23 de fev de 2015 | By: @igorpensar

Cruzadas e terrorismo são equivalentes?

Dizer que as cruzadas cristãs são o equivalente ao atual terrorismo islamista, equalizando forças religiosas a partir do critério "toda religião tem virtudes e vícios" é um argumento precário por algumas razões:

1) Olhe para os anos iniciais do islã e do cristianismo e veja como cada uma dessas religiões nasceram, e veja a relação de ambas com a violência no seu nascimento, são diametralmente diferentes. O jihadismo (não-progressista) do islã é sua face primitivista. Leia sobre o nascimento do cristianismo, o que você encontrará lá? Um judeu galileu crucificado. Leia sobre o nascimento do islamismo, o que você encontrará lá? A Hégira, Maomé organizando um exército em Medina para dominar a península arábica.

2) O cristianismo tem um conceito de martírio oposto ao conceito islamista (pode recorrer até a fontes progressistas), lá o martírio é passivo, aqui é ativo, lembrando que para a teologia islâmica conservadora, shahada (martírio) e jihad andam juntos, ou nas palavras de A. Ezzati da Universidade do Teerã "O conceito de martírio (shahada) no Islã apenas pode ser entendido a luz do conceito islâmico de Luta Santa (jihad).” (tradução nossa) fonte: http://www.al-islam.org/al-serat/vol-12-1986/concept-martyrdom-islam/concept-martyrdom-islam;

3) Equalizar cristianismo e islamismo a partir de possíveis crimes feitos por cada uma destas tradições é cair em um relativismo conveniente, ao invés de tratar as diferenças reais entre os dois fenômenos religiosos e suas respectivas matrizes religiosas. O cristianismo tem sua complexidade e o islamismo também, equalizá-las é evitar um honesto debate sobre a razão das cruzadas e do atual terrorismo jihadista;

4) Se alguma vez alguém em nome do cristianismo e até de Cristo cometeu algum tipo de violência, ele poderia ser disciplinado pelo "Sermão da Montanha" (por exemplo), enquanto no Alcorão não há nada equivalente a noção de "amar os inimigos" (lembra do filho do Hamás?). Em outras palavras, o cristianismo tem subsídio teológico e moral em sua matriz religiosa (a Nova Aliança) para disciplinar qualquer uso violento da mensagem de Cristo. Na matriz islâmica, o Alcorão, isto não é possível (apesar do esforço de alegorização do islã progressista). Ou seja, em caso de abusos uma "reforma" é possível a partir das fontes primárias do cristianismo, no caso do islã, uma reforma a partir do Alcorão levaria ao islamismo jihadista/wahhabista ou uma equivalência.

5) Islamofobia, no sentido de uma aversão violenta ou depreciativa ao muçulmano, não é algo cristão. Porém, rotular de islamofóbico todo tratamento teológico ou filosófico que discorde de aspectos da cosmovisão islâmica é desonestidade intelectual ou é se colocar em uma posição politicamente cômoda. Isto seria a mesma coisa que rotular Paulo de antissemita porque tinha sérias objeções sobre como o judaísmo rabínico funcionava. Não dá!

6) Jihad é uma obrigação religiosa para o islã, temo que o progressismo e o secularismo não terão forças para conter o jihadismo literalista, e o pior, temo que uma retórica cristã de não-crítica ao islã, só enfraquece o cristianismo que já sucumbe diante do crescimento islâmico e do secularismo em territórios pós-cristãos.

7) Enfim, comparar "cruzadas cristãs" com "terrorismo islâmico" é logicamente falacioso e fenomenologicamente inconsistente.   Um cristão pode alegar a partir de sua raiz histórica que as cruzadas são incompatíveis com o cristianismo, porém, infelizmente, o islã não pode relativizar a jihad a partir do mesmo critério, pelas razões supracitadas.

Nota: quanto à interpretação progressista de que jihad não implica em violência ou ação armada cito: "Depois do Alcorão, o hadith (registros sobre ditos e ações do profeta) é a segunda mais importante fonte da lei islâmica (shaaria).  Nas coleções do hadith, jihad significa ação armada; por exemplo, das 199 referências à jihad na mais padronizada coleção do hadith, Sahih al-Bukhari, todos assumem que jihad significa guerra.  Em um sentido mais amplo, Bernard Lewis afirma que "a maioria esmagadora dos teólogos clássicos, juristas, e tradicionalistas [i.e. especialistas em hadith].... entendiam a obrigação da jihad em um senso militar."  (tradução nossa) Fonte: http://www.meforum.org/357/what-does-jihad-mean
20 de fev de 2015 | By: @igorpensar

Graça não é de graça... como é?

No século XVI, o reformador Martinho Lutero se levantou contra um ensino corrente que havia em sua época que promovia a noção que: uma vez que uma pessoa era iniciada na salvação pela graça de Cristo, a manutenção desta salvação dependia de uma cooperação humana com a graça de Deus para  se obter êxito final.  Ninguém podia alegar certeza de salvação no tempo presente, pois tal coisa só poderia ser informada na ressurreição.

O Evangelho é claríssimo: a salvação é toda pela graça, do início ao fim.  A obediência humana também é fruto desta dádiva.  Um cristão quando vence o pecado, o faz por causa da obra justificadora, mas também santificadora de Deus em Cristo.  Ninguém, nenhum cristão, pode ser santo sem que Deus opere por sua graça o "querer e o realizar" (Fp 2:13).

Porém, observe o que está aí abaixo neste trecho de uma pregação do "rabino" Marcelo Miranda Guimarães do Ensinando de Sião.  Lugar que frequentei durante 10 anos e que tem atraído muitos evangélicos deseducados nos fundamentos da fé cristã.  Observe que ele alega em vários momentos que a "graça não é de graça", caindo em uma fatal ambiguidade lógica.  Negando inclusive, o sentido do termo "graça".   Ele alega várias vezes que o cristão tem que pagar um preço para ser salvo. Ele tem que fazer sua contribuição a tal obra.  Observe como ele combina obras humanas com a obra da cruz, dizendo inclusive, que esta é a parcela do cristão, separado da obra de Cristo, na salvação.  

Caros leitores, pensem por vocês mesmos: se eu tenho que cooperar com algo que a cruz já realizou, isto significa que Cristo não salva totalmente, mas que eu preciso contribuir com esta obra.  Isto, obviamente, coloca a cruz menor do que é, e assim ela se torna uma obra incompleta, carecendo de uma contribuição humana.  Honestamente, isto não é Evangelho, mas um falso evangelho.  Considere as seguintes afirmações no áudio e compare-as com os textos de Paulo abaixo.



Réplica Bíblica:


"Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça." (Rm 11:5-6)

"Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus." (Rm 3:23-24).

"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus não de obras, para que ninguém se glorie. (Ef 2:8-9).

"Nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado." (Ef 1:5-6).

"Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça. E é assim também que Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras: Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado." (Rm 4:4-8)

"Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo." (I Cl 15:10).

"Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus." (Rm 5:1-2).

"Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus,  que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos." (II Tm 1:8-9).

"Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo." (Jo 1:16-17).
11 de fev de 2015 | By: @igorpensar

Uma dica a não-cristãos

Quero dizer algo a meus amigos que não confessam a mesma fé que eu. Você que não é cristão. Primeiramente quero te pedir desculpas por alguma impressão ruim que meus correligionários possam lhe ter causado. Admito, esporadicamente algumas pessoas que ostentam o nome "cristão" não fazem jus ao que isto significa. Quero dar uma justificativa: realmente tem gente que nós nos envergonhamos, eles maculam a imagem de Cristo e do cristianismo. Porém, gostaria que você pensasse brevemente sobre o motivo disto ocorrer. 

Tais pessoas nunca tiveram uma compreensão apropriada da mensagem, pessoa e obra de Jesus, na época de Jesus isto já acontecia. Havia uma multidão que permanecia perto dele, para desfrutar de possíveis benefícios que ele poderia conceder: milagres, curas e multiplicações. Porém, tinha um outro grupo, menor de fato, que estava ali pra aprender com Cristo, queria entender sua mensagem, e buscava algum tipo de sentido em seu discurso filosófico. E, por último, havia aqueles com um nível bem mais profundo de relacionamento, discípulos dentre os discípulos que simplesmente queriam amá-lo, queriam ancorar sua existência nele. Estes, são os verdadeiros cristãos, aqueles que fazem jus a este nome. 

Hoje em dia é a mesma coisa: tem gente que quer se beneficiar de Jesus e se dizem cristãos, é a turma dos adesivos em carros com frases ridículas sobre Jesus quase como um financiador de sonhos de consumo. Ainda tem aqueles que admiram a personalidade de Jesus, dizem ser ele um grande mestre, um iluminado, um anjo de luz ou um profeta revolucionário. E, finalmente, gente que se coloca como pecador, que se viu completamente desprovida de qualquer recurso espiritual, e implora ao Salvador a água e o pão vivo que só Ele pode oferecer. Gente, que simplesmente confia e descansa nele, que não se julga melhor do que ninguém, ao contrário, se vê como o pior dos pecadores, por isso vê em Cristo sua única escapatória. 

Então, ao se relacionar com um dos que se dizem cristãos, você amigo não-cristão, fique atento, ele pode ser um dos três, mas cristão mesmo é só o último. Você vai perceber, eles são real e agradavelmente diferentes. Se você não encontrá-los, posso lhe apresentar alguns, ou posso lhe apresentar a possibilidade de ser um deles.

"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei." (Jesus Cristo).
10 de fev de 2015 | By: @igorpensar

Perca o Controle

Somos obcecados por controle. Projetamos nossas inseguranças e medo em uma espécie de realidade inventada por nossas afeições. Só de imaginar esta falsa realidade ruindo, sente-se calafrios. Por isso, é necessário ser pobre de espírito, como diz o Sermão do Monte. Um estado de vulnerabilidade. O discípulo tem que ser quebradiço e frágil. A fé é diferente do controle. A fé é confiar no discreto mas providencial controle divino. Confiar na solidez da nova realidade que se constitui em Cristo. Por este critério fica nítida a diferença entre o crente e o ansioso. Entre Descartes e Pascal. Entre o deísmo e o teísmo. Em um certo sentido, crer é perder o controle.

Verdade & Tempo

Durante alguns anos de minha vida, me aventurei em uma espécie de sub-espiritualidade, onde pensava ter um conhecimento exclusivo, raro sobre quem Cristo é. Neste ambiente, tudo que não fosse judaico, era descartado como de menor valor, ou uma espécie de desvio teológico da verdade "original" (adorava esta palavra). Criticava conquistas históricas da cristandade, debochava dos pais da igreja, subestimada a longa sabedoria, e pior, de alguma forma, ignorava a ação histórica do Espírito Santo. Caía no "esnobismo cronológico" (C.S. Lewis).

Jesus garantiu que guiaria sua Igreja a toda verdade. Claro que isto não significaria que as coisas seriam fáceis, foi e tem sido um processo também conturbado, mas a Igreja vem caminhando, vislumbrando a unidade da fé. Não acredito que Deus tenha agido meramente no I século (na era apostólica), isto seria cair em uma espécie de deísmo. Acredito que seu Espírito veio para isso, para guiar a Igreja. Todos os processos históricos, concílios, reformas, renovações e despertamentos, e mesmo, alguns desvios, fazem parte de um processo cauteloso de Deus para dirigir sua igreja no tempo. Ignorar ou rejeitar esta ação providencial, e achar que a pureza doutrinária reside apenas no I século do cristianismo, é ingenuidade a respeito do passado, e ingenuidade em relação ao tempo. As Escrituras continuam sendo a regra de fé e prática da cristandade, sempre será a regula fidei (regra de fé) que julga nossas elucubrações e empreendimentos teológicos. Mas, querer reinventar a roda a cada movimento novo que surge, é virar as costas para a obra do Espírito Santo.

Foi chocante o dia que descobri a voz da tradição, aprendi a arte da modéstia, neste sentido. Antes de criar qualquer "doutrina" ou "percepção inovadora" sobre o que já fora produzido, eu deveria me arriscar a ler e a me debruçar sobre o que já fora dito. Isto foi libertador em muito sentido. Assim, descobri um mundo de riquezas, qualquer pessoa que já tenha lido Irineu, Atanásio e Agostinho sabe do que estou falando.

Me localizo em uma tradição, aquela de confissão reformada, subscrevo Heildelberg, Confissão Belga e TULIP, mas, me encontro principalmente diante de um patrimônio maior, antes dos reformadores: confesso que creio na igreja católica (universal) como diria o Credo Apostólico.