27 de mar de 2010 | By: @igorpensar

Especial: Raízes Cristãs do Sionismo

Por Igor Miguel

Há um termo, que não é muito corrente no Brasil, mas que é vastamente utilizado e conhecido nos EUA e na Europa, a expressão “sionismo cristão”. O sionismo cristão é uma referência a cristãos que se identificam com a causa sionista, ou seja, apoiam direta ou indiretamente o direito dos judeus existirem como nação em sua própria terra.

Há poucas semanas, o Brasil foi testemunha da apatia e da omissão do Presidente Lula quando não quis visitar o túmulo do ideólogo da doutrina sionista, Theodore Herzl. Com este ato, o presidente trouxe muito desconforto a ala conservadora do Brasil e diretamente à comunidade judaica local, internacional e o povo israelense.

Porém, costumeiramente, o sionismo é visto de forma restrita, como uma iniciativa político-nacionalista dos judeus, inspirada direta ou indiretamente em motivos religiosos. Apesar de que o próprio Herzl não tinha motivos religiosos em sua agenda política, sabe-se que sem o apoio dos judeus religiosos e a clara intensão de repatriação dos judeus na antiga e histórica Eretz Israel (Terra de Israel), o sionismo fracassaria enquanto ideologia.

Agora, uma faceta que pode parecer nova para muitos judeus e até mesmo para cristãos, é que nem tanto a doutrina sionista, mas o movimento sionista propriamente dito, deve-se em grande parte a uma ala cristã protestante, cuja visão de mundo, parte de pressupostos religiosos muito específicos. Sem o apoio de cristãos sionistas e o filo-semitismo de determinados segmentos cristãos, o movimento sionista poderia não ter o apoio de importantes personagens, seja em segmentos políticos internacionais, ou mesmo o apoio popular neste sentido.

Exatamente! Me choquei também com a afirmação acima, mas ela me pareceu fazer muito sentido, quando li o artigo do Professor Shalom Goldman, docente da Emory University responsável pela cadeira de Hebraico e Estudos sobre o Oriente Médio, publicado no site Religion Dispatches com o título Excerpt: The Christian Roots of Zionism.

Shalom Goldman destaca o fato de que o historiador Richard Popkin escreveu no início do século XX que “Muito do sionismo tem suas raízes no cristianismo ao invés da doutrina judaica”. Isto se deve, segundo Goldman, a uma visão teológica e hermenêutica literalista das Escrituras de alguns cristãos. Exatamente isto, enquanto linhas mais próximas de uma hermenêutica alegórica, como o catolicismo, correntes luteranas e anglicanas; tradições mais apegadas à hermenêutica literal e mais inclinadas ao texto bíblico propriamente dito, do que a uma tradição, compreenderão as profecias bíblicas, não como um texto alegorizado, ali Israel é Israel, não é uma analogia da Igreja, ou o “Israel Espiritual”, é literalmente o povo judeu.

Um elemento, que causou um impacto muito grande nesta percepção cristã anglo-saxônica, tem raízes bem mais antigas, fato não mencionado por Goldman no artigo. Me refiro ao israelismo britânico, ou também conhecido como anglo-israelismo entre os séculos XVII-XVIII, que foi um movimento importante em que puritanos e calvinistas hiper enfatizaram os vínculos entre a eleição de Israel e dos cristãos.

Nas institutas, Calvino procura demonstrar, como brilhantemente faz em suas construções teológicas, que a doutrina da eleição presente no Novo Testamento, tem fundamento no Antigo Testamento, quando Deus elegeu Israel dentre as nações. Para Calvino, esta é a referência de Paulo quando elaborou o capítulo 9 de Romanos. Vale a pena dar uma lida no post Calvino e os Judeus. Na Grã Bretanha a conexão entre Antigo Testamento, Israel e Cristianismo eram tão fortes, que no prefácio da Versão King James, a Inglaterra é chamada de Sião.

Este elo entre a eleição calvinista e a eleição de Israel, causou um impacto muito forte na cultura inglesa, uma relativa simpatia ao povo judeu, que era aquecida pelo literalismo teológico presente em determinados círculos reformados e até mesmo não reformados.

Poderíamos citar homens praticamente desconhecidos no ocidente como Richard Brothers (1757-1824), calvinista que em 1793 se viu, segundo ele por uma revelação, como um instrumento para a reunião dos judeus de volta para a Terra de Israel, denominada por ele de Palestina. Brother em 1795 escreveu um livro intitulado A Revealed Knowledge of Prophecies and Times (Um Revelado Conhecimento das Profecias e dos Tempos), este livro é uma amostra do tratamento literal dado às profecias bíblicas. Este critério hermenêutico, cujo impacto na cultura inglesa e americana, pavimentará a relativa simpatia destes países pelo povo judeu e o futuro apoio a um moderno estado para abrigá-los.

Houveram vários “profetas” milenaristas e filo-semitas de correntes calvinistas durante os séculos XVII e XVIII. O israelismo britânico tornou-se tão forte neste período, que exageros foram inevitáveis, como a associação de Grã-Bretanha com as tribos perdidas de Israel, previsões escatológicas por datações e cálculos genealógicos e outros desvios teológicos. Porém, não se pode negar, que esta euforia profética e a percepção calvinista de aceleração da redenção pela atuação dos santos no mundo, impactou profundamente a cultura anglo-saxônica em seu favorecimento aos judeus.

O que o dispensacionalismo, mais tarde faria, distinguindo entre Israel e Igreja, seria uma contribuição positiva, mas já sob impacto da interpretação escatológica literalista de correntes calvinistas inglesas. Apesar do próprio John Nelson Darby (1800-1882), pai do dispensacionalismo, não ser de origem calvinista, sentiria as pressões culturais do que tinha sido legado há quase um século atrás.

Shalom Goldman, autor do artigo em questão, destaca em seu texto um fato moderno que pode ser mapeado na lógica apresentada até aqui. Segundo ele, nos EUA em 1948, o então Presidente Truman, foi favorável à constituição do Estado de Israel por motivos religiosos. Esta evidência foi confirmada, quando em 1953, agora ex-presidente Truman, foi convidado para palestrar no Jewish Theological Seminary (Seminário Teológico Judaico) em Nova Iorque. O rabino que o convidou, o apresentou como “... o homem que ajudou a criar o Estado de Israel...”. Em resposta Truman disse: “O que você quis dizer com 'criou'? Eu sou Ciro! Eu sou Ciro!”. Fazendo referência ao famoso rei persa que decretou o retorno dos judeus do exílio para a Terra Santa.

Um outro elemento importante no texto de Shalom Goldman é o destaque que dá à popularidade americana dada à saga do povo judeu na reconstrução de sua nação. Ele menciona que uma dos protagonistas, do filme campeão de bilheteria Exodus, era uma enfermeira cristã que trabalhava para a cruz vermelha em Israel, que ao ver o recente exército de Israel (IDF) enfileirado, declarou em tom quase profético:

“Este não é um exército de mortais. Estes são os antigos hebreus! Estas são as faces de Dã e Rubens, Judá e Efraim! Estes são Sansãos e Déboras, Joabes e Sauls. Este é o exército de Israel, e nenhuma força na terra poderá pará-los, pois o poder de Deus está com eles.” (tradução nossa).
Sem dúvida, o movimento sionista deve em muito ao cristianismo, em especial determinadas correntes teológicas, sem as quais, não haveria o apoio do ocidente pela fundação do moderno Estado de Israel. Graças a Deus, pois apesar de determinados segmentos do cristianismo terem virado às costas para os judeus durante o holocausto, outro segmento mostrou-se sensível às profecias e ao direito deste povo existir como nação em sua própria terra.

5 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Olá, Igor!

Muito bom o texto, ao afirmar a ligação entre o Estado de Israel e o Cristianismo. Isto vem de encontro aos princípios bíblicos de que a Igreja tem o dever de ser luz entre as trevas.

Interessante também é que a visão pré-milenista foi deflagradora desse processo [mais detidamente o dispensacionalismo], ainda que eu, como aliancista, não considere a eleição de Israel aparte da eleição da Igreja; Deus não escolheu dois povos para Si, mas apenas um.

Curioso que o Cristianismo, ou parte dele, se é que assim podemos chamar, durante séculos perseguiu e matou judeus; para, depois, fomentar o Estado Israelense. Como você disse, boa parte dos cristãos se calaram durante o nazismo [e ainda hoje se calam, e consentem, com as atrocidades marxistas cometidas contra cristãos mundo afora], desprezando o Evangelho em favor das ideologias diabólicas.

Pergunta: como vê que, notadamente, entre os judeus há um crescente ateísmo e materialismo?

Isso lhe parece coerente dentro da doutrina dispensacionalista que aponta para uma grande apostasia entre os judeus, próximo da vinda do anticristo?

Não tem a ver com o seu texto, mas fiquei curioso em entender sua visão escatológica.

Abraços.

Cristo o abençoe!

@igorpensar disse...

Olá Jorge,

Valeu pelo comentário, vc é sempre bem vindo por aqui. O problema que o judaísmo vive hoje no mundo é fruto de um movimento antigo, que começou no século XVII-XVIII chamado "chaskalá", que seria um tipo de "iluminismo do judaísmo", lá, abriu-se os "guetos" e o judeu saiu para o mundo dito "secular". Muitos, preferiram dialogar a visão de mundo bíblico-judaica com esta realidade, procurando criticá-la, entre eles estão grandes nomes como de Martin Buber, Franz Rosenzweig, e outros. Porém, o próprio Kuyper na Holanda terá problemas com esta tendência judaica no séc. XIX na Holanda. Pois eram na maioria favoráveis à revolução nos moldes franceses, enquanto o próprio Kuyper se posiciona contra, quando da fundação do Partido Anti-Revolucionário. Por outro lado, reduzir a comunidade judaica internacional apenas ao secularismo, seria no mínimo injusto, há judeus que se limitam ao universos ultra-ortodoxo e há os que estão fora deste universo sem perder suas raízes religiosas e seu monoteísmo. O que é interessante!

Quanto à escatologia, sou simpático à percepção reformada de escatologia, apesar de que há alguns problemas aqui e acolá, que se preencheria, caso os pais da reforma tivessem acesso às reflexões feitas por pesquisadores sobre a "escatologia judaica". De fato, apocalipse é um eco de muitos ditos escatológicos presentes em Qunram, na escatologia alexandrina, etc. Tenho um livro, que não se acha em português (onde me consta) que se chama "The Method and Message of Jewish Apocalyptic" de D.S. Russel tem trazido muito luz neste sentido.

Temos que fazer diferença entre eleição para salvação (que exige graça especial, nos termos reformados) e a vocação (ou chamamento) nacional. Israel, neste sentido, tem um papel, uma escolha específico, algo que o próprio Calvino reconhece nas institutas, daí ser tido como um reformador filo-semita. Destaco um trecho citado em meu post "Calvino e os Judeus", retirado de sua obra "The Huguenotes, the Jews and Me":

"Esta pequena nação [os judeus], ele [João Calvino] explica, foi escolhido por Deus para manifestar seu amor, não porque os judeus eram menos pecaminosos que os outros povos, mas porque esta foi a eterna, imerecida e inqüestionável decisão de Deus: 'Deus tem atestado isto [predestinação] não apenas em pessoas individuais', ele escreveu, 'mas nos deu um exemplo disto em toda descendência de Abraão...'. Ele também sustentava que: '[aqueles que dizem que a bondade de Deus se estende a todas as criaturas], deixe-os responder porque Deus vinculou-se a um povo, para ser seu pai..."

De qualquer forma, vamos pensando...

Jorge Fernandes Isah disse...

Igor,

ative-me especificamente à eleição para salvação, esquecendo-me de que Israel foi eleita a nação do Messias. Por isso, Paulo explica em Gálatas (se não me engano) que Deus falou a Abraão não de que lhe daria descendências, mas daria uma descendência, referindo-se a Cristo, como o Verbo encarnado que viria da linhagem de Abraão (e de todos nós, crentes, ao meu ver também); assim como os judeus também são seus descendentes, como nação.

Interessante que o diabo, desde os céus, promove a rebeldia a Deus. Por isso a sua citação sobre o(a) "chaskalá" põe luz na rejeição que muitos judeus têm à fé ortodoxa.

Hoje, o homem despreza, de uma forma geral, os princípios judaico-cristãos, substituindo-os pela fé na ciência, na natureza, no cosmos, em duendes, etc; comprovando o nível de irracionalidade que crassa os tempos modernos.

Quer dizer que a neo-ortodoxia e o liberalismo teológico são consequências, em algum ponto, do(a) "chaskalá"? Ou estou enganado?

Abraços.

Cristo o abençoe!

Vítor Carvalho Ferolla disse...

Se Richard Brothers viveu entre 1757 e 1824 como ele teve uma revelação em 1973?


Texto mt bom, já tinha lido alguma coisa sobre na wikipedia em inglês.



abração,
fique na graça!

@igorpensar disse...

Corrigindo... 1793. Agora está certo. Valeu pelo toque.