26 de ago de 2015 | By: @igorpensar

10 Medidas Contra a Corrupção | Apoiamos!



Militantes e apoiadores da Rede Cristã pela Justiça Pública e Movimento‪#‎IgrejaNaRua‬. Estamos apoiando a iniciativa que partiu do Ministério Público Federal das chamadas 10 Medidas Contra a Corrupção.

Precisamos levantar o maior número possível de assinaturas físicas (em papel) para pressionarmos o legislativo para elaborar 10 medidas ou reformas legais que conteriam grande parte dos esquemas de corrupção que se aproveitam de várias brechas legais e principalmente um sistema que favorece a impunidade. O movimento acontece no Brasil inteiro e em várias frentes.

O procedimento é simples: comunicar a iniciativa na igreja, faculdade, clube ou círculo social, e levantar as assinaturas. A comunicação pode ser feita em sua igreja ou comunidade com o vídeo do procurador da república e irmão em Cristo Deltan Dallagnol disponível na página aí abaixo.

Precisamos de pessoas que nos ajudem como mobilizadores, ou seja, que nos ajudem levantando as assinaturas (não importa onde). Você pode ser um mobilizador e levantar assinaturas entre amigos e familiares. Mas também pode ser um mobilizador em sua igreja.

Vamos nos mobilizar pessoal, esta é um oportunidade política sem precedentes de finalmente conseguirmos algo expressivo no sentido de contermos tantos abusos e injustiças.

Seja um mobilizador ou mobilizadora: informe aí abaixo "eu quero!" ou envie um e-mail para igormiguel777@gmail.com e providenciaremos o envio impresso das listas.


Brasília-DF | Fórum de Teologia Cristã: Trindade


Dias 9 e 10 de outubro/15 Felipe Sabino e eu estaremos compartilhando um tempo de reflexão sobre a preciosa doutrina da Trindade na 3ª Igreja Presbiteriana de Taguatinga.  Informe-se clicando no cartaz acima.


4 de ago de 2015 | By: @igorpensar

Um Novo Sacerdócio [áudio]

Ministração realizada na Igreja Esperança em 02/08 durante a série sobre o Profeta Malaquias.

Tema: "Um Novo Sacerdócio"

O profeta Malaquias adverte os profetas sobre a precaridade do ofício dos sacerdotes no Templo na era pós-exílica. As advertências dirigidas à classe sacerdotal apontavam para a corruptibilidade de um sacerdócio transitório. Entendemos isto quando olhamos para o sacerdócio eterno de Jesus. Para que fosse Messias, tinha que se encaixar em certos critérios, dentre eles, ser sacerdote para sempre. Mas... ele não era levita, era ligado a tribo de Judá, uma tribo real. Como poderia Jesus ser sacerdote? O autor de Hebreus desenvolve uma riquíssima cristologia a respeito. E, mais ainda, se Cristo é um eterno sacerdote, seu sacerdócio se estende a todos os filhos de Deus: a cara ênfase protestante a respeito do universal sacerdócio dos santos.


Áudio completo!

1 de ago de 2015 | By: @igorpensar

Admoestação aos Buscadores de Poder

Se você tem vivido uma vida frenética atrás de experiências espirituais extraordinárias, se sai do culto desanimado porque não sentiu um arrepio ou não chorou. Se você tornou-se um obcecado por um culto que te estimula, te anima emocionalmente e te faz vibrar. Se você fica entendiado com uma mensagem cristocêntrica, mas se empolga quando um irmão disse "ter visto um anjo". Ou ainda, se você se sente obrigado a mudar o tom de voz na pregação ou no louvor, apresenta uma certa performance de homem ou mulher "espiritual" para impressionar ou animar as pessoas. Faça um favor para sua alma, escute a admoestação deste agraciado pastor do século XVIII, o homem que foi usado por Deus no primeiro grande avivamento que o novo mundo experimentou.

Impressionante, como muita, mas muita gente em nossas igrejas evangélicas no Brasil vivem este labirinto espiritual aí abaixo mencionado. Voltemos a Cristo! Que possamos nos fascinar com aquela mensagem clássica que nos colocava de joelhos diante da cruz, de seu sacrifício, sua ressurreição e seu reinado. Exaltemos e desfrutemos de quem Cristo é. Fascinados por sua palavras e tomados de grata e sensível alegria por seus grandes feitos.

Acorda Igreja Evangélica brasileira!!!

"Quando os falsos crentes se congratulam apenas neles mesmos, mantêm os olhos voltados somente para si mesmos. Tendo recebido o que chamam de descoberta ou experiências espirituais, a mente deles se enche do ego e de admiração pelas experiências. A principal empolgação não é a glória de Deus nem a beleza de Cristo, mas sim as experiências vibrantes. Ficam pensando: 'Que experiência maravilhosa! Que descoberta! Encontrei coisas fantásticas!'. Com isso, as experiências tomam o lugar de Cristo e de Sua beleza e auto-suficiência. Em lugar de se regozijar em Cristo Jesus, entregam-se às suas experiências maravilhosas. Ficam com a imaginação tão presa nessas coisas que toda a noção de Deus passa a ter apenas uma pequena relação com elas. À medida que as emoções se intensificam, esses hipócritas às vezes são totalmente engolfados pelo narcisismo, presunção e zelo ardente pelo que está acontecendo. mas tudo não passa de um castelo no ar, sem outro fundamento senão imaginação, amor a si mesmo e orgulho." (Jonathan Edwards - séc. XVIII).
29 de jul de 2015 | By: @igorpensar

Teologia da Cidade [áudio]

A primeira parte de uma reflexão introdutória a respeito da teologia da cidade.  A relação do cristão, do evangelho e da cultura no contexto urbano.

Parte I 



Parte II

Vulnerável aos Vulneráveis


Tenho muita, mas muita dificuldade com a retórica de messianização do pobre (muito presente em determinadas tendências ideológicas).  Trabalho há quase 5 anos com crianças e adolescentes em contextos de alta vulnerabilidade.  Pela graça de Deus, faço parte de uma equipe e uma ONG profundamente interessada na garantia do direito ao desenvolvimento pleno de suas capacidades humanas.  Porém, jamais me deixei envenenar por qualquer ufanismo triunfalista e tampouco uma antropologia rousseauniana ingênua.  Não tenho qualquer pretensão de transformação estrutural ou mudanças revolucionárias e também não acho que o pobre seja privilegiado, em termos morais, em relação a mim, simplesmente por causa de sua condição pobre.  Porém, admito, que a maioria esmagadora dos eleitos de Deus são pobres materialmente: a história e as Escrituras comprovam.  Logo, bíblica, histórica e intuitivamente, Deus favorece misteriosamente os mais vulneráveis, mas não acho que seja um critério soteriológico, mas uma forma particular em que Deus opera para exibir sua glória.

Não acho que eu mereça -- e nenhum cristão -- nenhum tipo de admiração por tal tarefa, e esta afirmação não se baseia em uma postura demagógica. Este é um fato experimentado por qualquer missionário/profissional realmente interessado nos mais vulneráveis: jamais serviríamos tais indivíduos por nossa própria competência, somos arrastados ao serviço e ao amor pois o próprio Cristo os ama e quer servi-los.  Raras vezes sou reconhecido por meus educandos ou seus pais por qualquer esforço em vê-los melhorando em inúmeras competências sócio-emocionais e cognitivas.  E, de fato, não tenho nenhuma expectativa de reconhecimento.  Pois o que faço é ínfimo, e depois, não é isto que me encoraja.  Então que Deus nos livre de um farisaísmo performático.  Que Deus nos livre de uma admiração desproporcional e desnecessária.

Um cristão se move no sentido dos mais vulneráveis por causa de dois grandes mandatos divinos: a grande comissão (ide) e o grande mandamento (amar).   Para mim, cristãos precisam amar mais.  E, neste ponto, acho que o Antônio Carlos Costa​ em seu livro "Convulsão Protestante" acertou.  Eu teria algumas pequenas reservas a respeito, por exemplo, de sua tese sobre "encontrar Deus no pobre", acho que isto merece maiores explicações.  Mas acho, que em termos gerais, o coração dele arde por uma causa muito importante:  evangélicos precisam dar um passo mais consistente na direção dos mais pobres e vulneráveis.  Nosso país é marcado por profundas desigualdades, violência, fracasso institucional, impunidade e empobrecimento moral.   A meu ver, é simplesmente inquietante que cristãos fiquem indiferentes ao sofrimento alheio. 

Tem mais alguma coisa no Antônio que coaduno:  cristãos precisam de um choque de realidade.  Eles precisam deixar suas vidas cômodas e entrar dentro de uma cracolândia, subirem o morro, visitarem presídios ou coisas semelhantes.  De fato, não há como continuarmos sendo cristãos da mesma forma depois de uma imersão na realidade dos que sofrem.

Sou favorável ao fortalecimento da sociedade civil, temos que superar esta dependência estatal, e por incrível que pareça, nós todos, como comunidade cristã deveríamos nos envolver com a tarefa de dignificar mais brasileiros empobrecidos e vulneráveis.  Deveríamos assumir isto como tarefa.  Não falo que a Igreja Local deva fazê-lo, não acho que Igrejas Locais devem ser ONGs.  Mas penso que igrejas devem ensinar sobre o amor, a compaixão e a generosidade a seus membros.  Que eles se envolvam, que doem e compartilhem seus bens e suas capacidades a serviço dos que precisam.

Sustento que uma tensão entre os dois mandatos mencionados é desnecessária.  Que continuemos anunciando Jesus Cristo, ensinando sobre sua obra salvadora, e que pessoas continuem crendo em sua obra justificadora.  Mas que igualmente, amemos de forma desinteressada e incondicional os mais vulneráveis, servindo-os em suas necessidades concretas.  Estamos diante de uma oportunidade singular de testemunharmos um cristianismo robusto pela pregação e pelo serviço.  Sem sobreposição e sem confusão entre evangelizar e servir.

Gostaria ainda de salientar que nosso conceito de pobreza também carece de uma definição mais sofisticada.  De fato, há muitas pobrezas e riquezas.  Há os materialmente pobres, mas ricos de sabedoria, generosidade e graça de Cristo.  Há os emocional e socialmente pobres, cativos de entorpecentes e da miséria de uma doença grave, mesmo sob posse de quantias financeiras abundantes.  Em Apocalipse, a Igreja de Laodiceia, apesar de sua riqueza financeira, foi chamada de pobre pelo próprio Cristo.  Precisamos de critérios mais elaborados sobre pobreza, uma abordagem complexa e multidimensional para mapearmos a vulnerabilidade humana.

Um conceito multidimensional de pobreza sob uma perspectiva cristã exigiria ferramentas teóricas mais precisas.  Principalmente uma filosofia e uma teologia que leve em consideração a narrativa bíblica "criação-queda-redenção" e uma cosmologia e antropologia judaico-cristãs.  Sem tais recursos, cairemos fatalmente em uma espécie de ufanismo ideológico revolucionário, ou uma espécie de quietismo que fica esperando a caridade alheia.   Mas esta é outra conversa.

Finalmente, a convocação final é que amemos, que Cristo se manifeste em palavras e obras, que corações se convertam. Senão se converterem, que sejam servidos, cuidados e dignificados.  E, que tais obras sejam como luzeiros em mundo cínico em relação ao compromisso de cristãos com Cristo e com as pessoas.
13 de jul de 2015 | By: @igorpensar

Sede sábios! A superação da tolice generalizada.

"Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento?" (T.S. Eliot)

A superação de uma cultura que promove a tolice e a cultura "sem noção".  A sabedoria é uma espécie de segunda natureza, uma vida virtuosa, é adquirir uma habilidade existencial para viver bem e com foco no bem último.

6 de jul de 2015 | By: @igorpensar

O Problema da Nudez Moral

Ao aprofundar as reflexões sobre a cultura afetiva, e a partir de muito do que se tem ouvido em minha comunidade de fé, chego a conclusão de que a couraça ou o revestimento moral que deveríamos ter está ausente ou comprometido.  O que significa enfim que vivemos o tempo presente em "carne viva".  Daí nossa hipersensibilidade, reatividade, fobia social e intolerância.

Explico melhor: por revestimento moral entendo a vida pessoal equipada por uma sabedoria que se constitui da internalização de valores morais e virtudes que orientam nossa resposta em relação ao mundo e a vida com as pessoas.  O sábio é aquele que tem suas pulsões contidas e/ou educadas para agir e interagir com o mundo e com as pessoas de forma ética e responsável.

Pessoas despidas de revestimento moral tendem a ser como sujeitos em “carne viva”.  Sabe quando alguém encosta em uma queimadura?  Não resta outra coisa ao queimado senão uma reação desproporcional, desmedida e até violenta para proteger-se e livrar-se do desconforto e da dor.  A cultura afetiva vem despindo e expondo à nudez gerações inteiras que não possuem dispositivos morais suficientes para lidar com e tolerar o convívio social.  A desorientação provocada é tão grande, que resta ao estado moderno, por via jurídica, criar dispositivos impessoais para compensar a pobreza ou falta de revestimento moral nos indivíduos.

Importante destacar aquilo que o filósofo alemão Immanuel Kant chamava de “sociedade civil ética” segundo ele é “um estado em que [os homens] se encontram reunidos sob leis não opressivas, ou seja, simples leis de virtude”¹.  A comunidade ética se distinguiria do “estado jurídico”, pois este se sustenta pelo poder coercitivo e pela força da lei institucionalizada, enquanto aquele funda-se em valores morais internalizados, ou seja, virtudes.   Ainda, Kant chama a atenção para o fato de que o estado jurídico, o estado como conhecemos, deveria promover a comunidade ética para seu próprio bem.  A truculência, o abuso e onerosidade estatais devem-se justamente a indivíduos, e consequentemente, uma sociedade moralmente empobrecidos.

Curiosamente os que adotam o campo afetivo como critério de justiça acabam por promover uma cultura amoral de alta reatividade.  Querem superar a violência removendo precisamente aquilo que tem o poder de conter a violência. Ao invés de promover instituições que formam armaduras morais, eles colocam no mundo sujeitos moralmente empobrecidos e criam leis e jurisdições para que ninguém se esbarre, criando a atmosfera perfeita para o individualismo, o caos e tensões interpessoais.  E, claro, ampliando o poder do estado e sua ingerência em esferas que não são de sua alçada.

Nossa intolerância a dor, ao sofrimento e em relação ao convívio social se devem em muito a este estado de nudez moral.  Criamos uma distância ou uma margem de segurança em relação ao outro por medo do desconforto.  Só nos resta o isolamento e a fuga de qualquer tipo de vínculo comunitário e convívio social.  Ao invés de lidar com nossa nudez, elaboramos vestes improvisadas de “folhas de figueira” e nos isolamos de Deus e das pessoas.  O resultado só poderia ser Caim matando Abel, ou seja, a violência.  Quando Sartre diz que "o inferno são os outros", o faz a partir de seu lugar de homem já queimado pelo fogo eterno.  Sua carne está sendo devorada, não resta outra coisa a ele senão a intolerância.

Mas quem promove capital moral?  Quais são as instituições que manufaturam roupas moralmente apropriadas para imergimos na vida social sem medo do outro?  Sem dúvida instituições providenciais e consagradas pelo tempo como o casamento, a família e a comunidade de fé.   Porém o que o cristianismo propõem é algo além e mais consistente.  A raiz da nudez do ser humano encontra-se no fato de que ele se encontra curvado sobre si mesmo.  Ao perder a visão do sagrado, a noção de transcendência, ele se descobriu nu (Gênesis novamente).  Ou seja, despido e privado de um revestimento de sabedoria que pudesse equipá-lo para viver sem medo no mundo de Deus.  Não é em vão que a “árvore da vida” é associada com a sabedoria na literatura sapiencial hebraica.

Agora fica claro que quando o apóstolo Paulo usa expressões como "revestir-se do novo homem" ou "revestir-se de Cristo" ele se refere a necessidade da apropriação de uma nova existência.  Sem esta couraça da fé, a roupa do Cristo ressuscitado, ainda que se tenha vestimentas morais, socialmente necessárias, elas ainda são insuficientes para lidar com o ardor da permanente presença de Deus no mundo.  Neste caso, devemos recorrer à noção apostólica de que Cristo é a interface entre o cristão, as pessoas e o mundo, nosso amor em relação ao próximo não é sentimentalista, é mediado por Cristo.  Nas palavras do pastor e mártir Dietrich Bonhoeffer:
“Entre meu próximo e eu está Cristo.  Por isto não é me é permitido desejar uma comunhão direta com meu próximo.  Unicamente Cristo pode ajudá-lo, como unicamente Cristo pode me ajudar.   Isto significa que devo renuncia as minhas intenções apaixonadas de manipular, forçar ou dominar a meu próximo.”²
Enfim, Cristo é a resposta mais adequada para o empobrecimento moral generalizado, e por incrível que pareça, nele se encontram os recursos para uma vida livre da ingerência e do controle estatal e do empobrecimento sentimentalista da cultura afetiva.  Qualquer ataque contra ou tentativas de redefinição do casamento, da família ou da igreja, devem ser encaradas como uma violação das principais instituições responsáveis pela proteção da liberdade humana.  São elas as responsáveis pela produção e revestimento da vida moral.  Promoção de capital moral desonera e protege a sociedade civil do abuso estatal, e por outro lado, equipa indivíduos para lidar com a vida em sociedade superando a pulsão por violência.
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¹ A Religião nos Limites da Simples Razão, Parte III, Seção I.
² Livro “Vida em Comunhão”.
30 de jun de 2015 | By: @igorpensar

Casamento: seu status não depende do estado

Encontrei algumas objeções a ampla defesa que temos feito no sentido de que "o casamento não deve sua existência ao estado". Quando digo nós, refiro-me a meu texto recente sobre o assunto, as postagens do Guilherme de Carvalho[1][2] e do Rodolfo Amorim.

Mas, destaco uma das objeções que li aqui no Facebook, publicado por Eliel Vieira
“Casamento, portanto, não é algo 'sagrado', 'ontológico' (como li esta semana num texto o-choro-é-livre de algum cristão fundamentalista) ou 'metafísico'. É algo civil, secular, laico, que deve ser regulado pela constituição, não por interpretações da Bíblia. O argumento de que "o casamento é uma instituição milenar que precede a existência do Estado e, portanto, não deve ser regulado por este" é raso e cheio de problemas. Exercer punição a quem comete delitos também é algo que precede a existência do Estado como o conhecemos, e este tem o poder e o dever de criar leis que punam criminosos. Sendo o casamento portanto uma instituição civil, secular e laica, o direito a ele deve ser acessível a todos homens e mulheres - heterossexuais ou não - que queiram resguardar seus direitos e deveres em relação à vida conjunta com seu parceiro ou parceira. Se vão se divorciar na semana seguinte ao casamento isso não é da nossa conta.”
Bem, aqui vai minha contra-objeção: dizer que o casamento assumiu um status civil, ou seja, um reconhecimento estatal, é muito diferente de dizer que o casamento deva sua existência ou deva ser redefinido pelo estado.  Pois, obviamente, o casamento antes de ser um contrato civil, mesmo em culturas poligâmicas, é um pacto de comprometimento moral e união assimétrica (macho-fêmea), e isto, desde tempos imemoriais. 

Até Levi-Strauss seria útil aqui, basta dar uma olhada em seu livro “Estruturas Elementares do Parentesco” pra sacar. Não há registro de um pacto de compromisso moral ritualizado – antropologicamente identificado – entre pessoas do mesmo sexo em nenhuma cultura do mundo.  As exceções históricas estão dentro do estado moderno. 

Mesmo que a prática homossexual exista antes do estado moderno, ela deve ser tratada como um fenômeno cultural distinto do casamento. Por quê? Porque não tem assimetria, o binarismo macho-fêmea, não há alteridade (a união com a diferença), o que enfim, impossibilita a exogamia (Lévi-Strauss), ou seja, a expansão da "espécie humana". Casamento é antropologicamente outra coisa, um outro fenômeno.

Mesmo a profunda pesquisa de James Neill em seu livro “The Origins and Role of Same-Sex Relations in Human Societies”, fica evidente, que os raros casos em que a “união homossexual” era ritualizada, as intenções culturais eram diferentes daquelas do casamento.

Bem, apesar do fundamento biológico, o casamento tem um “telos” (um propósito) que transcende a dimensão e as pulsões biológicas (como vem asseverando Guilherme de Carvalho). Pois, sua função é criar uma estrutura moral básica tendo por fim a procriação e a formação da família (independente de eventuais fracassos). 

Pode-se alegar: “o casamento não é mais esta união com pretensões morais, por causa da possibilidade anulação quando o 'amor' (lê-se afeto) acaba.” Mas esta mudança de status do casamento (sua anulação por falta de 'amor') dá-se na instância civil, por causa de pressões oriundas das revoluções afetivas que remetem à reação romântica ao racionalismo no século XVIII, ao freudismo e as revoluções sexuais entre os anos 60-80. Mesmo biblicamente, há exceções extraordinárias, que permitem a anulação ou o divórcio.   Mas, novamente, isto em nada deveria comprometer o status histórico e/ou ontológico do casamento: seu fundamento biológico (união entre macho e fêmea) e sua finalidade moral (constituição da família)¹.  -- como Herman Dooyeweerd é útil aqui! -- 

A afirmação de que o “casamento não deve sua existência ao estado” não tem nenhuma tensão com o fato de o estado reconhecer o valor “civil” desta instituição (justamente para garantir os direitos civis inerentes a tal união).  Porém reduzir o sentido de casamento apenas ao caráter civil é cair em uma armadilha secular.  A pegadinha tem dado respaldo, inclusive, para o projeto da militância LGBT em instrumentalizar o poder público (no caso dos EUA, em particular, o poder judiciário) para dar um outro arranjo, definição e status ontológico para o casamento, diferente, daquela cultural e historicamente consagrada.

Veja como é bizarro: desde tempos inadatáveis o casamento se funda em uniões assimétricas (macho e fêmea) e um pacto moral. Porém, agora, em pleno século XXI, o estado moderno vai para além do reconhecimento civil e assume para si o poder de regular e redefinir o status ontológico do casamento. Este é um salto escandalosamente bizarro, uma ingerência pretensiosa, e está claro que é um tipo de abuso de estado.

Enfim, quero reafirmar que o que está em jogo não é uma luta fundamentalista pela defesa da família, mas uma luta por uma instituição que já se mostrou forte o suficiente para manter o tecido social mesmo em tempos em que o direito civil e o estado não existiam.  O casamento não é só pré-estatal é supra-estatal, mas caminhamos para o que Charles Taylor denomina de "atomismo social", um fenômeno típico em contextos de alta secularização.   Afirmamos a individualidade, a vontade subjetiva e enfraquecemos os vínculos comunitários. Por esta razão, é muito, mas muito estranho ver gente alegadamente cristã defendendo a secularização e a entrega do casamento e, consequentemente, da família ao "deus estado".

"Mas Igor, não vai citar nenhum versículo bíblico?" Não, hoje não.
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¹Claro que há pessoas casadas que nunca terão filhos, porém, como bem assevera Scruton, um casal sem filhos honra o status moral do casamento, mesmo sem tê-los.  
23 de jun de 2015 | By: @igorpensar

A Dúvida do Crente e a Fé do Cético

É verdade que crentes têm lá suas dúvidas de fé, mas também é verdade que ateístas têm lá suas dúvidas sobre seu ceticismo. 
 
Eu como crente, eventualmente, posso acordar com dúvidas inquietantes a respeito de minhas convicções religiosas. Mas não diminuirei a tensão tornando-me um cético ou ateu. Neste caso, posso acordar com sérias dúvidas a respeito de minha incredulidade. "Vai que o que crê esteja certo..." pensarei. 
 
Porém há uma diferença básica entre o crente e o cético: o primeiro crê, o segundo não quer crer, apesar da permanente inquietação para se crer em alguma coisa. No fundo, o cético vive torcendo para crer e encontrar algo digno de sua confiança. Por isso, testa e resiste a quase tudo, quase nos termos do empreendimento cartesiano de "dúvida sistemática". No fim das contas, ironicamente, é esta dúvida humana (presente no crente e no ateu) que mostra que a fé é radical e inescapável, seja em Deus, na razão, no estado, nas artes ou na ciência.

Não tem jeito gente, depois do naufrágio, todos querem se agarrar aos cacos do barco naufragado. Depois, podemos discutir se este é o jeito mais eficiente de sobreviver neste mar de desespero.

"Quem deseja fugir à incerteza da fé, há de experimentar a incerteza da descrença que, por sua vez, jamais conseguirá resolver sem sombra de dúvida a questão de se, por acaso, a fé não se cobre com a verdade. Somente na recusa revela-se a irrecusabilidade da fé." (Joseph Ratzinger em Introdução ao Cristianismo).
17 de jun de 2015 | By: @igorpensar

Pelo Sentido Próprio de Casamento

Por Igor Miguel

O casamento funda-se na união da diferença, uma experiência com raízes biológicas e com um fim moral, que exige um salto existencial (o homem conhecer a mulher e vice-versa) e alteridade radicais, enfatiza Roger Scruton[1]. Resultado? Família. O casamento e a família seriam instituições de produção de capital social e moral importantes para manter o tecido comunitário e evitar a atomização social. 

Considere a complexa dinâmica interdependente entre casamento e família: desejo biológico, atração bio-afetiva, pacto marital de responsabilidade mútua, conjunção carnal, alteridade social (homem e mulher), eventualmente concepção, paternidade, educação, formação moral, cognitiva e a socialização do descendente. Tal complexidade foi enfatizada pelo Rabino Jonathan Sacks em recente consulta ao Vaticano sobre a concepção judaica de família: “O que fez a família tradicional marcante foi um trabalho de alta arte religiosa, que conseguiu reunir: pulsão sexual, desejo físico, amizade, companheirismo, parceria emocional e amor, geração de filhos, sua proteção e cuidado, sua educação básica e a apropriação de uma história e uma identidade.”[2]

Se casamento é uma instituição que se projeta para a família, John Milbank[4] convoca a igreja (e por que não sinagogas e mesquitas?) a se erguer, reafirmando, fortalecendo e resguardando o sentido básico supracitado de casamento. E, este posicionamento não pode ser rotulado de homofóbico. Ao contrário, homofóbico seria inserir parceiros homoafetivos a uma instituição cuja dinâmica e natureza se constituem e dependem histórica e radicalmente da paridade biótica macho-fêmea.

O termo "casamento" não pode assumir nenhum outro sentido além ou aquém da conjunção marital, a unidade com a diferença e o fundamento da família, sendo esta a instituição responsável pela promoção de capital moral e social.  Ele não pode se transformar em mero contrato para parceria sexual definida por um projeto de "revolução afetiva", como enfatiza Guilherme de Carvalho.  Nos termos de Scruton: “o casamento deixou de ser um rito de passagem para outra e uma vida mais elevada, ao invés disso, se tornou uma espécie de carimbo burocrático com o qual se endossa nossas escolhas temporárias.”

Há uma sabedoria histórica e tradicionalmente acumulada que já demonstrou o poder social e cultural desta instituição mesmo onde o Estado sequer existia. Ressignificar ou relativizar o sentido de casamento seria ceder à pressão de uma hiper-valorização da subjetividade, uma espécie de hiper-individualismo, o que resultará em inevitável fragmentação de tudo aquilo que promove nosso senso básico de comunidade. 

Um adendo importante refere-se a anomalia que tem sido a instrumentalização do estado no sentido de ressignificar o conceito de casamento e família, como bem observa John Milbank: “há alguma coisa monstruosa sobre a afirmação do estado como tendo o poder legal para mudar a definição de uma realidade natural e cultural que historicamente precede a existência do estado em si.". O Estado não pode se valer de seu poder legal para mudar atribuições ontológicas de instituições que não dependem dele para existir.

Logra-se o “casamento gay” porque a instituição que chamamos “casamento”, fundada tradicionalmente em “uniões sexuais assimétricas”, foi minada com a desconstrução dos papéis e diferenças importantes entre homem e mulher. Como o filósofo James K.A. Smith chamou a atenção recentemente[4], desde os anos 60 nossa sociedade tem confundido a noção de uma justiça baseada na igualdade das diferenças por uma uma noção de justiça baseada na homogeneização e dissolvimento de todo tipo de diferença necessária. 

Enfim, com o enfraquecimento da alteridade radical presente no conceito tradicional de casamento compromete-se o que há de mais básico na experiência humana com a diversidade. Em outras palavras: corrói-se a forma mais germinal de toda abertura para qualquer outro tipo de diversidade em convívios humanos mais complexos. Militantes pela diversidade deveriam considerar isto com mais seriedade. O que está em pauta não é mera guerra semântica mas a tentativa intencional de mudar a atribuição de uma instituição que transcende afeições individuais e imposições estatais.

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