5 de jan de 2010 | By: @igorpensar

A vida tem sentido?

Por Igor Miguel

Os filósofos da antiguidade dedicavam-se em organizar as perguntas e as respostas inerentes à existência humana. As perguntas clássicas giravam em torno da origem, existência e o sentido da vida humana.


A última pergunta sempre me incomodou. De alguma forma, as duas primeiras perguntas, que envolvem “de onde viemos” e “o que somos”, podem ser respondidas pela última: “para onde vamos?”.

Eis uma questão que envolve o “sentido da vida”. Neste ponto lembro-me de uma lenda judaica, que diz que enquanto estivemos no útero de nossa mãe, sabíamos todos os segredos do universo. Sabíamos o sentido da vida e toda sabedoria para lidar com a existência, porém, quando nascemos, por uma obra misteriosa, nos esquecemos de absolutamente tudo que sabíamos na vida intrauterina. A partir daí, do dia do nascimento, nos engajamos em uma missão de reconstituição dos segredos esquecidos.

Esta lenda ilustra algo interessante, a ideia judaica de que a vida tem algum sentido, que ela caminha rumo a algum tipo de realização e plenitude. O progressivo processo de desencantamento do homem (Max Weber), uma vida outrora permeada de sentido religioso, torna-se gradualmente submetida à ideia de que, a razão e a lógica, trariam todo sentido da vida. Em vários momentos os homens darão respostas diversas à “finalidade” da vida. Alguns reduzirão o destino humano à produção material, outros à realização intelectual ou mesmo à realização política. Como sempre acontece, os mecanismos modernos procuram achatar não só a existência humana, mas também, o destino (“telos” em grego) dos homens, a seus ídolos e seus pressupostos. Não é só um reducionismo do ser, do existir, mas também uma redução do propósito da existência, do sentido de vida. Em termos filosóficos, não é apenas um reducionismo ontológico, mas também teleológico.

Os relativistas, por sua vez, tendem a quebrar qualquer possibilidade de “objetivo” de “telos” (fim). Eles o fazem, partindo do pressuposto de que essa é uma maligna herança judaico-cristã que contaminou o mundo científico, e deve ser purgado, tendo em vista a elaboração de respostas científicas realmente a-religiosas. Já comentamos as recentes investigações sobre a pretensa neutralidade religiosa da ciência (Guilherme Carvalho e Roy Clouser).

O homem não está reduzido à razão, mas uma das funções de sua racionalidade é elaborar um modelo de sentido da realidade. Todos compreendem o mundo a partir de uma estrutura de crenças que orientam o comportamento humano a um determinado fim. Esse “impulso” para além, é chamado de “movimento transcendente”, o homem tende a ir para além dos fins imediatos.

O mundo moderno, centrado na lógica do consumo e da apropriação como fim humano, é desumanizador. Principalmente porque coloca um dos “meios” como “fim”, como o sentido último da vida. Ao dizer que o dinheiro é a realização, que o poder de aquisição é a resposta definitiva pra vida, os outros aspectos da vida humana são esmagados pelo peso da soberania dada à esfera financeira. Como consequência, os outros aspectos tornam-se territórios selvagens ou não civilizados, que precisam ser “domados” pelo que realmente interessa. Assim, a modernidade explora a transcendência humana, impondo uma cultura de realização definitiva na aquisição de bens, quando não, na realização estética ou enfim no uso do poder
per se. Um círculo vicioso cruel em que o consumo é retroalimentado pelo desejo de ir além.

Uma resposta seria o desenvolvimento de uma modelo de crenças alternativas, de uma estrutura de valores que considere o que é realmente relevante para o humano, aquilo que faça parte de sua humanidade em toda sua complexidade, sem absolutizar e sem ignorar quaisquer um de seus aspectos.

O salto do homem a um fim, a partir de um modelo que organize o sentido de sua vida, dá-se por meio de uma “fé radical”, uma crença, uma confiança qualitativa em algo que possa amparar sua trajetória existencial. Um alerta é que ídolos e parasitas espirituais se aproveitam desta abertura radical à fé e propõe falsos modelos orientadores da realidade, criando uma percepção distorcida do mundo, das pessoas e dos fenômenos a seu redor.

Modelos que absolutizam ou que relativizam são os mais perigosos. A percepção cristã é que a humanidade está vulgarizada e radicalmente depravada pelo mal, o misticismo judaico chamaria isso de “quebra dos vasos”, um comprometimento estrutural do mundo e dos homens. Neste caso, a única solução seria a redenção ou restituição da condição original.

O primeiro passo para acessar uma visão de mundo responsável seria adotar modelos que expõe a totalidade da depravação humana, cuja alma em desespero, só tem a opção de lançar sua fé naquele que o ama, por isso o denuncia. Um retorno radical, um arrependimento profundo, que parta da consciência de que o homem e seus feitos estão comprometidos absolutamente. Somente este “retorno”, esta
teshuvá (como diríamos em hebraico), poderia desencadear um processo de transformação profunda neste homem. Uma mudança de mente (metanóia em grego), uma quebra radical de falsos sistemas de crenças, somente isso, poderia conduzir os homens de volta ao verdadeiro sentido da vida.

1 comentários:

Roberto Vargas Jr. disse...

Igor,
Você nos brindou com um belíssimo texto! Mais uma cola para o RVJ!
Grande abraço, meu irmão.
No Eterno,
Roberto
PS: E nosso café?