31 de mar de 2010 | By: @igorpensar

O Nosso Fardo e o Fardo de Frodo

Por Igor Miguel

Tirei este ano para colocar as obras de J.R.R. Tolkien na minha agenda de leituras. Comecei com O Hobbit, naturalmente, e depois a trilogia Senhor dos Anéis. Depois de ver o filme, o livro me pareceu realmente muito mais rico em detalhes e ficou evidente as disparidades inevitáveis para uma produção hollywoodiana, que pretendia ser campeã de bilheteria. Sem desmerecer o filme, pois ele ainda continua sendo um excelente filme, que deixa claro que os produtores tiveram o cuidado de estudar a trilogia antes de se aventurarem nas filmagens. Traduzir as obras de Tolkien e sua genialidade em película foi de uma ousadia insuperável.

Minha leitura da saga do Anel, está me surpreendendo, talvez pela identificação inevitável com algumas figuras, com alguns arquétipos presentes na obra. Me identifico muito com a sabedoria e a sobriedade de Gandalf, com a honradez e a coragem de Aragorn, mas me comove a figura do hobbit, Frodo o Bolseiro.

Me identifiquei com sua missão. Um jovem que vivia enraizado na agradável nostalgia do Condado, uma região agrícola, pacata como seus moradores. Desta terra sem muito destaque, sem grandes reis, guerreiros, elfos ou sábios, fora escolhido um jovem, para os padrões hobbits, que levaria o terrível anel. Neste anel concentrava-se um grande poder, mas tão grande, que mesmo os mais piedosos, experimentados e honrados homens, não ousavam tocá-lo, temiam ser corrompido por ele. Mas, o jovem Frodo, de início segurava o anel com tal simplicidade, que parecia subestimá-lo por seu tamanho, se questionando, como algo tão aparentemente ínfimo poderia provocar tanto desconforto.

Por justamente sua simplicidade, seu coração se mostrou forte ao aceitar a missão que ninguém suportaria: levar o maldito anel até o único lugar que poderia ser destruído.

A trajetória de Frodo até o Monte da Perdição é narrado por vários momentos de alegria, de belos encontros, de cores, florestas místicas, pássaros exóticos, mas frequentemente e cada vez com mais intensidade a tentação recaía sobre o homem pequeno e não pequeno homem, Frodo. O anel tornava-se cada vez mais pesado, o jugo aumentava, e duras decisões recaiam sobre seus ombros.

As vezes, sobre nossos ombros recaem responsabilidades que temos vontade de voltar para o Condado, de regredirmos para o calor do útero materno, de desistir, voltar para a infância. Lá a responsabilidade não doía no pescoço, o poder não nos tentava, lá era o lugar da infância, do correr livre, dos cheiros, do som da família.

Mas, a responsabilidade urge, alguém tem que levar a cruz, alguém tem que carregar a maldição, e levá-la até seu cabal cumprimento. Alguém tem que se negar, alguém tem que abrir mão de si mesmo e de suas aspirações, por algo mais nobre, por algo que faça sentido.

Em vários momentos, Frodo pega-se lamentando, se questionando, querendo passar o Fardo (como chama) para outro. Mas, o fardo é dele, o sucesso ou fracasso da missão estão sobre seus ombros. Se não fossem vozes amigas dizendo: "- Vai! Não podemos carregar, mas estaremos contigo, te protegendo, te suportando, continue!"; se não fosse a sociedade, a comitiva de amigos, Frodo teria fracassado...

As vezes é difícil carregar o fardo. Mais difícil do que se imagina. Mas, alguém deve fazê-lo, e os que estão de fora, olham assombrados não entendendo como ele consegue, pois ninguém consegue. Mas, de alguma forma, todos lançam-lhe um olhar de misericórdia e piedade, mesmo sabendo que ele é humano como todos e que carrega seu próprio jugo. No final das contas, o que determina o peso de nossa missão, não é tanto a missão em si, mas quem nos acompanha. Como Sam, amigo de Frodo que o suportou até o final. A qualidade de nossos vínculos, os pactos de amor que firmamos, as alianças de ajuda mútua, são coisas assim que nos ajudam a suportar.

O que me consola é que há um companheiro, um parceiro de dor, que levou tudo sobre Ele, levou aquilo que realmente pesava. Levou nossa pretensão, altivez e autonomia. Nos tornando livres! Ele se tornou maldição em nosso lugar e por isso disse:
Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mt 11:30)

Amém!
27 de mar de 2010 | By: @igorpensar

Especial: Raízes Cristãs do Sionismo

Por Igor Miguel

Há um termo, que não é muito corrente no Brasil, mas que é vastamente utilizado e conhecido nos EUA e na Europa, a expressão “sionismo cristão”. O sionismo cristão é uma referência a cristãos que se identificam com a causa sionista, ou seja, apoiam direta ou indiretamente o direito dos judeus existirem como nação em sua própria terra.

Há poucas semanas, o Brasil foi testemunha da apatia e da omissão do Presidente Lula quando não quis visitar o túmulo do ideólogo da doutrina sionista, Theodore Herzl. Com este ato, o presidente trouxe muito desconforto a ala conservadora do Brasil e diretamente à comunidade judaica local, internacional e o povo israelense.

Porém, costumeiramente, o sionismo é visto de forma restrita, como uma iniciativa político-nacionalista dos judeus, inspirada direta ou indiretamente em motivos religiosos. Apesar de que o próprio Herzl não tinha motivos religiosos em sua agenda política, sabe-se que sem o apoio dos judeus religiosos e a clara intensão de repatriação dos judeus na antiga e histórica Eretz Israel (Terra de Israel), o sionismo fracassaria enquanto ideologia.

Agora, uma faceta que pode parecer nova para muitos judeus e até mesmo para cristãos, é que nem tanto a doutrina sionista, mas o movimento sionista propriamente dito, deve-se em grande parte a uma ala cristã protestante, cuja visão de mundo, parte de pressupostos religiosos muito específicos. Sem o apoio de cristãos sionistas e o filo-semitismo de determinados segmentos cristãos, o movimento sionista poderia não ter o apoio de importantes personagens, seja em segmentos políticos internacionais, ou mesmo o apoio popular neste sentido.

Exatamente! Me choquei também com a afirmação acima, mas ela me pareceu fazer muito sentido, quando li o artigo do Professor Shalom Goldman, docente da Emory University responsável pela cadeira de Hebraico e Estudos sobre o Oriente Médio, publicado no site Religion Dispatches com o título Excerpt: The Christian Roots of Zionism.

Shalom Goldman destaca o fato de que o historiador Richard Popkin escreveu no início do século XX que “Muito do sionismo tem suas raízes no cristianismo ao invés da doutrina judaica”. Isto se deve, segundo Goldman, a uma visão teológica e hermenêutica literalista das Escrituras de alguns cristãos. Exatamente isto, enquanto linhas mais próximas de uma hermenêutica alegórica, como o catolicismo, correntes luteranas e anglicanas; tradições mais apegadas à hermenêutica literal e mais inclinadas ao texto bíblico propriamente dito, do que a uma tradição, compreenderão as profecias bíblicas, não como um texto alegorizado, ali Israel é Israel, não é uma analogia da Igreja, ou o “Israel Espiritual”, é literalmente o povo judeu.

Um elemento, que causou um impacto muito grande nesta percepção cristã anglo-saxônica, tem raízes bem mais antigas, fato não mencionado por Goldman no artigo. Me refiro ao israelismo britânico, ou também conhecido como anglo-israelismo entre os séculos XVII-XVIII, que foi um movimento importante em que puritanos e calvinistas hiper enfatizaram os vínculos entre a eleição de Israel e dos cristãos.

Nas institutas, Calvino procura demonstrar, como brilhantemente faz em suas construções teológicas, que a doutrina da eleição presente no Novo Testamento, tem fundamento no Antigo Testamento, quando Deus elegeu Israel dentre as nações. Para Calvino, esta é a referência de Paulo quando elaborou o capítulo 9 de Romanos. Vale a pena dar uma lida no post Calvino e os Judeus. Na Grã Bretanha a conexão entre Antigo Testamento, Israel e Cristianismo eram tão fortes, que no prefácio da Versão King James, a Inglaterra é chamada de Sião.

Este elo entre a eleição calvinista e a eleição de Israel, causou um impacto muito forte na cultura inglesa, uma relativa simpatia ao povo judeu, que era aquecida pelo literalismo teológico presente em determinados círculos reformados e até mesmo não reformados.

Poderíamos citar homens praticamente desconhecidos no ocidente como Richard Brothers (1757-1824), calvinista que em 1793 se viu, segundo ele por uma revelação, como um instrumento para a reunião dos judeus de volta para a Terra de Israel, denominada por ele de Palestina. Brother em 1795 escreveu um livro intitulado A Revealed Knowledge of Prophecies and Times (Um Revelado Conhecimento das Profecias e dos Tempos), este livro é uma amostra do tratamento literal dado às profecias bíblicas. Este critério hermenêutico, cujo impacto na cultura inglesa e americana, pavimentará a relativa simpatia destes países pelo povo judeu e o futuro apoio a um moderno estado para abrigá-los.

Houveram vários “profetas” milenaristas e filo-semitas de correntes calvinistas durante os séculos XVII e XVIII. O israelismo britânico tornou-se tão forte neste período, que exageros foram inevitáveis, como a associação de Grã-Bretanha com as tribos perdidas de Israel, previsões escatológicas por datações e cálculos genealógicos e outros desvios teológicos. Porém, não se pode negar, que esta euforia profética e a percepção calvinista de aceleração da redenção pela atuação dos santos no mundo, impactou profundamente a cultura anglo-saxônica em seu favorecimento aos judeus.

O que o dispensacionalismo, mais tarde faria, distinguindo entre Israel e Igreja, seria uma contribuição positiva, mas já sob impacto da interpretação escatológica literalista de correntes calvinistas inglesas. Apesar do próprio John Nelson Darby (1800-1882), pai do dispensacionalismo, não ser de origem calvinista, sentiria as pressões culturais do que tinha sido legado há quase um século atrás.

Shalom Goldman, autor do artigo em questão, destaca em seu texto um fato moderno que pode ser mapeado na lógica apresentada até aqui. Segundo ele, nos EUA em 1948, o então Presidente Truman, foi favorável à constituição do Estado de Israel por motivos religiosos. Esta evidência foi confirmada, quando em 1953, agora ex-presidente Truman, foi convidado para palestrar no Jewish Theological Seminary (Seminário Teológico Judaico) em Nova Iorque. O rabino que o convidou, o apresentou como “... o homem que ajudou a criar o Estado de Israel...”. Em resposta Truman disse: “O que você quis dizer com 'criou'? Eu sou Ciro! Eu sou Ciro!”. Fazendo referência ao famoso rei persa que decretou o retorno dos judeus do exílio para a Terra Santa.

Um outro elemento importante no texto de Shalom Goldman é o destaque que dá à popularidade americana dada à saga do povo judeu na reconstrução de sua nação. Ele menciona que uma dos protagonistas, do filme campeão de bilheteria Exodus, era uma enfermeira cristã que trabalhava para a cruz vermelha em Israel, que ao ver o recente exército de Israel (IDF) enfileirado, declarou em tom quase profético:

“Este não é um exército de mortais. Estes são os antigos hebreus! Estas são as faces de Dã e Rubens, Judá e Efraim! Estes são Sansãos e Déboras, Joabes e Sauls. Este é o exército de Israel, e nenhuma força na terra poderá pará-los, pois o poder de Deus está com eles.” (tradução nossa).
Sem dúvida, o movimento sionista deve em muito ao cristianismo, em especial determinadas correntes teológicas, sem as quais, não haveria o apoio do ocidente pela fundação do moderno Estado de Israel. Graças a Deus, pois apesar de determinados segmentos do cristianismo terem virado às costas para os judeus durante o holocausto, outro segmento mostrou-se sensível às profecias e ao direito deste povo existir como nação em sua própria terra.

23 de mar de 2010 | By: @igorpensar

Palestra: Oficina do Pensamento

Prezados leitores,

Reproduzo abaixo o convite da turma do Ministério Gerar a respeito do evento "Oficina do Pensamento" em que estarei palestrando.

Abraços,
Igor Miguel
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Oficina do Pensamento

Queridos amigos,


Convidamos à realização da Oficina do Pensamento, onde os participantes terão a oportunidade de dialogar sobre um tema específico, porém bastante abrangente, preparado pelos mestres e facilitadores: André Tavares, Igor Miguel, Pedro Martins e Rodolfo Amorim. Esse tema será trabalhado em mesas de discussão informal, durante os dois dias de permanência no local.

Devido a esse evento ser no sítio do Vô, em Rio Acima, limitamos o número de vagas em apenas 20 inscrições!! Portanto, faça imediatamente a sua reserva. Será um imenso prazer recebê-lo!

Cronograma:

Dia 17 - Sábado:
  • 14hs - Chegada dos participantes - acomodação e esclarecimentos
  • 15hs - Coffee break
  • 16hs - Primeira Abordagem Temática
  • 18hs - Intervalo e jantar
  • 20hs - Dinâmica interativa
  • 21:30hs - Café com louvor
  • 22:30hs - Descanso
Dia 18 - Domingo:
  • 7:30hs - Café da manhã
  • 08hs - Segunda Abordagem Temática
  • 10hs - Coffee break
  • 10:30hs - Visita à cachoeira do Pastinho
  • 12hs - Almoço
  • 14:30hs - Terceira Abordagem Temática
  • 16hs - Café e preparação para retorno
Maiores informações: contato@ministeriogerar.com.br
Tel: (31) 3296-9912 | 8463-4929

Clique na imagem abaixo para ver o cartaz:


Teologia Relacional: ortodoxia privada.

Por Igor Miguel

Para quem não conhece, vale a pena "googlear" e levantar alguns dados sobre o que é conhecido ou denominado por "teologia relacional" ou "teísmo aberto". Lembrando que o termo "teologia relacional" (a versão brasileira de open theism), foi cunhado, segundo se afirma, pelo Pr. Ricardo Gondim e Santlei Belan.

Pois bem, o próprio Ricardo Gondim expõe em seu site, sua concepção sobre o que seria a teologia relacional. Mesmo ao afirmar no prefácio, que não quer se circunscrever dentro de limites ou rotulações teológicas, acaba por se batizar ao cunhar um termo para se localizar teologicamente. Curiosa a adoção desta postura pós-moderna de uma imprecisão ou um posicionamento teológico não-confissional. Curiosa esta coisa de uma ortodoxia privada. Uma ortodoxia que é um tapete de retalhos de heterodoxias. Ortodoxia em seu discurso é fundamentalismo, reducionismo. Será? Interessante ele dizer:
"... não gosto de rótulos ou cercas que buscam circunscrever as pessoas dentro de categorias. Considero pobre e reducionista taxar alguém de calvinista, arminiano, liberal, relativista ou de qualquer outra coisa. Digo isso porque busco não deixar-me restringir a uma “nova” teologia ou repetir pensamentos enlatados, vindos de fora."
E logo depois:
"... o termo “Teologia Relacional” foi cunhado por mim e pelo Stanlei Belan, um engenheiro muito amigo, membro da Betesda. Em nossos “papos-cabeça”, notamos que carecíamos de uma expressão que nos ajudasse a conceituar nossos arrazoamentos."
Na citação anterior, há uma crítica ao uso de rótulos. E de súbito, sem que o leitor perceba, o termo 'Teologia Relacional" torna-se uma expressão que ajuda a "conceituar". Ora bolas, se ajuda, então, por que será que calvinistas dizem que são calvinistas? Por que arminianos dizem que são arminianos? Porque ao menos, se propõem a organizar seus "arrazoamentos".

Na primeira citação é pós-moderno, escorrega e relativiza, no segundo momento ele "conceitua", cria uma outra categoria. Isso para mim é a privatização, a pessoalização de uma "ortodoxia". Ele não quer admitir uma identificação com as grandes tradições, mas quer se identificar com sua própria percepção teológica. Ortodoxia privada!

Nenhum ser humano é a-ortodoxo. Mesmo a pretensa agenda de a-ortodoxia é um posicionamento, uma crença na incerteza. A a-ortodoxia do Pr. Gondim é "ortodoxamente relacional", e como ele adimite, a teologia relacional foi criação sua, ou pelo menos o termo. E, ainda sustenta uma diferença entre teísmo aberto e teologia relacional. Ao menos é o que ele deseja sustentar em seu texto:
"Teísmo Aberto e Teologia Relacional não são a mesma coisa. Vou tentar explicar a diferença."
Porém, em outro momento ele diz:
"Nicodemus* quer, com uma só tacada, demolir as premissas do teísmo aberto..."
Observe, que a partir deste trecho há um tom apologético em relação ao teísmo aberto, e em nenhum momento viu-se uma tentativa real, da pretensa distinção entre teologia relacional e o teísmo aberto. Por um motivo óbvio: a distinção não existe! A teologia relacional defendida no texto é o teísmo aberto. Um "enlatado norte americano". Lembrando que o termo open theism ou open theology (teologia aberta) fora criado pelo americano Richard Rice, um teólogo adventista do sétimo dia, em sua obra: The Openness of God (A Abertura de Deus).

Enfim, meu problema com a posição teológica defendida pelo Pr. Ricardo Gondim, e digo bem claro, sua posição teológica, e não sua pessoa, é a respeito de sua postura escorregadia, sua descontinuidade e relatividade teológicas. Relatividade, até onde interessa, pois quando não interessa, quando desorganiza, apela-se às conceituações e a rótulos inevitáveis.
"... cada posição é uma ortodoxia. A única questão é 'de quem?' (Douglas Wilson).
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*Nicodemus, é uma referência ao teólogo presbiteriano Augustus Nicodemus autor de um artigo em que se posicona a respeito da teologia relacional a partir da visão reformada.
21 de mar de 2010 | By: @igorpensar

Palestra: Reino de Deus no RJ

Prezados leitores do Rio de Janeiro,

Apenas para informação. Na próxima segunda e terça-feira (22 e 23/03) às 19 horas estarei ministrando o tema Os Mistérios do Reino de Deus no CATES-RJ , a participação desta disciplina é aberta ao públicos gratuitamente. Segue abaixo o endereço:

Rua João Afonso - nº 29 / 101 - Humaitá (esquina com a Rua Humaitá, próximo a Lagoa Rodrigo de Freitas) - veja o mapa.

Será um prazer recebê-los lá!
Prof. Igor Miguel


10 de mar de 2010 | By: @igorpensar

Palestra: Lucas e João

Quero convidar todos os interessados, para participarem da minha aula semana que vem (dia 15 e 16 de março/10) sobre as raízes judaicas do Evangelho de Lucas e João. Um panorama a partir da perspectiva narrativa. Destacando elementos da cultura judaica presentes no texto e explorando temas teológicos relevantes. Segue abaixo o índice programático da disciplina:

Introdução
a) Método: Teologia Narrativa;
b) A Fé em Jesus x A Fé de Jesus;
c) Jesus Homem, Jesus Judeu;
A. Evangelho de Lucas
I. Detalhes Estruturais
1. O Texto;
2. Canonicidade;
3. Autoria;
4. O Método de Lucas;
5. Credibilidade;
6. Características;
7. Datação.
II. Lições de perícopes narrativas:

B. Evangelho de João
I. Detalhes Estruturais
1. O Texto;
2. Canonicidade;
3. Autoria;
4. O Método de Lucas;
5. Credibilidade;
6. Características;
7. Datação.
II. Lições de perícopes narrativas:
Considerações finais:

Dia 15 e 16 de março/2010. Local: CATES (Centro Avançado de Teologia - Ensinando de Sião). Av. Antônio Abrahão Caran, 980 - Pampulha (em frente ao Estádio Mineirão) - Belo Horizonte-MG. Horário: 19 às 22:20h. Custo: aula experimental (grátis). Informações: (31) 3498-1761.

Abraços,
Prof. Igor Miguel

8 de mar de 2010 | By: @igorpensar

Pecado é Entropia, o Reino é Potência

Por Igor Miguel

Este final de semana, tive um diálogo muito frutífero com meu amigo Aender Borba, autor do blog psi-cultura. Ouvi-lo falar sobre a existência do trabalho antes da "queda do homem" e da falsa crença associada ao cristianismo, de que o "trabalho é uma maldição do pecado", foi muito inspirador. Como somos bons parceiros de reflexão filosófica, teológica e psicológica, e este é nosso universo, "viajamos" um pouco e chegamos a uma conclusão interessante.

Falávamos sobre entropia, termo usado na física para se referir uma grandeza da termodinâmica, que é responsável pela perda de energia inerente a alguns processos físicos, como o trabalho.

Quando a Bíblia fala que o homem "cultivava" o Jardim do Éden, o termo hebraico encontrado lá é laavdá - לעבדה - o verbo "trabalhar" em hebraico. Este verbo, como muitos verbos em hebraico, é derivado do substantivo avodá - עבדה - que literalmente pode ser traduzido por trabalho. Desta forma, dentro da narrativa bíblica, nos deparamos com um indício teológico consistente de que existia trabalho e cultura antes da queda. O que significa que a concepção de que o "trabalho" é uma espécie de maldição, após o surgimento do pecado, é uma grande falácia.

O que mudaria então? A relação ou a forma como o homem lidaria com o trabalho desde então. Por isso o texto diz:
"No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás." (Gn 3:19).
Já tinha lido este texto milhares de vezes, sem contar as vezes que o ouvi. Porém, um detalhe me chamou a atenção, ao ouvir o Aender palestrando, foi o destaque que ele deu ao termo "suor". No mesmo instante, me veio a pergunta (em um estilo bem judaico de pensar): Por que suamos? Adão não suava antes? Por que não? Claramente me veio um insight!

O suor é um sintoma da entropia. Ele serve para retirar parte da energia investida em trabalho. Como o corpo humano não resiste temperaturas acima de determinados limites, a transpiração dá um tratamento termorregulador a esta energia "extra". Ou seja, o homem transpira porque não consegue aproveitar eficientemente 100% de sua capacidade de trabalho. Toda energia aplicada a um determinado trabalho, em parte, é desperdiçada.

A conclusão inevitável é que o pecado é "entrópico", o que significa que ele drena a capacidade humana de administrar sua força de trabalho, ele impede a fluidez e a distribuição apropriada de todo potencial criativo do homem.

Agora, ao inverter esta lógica. Se a queda resultou em comprometimento da capacidade criativa do homem, logo, o homem antes da queda aproveitava 100% desta capacidade. O que significa, que um esforço relativamente "pequeno" de Adão, podia resultar em efeitos criativos realmente assombrosos. Estou especulando, mas me parece uma lógica coerente.

Esta reflexão, permite uma analogia curiosa. O termo avodá (trabalho) também pode ser aplicado à adoração ou serviço. Há várias referências do uso do substantivo (e o verbo derivado dele) aplicadas à adoração, dando a ideia de "serviço religioso" (Ex. 10:26, Nm 3:7; 4:30; Dt 4:28 - relacionado à idolatria).

Em uma perspectiva judaico-cristã, não há dicotomia entre "trabalho" e "culto", entre "criatividade" e "liturgia". Toda ação realizada por um filho de Deus, deveria ser encaradas como um serviço/culto, pois remete ao Deus criativo, permitindo que o homem espalhe as impressões do Criador no mundo.

O pecado fez uma separação entre a "ação criativa" e o "sagrado". Ruptura que trouxe consequências desagradáveis e grande parte dos desconfortos humanos giram em torno disso.

Jesus falou muito sobre o Reino de Deus. Uma dimensão simultaneamente presente e apocalíptica, que permitiria os servos de Deus viverem gradualmente todo potencial da vida. A promessa de vida abundante anunciada por Jesus tem haver com isso.

Neste sentido, o texto que mais chama a atenção é o que se segue (Mateus 6:24-33):
Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
As partes em negritos foram destacadas propositalmente. Pois são palavras e expressões para se compreender a radicalidade do discurso de Jesus neste texto. Observe o uso dos termos "servir" e "trabalhar".

O que Jesus está propondo é um estilo de vida radicalmente novo. Pois sua concepção de vida está para além do "comer" e do "beber". Ele destaca que existem seres na criação que são sustentados por Deus, sem "entropia", sem desperdício de energia. Há 100% de aproveitamento em todos esforço realizado por estes seres. Por isso nada lhes falta. E o homem?

O homem pretensamente autônomo não tem acesso à lógica do "Reino" e da "Justiça", vive alheio a isto. Dobra-se à tirania dos ídolos de seu tempo e não consegue perceber que é escravo, que sua capacidade criativa, sua energia está sendo drenada para prestar um serviço perverso à um sistema de morte.

Mas, quando Cristo transporta algum homem do "Império das Trevas" para o "Reino do Filho do seu Amor", este homem vive uma nova realidade e uma nova potência cultural, ele experimenta o que os apóstolos e Jesus chamavam de poder (hb. guevuŕa, gr. dynamis).

O poder de Deus expande a capacidade criativa de seus filhos. A plenitude disso, só acontecerá com a ressurreição, porém, entre os santos (como pode-se ver pelas várias demonstrações de poder pelos discípulos de Jesus narrados nos evangelho e em Atos dos Apóstolos), há uma lógica antecipatória. Por isso é possível que homens redimidos em Deus, cultivem jardins de criatividade, imprimindo no mundo música, trabalho, sabedoria, ciência, cura e conhecimentos melhores, caindo na graça do mundo.

No Reino, homens com um cajado dividiram águas de um mar, outros fizeram machados flutuar, venceram exércitos numerosos, compuseram provérbios, andaram sobre as águas, distribuíram bens entre os necessitados, cegaram charlatões religiosos, fulminaram iníquos e trouxeram justiça. A história não acabou até que todos os filhos de Deus se revelem!
Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. (Rm 8:20-21).
Pecado é Entropia, Reino de Deus é potência.