19 de ago de 2008 | By: @igorpensar

Uma Religião Para a Rotina

Por Igor Miguel

Renunciei, desde então, àquele fenômeno "religioso" que não passa de uma exceção, de um realce, de um destaque, de um êxtase; ou ele renunciou a mim. Eu nada mais possuo a não ser o cotidiano do qual nunca sou afastado. O mistério não se revela mais; desapareceu ou então instalou sua moradia aqui, onde tudo se passa da forma como se passa. Não conheço mais outra plenitude a não ser a plenitude da exigência e da responsabilidade de cada hora mortal [...] Não saberia dizer muito mais. Se isto for religião, então é simplesmente tudo, o tudo singelo, vivido, na sua possibilidade de diálogo. Há também aqui espaço para as mais altas formas de religião. Como quando tu rezas e com isto não te afastas desta tua vida, mas, pelo contrário, é justamente na prece que o teu pensamento se refere a ela, nem que seja apenas par entregá-la; assim também no inaudito e no surpreendente, quando, de cima, és chamado, és requisitado, eleito, investido de poderes, enviado; é a ti, com este teu pedaço de vida mortal, que isto diz respeito, este instante não está disto excluído, ele se apóia naquilo que se foi e acena ao que ainda resta por viver; tu não és engolido por uma plenitude sem compromisso, tu és reivindicado para o vínculo de uma comunhão (Martin Buber [foto ao lado], 2007).

A transição existencial encarada por Buber nesse texto me impressiona. Sua coragem, sua posição diante do hermético mundo religioso, e como faz uma releitura de sua fé, estendendo-a à vida. Nesse ponto Buber decide, que uma religião que não alcança a rotina, o dia-dia, a trivialidade, deve ser renunciada. O êxtase, a sobrenaturalidade, a transcendência e a tendência do homem viver uma experiência religiosa deslocada da vida, não religa. Religare real, cria vínculos, pactos, relacionamentos verticais e também horizontais.

Uma religião que não conecta o homem a uma vida dialógica, que não toca no outro, ou não escuta o outro, não é religião. O isolamento, o individualismo e a sectarização é tão desumana como o coletivismo, a massificação e a uniformidade dos indivíduos (devo essa reflexão ao amigo Guilherme de Carvalho). Na religião comunitária, há um chamado, uma reivindicação à comunhão, aos vínculos e à troca.

A idéia é resgatar uma liturgia para a existência, uma halachá (hb. modo de andar) que transforme a rotina em serviço de veneração, que restitua o homem e imprima na trivialidade sua imagem, a imagem de Deus. O desafio é esse, foi essa mesma angústia que levou Buber à vida, resgatando-o do mistério e do isolamento espiritual.

"... e as ensinarás diligentemente a teus filhos, e falarás a respeito das mesmas, quando estiveres deitado em tua casa, quando estiveres andando pelo teu caminho, quando te deitares, e quando te levantares, e as atarás como sinal nas tuas mãos, e serão por frontais entre os teus olhos, e as escreverás nos umbrais da tua casa e nas tuas portas..." (A Torá - Deuteronômio 6).

Sim o 'mistério instalou-se aqui' onde moro, ando, vivo e trabalho. Nesse novo templo da vida, Ele toca em tudo, em todas as coisas e participa ativamente da existência humana.

Assim, as coisas não passam desapercebidas, pois sua orientação está diante dos meus olhos, nos umbrais dos prédios públicos, em meu sono e ao som de meu despertador, ele está posto na mesa e em meu café-da-manhã.

Assim, as coisas se religam e se reconciliam. Mistério da reconciliação!

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Referência Bibliográfica

BUBER, Martin. Do Diálogo e do Dialógico. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2007.

5 comentários:

Anônimo disse...

Tio Igor ..
fantastico esse conceito de um monoteismo integral, isso é maravilhoso ..
Nao esqueço o que voce disse , cates é uma escola pra vida!!!!

Baruch Hashem!

Anônimo disse...

Filipe Braga

Guilherme de Carvalho disse...

Olá Igor!

Olha, é isso mesmo. Uma liturgia para a vida. Precisamos aprendê-la da Bíblia e recriá-la para o mundo de hoje.

Pra a vida virar culto!

Guilherme

Anônimo disse...

Bela reflexão. Mais uma vez me lembro das palavras de Yeshua: "Venha À NÓS o Teu Reino", revelando que a proposta Divina, não é desligar-nos da órbita comunitária e existencial terrena, mas fazer o Reino envover esta órbita.

Shalom!
Tiago

Igor Miguel disse...

Caro Guilherme,

Obrigado pelo comentário. Essa semana fiz uma palestra sobre a idéia hebraica de hospitalidade no contexto do Reino de Deus. O Reino é uma grande tenda, em que o hóspede tem tudo que precisa, comida, moradia, conforto, segurança e intimidade com o dono da tenda. Mas, ele não é proprietário de nada, pois tudo é do dono. Lembro-me de Deus dizendo aos filhos de Israel, que não vendessem suas terras em perpetuidade, pois toda a terra era dEle. Interessante, que a fé monoteísta, propõe uma relação com um Deus que concede aos homens o desfrutar de seus bens, sendo eles hóspedes e não proprietários. A ética monoteísta, me impressiona, pois ensina ao homem a lógica da responsabilidade sobre a criação. Afinal, não faz sentido consumir os bens fornecidos pelo que hospeda, como se fossemos proprietários.

Abraços,
Igor