22 de abr de 2008 | By: @igorpensar

EDUCAR PELAS PALAVRAS

Por Igor Miguel

Infelizmente há os que pensam que um vocabulário apropriado é desnecessário e remonta os tempos de uma educação por um conhecimento enciclopédico. Porém, a palavra tem mais função do que pensa o senso comum. Além de seu fim objetivo, a comunicação, a palavra tem como característica básica a síntese de significado, o que se denomina de conceito.

O conceito é uma palavra que amarra uma rede de palavras e evoca uma séria de impressões, imagens e sensações. A abordagem de L.S. Vygotsky (1987), que brilhantemente associa a palavra ao pensamento, traz essa idéia de que a palavra antecede as imagens mentais. O que parece ser gráfico ou imagens sensoriais no pensamento, na verdade é uma nuvem de palavras que evocam uma séria de impressões sensoriais ou experiências subjetivas. A palavra tem esse poder dialético, de ligar-se às coisas, mas ao mesmo tempo de não ser as coisas. Ele codifica a realidade e resume aqueles dados relevantes da realidade que têm vínculos com outras palavras, formando esquemas, uma grande teia semântica. Um movimento, que como afirma Luria, inicialmente é simpráxico (próximo das experiência objetivas e concretas do sujeito), evolui até a simsemântica (quando a palavra assume o poder de generalização e síntese).

Mas, o que a "palavra" tem haver com a educação?
O suficiente para nos preocuparmos com ela.

Na educação pública - por exemplo - o que se vê são alunos que chegam à vida estudantil dos diversos espaços familiares. Muitos vivem completamente desprovidos de quaisquer "mediação cultural", não lhes são introduzidos conceitos. Elas não são mediados por pais e as vezes muito pouco por professores. Lembro-me que Reuven Feuerstein (2002) desenvolveu o conceito de "Síndrome de Privação Cultural", que não é a falta de informação ou conhecimento. Na verdade, para Feuerstein, tal síndrome caracteriza-se pela privação que certos sujeitos sofrem, quando lhes são suprimidas aqueles códigos culturais necessários para que ele pense em sua própria esfera cultural.

Ou seja, crianças que não são introduzidas ao mundo das imagens, das expressões, da lógica, do pensar hipotético, das ferramentas psicológicas, do universo de significados e significantes, tendem a sofrer sérias disfunções cognitivas. Raramente vemos professores, que se preocupam em introduzir a idéia de que a palavra é uma ferramenta para ajudar a pensar. A palavra não implica só em "boa comunicação", mas principalmente, em "bom pensamento". Quanto mais o sujeito se apropria da palavra, mais preciso é seu poder de generalização, mais eficiente será sua articulação de idéias e conseqüentemente, sua capacidade para aprender. Por exemplo, na matemática, usa-se a expressão "propriedade": as propriedades da função do segundo grau, as propriedades da função exponencial, etc. Em português usa-se a expressão "análise": análise sintática, etc. Ora, enquanto não for apresentado aos educandos o que significa "propriedade" e "análise", ou ainda mais, enquanto esses sujeitos não tiverem internalizada a idéia de que essas palavras são FERRAMENTAS, eles terão dificuldade em articular (pensar) as informações que lhe são "transmitidas". Os termos "propriedade" e "análise" são um bom exemplo de palavras carregadas de funcionalidade. Elas costuram teorias, organizam conceitos e são instrumentos dentro do campo semântico, que precisam ser internalizadas a priori à compreensão do conteúdo. O cuidado de alguns educadores em "adaptar" o conteúdo disciplinar em uma linguagem infatilizada, acaba por privar educandos de conceitos e expressões, que são verdadeiras ferramentas ao processo de pensar. O pedagógico, nesse caso, seria introduzir palavras dentro de uma estrutura conceitual (na dinâmica da aula), expressões e palavras que possam ser usadas por seus educandos, e assim o educador deve ir percebendo, até que ponto seus alunos usam tais expressões espontaneamente. O erro, está em apresentar tais expressões soltas, ou descontextualizadas, como um conteúdo per si, ou uma lista de conceitos a serem memorizados. Palavras não são só palavras, palavras são coisas, as coisas como as percebemos, são ferramentas, que manipulam a realidade e nossa percepção sobre o mundo. Educar é sem dúvida, educar pela palavra.

Referência Bibliográfica

FEUERSTEIN, R.; FALIK, L.H.; FEUERSTEIN, R. S.; RAND, Y. The Dynamic Assessment of Cognitive Modifiability: the learning propensity assessment device: theory, instruments and techniques. Jerusalem: The ICELP Press, 2002.

VYGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

10 de abr de 2008 | By: @igorpensar

Policia Militar - MG e a invasão ao IGC-UFMG.

Sempre achei estranho a forma como as coisas acontecem em Minas Gerais em questão de política. Lá no Rio, com todos os problemas e transtornos, quando acontecia algum escândalo ou algum desconforto na esfera política, o esgoto era aberto e todo mundo ao menos tinha garantido o direito de saber o que estava acontecendo. Aqui em Minas Gerais, as coisas são meio obscuras, não são veiculadas de forma explícita, os movimentos são sufocados. A democracia é apenas um outro nome para um processo muito mais repressor, ao menos nestas províncias. Basta refletir sobre o que aconteceu no dia 03/03/2008 no Instituo de Geociências da UFMG.

Por isso achei por bem, republicar o manifesto da FAE/UFMG sobre a ação desnecessária, para não dizer repressora da Polícia Militar no Campus Pampulha.

Igor Miguel

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MANISFESTAÇÃO DA CONGREGAÇÃO DA FAE SOBRE A AÇÃO POLICIAL NO IGC

Fonte: http://www.fae.ufmg.br/manifesto_congrega%E7%E3o_fae.doc

A Congregação da Faculdade de Educação, reunida no dia 07/04/08, considerando os fatos ocorridos no IGC no dia 03/04/08, vem à público manifestar sua posição, nos termos que se seguem:

A ação policial de que a Universidade foi vítima é de enorme gravidade. O último precedente dessa natureza aconteceu há mais de 30 anos, na tentativa de realização do Terceiro Encontro Nacional dos Estudantes, na Faculdade de Medicina. Naquela ocasião a polícia invadiu e prendeu os estudantes, sem que nenhum ato de violência fosse praticado, dada a intervenção direta do então Reitor Eduardo Osório Cisalpino que lá esteve e saiu junto aos estudantes quando estes foram levados aos ônibus que os levariam presos. Há que se lembrar a dimensão dos fatos naquela ocasião: o terceiro ENE tentava reorganizar a UNE, banida por lei da Ditadura Militar. Tratava-se portanto de assunto de segurança nacional numa época de Ditadura.

O incidente que gerou a violência de quinta-feira era infinitamente menos grave e de pouca importância para que tivesse gerado o que gerou. Além disso, os estudantes que tentavam fazer a reunião estavam assegurados pela constituição federal, que no seu artigo 5º garante a liberdade de manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato (inciso IV); a liberdade de expressão de atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (inciso IX); e finalmente assegura que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente (inciso XVI).

Consideramos que o incidente reflete a nossa perda de identidade político-acadêmica. Transferimos nosso poder de decisão para outras instâncias. Nesse incidente, houve uma transferência de autoridade dos dirigentes para as forças repressivas (fossem essas a segurança interna ou a polícia). Estamos incorporando em nossas práticas uma visão criminalizadora da juventude, em que qualquer ato de rebeldia é identificado como ameaça à ordem pública. Excessos, radicalismos ocorrem como sempre ocorreram e ocorrerão. Mas a Universidade, e mais exatamente a UFMG, não pode pretender ser para seus alunos apenas o espaço de afirmação da excelência acadêmica. Ela tem um papel de espaço possível de exercício da rebeldia (quanto mais no mundo conformista de hoje), que atravessa a história da juventude e suas expressões.

Além disso, a polícia não pode invadir o campus sem ser convocada pelo(a) reitor(a). A universidade é território federal e a ação da polícia feriu o artigo 144º da Constituição Federal, que prevê as atribuições das diferentes forças policiais. Houve abuso de poder e extrapolação de competência nesse caso. Ao chamado, se por acaso ocorreu, a polícia deveria ter simplesmente respondido que ações na universidade são da competência da polícia federal.

Nesse sentido, a Congregação da Faculdade de Educação manifesta o apoio ao esclarecimento isento das responsabilidades pelo episódio, e solicita que seja exigido da polícia um pedido de desculpas e a apuração e possível punição dos responsáveis. Entendemos que sem esses encaminhamentos a universidade não vai poder curar sua ferida e o estado de direito que atualmente vigora na democracia brasileira terá sido violentado sem maiores conseqüências.

Sala da Congregação da Faculdade de Educação, 07 de abril de 2008