24 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Realmente Pentecostal

Por Igor Miguel


Não sou pentecostal, no sentido de que minha espiritualidade se resume à "experiência pentecostal", apesar de que a própria experiência dos apóstolos em pentecostes tinha outra conotação.

Os discípulos estavam reunidos no dia conhecido como
festa das semanas (hb. shavuôt), uma referência a festa das primícias de trigo celebrada 7 semanas (49) após a celebração das primícias (hb. bikurim) de cevada (celebrada logo após a pascoa), além de ser uma celebração de conotação agrícola, era uma festa de gratidão e rememoração da dádiva da lei (hb. Torá) no Monte Sinai.

Pentecostes era uma celebração de peregrinação (Dt 16:16) o que significa que as famílias judias eram convocadas a comparecerem em Jerusalém para celebrá-la.

A grande pergunta é:
por que o Espírito Santo foi derramado justamente no dia de pentecostes? A resposta está justamente na relação entre o Espírito Santo e a Dádiva da Lei.

O profeta Jeremias (31:31 e seg.) já houvera predito dias em que o Senhor (YHVH) firmaria uma Nova Aliança com a Casa de Israel e com a Casa de Judá. Dias que Ele inscreveria e imprimiria a
Torá na mente e nos corações. De fato, quando Paulo assevera que seu ministério é do Espírito e não da Letra (II Co 3:6 e seg.), não despreza a lei (a Palavra/Torá) da Nova Aliança, mas admite, que ela é reabilitada e opera de forma distinta naqueles que estão sob a graça de Cristo. Nestes termos, João Calvino observa de forma brilhante:
Quando, porém, nos movem acusação, de que nos apegamos demasiadamente à letra que mata, nisto incorrem na pena de desprezarem a Escritura. Ora, salta à vista que Paulo está ali [2Co 3.6] a contender com os falsos apóstolos, os quais, na realidade, insistindo na lei à parte de Cristo, alienavam o povo da graça da nova aliança, na qual o Senhor promete que haverá de gravar sua lei nas entranhas dos fiéis e lhas imprimir no coração [Jr 31.33]. Portanto, morta é a letra, e a lei do Senhor mata a seus leitores, quando não só se divorcia da graça de Cristo, mas ainda, não tangido o coração, apenas soa aos ouvidos. Se ela, porém, mediante o Espírito, é eficazmente impressa nos corações, se a Cristo manifesta, ela é a palavra da vida [Fp 2.16], a converter as almas, a dar sabedoria aos símplices etc. [Sl 19.7]. (Institutas, Livro I, Cap. IX, pgf. 2).
Confesso que fiquei muito feliz de ler as impressões de Calvino (no século XVI) e seu cuidado em deixar claro a perenidade da Lei na Nova Aliança, demonstrando que Paulo se opõe a uma observância legalista, desprovida de graça, da Torá (lei) que é santa, justa e boa (Rm 7:12).

O que ocorreu em pentecostes, foi uma "segunda" dádiva da "Torah" (lei ou instrução divina). Naquele dia, os preceitos de Deus foram inscritos nos corações dos santos, tornando-os em "testemunhas" (At 1:8). Outrora o que anunciava a vontade de Deus eram as "tábuas do testemunho" (Ex 31:18), tábuas de pedra. Agora, a partir de pentecostes, os santos testemunham a verdade de Deus, pelo Espírito Santo, em corações de carne [regenerados] e não mais de pedra (Ez 36). Afinal, o próprio verbo de Deus, Jesus Cristo, é inscrito em
união misteriosa com os santos por meio da adoção, pelo Espírito Santo.

Neste sentido, os santos não andam [comportam-se] mais segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8), pois o pecado, a única barreira entre o homem e a lei, fora desfeito em sua carne,
"a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito." (Rm 8:4).

Conclui-se que ser pentecostal, significa admitir a atuação do Espírito Santo em condicionar o homem a uma obediência voluntária e operosa, em permanente convite aos preceitos do Senhor, desfazendo a pretensa "autonomia" moderna, entregando-se à Lei da Liberdade (Tg 1:25). Celebrando, assim, a inscrição da lei na mente e nos corações, o que tornou os santos cartas vivas:


"Estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações." (II Co 3:3).

10 comentários:

Dan disse...

na mosca!

INSTITUTO ABBA disse...

Bom demais!!!! Quero sua permissão para postar "Realmente Pentecostal" no nosso blog. Beth.

Flavia Galante disse...

Como é bom entender! E melhor ainda, experimentar na prática, o equilíbrio das coisas que são lá do alto e compartilhadas por pura graça e misericórdia conosco, pessoas tão possíveis de errar. Meu caro, eu quero isso! O equilíbrio da lei e da graça, de todos os elementos criados por Deus para nos conduzir dia após dia em seus caminhos, através do Espírito Santo que compartilha o Santo e nos torna aptos a escolher assim a santidade em tudo, para a glória do Pai. Brigadú!!!

פֶחֵירָה disse...

OLÁ Prof Igor !

Não entendi esse parágrafo. abaixo.Poderia explicar, por favor?
"Os discípulos estavam reunidos no dia conhecido como festa das semanas (hb. shavuôt), uma referência a festa das primícias de trigo celebrada 7 semanas (49) após a celebração das primícias(hb. bikurim.)"

Não seria 7 semanas (49) após a celebração Pascoa?

@igorpensar disse...

Flavinha,

Que bom tê-la por aqui... Volte sempre tá, suas impressões são muito importantes.

Beth, pode publicar sim, só coloque um link lá pro blog no início do post tá?

Ferreira, obrigado pela observação, eu esqueci de especificar a que "primícias"eu me referia.

priel disse...

Shalom Igor. Primeira vez que entro no seu blog e estou impressionado com o conteudo. Pr Fernando de CTBA - Pr

priel disse...

Shalom Igor.

Primeira vez que visito o seu blog e fiquei impressionando.

Pr Fernando Halabura
CTBA - Pr

@igorpensar disse...

Obrigado Pr. Fernando, volte sempre, a casa ou melhor, o blog, está sempre aberto para você.

Leandro Prata disse...

É verdade Igor com bom pentecostal nós damos enfase aos dons operado pelo Espírito, mas nada pode substituir o pilar da fé que é a Torah e o Tanach e a explicação na Berit haDasha, não em debate, mas em práxis.

@igorpensar disse...

Eu diria, que nada pode substituir a centralidade de Jesus Cristo.

Igor