18 de nov de 2011 | By: @igorpensar

Onde estás?

Por Igor Miguel


"E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás?"  (Gn 3:9).


Eu sei, você é igual a mim.  Se te achas melhor, ainda não chegastes ao conhecimento real de si mesmo.  Sabe quem é você?   Você é fundamentalmente aquilo que tua alma se revelou nos dias de teus pecados mais sombrios, daqueles erros que te causam vertigem só de pensar.  Sim, naquele dia experimentastes o limite da maldade que está em teu coração.  Tocastes os lugares mais sombrios da queda do homem e quase em uma reapresentação, sentistes a mesma vergonha de Adão e Eva, em fuga, te escondestes por entre as folhas do jardim.

Agora, em exílio, ainda sob um olhar saudosista, vês o jardim de leveza, liberdade e realização ficando pra trás.  E o que tens pela frente?  Uma vida de fuga, apenas permanente fuga.  Daí para frente, no exílio, no cativeiro de tua vergonha, viverias cada dia de sua vida, criando meios para se esconder.  De folhas de figueiras, farias cercas.  De cercas, tu farias muros.  De muros, fortalezas.  Desta forma, usarias de toda habilidade que lhe fora concedida por graça, um meio de elaborar estratagemas cada vez mais sofisticados para esconder tua nudez.  Sim, esta que te envergonhas, e com tua moda e teu orgulho persistes em se esconder.

Se temes em continuar este texto, tenhas certeza, é seu "eu" real, seus sentimentos mais primitivos, que foram treinados por gerações a se esconder, querendo reagir de novo à insuportável presença da verdade.  Ele não quer ser pego de surpresa e não quer ter sua vergonha exposta.  Sim, este é o teu lado mais sombrio, resistindo.  Mas, arisque-se em se conhecer.

Para mostrar o quão perverso tu és, ainda que insistes em se orgulhar de sua própria caridade, seu status, sua vaidade e seu desejo por poder, sua aparência religiosa ou de bom pai, ou bom marido, não preciso ir muito longe para denunciar sua vergonha, que é vergonha de todo homem.  E inescapavelmente todos, sem exceção, possuem bem registrado em sua caixola, emblemáticos encontros com o mal.  Momentos de extrema maldade, as vezes em proporções tão subjetivas e tão privadas, que não podem ser denunciadas como uma "mal público" como o que acontecera com o genocídio nazi-fascista.  Não é necessário ir tão fundo, basta buscar reminiscências de sua infância, adolescência ou mesmo no dia de ontem, para trazer à consciência sua condição original.

Para ilustrar, permita-me citar uma cena do filme Árvore da Vida de Terrence Malick de dar calafrios.  Refiro-me, ao menino Jack, o mais velho, quando segura um bocal de um abajur, sem lâmpada, e pede que seu irmão encoste um arame desencapado na parte interna do bocal.  O irmão mira-lhe os olhos, querendo ter fé suficiente para aceitar o desafio.  O irmão mais velho persiste desafiando-o.  Até que ele tem coragem e encosta o arame no fundo do bocal.  E para surpresa e ansiedade de quem assiste o filme, nada acontece.  Nenhum choque.  O que era previsto, simplesmente não acontece.   Entretanto, em outra cena, Jack desafia novamente seu irmão, agora com uma espingarda de ar-comprimido.  Solicita-o que coloque um dos dedos sobre o cano da arma, e que confie.  Ele olha para seu irmão mais velho, com o mesmo olhar do desafio anterior.  Teme, mas hesita por menos tempo, até que coloca o dedo sobre o cano.  Só que desta vez, o irmão mais velho aperta o gatilho.

Não precisamos mostrar um campo de extermínio para chegarmos a conclusão honesta que temos algum problema.  Que ao mesmo tempo que somos geniais, somos genialmente perversos.  Que todas as vezes que articulamos nossas habilidades, viciosamente o fazemos para algum fim que ainda não é bom.  Talvez alcancemos algum fim "socialmente bom", mas não há coisa que façamos, cujas intensões não estejam manchadas por algum auto-interesse, egoísmo, orgulho, moralismo, afeição própria e este é o fardo da vergonha.  O fardo do exílio de nossa desobediência.

O grande erro é que insistes em terceirizar teus erros.  Precisamente como fez Adão, quando transferiu sua responsabilidade expondo sua parceira.  Mas, o movimento é sempre fugir da luz divina.  Sempre se esconder da exposição.  Sempre esta manobra barata e quase inconsciente, que viciosamente fazes.  

O único tratamento honesto a ser dado neste caso é admitir-se cativo, assumir o fardo de sua limitação, é sair das folhas de figueira e do mundo escuro que vives.  Podes te assustar com a quantidade de chagas sobre seu corpo, de úlceras e escaries, mas sem exposição, não serás curado.  Sem te colocares diante da luz e acertares com teu Criador, nunca terás a leveza do único que pode expor tua condição e assim te dar a dimensão de sua necessidade.

Sempre me perguntei: para o Filho de Deus vir ao mundo e morrer vergonhosamente na cruz, isto só pode significar que a queda foi muito maior do que se imaginava.  A encarnação teve implicações cósmicas absurdas.  De fato, se a operação de resgate do homem foi desta proporção, daí dá para se ter uma ideia do buraco que cada indivíduo caiu.

Acho que está suficientemente claro que o ser humano se encurvou em si mesmo e que se tornou cativo de seus próprios artefatos e artimanhas.  Não há tecnologia, auto-ajuda, espiritualidade, fervor religioso ou performance moral, que possa dar conta de sua condição.

Tu és, como todos nós somos, teimoso, insistentemente teimoso.  Você não dá conta, te enrolas em teu esforço próprio, em seu próprio desempenho. Amas mais tua imagem própria e reputação, do que a Deus.  Teu Cristo é tua imagem pública.  Esquecestes que o Filho de Deus sacrificou-se para mostrar sua vergonha e curá-la.  Mas, ainda tens muita justiça própria, por isso ainda não conseguiu abraçar a justiça de Deus.   

Talvez, seu vício em fuga, a esta altura, insista em dizer, que isto é para "não-religiosos" ou "não-cristãos".  Não! Insisto, isto é para pessoas pecadoras como você, eu e nós.  Que sempre renovamos nossa esperança naquela obra redentora, sempre lembrando que sem Cristo, somos pessoas "vendidas para o pecado".

Tuas obras são manchadas pelo pecado, renuncie-as, e abrace a magnífica e suficiente obra que Cristo realizou.  Por isso é de graça, pois você não teria dinheiro, capacidade e recursos para pagar sua culpa.  Por isso é pela fé, pois não se baseia em suas habilidades e desempenho.  A cura está em abraçar o mistério da cruz e receber a graça da salvação em Jesus Cristo.  Que se expôs em um drama tosco, puro absurdo!   Não tinha outro jeito, sem a absurdidade de sua morte, você nunca seria tirado da obviedade de sua vergonha.

Em Cristo, 3 coisas ficam claras:

1) Não há privilégios pessoais, todos pecaram, indistintamente.  
2) Ninguém tem recursos para buscar a Deus, sem que Deus se volte pra ele.  
3) Que uma vez em Cristo, nossos feitos, se forem bons, não são nossos, são de Cristo.  

Pois como ele mesmo disse:
"Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. (Jo 15:5)
Sim, pelo fruto conhecereis a árvore, e a árvore a ser conhecida é Cristo, nossa videira verdadeira.  Do esconderijo entre as folhas, agora ramos bem enxertados na videira que é Jesus.  Unidos nele, em sua suficiência e centralidade, sem se esconder, confessando sempre dependência de sua graça e amor.  Estar em Cristo é não ser perturbado com a pergunta: "onde estás?".  Pois, estar em Cristo, é estar no lugar certo, é antecipar o retorno pra casa.  O retorno do exílio de volta ao jardim de paz.
9 de nov de 2011 | By: @igorpensar

Fala Guilherme de Carvalho!

Pr. Guilherme de Carvalho, em uma reflexão profunda sobre a atual espiritualidade evangélica, integralidade da fé, tendências teológicas e os rumos para uma fé cristã enraizada na centralidade de Cristo, que integrou em sua encarnação a criação e redenção.  Na parte 2, após os fundamentos teológicos apresentados na parte 1, desafia os cristãos vocacionados para a arte, a se engajarem no embelezamento da realidade criada.