23 de mar de 2010 | By: @igorpensar

Teologia Relacional: ortodoxia privada.

Por Igor Miguel

Para quem não conhece, vale a pena "googlear" e levantar alguns dados sobre o que é conhecido ou denominado por "teologia relacional" ou "teísmo aberto". Lembrando que o termo "teologia relacional" (a versão brasileira de open theism), foi cunhado, segundo se afirma, pelo Pr. Ricardo Gondim e Santlei Belan.

Pois bem, o próprio Ricardo Gondim expõe em seu site, sua concepção sobre o que seria a teologia relacional. Mesmo ao afirmar no prefácio, que não quer se circunscrever dentro de limites ou rotulações teológicas, acaba por se batizar ao cunhar um termo para se localizar teologicamente. Curiosa a adoção desta postura pós-moderna de uma imprecisão ou um posicionamento teológico não-confissional. Curiosa esta coisa de uma ortodoxia privada. Uma ortodoxia que é um tapete de retalhos de heterodoxias. Ortodoxia em seu discurso é fundamentalismo, reducionismo. Será? Interessante ele dizer:
"... não gosto de rótulos ou cercas que buscam circunscrever as pessoas dentro de categorias. Considero pobre e reducionista taxar alguém de calvinista, arminiano, liberal, relativista ou de qualquer outra coisa. Digo isso porque busco não deixar-me restringir a uma “nova” teologia ou repetir pensamentos enlatados, vindos de fora."
E logo depois:
"... o termo “Teologia Relacional” foi cunhado por mim e pelo Stanlei Belan, um engenheiro muito amigo, membro da Betesda. Em nossos “papos-cabeça”, notamos que carecíamos de uma expressão que nos ajudasse a conceituar nossos arrazoamentos."
Na citação anterior, há uma crítica ao uso de rótulos. E de súbito, sem que o leitor perceba, o termo 'Teologia Relacional" torna-se uma expressão que ajuda a "conceituar". Ora bolas, se ajuda, então, por que será que calvinistas dizem que são calvinistas? Por que arminianos dizem que são arminianos? Porque ao menos, se propõem a organizar seus "arrazoamentos".

Na primeira citação é pós-moderno, escorrega e relativiza, no segundo momento ele "conceitua", cria uma outra categoria. Isso para mim é a privatização, a pessoalização de uma "ortodoxia". Ele não quer admitir uma identificação com as grandes tradições, mas quer se identificar com sua própria percepção teológica. Ortodoxia privada!

Nenhum ser humano é a-ortodoxo. Mesmo a pretensa agenda de a-ortodoxia é um posicionamento, uma crença na incerteza. A a-ortodoxia do Pr. Gondim é "ortodoxamente relacional", e como ele adimite, a teologia relacional foi criação sua, ou pelo menos o termo. E, ainda sustenta uma diferença entre teísmo aberto e teologia relacional. Ao menos é o que ele deseja sustentar em seu texto:
"Teísmo Aberto e Teologia Relacional não são a mesma coisa. Vou tentar explicar a diferença."
Porém, em outro momento ele diz:
"Nicodemus* quer, com uma só tacada, demolir as premissas do teísmo aberto..."
Observe, que a partir deste trecho há um tom apologético em relação ao teísmo aberto, e em nenhum momento viu-se uma tentativa real, da pretensa distinção entre teologia relacional e o teísmo aberto. Por um motivo óbvio: a distinção não existe! A teologia relacional defendida no texto é o teísmo aberto. Um "enlatado norte americano". Lembrando que o termo open theism ou open theology (teologia aberta) fora criado pelo americano Richard Rice, um teólogo adventista do sétimo dia, em sua obra: The Openness of God (A Abertura de Deus).

Enfim, meu problema com a posição teológica defendida pelo Pr. Ricardo Gondim, e digo bem claro, sua posição teológica, e não sua pessoa, é a respeito de sua postura escorregadia, sua descontinuidade e relatividade teológicas. Relatividade, até onde interessa, pois quando não interessa, quando desorganiza, apela-se às conceituações e a rótulos inevitáveis.
"... cada posição é uma ortodoxia. A única questão é 'de quem?' (Douglas Wilson).
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*Nicodemus, é uma referência ao teólogo presbiteriano Augustus Nicodemus autor de um artigo em que se posicona a respeito da teologia relacional a partir da visão reformada.

8 comentários:

Jonas Madureira disse...

E aí, Igor?!

Passei aqui só para dizer que li seu texto e gostei. Parabéns, meu velho!

Abraços,
Jonas

@igorpensar disse...

Fala prezado!

Mano, a opinião de um bom filósofo cristão engajado em uma teologia sóbria é sempre bem vinda!

Obrigado,
Igor

Diego disse...

Ótima esplanação, gostei da peculiariedade em espor sua opinião.
Abraço

Erike Couto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Erike Couto disse...

Há certas opiniões e certas opiniões. Não é porque estamos em um espaço democrático e pretensamente livre, que é o internético, que vamos isentar certos argumentos e exposições de críticas e avaliações. Justamente disso você não se esquivou. Open Theology é tão danoso, ao meu ver, para o Homem quanto o Pecado Original que lhe fez cair e se separar de Deus. É um eco serpentino ainda hoje ressoante, tentando nos convencer que somos deuses. Boa crítica mesmo mano!

@igorpensar disse...

Pois é Erike,

Que Ele nos livre de cairmos no encanto desta falácia pós-moderna, este liberalismo teológico travestido de piedade.

Igor

( Fábio Matoso ) disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Djair disse...

Igor,

Alguns anos atrás, quando acompanhava mais de perto o ministério do Gondim, eu o via falando abertamente que as obras de Clark Pinnock o tinham influenciado. O triste é que, depois de algum tempo, começou a criticar todo tipo de teologia importada dos Estados Unidos. Vai entender...

Por mais que discorde do teísmo aberto, não identifico em seus representantes (Gregory Boyd, John Sanders, Clark Pinnock) essa atitude de vitimização. Eles sempre partiram para o debate, nunca dizendo coisas como: "esses defensores da ortodoxia engessada não me entendem". Explique-se, oras! Acho que a hombridade é algo que temos de "importar" para os debates teológicos brasileiros...

Djair