7 de jun de 2010 | By: @igorpensar

Dooyeweerd: primeiros passos.

Por Igor Miguel

Revisão 1.0: 09/06/10

Li em 3 dias a versão em português de Twilight of the Western Thought (No Crepúsculo do Pensamento) de Herman Dooyeweerd, traduzido por meus amigos Guilherme Carvalho e Rodolfo Amorim. Na verdade quando comecei, não consegui parar de ler. Motivo? Há mais de 5 anos ando preocupado pela falta de uma referência epistemológica que não estivesse sobre o encanto de uma pretensa neutralidade religiosa da ciência e/ou que fosse reducionista. Dooyeweerd trouxe muita luz neste sentido.

Antes, já vinha tendo algum contato com Dooyeweerd. Primeiro por meu amigo André Tavares, depois em algumas palestras no L'Abri Brasil, textos introdutórios como os publicados no livro Cosmovisão Cristã e Transformação Integral e os textos publicados pela AKET. Não obstante, a leitura de há uns 7 anos atrás, depois por alguns textos em inglês, por palestras em
No Crepúsculo foi definitiva no que tange as minhas prévias e excelentes impressões a respeito da crítica transcendental de Dooyeweerd.

Na verdade, minha leitura de
A New Critique of the Theoretical Thought [cap. I e II e cap. III e IV], a obra da vida de Dooyeweerd, ficou muito melhor. Isto se deve ao fato de que o filósofo holandês se preocupou em sistematizar de forma didática os principais conceitos que trabalha já frontalmente no New Critique. Sem No Crepúsculo, realmente não dá para fazer uma leitura do New Critique. Para dar um exemplo bem simples, vejamos um trecho introdutório do New Critique que traduzo:
Se eu considero a realidade como esta é dada na experiência ordinária pré-teórica, confrontando-a com uma análise teórica, através da qual a realidade aparece dividir-se em vários aspectos modais, então a primeira coisa que me confronta é a indissolúvel inter-relação original entre estes aspectos que são, em um primeiro momento, explicitamente distinguidos na atitude teórica da mente.[1]
Finalmente, posso entender com muito mais profundidade trechos como esse. Vamos interpretá-lo então:

O que Dooyeweerd está dizendo neste trecho é que nós homens, quando olhamos para a realidade ao nosso redor, de forma pré-teórica, ou seja, sem a sofisticação do pensamento racional -- sem as pretensas regras da lógica ou qualquer outro método de apreensão da realidade -- a vemos de forma integrada, como um todo. Em outras palavras, quando olhamos para os fenômenos que estão diante de nós de forma corriqueira, como quando olhamos uma flor, os vemos sem as pretensões da ciência, observamos o fenômeno simplesmente "como" ele aparece para nós. Com o substrato de dados recolhidos desta observação ordinária, podemos analisá-los teoricamente a partir do pensamento crítico. Dessa forma, partimos para uma abstração intencional, analítica e lógica, valendo-se das funções lógicas de comparação, classificação, descrição, etc.

A análise teórica é um recorte, uma delimitação de determinado aspecto da realidade. Ao fazermos uma análise teórica de qualquer fenômeno, nos deparamos com um problema. Na tentativa de separar os vários aspectos com que estes fenômenos nos apresentam, percebemos que estes aspectos estão interconectados, interdependentes, o que perturba qualquer pretensão das ciências especiais de restringirem seu "objeto" ou "fenômeno" científico a determinados aspectos.

Ou seja, o reducionismo é uma resposta parcial a uma contradição constante às ciências especiais ou a qualquer tentativa de isolamento teórico. Este paradoxo é a inter-relação e inter-dependência entre os aspectos modais[2], que deveriam ser traduzidos em transdisciplinaridade quando se abstrai determinados fenômenos.

Porém, a palavra-chave na citação de Dooyeweerd é o termo "original". Originalmente, antes de qualquer tentativa de racionalização ou análise teórica, os fenômenos e seus aspectos estão lá integrados, distintos por alguns atributos, mas ainda assim amarrados uns aos outros por seus aspectos físicos, químicos, biológicos, estéticos e assim por diante. O que significa que um epistemologia não reducionista, deveria fazer seus recortes epistemológicos, consciente de que os aspectos estudados estão intricados em uma malha complexa com outros aspectos de uma dada realidade.

Mais tarde em seus escritos, este fundamento original, este
archê, princípio, será aprofundado e chegar-se-á em um aspecto supra-teórico, que é sempre um motivo religioso.

Não é bacana? Pois é! Estas podem ser as primeiras palavras para o desenvolvimento de uma epistemologia finalmente reformada. Que incrível!
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[1] A New Critique of the Theoretical Thought, p.4.
[2] Aspectos Modais: Em Dooyeweerd o termo "modal" é uma referência ao "como" e não ao "que". Ou seja, de que modo, ou como, determinadas coisas são apreendidas pelos sujeitos que as abordam. O pensamento teórico lida com o "como" e não com o "que". Neste aspecto Dooyeweerd parece ter algum dependência da ontologia neo-kantiana de Heidegger.

1 comentários:

Metushelach Ben Levy disse...

Sua explanação me fez lembrar do curso de Economia, no qual o termo Ceteres Paribus em muito nos fazia abstrairmos da realidade complexa para algo mais maleável, para compreensão segue uma pequena explicação: A condição ceteris paribus é muito usada na economia (mas não só), em razão da complexidade da análise onde existe um número indeterminado de variáveis de influência remota que podem, eventualmente, desconectar a observação do resultado. Pelo que existe a necessidade de reduzir o número de variáveis dentro de todo o conjunto daquelas que são suscetíveis de exercer influência permanente ou esporádica sobre o fenômeno, para que este possa ser explicado. Uma predição ou constatação acerca da influência ou conexão esporádica ou permanente entre dois fenômenos, é considerada coeteris paribus quando outras variáveis exógenas (externas)que poderiam cancelar o relacionamento entre o antecedente e o conseqüente são tidas como tendo influência remota para explicação do comportamento do fenômeno em análise e cuja variação é desconsiderada, sendo assim compreendidas como constantes. Experimentalmente, a assunção ceteris paribus é importante no sentido de formular uma teoria em que geralmente é necessário desprezar fatores que interfeririam com a observação de um relacionamento de causa específico, para o que o observador toma o controle de todas as variáveis independentes (considerando-as constantes) à exceção da que está em estudo, de modo que o efeito da variável independente na variável dependente possa ser isolado.
Eu vi a noção disso em sua leitura do trecho de New Critique, onde você diz que “a análise teórica é um recorte, uma delimitação de determinado aspecto da realidade.” Normalmente tanto na sua área como na Economia é temeroso usarmos deste ferramental sem as devidas precauções, pois se ao fazermos o recorte necessário para uma detalhada explicação de um fato corriqueiro, podemos desvinculá-lo de forma à dilacerarmos o seu encaixe na realidade novamente, pois após a análise do recorte e o posterior enriquecimento, digamos científico, que compreenderá o olhar que teremos depois do dessecamento fará com que o fato não mais tenha sentido com o todo de onde ele foi recortado.
Desculpe pelos devaneios noturnos.
Shalom