31 de out de 2012 | By: @igorpensar

Reformando-se

Ecclesia reformata et semper reformanda est.

A famosa expressão acima foi criada pelo teólogo reformado holandês Gisbertus Voetius (1589-1676) durante o Sínodo de Dort. Ela pode ser traduzida da seguinte forma "Igreja reformada está sempre se reformando".  Diferente de algumas interpretações, o sentido não é que a Igreja reformada deveria ser "plástica" ou "relativista", mas que deveria sempre se esforçar para renovar seus fundamentos ou princípios.

Os 5 solas, como são conhecidos, eram os fundamentos do cristianismo bíblico e histórico, que quando esquecidos, sempre dirigem o cristianismo e a Igreja a renovarem seu comprometimento com a fé apostólica.  Quando os reformadores viram o rumo que o cristianismo medieval estava tomando, se articularam para afirmar estes princípios, e assim, corrigir os rumos da fé cristã.

Em tempos em que Cristo é instrumentalizado, mas não afirmado e reconhecido como Senhor, buscamos um cristianismo enraizado nas Escrituras, fiel ao que Deus nos legou pelos profetas e apóstolos, mas igualmente, um cristianismo que se situa na história, com herança, por isso, portadora de uma grande nuvem de mestres e leitores das Escrituras.   De fato, se tivermos algum avanço ou se temos alguma vantagem em relação aos que nos antecederam, deve-se ao fato de estarmos sobre colunas.  Talvez seja esta nossa grande vantagem, o fato de estarmos "sobre ombros de gigantes".

O que gosto nos reformados é que assumem sem reservas que o arbítrio não é dos homens, mas de Deus.  A vontade humana é relativa à soberana vontade de Deus.  Assumem de forma explícita e deliciosamente escandalosa, que o arbítrio entregue pelo humanismo e o iluminismo francês aos indivíduos, é uma repetição ardilosa da tentação no jardim do Éden.   

O que aprecio no cristão reformado é que afirma honestamente que a queda foi radical a ponto de afetar total e profundamente a capacidade do ser humano se chegar a Deus por si só.  A queda colocou o homem em estado de exílio e inimizade contra Deus, e a conclusão apostólica é, reafirmam cristãos reformados, que se Deus não se voltar para os homens, os homens de modo algum se voltarão para Ele.

Gosto da teologia reformada porque ela retoma os fundamentos da doutrina apostólica, que se constituem na centralidade de Cristo e seu senhorio.  Afirmam a grandeza de Deus e como no senhorio de Cristo estende o evangelho a todos os aspectos do mundo criado.

Ser reformado não é apenas ter uma confissão de fé denominacional, é ter um estilo de vida que orbita sobre os 5 princípios da reforma: graça, fé, Cristo, as Escrituras e a Glória de Deus

Os 5 princípios (5 solas) da reforma são caros para um cristão reformado.  Mais do que afirmações dogmáticas ou doutrinárias, eles são afirmações de referências fundantes de um estilo de vida cristão, que infelizmente, são esporadicamente esquecidos ou enfraquecidos pela prática da Igreja.  Retomá-los de forma plena, seria reaver a reforma, a fé apostólica original e ver a comunidade de Jesus florescendo novamente em gratidão, boas obras e testemunho público para a glória de Deus.

Na graça o reformado entende que tudo é dádiva, que a existência é fruto de um presente, cada minuto de vida é fruto de decretos graciosos e amorosos de Deus.  Reconhece que todo ato bem feito e toda boa obra só podem proceder de Deus, do Pai das luzes (Tg 1:17).   Reconhece que a salvação, justificação, santificação, regeneração e fé são resultados de uma série de ações soberanas, por isso, graciosas, não condicionadas em nada no homem.   Não são frutos de um desempenho autônomo, mas de uma atuação constante do amor de Deus, conduzindo e capacitando seus filhos a fazerem a vontade de Deus em gratidão.  É Deus quem opera suas ações no ser humano por graça, é Deus quem implanta no homem o "querer e o efetuar" a salvação (Fp 2:13).  Na graça a pretensão humana é encerrada, e a glória de Deus é evidenciada (Ef 2:9).

Pela  um cristão vincula-se com Jesus.  Pela fé entra-se em união mística, em unidade de amor com o Filho de Deus, em confiança e fidelidade inabaláveis na provisão do amor do Pai em seu Filho.  Sabedores e conscientes de sua condição deplorável como pecadores, cristãos reformados, sabem que só é possível para ser aceito por Deus, se estiverem unidos com Jesus pela fé.  Somente com a confissão dos lábios e a confiança de coração, podem escapar da justa ira de Deus.  Desta forma, fora de Cristo só resta viver sob o teto da "ira de Deus" (Rm 1:18) que já se revela dos céus contra o pecado da humanidade.  A própria degeneração moral das humanidade é por si uma evidência de que sem Cristo só resta a indignação divina.   

Pautados na mesma fé, temos uma grande comunidade (Hb 11) de homens e mulheres que viveram por meio e na fé em Deus confiantes de que sua existência era uma jornada pautada nos planos divinos.  Por isso não esmoreceram, continuaram crendo até verem concretizados os desígnios de Deus em suas vidas.  Então pela fé em Cristo, o cristão une-se com o Filho de Deus, é adotado (tornando-se igualmente filho) e assim tem acesso a uma graça especial que o educa e o dirige de forma operosa até sua glorificação com Jesus.

Um cristão reformado sabe que somente Cristo pode revelar o Pai (Jo 1:18), que Ele é o Ungido, o Messias, Rei, Servo e Cordeiro de Deus e o Verbo de Deus.  Aquele por quem e para quem todas as coisas foram criadas (Jo 1:3; Cl 1:16).  Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, amado desde a Eternidade pelo Pai, revelou-se aos homens por meio de sua encarnação, íntegro de sua divindade e  humanidade, para trazer os homens para o Pai.   Em sua humilhação, morte e ressurreição Jesus Cristo inaugura uma nova criação nele.  Por isso, todos que se unem com Ele são "recriados" (Ef 2:10) e por isso em Jesus um nova humanidade emerge, para a Glória de Deus.  Jesus Cristo é a pedra angular de onde emerge uma comunidade renovada, eleita e preciosa, chamada "Igreja" (Ef 2:20 e I Pe 2: 6 e seg.).  Na Igreja, Cristo se revela e é comunicado.  A Igreja é esta comunidade dinâmica, que em sua discrição e invisibilidade, se visibiliza através do testemunho de verdadeiros cristãos regenerados.  Também se visibiliza na Igreja local, que se reúne ao redor da Palavra de Deus e da mesa da ceia, ordenança de Jesus para os santos.  Lá na Igreja local e visível, cristãos celebram sua páscoa, seu êxodo e retorno do exílio.

Um cristão reformado sabe que as Escrituras são suficientes enquanto recurso de orientação existencial para sua jornada no presente século.  Ele sabe que encontra nela "palavras de vida eterna", plenitude existencial e compreensão de Deus e de sua vontade.   Reconhecem que junto com todos os grandes mestres do cristianismo, debruçam-se sobre esta verdade, buscando em sua complexidade e simplicidade, orientação para viverem para a glória de Deus.  As Escrituras são fontes de sabedoria para um viver habilidoso e que elas compõem a visão de mundo de um cristão, iluminando sua relação com Deus, o próximo e a criação.  A afirmação sola scriptura (somente as Escrituras) da reforma protestante não significava uma rejeição de tudo que a Igreja havia acumulado durante os séculos de interpretação bíblica e doutrinária, mas que a tradição teológica do cristianismo, deveria permanecer sempre sob supervisão e crítica das Escrituras.

Organicamente a graça, a fé, Cristo e as Escrituras, se articulam de forma a projetar a vida do cristão para uma tarefa na criação onde Deus seja sempre glorificado.  O cristão reformado sabe que sua vida e tudo que nela acontece, bem como na sua santa Igreja, envolvem um único propósito final e definitivo: a glória de Deus.   A alegria de um cristão está em tornar Deus conhecido e reconhecido em seus feitos, tarefa e missão.   Não há ato cultural ou laboral de um discípulo de Cristo que não aponte para Deus e se torne uma interface onde Deus é reconhecido e proclamado.

O cristianismo reformado não é aquele que apenas deseja a reforma da Igreja, mas também da cultura, da sociedade, ciência, filosofia, educação e assim por diante.  Um cristão reformado sabe, que as leis de Deus são princípios balizadores para que o salvo possa viver neste mundo de forma submissa e tendo Deus como referência.  Por isso, cristãos reformados resistem a heresia de Marcião que tendia distinguir o Deus criador do Antigo Testamento e o salvador do Novo Testamento.  Ao contrário, eles afirmam a ortodoxia confessional e bíblica em que o mesmo Deus que criou é o que salvou e salva, e vice-versa.

Ser um cristão reformado não é ser um religioso altivo, arrogante, faccioso, reducionista ou denominalista, como se supõe, mas significa ser um cristão unido com Cristo pela fé, na graça, conforme as Escrituras e que viva para a glória de Deus.

Concluímos, que em tempos de arrefecimento da fé, de embustes teológicos, falsos mestres,  falsos profetas, deificação do homem, instrumentalização de Cristo, fragmentação denominacional, escândalos e triunfalismos, mais do que nunca, a Igreja Evangélica no Brasil precisa de uma reforma de dentro para fora.  De comunidades com ortodoxia (doutrina correta), ortopraxia (prática correta) e ortopatia (sentimento correto) alinhadas com a vontade de Deus.  Que seja uma reforma da Igreja local, mas também da criação, da cultura e do comportamento pessoal do cristão.  Todas as grandes reformas e avivamentos da Igreja aconteceram em momentos de crise como a que nos deparamos, a Igreja sempre recebeu saúde e frescor toda as vezes que reafirmou os 5 princípios mencionados.  Que Deus neste dia 31 de outubro, dia da reforma protestante, possa nos convocar para uma vida cristã que sempre se reforma e se renova em Jesus Cristo.
"Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras." (Ap 2:5)
30 de out de 2012 | By: @igorpensar

Mortem vicit

Por Igor Miguel


Depois que Jesus ressuscitou, a história tornou-se serva da eternidade.  Alguém venceu a morte, alguém não encontrou na morte um fim.  A morte é esta contradição tenebrosa, esta ruptura radical que angustia e que faz a alma ficar aflita, ansiosa.

Olhar pra cruz é ver a morte afligindo a alma mais pura, o ser mais indigno de seus açoites e seus medos.  A morte não podia ter acometido o Verbo, caiu em uma grande armadilha divina, foi fisgada pela vida.   O triunfo de Cristo a capturou, Jesus agora tem a chave da morte e do Hades.

A ressurreição é o retorno do segundo Adão dos lugares mais sombrios, dos calafrios e arrepios mórbidos.  Jesus como Adão, confundido com o jardineiro, assume o cuidado que foi comissionado ao primeiro homem.  O segundo Adão é cheio de plenitude, o homem perfeito, dele procedem vitalidade e graça.  Impossível ser verdadeiramente humano fora da humanidade de Cristo.  Impossível ser totalmente redimido fora de sua divindade.

Ele tinha que ser Deus, pois homem não salva homem.  Mas o Deus que se fez homem poderia fazê-lo. E o fez eficazmente.   Cristo é a exibição pública da face de Deus.  Quando se olha para Cristo, o Espírito da vida é derramado no coração. Antes temeroso pela morte, agora vive pelo sorriso e o consolo, sente um aroma de eternidade e prova o sabor da árvore da vida.

Fora de Cristo só resta morte, pavores, temores e cheiro de enterro.  Em Cristo encontra-se vitalidade, flores que desabrocham, cânticos harmônicos e a ardente esperança.  A esperança é que se alguém morre na semelhança da morte de Cristo, também revive na semelhança de sua ressurreição.

Depois que Cristo venceu a morte e a ameaça do tempo, a história curvou-se diante da eternidade.

"A morte foi tragada pela vitória."  (Apóstolo Paulo)

Soli Deo Gloria!
27 de out de 2012 | By: @igorpensar

Protestante e Católico (Universal)

"Se o protesto da reforma significa alguma coisa, então, certamente há uma dicotomia, ou no mínimo, uma diferença entre ser reformado e ser uma católico romano. Sobre isto, eu concordo plenamente. Porém, eu não acho que Roma é detentora da catolicidade. Nossa fé "católica" é a fé histórica da Igreja, enraizada nas Escrituras, recebida dos apóstolos, elucidada e articulada em credos e concílios ecumênicos, reformada em nossas confissões, com a convicção que o Espírito de Deus tem guiado a Igreja através da história. A reforma protestante não é uma "mudança de paradigma", a "emergência" de uma "nova fé". Ao invés, deveríamos ver a reforma protestante como um movimento de renovação agostiniana na Igreja Católica."* (James K.A. Smith**)

Quando Smith se refere ao termo "católico", não faz referência ao "catolicismo romano", mas ao sentido literal do termo grego katolikós (universal). A catolicidade se constitui naqueles princípios comuns que unem e definem os cristãos universalmente. O que obviamente, transcende o catolicismo romano.


A tese de Smith é que a fé protestante reformada não é um movimento "novo", mas um esforço para retomar o que há de mais universal na fé cristã clássica e histórica. A menção a Agostinho de Hipona no texto, refere-se ao esforço deste grande teólogo da Igreja, em afirmar a suficiência da graça em Cristo para salvar o pecador e sua oposição à heresia pelagiana, que insistia em uma "capacidade inata" nos homens para obedecer a Deus, e assim, serem aceitos por Ele. Tal heresia comprometia a doutrina apostólica e paulina que concebe o homem como "morto em seus delitos e pecados" (Ef 2), incapaz de se voltar para Deus, o que explicita o fato de que a salvação dependeria de uma ação soberana, procedente graciosa e exclusivamente de Deus. 

A ênfase em Cristo e na graça foi retomada por Agostinho e renovada pelo movimento protestante (lembrando que Lutero foi um monge agostiniano). Neste sentido, a catolicidade é o solus Christus (somente Cristo) e sola gratia (só a graça), como revelado nas Escrituras (sola scriptura). Exatamente, os princípios afirmados pela fé protestante. Estes seriam os elementos "católicos" da Igreja.  Desta forma, a fé reformada é católica em seu sentido mais profundo.

* Citação do texto John Calvin’s Catholic Faith.
**James K.A. Smith é uma filósofo americano, atualmente é professor de filosofia no Calvin College. Escritor profícuo, escreve sobre ortodoxia radical, cristianismo e pós-modernidade, liturgia e adoração e ética.
23 de out de 2012 | By: @igorpensar

Qual é o seu Nome?

"Dize, portanto, à casa de Israel: Assim diz o SENHOR Deus: Não é por vossa causa que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome, que profanastes entre as nações para onde fostes." (Ez 36:22).
Nome: resumo ou narrativa?

Em termo bíblicos, o "nome" não é apenas uma palavra que serve para identificar uma pessoa ou um objeto.  Ele é "substantivado", há "substância" associada ao nome.  Também não é substância em sentido químico, mas  biográfico.  Como assim?  Explico.

Lembro-me da trilogia "Senhor dos Anéis" de J.R. Tolkien, em particular quando o personagem Barbárvore (Treebeard), um ent, pergunta a um dos "hobbits" como ele nomeava "aquilo", enquanto apontava para uma colina.  A resposta do hobbit: "colina!".  Barbárvore, surpreendido, replica: "- mas este é um nome muito curto para uma coisa que está tanto tempo ali!".  Esta é uma das frases que mais me impressionaram na trilogia.  Na língua dos "ents", as palavras não são "compactas", os nomes não são um atalho fonético que agrega sentidos atribuídos a uma pessoa ou coisa.  Ao contrário, na língua dos ents os nomes são histórias, narrativas e biografias.  Curiosamente, vi uma associação entre o sentido bíblico de "nome" com a forma como os ents nomeiam as coisas no mito de Tolkien.

A Bíblia nos mostra diversos personagens cujos nomes apontavam para uma história mesmo antes de sua conclusão.  Poderíamos citar alguns exemplos, como: Abraão, cujo nome significa em hebraico "Pai de Povos", uma referência a sua biografia como patriarca da fé, cuja promessa, abençoaria as famílias da Terra (Gn 12 e 22).  O nome de Jacó, que foi mudado para Israel, que significa "lutastes com Deus", faz referência ao encontro de Jacó com o Anjo do Senhor.  Da mesma forma, Davi é o "amado"; Josué significa "o Senhor que Salva"; Adão vem de uma raiz hebraica que significa "terra", "solo" ou "avermelhado", uma referência ao fato do homem ter sido feito do pó da terra.

Mantendo a tendência do Antigo Testamento, Noé (hb. נח - noâch), cujo nome significa "consolo" ou "conforto", o recebeu como por uma profecia, como está escrito: "pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o SENHOR amaldiçoou."  (Gn 5:29). Este mesmo Noé, no evento de seu filho Cam tê-lo visto nu,  profere ditos oraculares sobre seus descendentes, em específico sobre Canaã (filho de Cam), Jafé e Sem (Gn 9:18-27).  Ao filho, cujo nome era "Sem", ele diz: "Bendito seja o Senhor Deus de Sem."  (Gn 9:26).  O interessante é que "Sem" em hebraico "Shem" [שם] significa literalmente "Nome".  Não é acidente que de "Sem" vieram os "semitas", agrupamento étnico donde descende os hebreus (descendentes de Héber) e o próprio Abraão (ver genealogia de Gn 11).

A descendência do "nome"

A ideia é que Deus escolheu os israelitas, ligados a descendência de Sem, para testemunhar seu "nome" entre as nações.  Mais para frente, na narrativa bíblica, Moisés (cujo nome significa tirado das águas - não só do Nilo, mas também do Mar Vermelho) em um encontro com o SENHOR no Monte Horebe, ante a sarça que ardia e não se consumia, realiza o seguinte diálogo:
Disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?  Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós outros.  Disse Deus ainda mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros; este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração. (Ex 3:13-15)
Observe que Moisés pergunta o "nome" de Deus.  A resposta é surpreendente, pois Deus não se identifica com um nome "fechado", como o nome dos ídolos do Egito.  As divindades pagãs possuíam nomes que especificavam sua "atuação" mítica.  Deuses da fertilidade, da guerra,  colheita, sabedoria ou saúde, possuíam nomes associados às suas respectivas "áreas de atuação".  O Deus que se revela a Moisés, por sua vez, se identifica primeiro como o "Eu Sou o que Sou" e depois como "Deus de Abraão, Isaque e Jacó".   

A expressão "Eu sou o que Sou" [hb. ehiê asher ehiê - אהיה אשר אהיה], adotada na versão Almeida Revista e Atualizada, encontra-se no original hebraico estruturada pelo verbo "ser" ou "tornar" usado no perfeito, na voz ativa do grau simples (QAL).  Isto significa que este verbo poderia ser traduzido no futuro (uma ação não concluída ou em processo de conclusão), assim, a expressão poderia ficar como: "Eu serei o que serei" ou "Me tornarei o que me tornarei", como bem traduziu Lutero em sua Bíblia para o alemão "Ich werde sein".  A ideia é esta mesmo: Deus se "revelaria" e se "tornaria" ao longo do tempo, ou seja, uma revelação progressiva de seu "nome", um Deus que se revela na história e nas relações.

O "nome" assume o sentido de "narrativa" ou "revelação", uma história.  Mas, ainda há um detalhe: por que Deus adicionou o sentido de seu nome como "Deus de Abraão, Isaque e Jacó" afirmando que este é "seu nome eternamente"?  Ora, se Deus é portador de uma "história" e de um nome que se revela no tempo e nas relações, logo, Ele é um Deus que é conhecido na biografia das pessoas com quem se relaciona.  A biografia de seus servos, torna-se a biografia dele mesmo, afinal Ele é um Deus se revela relacionalmente.  Talvez, foi neste sentido, que o filósofo e matemático Blaise Pascal (1623-1662) tenha dito: "Deus é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, não o Deus dos filósofos".

Acho que já temos material suficiente para entender que o "nome" é muito mais do que "identificação fonética".  O "nome" em termos bíblicos faz referência a uma "história".  No caso, de Deus, uma referência à história de sua relação com seus servos ao longo das gerações.  Quando é dito no livro do profeta Ezequiel que os israelitas profanavam o "nome de Deus" entre as nações, o que está envolvido é a profanação de um "história", da "revelação" de Deus em relação a seu povo.  Por isso, a Bíblia é um livro que trata a respeito do Deus que se revela.  A Bíblia é a exposição pública de Deus, o que ela chama de "glória".  

O Nome que Está Sobre Todo Nome

Agora, façamos uma conexão com a revelação de Cristo, e vejamos algo interessante:

Deus quando firmara uma aliança com o Rei Davi, prometera a ele um descendente cujo trono nunca teria fim e que este descendente edificaria para Deus uma casa para seu nome (II Sm 7:13).  Este texto é digno de uma leitura messiânica, no sentido que se refere ao Messias, e não ao descendente imediato de Davi, Salomão.  Salomão não teve um trono "eterno".  Logo, a promessa se refere a um descendente de Davi, cujo trono seria eterno, e que faria uma casa para o "nome" de Deus, bem no sentido que já exploramos até aqui.

Nós cristãos entendemos que Jesus é o descendente de Davi, que cumpriu todas as expectativas bíblicas e proféticas a respeito de sua messianidade.  Jesus, certa vez, fez menção enigmática a respeito de seu corpo como um Templo:
Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei.  Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás?  Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo. (Jo 2:19-21)
Jesus é o Templo onde o "nome" ou a "história" de Deus se torna mais evidente:  "As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito."  (Jo 10:25).  Agora, veja que interessante o que encontramos em um certo dito de João: 
"Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou."  (Jo 1:18)
A palavra utilizada no original, que foi traduzida aí por "revelou", é verbo no passado (aoristo) eksêgêsato [εξηγησατο] que poderia ser perfeitamente traduzido como "expôs", "relatou" ou "narrou" como utilizado em Lc 24:35.  O sentido deste texto é que Jesus "conta" ou "narra" Deus o Pai para os homens.

Trindade: o nome de Deus se revela

Então, qual é o nome de Deus na Nova Aliança?  Como Ele se revelou?  Como podemos "narrá-lo?".   Se fossemos ents, que nome daríamos a este Deus, sem sermos sintéticos de mais?  Onde encontramos seu nome?  A resposta deveria ser: no batismo.  Como preservado em Mateus: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo." (Mt 28:19). 

A grandeza de nosso batismo, não está em um fonema.  A questão não é se chamamos Deus de Jeová, Javé, Yavé, Elohim ou Yeshua.  A questão é: qual é a história de nosso Deus?  Nosso Deus é uma história, a história da salvação.  A salvação é um drama de amor em que Deus se volta para homens pecadores.  E, para salvá-los, envolveu toda sua pessoa (Pai, Filho e Espírito Santo), desde a fundação do mundo, passando pelos patriarcas, os reis de Israel, os profetas, e agora, ele fala conosco pelo Filho, como foi dito:
Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas,  nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.  Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas,  tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. (Hb 1:1-4).
Últimas palavras

Baseado em tudo que foi dito, fica claro o motivo de cristãos prezarem tanto pelo nome de Jesus.  Afinal, foi na história de Jesus, como registrada nos quatro evangelhos, que Deus foi revelado (narrado).  A glória de Deus se concentra na história/vida/nome de Jesus.  Por isto, foi dito:
Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular.  12 E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos. (At 4:11-12)
Não é em vão, que por ocasião de uma das viagens de Paulo à cidade de Éfeso (At 19), exorcistas profissionais, como os filhos do sumo sacerdote Ceva, tentaram esconjurar demônios 'em nome de Cristo, a quem Paulo pregava', e os demônios gracejaram afirmando conhecerem "Paulo" e "Cristo", mas os tais exorcistas lhes eram desconhecidos, o que foi seguido pela agressão do endemoniado àqueles.  Os demônios conhecem Cristo, Paulo e todos os eleitos do Senhor, por causa de uma história: a história de Cristo, e a história de todos que estão ligados a Ele.  Estar fora de Cristo é viver em anonimato, é não ter uma biografia.

Todo Antigo Testamento narra a história dos atos salvadores de Deus.  O clímax e cumprimento de tudo aquilo que a Bíblia Hebraica narra é Jesus Cristo.  O Verbo se faz carne e se torna em "texto", uma "narrativa", uma história sobremodo exaltada, o nome que está sobre todo nome.  Fomos salvos por Jesus, por uma história, um conto de salvação, um drama trinitário.  Os demônios tremiam e proezas eram feitas neste nome, não por um poder mágico, mas por causa de uma história com início e fim, com Alfa e Ômega, história que culmina na cruz e alcança sua plenitude na redenção de todas as coisas.  O nome é a história, nosso nome se constitui no nome de Cristo.
"Ao que vencer darei a comer do maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe." (Ap 2:17)

Santificação para a Vida Ordinária por James K.A. Smith


O amigo Daniel Vieira e eu traduzimos um artigo excelente de James K.A. Smith, autor cujos escritos apreciamos.  Li seus livros "Desiring the Kingdom" (Desejando o Reino) e "Who is afraid of post-modernism" (Quem tem medo da pós-modernidade).   Smith escreveu um excelente artigo sobre o tema "Santificação para a Vida Ordinária", como o apreciamos (eu e o Dan), vimos a importância de tê-lo em português.  O artigo foi publicado pelo portal iPródigo e pode ser acessado na íntegra aqui.

James K. A. Smith é professor de filosofia no Calvin College em Grand Rapids, Michigan, onde ensina no departamento de estudos congregacionais e ministeriais.
12 de out de 2012 | By: @igorpensar

Inteligência Cristã

Por Igor Miguel

Inteligência ou Inteligências?

Se você está querendo tornar-se um cristão verdadeiro, advirto-lhe que está embarcando em algo que vai exigir todo o seu ser, o seu cérebro e tudo o mais. (C.S. Lewis)
A palavra inteligência vem da combinação de duas palavras latinas "inter" e "lego", cuja tradução literal seria "escolher dentre".  Inteligência tem haver com "discernimento", "escolha" ou "seleção".  Uma possível definição para inteligência, ao menos a partir da origem da palavra, seria: a capacidade de considerar determinados fenômenos relevantes e outras irrelevantes a partir de critérios específicos.  Interessante esta possibilidade, pois em geral, entende-se inteligência como sendo uma "habilidade mental ou intelectual puramente lógica", uma compreensão típica de uma sociedade que trata a razão quase como divindade, apesar de alegarem ser ela ideológica e religiosamente neutra.

Se inteligência for, como dito, "a capacidade de selecionar, eleger ou escolher coisas ou fenômenos", logo, este discernimento dependeria de um sistema de crenças ou uma cosmovisão, onde se organizam os critérios que acolhem o que é considerado relevante, enquanto excluem aquilo que é considerado irrelevante.   Porém, uma observação importante deve ser apresentada: cada indivíduo ou grupo de indivíduos possuem sistemas de crenças (cosmovisões) diferentes, desta forma, cada um deles adota critérios diferentes para eleger o que consideram relevante ou irrelevante em sua relação com o mundo e as pessoas a seu redor.  Se há diferentes cosmovisões, e diferentes critérios de seleção ou escolha, logo, há diferentes inteligências, ou discernimentos.

Educação cristã: alunos inteligentes?

Em diálogos com educadores cristãos, o que se percebe é que todos querem formar alunos inteligentes, sem deixar nada a desejar em relação às melhores escolas não-cristãs, mas a questão é: que tipo de inteligência a escola cristã quer promover?  Não basta que jovens cristãos sejam estimulados a serem geniais ou cognitivamente habilidosos. Eles precisam ser inteligentes, sem dúvida, mas acima de tudo, inteligentemente cristãos.

Outra pergunta que deve ser levantada: que inteligência a educação formal procura promover em nossos filhos?  Muitas de nossas crianças são submetidas a um programa em prol de uma "inteligência" revolucionária e progressista.  Eles aprendem que a conspiração e a revolução contra os que estão no poder é sempre o melhor caminho.  Se não, aprendem que a competitividade e o individualismo pragmático são os melhores caminhos para o sucesso.   Ou ainda, o cientificismo reducionista que atribui à ciência poderes quase absolutos.

Em casa, pais cristãos são frequentemente acometidos por um cristianismo raso, sentimentalista, acham que não precisam de critérios para julgar o presente século, e que a cultura é importante apenas para que seus filhos sejam bem sucedidos em termos profissionais.  Enquanto, em relação a fé, o que importa é que devem ir a Igreja, serem batizados, e tornarem-se bons crentes.  Sem dúvida, este não é o melhor caminho para crianças, adolescentes e jovens cristãos, se o desejo é que eles sejam culturalmente relevantes, sem caírem na sedução do triunfalismo.

Mas, enfim, o que seria uma inteligência cristã?

Uma inteligência cristã

Em termos gerais, uma inteligência cristã ou uma "mente cristã"  (Nancy Pearcey, 2004) deveria ser, em primeira instância, oposta a qualquer proposta cognitivista ou racionalista que coloque a inteligência em um status de neutralidade religiosa ou ideológica.  Logo, o cristão deve assumir explicitamente que sua forma de se relacionar com o mundo, a sociedade, a cultura e com sua individualidade, depende de um sistema de crenças fundantes e é pautada em uma inteligência que lhe é peculiar.

Uma síntese da peculiaridade da forma de pensar do cristão é aquela encontrada no seguinte excerto do filósofo cristão holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977):
Nesse sentido central e radical, a palavra de Deus, penetrando na raiz de nosso ser, tem de se tornar o motivo-poder central do todo da vida cristã na ordem temporal com sua rica diversidade de aspectos, tarefas e esferas ocupacionais. Como tal, o tema central da criação, da queda no pecado e da redenção deveria também ser o ponto de partida central e o motivo-poder de nosso pensamento teológico e filosófico.  (Dooyeweerd, 2010)
Esta citação resume bem a peculiaridade da inteligência cristã.  Em primeiro lugar, ela se constitui na palavra de Deus, ou seja, na revelação de Deus através das Escrituras Sagradas (Bíblia).  O sistema de crenças do cristão se constitui neste longo material canônico que preserva os valores e o sentido que ele (o cristão) atribui ao mundo.  Os fenômenos culturais ou naturais são compreendidos a partir das crenças construídas desde a narrativa bíblica.  A partir desta concepção da vida, como revelada nas Escrituras, o cristão se relaciona de forma particular nas "esferas ocupacionais" e com as "tarefas" sociais e culturais com as quais está envolvido.

Porém, o mais importante desta citação é: a Bíblia preserva um tema central.  Um tema cuja narrativa envolve uma história que abrange: a criação do mundo por Deus, a queda e o fracasso do ser humano e o plano de resgate ou redenção de Deus em relação ao homem e seu mundo.  Desta forma, diz-se que a narrativa bíblica orbita ao redor do tema: criação, queda e redenção.

Inteligência bíblica e narrativa

A Bíblia é um livro complexo e não é necessariamente uma obra sistemática com uma estrutura analítica.   A revelação bíblica encontra-se em forma de "história" e "coleções" textuais e é portadora de quadros, dramas, pressuposições, leis, instruções, provérbios e poemas, que formam um universo complexo e rico.  Mas, a chave para navegar neste oceano é compreender o tema criação, queda e redenção.

a. criação: tudo é relativo ao absoluto
Para um cristão, a criação (natureza) não é um acidente físico-químico contingente que se estruturou em leis autônomas e impessoais. Ao contrário, Deus mesmo (o incondicionado) fez todas as coisas a partir de sua sábia vontade.  Para muitos, a imagem de Deus como criador pode soar infantil.  Mas, é importante uma leitura mais cuidadosa a respeito do que a  tradição judaico-cristã chama de criação.

Para o cristão, Deus é absolutamente inteligente e criativo, e por este motivo, pode-se perceber determinados padrões nos fenômenos naturais, um ordem, ou como se chama: ordo creationis (ordem da criação).  Deus é colocado como o absoluto e todas as coisas são relativas a Ele.  As implicações aqui são incríveis, pense por exemplo, que a afirmação cristã de um "Absoluto" (Deus) evita que o cristão caia no reducionismo, absolutizando os fenômenos naturais ou sociais, que para ele (o cristão) são relativos a ordem do Deus absoluto.  Nestes termos, a inteligência cristã oferece uma posição epistemologicamente privilegiada, pois a partir da crença de Deus como o absoluto, o cristão pode interagir com a diversidade dos fenômenos presentes na criação sem cair na tentação idólatra de absolutizá-los.  Exemplo de reducionismos são os que ocorrem, por exemplo, com o psicologismo, sociologismo, culturalismo e outras tentativas, de explicar o homem e o mundo, a partir de apenas um aspecto ou fenômeno.  A inteligência cristã, neste sentido, é irredutível e multidisciplinar.

b. queda: fragilidade e desconfiança
A fé cristã é viril e corajosa, no sentido que não está disposta a lidar com a natureza humana de forma ingênua.  Ela faz uma denúncia, como destacou o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, em entrevista à Revista Veja: "O cristianismo [...] fala do pecador, de sua busca e de seu conflito interior. [...] o cristianismo reconhece que o homem é fraco, é frágil."  Esta é a doutrina da queda, preservada nos textos de Paulo, explorada pela tradição agostiniana e reafirmada pela reforma protestante, que a chama de "depravação total".  O homem é portador das reminiscências de uma dignidade antiga que foi perdida por causa de sua atual frágil condição, decorrente de uma brusca alteração de sua relação com Deus como Criador.   O fracasso do homem em se manter ligado a Deus, por causa de seu pretenso desejo por autonomia, resultou em um distanciamento, a que chamamos pecado.

Por causa da doutrina da "queda" a inteligência cristã desconfia de estruturas humanas e de qualquer teoria que alegue um "purismo" humano, como propunha a antropologia de Jaques Rosseau.  Obviamente, todos os sistemas filosóficos, sejam os de implicações políticas ou econômicas, pautadas em um suposto "poder autônomo" da natureza humana, são tratados criticamente pelo cristão.  A visão de homem do cristão, o que se chama antropologia, é que ele foi criado a imagem de Deus (imago Dei), mas hoje, encontra-se disforme em relação a sua dignidade original.  Por esta razão, ele carece de redenção, de graça e providência, para ter restituída sua condição primeira.

Se por um lado, a inteligência cristã considera a dignidade do homem e da criação, por outro, não ignora uma "antítese", uma "tensão", no cerne da criação, o qual é o homem mesmo e suas pretensas iniciativas.  O que também não significa ignorar alguma dignidade na produção cultural humana, afinal, o mundo ainda tem alguma "estabilidade", por causa do compromisso escatológico de Deus, de trazer a humanidade de volta pra casa (redenção/resgate).

c. redenção: esperança cristã
Se a doutrina cristã for reduzida apenas a uma visão de "queda", consequentemente, isto resultaria em uma inteligência pessimista e cínica.  Como dito, em algum sentido, o cristão não cria muitas expectativas quanto aos projetos não-cristãos de civilização, mas, mesmo assim, entende que seu lugar é aí no que chamam de "projeto civilizatório".  Tome por exemplo, o profeta Daniel, que exerceu sua vocação na côrte babilônica, sem se deixar absorver por aquela cultura.

O cristão opera como um agente de esperança, engaja-se na instauração de jardins de graça em uma cidade cinzenta, sem cor.  O cristão pauta sua existência na eficácia da obra que Jesus Cristo realizou em seu sacrifício, a imagem mais assombrosa e mais sóbria dos planos de Deus para a humanidade.  Jesus é chamado de segundo Adão (Romanos cap. 5), Ele é o Homem, a fonte e o fator de humanização.  O cristão é um homem arrependido, que reconheceu sua precariedade e distância, e que se volta em "mudança de mente" (gr. metanóia - arrependimento) e com fé no mistério e evento chamado Jesus Cristo.  A fé cristã é cristocêntrica e pauta-se em uma inteligência "cruciforme", no formato da cruz, no sentido que ela opera pela eficácia da cruz ("já"), mas aguarda a concretização no tempo e no espaço do que já está consumado ("ainda não").  O "já, mas ainda não" remete esteticamente as barras verticais e horizontais da cruz.  O cristianismo não tem problemas com paradoxos.

A inteligência cristã não deve ser triunfalista, a doutrina da queda não permite muita confiança em projetos de dominação.  Porém, por outro lado, entende que deve sinalizar um Reino prestes a vir, antecipa-o parcialmente, para que o mundo tenha esperança naquele que há de vir.  Por causa desta esperança e esta antecipação escatológica, opera no mundo, como que se vivesse no outro, naquele redimido e novo (Ap. 21).  O impacto desta crença na ação cultural do cristão é singular.  Ele vai ao laboratório, à universidade, à rotina do trabalho e do dia-a-dia, portando as ferramentas dispostas nas Escrituras e na longa experiência cristã, de modo a testemunhar Jesus e manifestar seu Reino de amor.  O anúncio do Evangelho dá-se por uma ação que comunica o triunfo de Cristo sobre a morte.

Sabedoria: não-racionalista, não-sentimentalista e não-ativista

A vida cristã orbita em um tripé, estruturado sobre os seguintes princípios:

1. ortodoxia: uma preocupação constante pela crença ou doutrina correta
2. ortopatia: sentimento ou sensações corretas
3. ortopraxia: comportamento ou ação correta

Agora, veja bem, se um cristão se concentra em algum destes aspectos, ele estará se distanciando da inteligência cristã.  Se concentrar muito de sua vida apenas ao "pensamento crítico", em uma "mentalidade cristã", ou em um zelo "lógico", se esquecendo que sua vocação também é para ter sua afeição (ortopatia) e vida prática (ortopraxia) sob o governo de Cristo, logo, se tornará um formalista árido.  Da mesma forma, se um cristão, se preocupa apenas em se "sentir bem" ou vive em busca de um conforto "sentimental", cairá no sentimentalismo, em uma busca frenética por "sensações" e "experiências religiosas".  E finalmente, se um cristão preza excessivamente pela "prática", "ações" e "obras", ignorando que tais ações precisam ser pautadas em uma vida com sentimentos e crenças bem alinhadas à vontade de Deus, cairá em um ativismo alienante ou em um tipo de legalismo.

Quanto mais equilibrados sobre estes três princípios, mais próximo o cristão estará de uma inteligência cristã.  Ele não será um racionalista, mas procura organizar suas crenças e sua forma de pensar a partir das Escrituras.  Não será um sentimentalista, pois procura submeter sua identidade e afeição aos critérios da revelação de Deus em Cristo. E finalmente, não sendo legalista, se engaja em ação, obras e obediências pautadas nos feitos da graça de Deus.

Mas, enfim, que nome se dá a esta combinação entre ortodoxia, ortopatia e ortopraxia?  Tenho uma sugestão: sabedoria.   Sabedoria, na narrativa bíblica, refere-se a uma vida em que pensamento, afeto e ação se integram formando um todo, que projeta o cristão para uma existência que glorifique a Deus em Jesus Cristo.  Nestes termos, uma inteligência cristã é fundamentalmente uma inteligência sapiencial, o que Doug Bloomberg, educador reformacional, chamaria de "epistemologia sapiencial" (Blomberg, 2007).

ortodoxia + ortopatia + ortopraxia = sabedoria

Últimos ditos...

Há outras características que compõe uma inteligência cristã, como o comunitarismo, uma percepção trinitária de Deus e da realidade, uma percepção da missão como uma tarefa encarnacional e ainda uma compreensão das diversas esferas da realidade criada por Deus.

Agora, que algumas pistas sobre uma inteligência cristã foram apresentadas, pense nas implicações pedagógicas, filosóficas e culturais, de um cristão que desenvolveu tal habilidade.  Há diversos exemplos na história da fé cristã de "gênios" que viveram a partir de uma inteligência cristã.  Poderíamos, citar alguns deles, já sabendo que alguns serão omitidos, uma inevitável injustiça.  Porém, dentre os inteligentemente cristãos estão: Paulo, Agostinho, Pascal, Calvino, Kuyper, Chesterton, C.S. Lewis e muitos outros, que ficam aí como exemplo e inspiração para tal jornada.

Finalmente, é importante reafirmar, que não basta cristãos inteligentes, se eles são cativos de modalidades de inteligências que não correspondem aos fundamentos de sua fé.  Este cristão não fará qualquer diferença, ele será como uma não-cristão em termos de envolvimento com a cultura.  Entretanto, se um cristão se envolve criativamente com a integração entre sua crença e a vida, o testemunho de um Cristo que é Senhor de todas coisas se tornará evidente.  Em outras palavras, não basta ao cristão ser inteligente, ele deve ser inteligentemente cristão.

Referências

Dooyeweerd, Herman. No Crepúsculo do Pensamento. São Paulo: Hagnos, 2010.

Blomberg, Doug. Wisdom and Curriculum: christian schooling after postmodernity.  Sioux Center, Iowa: Dordt College Press: 2007.

Pearcey, Nancy. Total Truth: liberating christianity from its cultural captivity.  Wheaton, Illinois: Crossway Books, 2004.



11 de out de 2012 | By: @igorpensar

Mensagem para o Cristãos Brasileiros

Paul Washer, em sua primeira visita ao Brasil, para participar de alguns encontros e conferências, como as realizadas pela Editora Fiel, compartilha uma mensagem importante para os cristãos brasileiros.


2 de out de 2012 | By: @igorpensar

Camps da Hope

Imagens do último acampamento realizado por nossa amada e despretensiosa comunidade chamada Esperança!   Amo muito tudo isto...