Leio em suas palavras o que percebo em algumas pessoas quando não conseguem vencer as barreiras de suas limitações e fogem das verdades que fazem parte de sua história de vida.É verdade que temos que lutar para construirmos nossas armaduras e superarmos nossos limites.Também é verdade que só conseguimos crescer,abandonar "o útero materno" se deixamos de lado o medo de encararmos os desafios de ser o que sonhamos, sem deixar de ser o que somos.

Ah! Acordar cedinho continua sendo um PARTO!!! KKKK
Um grande abraço, meu amigo!

Mara Varjão disse...

FANTASTICO!!!
Ele sabe tocar no mundo novo sem perder a referência da história. Consegue ler as novas tendências sem perder o frescor dos clássicos.

Mara Varjão disse...

Fantastico!!
Ele sabe tocar no mundo novo sem perder a referência da história. Consegue ler as novas tendências sem perder o frescor dos clássicos.

@igorpensar disse...

Pois é Wagner,

O ocidente vive um estado de permanente de "inovismo". Por isso desprezamos a tradição, a sabedoria dos ancião, o conhecimento daqueles que nos antecederam. Esquecemos de pedir para que nossos avós sentassem e nos contasse sobre o "antigamente", esquecemos de guardar a melhor herança: a sabedoria.

Que vem a reforma, mas que seja sóbria, respeitosa e que leve em consideração o que nossos antepassados nos legaram.

@igorpensar disse...

Geralda,

Você é D+. Tenho a mesma sensação até hoje. Ruptura com o ventre materno, ruptura com o "conforto". Como diz o Aender (um amigo que se forma em psicologia), o estado de útero mata. Pois é a própria rejeição da vida.

Abraços maninha!
Igor

@igorpensar disse...

Guilherme,

Obrigado por passar por aqui. Você é parte daqueles que me orientam nesta jornada.

Mara,

Sua presença aqui é sempre uma grande preciosidade.

Davidson Junior disse...

Simplesmente demais... um confronto a realidade em que acreditamos "ser" livres simplesmente por nos deixar levar, porém se deixamos, nos tornamos escravos de uma vida que não nos dá identidade, nem marca um legado na história! Por um determinado tempo deixamos de "ser um" (propósito) para ser "mais um" (feto ou orfão). E assim nos acomodamos! Incrível...

@igorpensar disse...

Davidson,

Exatamente isto! Você entendeu a pegada. Por isso não dá para acreditar em "revolução", mas em reforma do mundo, no sentido hebraico de "tikkun", conserto, restauração. O que significa considerar o que fora produzido antes...

Abraços,
Igor

Geração Livre disse...

Tremendo!

Sem a "patente" G12...Fazendo o uso do vocábulo "TREMENTO".

rsrs


Abs

Everson