28 de jan de 2009 | By: @igorpensar

Inteligência Hipertextual

Por Igor Miguel

Esta reflexão nasceu de um insigth que tive durante um maravilhoso café teológico com alguns amigos. Bem, este encontro de profundo envolvimento espiritual e intelectual, produz aos seus participantes uma tempestade de conceitos, terminologias e palavras. Como amo palavras! Não as amo por causa de um possível "ar" de sofisticação, mas por causa de sua capacidade de sintetizar e de se conectar com outros conceitos, fazendo pontes e ligações entre idéias.

Em um dos debates, vimos que alguns assuntos estavam indo em áreas, que a priori, não pareciam ter qualquer relação com o eixo temático que estava sendo debatido. Então, para evitarmos esta descentralização, deixávamos de "viajar na maionese" e retornávamos à questão central. Depois de um tempo, íamos novamente para além das fronteiras do assunto e artificialmente voltávamos ao eixo. Percebi que este movimento acontecia com certa freqüência.

Repentinamente me perguntei: Por que todas as vezes que lidamos com temas interessantes e complexos, nossa mente "viaja" por temas periféricos ao eixo temático?

Na verdade se compreendemos um pouco de psicologia sócio-cultural chegaremos à incrível conclusão de que nosso conceitos são organizados dentro de estruturas semânticas (redes semânticas). Nenhum conceito ou idéia que temos estão soltos no cérebro, mas só estão aí porque estão vinculadas a uma teia de outros conceitos, ou como dizem, os conceitos estão grudados em outros conceitos, formando assim uma grande construção de idéias, um 'todo' complexo.

Já falei por aqui no blog sobre pensamento complexo e a nova demanda que surgiu com a Internet, devido a seu grande fluxo de informações e de inovações. Há uma necessidade absurda por um pensamento plástico, fluido e menos linear.

Uma coisa importante. Atualmente lidamos com uma nova modalidade de leitura, principalmente quando lemos um grande volume de textos na tela ou no monitor. Se você já clicou em algum link* pela Internet, com certeza você já está lidando com uma nova modalidade textual denominada hipertexto. O hipertexto criou uma nova categoria de leitura, que implica em uma abordagem estrutural do texto. Não se lê de forma linear, mas leva-se em consideração os vários conceitos presentes naquele texto ligando-os (linking) a outras fontes conceituais.

O que me chama a atenção é que de certa forma a leitura hipertextual vem provocando uma mudança de ordem cognitiva. Durante muito tempo o pensamento era textual, linear, como conseqüência aprendemos a pensar dentro desta estrutura. Porém, alguém que se dedica ao uso freqüente de hipertexto, ou navega em sites de vasta riqueza hipertextual**, pode estar desenvolvendo um pensamento de estrutura hiper-documental. Por isso, não é tão criminal "viajar na maionese" durante algumas discussões, pois enveredar-se por caminhos ditos periféricos, faz parte da riqueza de um tema, é o que torna-o cognoscível, compreensível e parte da grande nuvem semântica que sustentam nossos conceitos.

Vale destacar a contribuição de Lina Morgado e suas investigações sobre o pensamento e o hipertexto. Sua investigação e revisão epistemológica sobre a temática, destaca que alguns pesquisadores salientam as seguintes vantagens do ambiente hipertextual:

[...] permitir diferentes níveis de conhecimento prévio; encorajar a exploração; permitir a visualização de sub-tarefas como parte de tarefas mais globais; e adaptação da informação aos estilos individuais de aprendizagem[1].


Em suma, não me sinto mais desconfortável em "viajar na maionese" durante determinado assunto. Pois esta é a natureza dos debates em mundo cada vez mais complexo, pois encoraja a exploração e o espírito investigativo.

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*Conhecido também por hiperlink ou em sua versão aportuguesada hiperligação.
** Como a wikipedia por exemplo.
[1] MORGADO, Lina. O Lugar do Hipertexto na Aprendizagem: alguns princípios para sua concepção.
19 de jan de 2009 | By: @igorpensar

Campus Party 2009

O maior evento tecnológico do mundo está acontecendo em São Paulo e durará até o dia 25 de Janeiro/09. O Campus Party(TM) é um evento incrível que envolve software livre, liberdade na web, Internet 3.0 e muitos outros temas incríveis do universo que pensa "tecnologia" e não apenas consome tecnologia.

Pois bem, entre os palestrantes estão ninguém menos que Timothy John Berners-Lee ou mais conhecido como Tim John Berners-Lee, o criador da WWW e Jon Hall, ou também conhecido por Maddog Hall fundador do Open Source International.

Outro detalhe interessante é a disponibilidade de Internet no local do evento com velocidade de 10 Gb. Muitos temas interessantes serão tratados sobre direitos autorais, tecnologias open source, software livres e outras temáticas de deixar o queixo cair.

Vale a pena dar uma olhada no site oficial em: http://www.campus-party.com.br/

Fica aí a dica...

Abraços,
Igor
13 de jan de 2009 | By: @igorpensar

Quando eles amarem seus filhos...

“Nós podemos perdoar os árabes por matarem nossos filhos. Nós não podemos perdoá-los por forçar-nos a matar seus filhos. Nós somente teremos paz com os árabes quando eles amarem seus filhos mais do que nos odeiam” - Golda Meir

12 de jan de 2009 | By: @igorpensar

Dê a Israel uma oportunidade

RAFAEL L. BARDAJÍ

Nenhuma nação sobre a Terra aceitaria ser bombardeada permanentemente por um território vizinho e permanecer impassível. A atuação do castigo israelense contra o Hamas em Gaza, não deveria ser, portanto, uma surpresa.

O que é verdadeiramente surpreendente é isso não ter acontecido muito antes. Israel aguentou o que não se pode aguentar: mais de 4 mil foguetes palestinos que, se não causaram mais mortes, foi em boa medida devido ao imenso esforço realizado na proteção passiva --em forma de bunkers-- das populações do sul de Israel.

Exigir que Israel pare suas operações militares é uma imoralidade, assim como um gravíssimo erro estratégico. O objetivo político da União Europeia e da comunidade internacional não deve ser um cessar-fogo, mas sim um fim ao terrorismo que vem de Gaza.

A manipulação midiática a que nos acostumaram as facções palestinas, terroristas ou não, está novamente em marcha, oferecendo as imagens do sofrimento de seu povo, desgraçadamente inevitável em qualquer confronto bélico.

Ela é tão hábil que faz esquecer o sofrimento que os terroristas palestinos têm imposto a uma boa parte da população israelense. Até a retirada total de Israel de Gaza em 2005, o Hamas justificava os ataques suicidas e por outros meios como um instrumento necessário para lutar "contra a ocupação israelense".

Pois bem, desde que Sharon decidiu deixar Gaza para os palestinos, o único israelense na faixa foi o soldado Gilad Shalit, sequestrado faz dois anos pelos militantes de Gaza. Sem exagero, o fato de Israel já não ser uma "força ocupante" não diminuiu a ânsia por violência do Hamas e de outros grupos palestinos em Gaza. Por uma razão muito simples: o que o Hamas quer não é a solução de dois Estados convivendo pacificamente um junto ao outro.

O islamismo palestino aspira a um único Estado, palestino e islâmico. Por isso não quer nem pode renunciar ao seu objetivo de eliminar Israel. E por isso Israel se vê forçado a se defender. Se não o fizesse, simplesmente deixaria de existir.

Como em toda a guerra, não faltaram os corifeus clamando aos céus por causa da desproporção da resposta militar israelense. Não sabemos o que propunham como alternativa, mas o que sabemos é que não apenas a atuação das Forças Armadas Israelenses, a IDF, tem sido escrupulosa em relação ao direito de guerra, mas também está sendo altamente eficaz quanto a discriminação de seus alvos.

Certo, em toda ação bélica existe o risco de causar baixas civis inocentes, mas, pelo que contam os observadores no local e a sacrossanta instituição das Nações Unidas, talvez menos de 10% das vítimas poderiam ser consideradas como vítimas inocentes. O resto, 90%, seriam membros e militantes do Hamas.

O que quer dizer, entre outras tantas coisas, que a execução dos ataques israelenses foi mais bem preparada do que as ações da OTAN no Afeganistão, por exemplo, onde a proporção de mortes por erro é bastante mais alta.

Em suma, Israel tem o direito de se defender e o faz da melhor forma possível, com justiça, legitimidade e proporção. Enquanto luta contra os terroristas de Gaza, permite que a ajuda humanitária flua até os palestinos da região.

E é preciso lembrar que, se hoje Gaza está na situação precária em que se encontra, isso se deve à péssima gestão dos líderes do Hamas, muito mais interessados em aterrorizar os israelenses do que em criar oportunidades para os seus eleitores.

Porque seria um erro estratégico pressionar Israel para que pare sua ofensiva agora? Por uma razão muito simples: porque acabar com os arsenais e os foguetes do Hamas não é suficiente e é isso o que os bombardeios da IDF têm feito até agora.

Foi Douglas MacArthur quem disse que "na guerra não há substituto para a vitória". Com a exceção da derrota, claro. E se há uma lição que devemos aprender com os conflitos inacabados ou mal-acabados, como a guerra de Israel contra o Hizbollah no verão de 2006, é que a ausência de uma vitória clara e visível, isto é, a ausência de uma vitória decisiva, se torna rapidamente uma derrota.

A sobrevivência do Hizbollah foi entendida pelos seus e por boa parte do mundo árabe como uma derrota israelense. Correto ou não, isso é o de menos. A imagem é o que importa. Por isso, acabar com os foguetes do Hamas não é suficiente. Deve-se retirar dele por completo o sentimento de vitória e, para isso, há que se conseguir com que eles desistam de seus planos.

Se a comunidade internacional dá esperanças aos dirigentes do Hamas de que, se aguentarem um pouco, obrigarão Israel a parar suas ações, a única coisa que se estará fazendo é alimentar seu sentimento de vencedor. Pior ainda, se estará patrocinando diretamente os palestinos radicais em detrimento dos moderados, aqueles com quem se pode falar de uma solução pacífica para todos. Se o Hamas não sai derrotado politicamente, a Autoridade Palestina, seu presidente, Abbas, e o governo de Salam Fayyad é que sairão derrotados.

Se o Hamas não for derrotado, pode vir a ter força para tentar um golpe na Cisjordânia, similar àquele feito contra o poder em Gaza em 2007. Isso sim seria o final de todo o processo de paz. Se o contrário ocorre, se o Hamas sai claramente derrotado, será aberta uma nova oportunidade para que a Autoridade Palestina retome seu papel na faixa de Gaza, que é hoje, de fato, um Estado palestino separado.

Por último, não podemos esquecer que, apesar de Israel estar lutando para defender a tranquilidade das populações vizinhas a Gaza, a derrota do Hamas não só traria novas oportunidades para uma paz estável na região, mas também representaria um grave revés para os desígnios do Irã na região.

Nesse sentido, não podemos esquecer que Israel não luta apenas por sua segurança, mas também o faz pela nossa, europeus e ocidentais. Deter um Irã cada dia maior, mais irresponsável, mais provocador e às portas de se tornar uma potência atômica só pode beneficiar a paz internacional. Ou seja, nossa paz e nossa segurança.

Rafael L. Bardají é membro sênior do GEES (Grupo de Estudos Estratégicos) e ex-conselheiro executivo do ministro da Defesa espanhol de 1996 a 2002. O GEES é um grupo de estudos independente com sede em Madri, Espanha, cujo foco de trabalho e pesquisa recai principalmente sobre a segurança internacional, os conflitos e o terrorismo.


7 de jan de 2009 | By: @igorpensar

O Rapaz e o Manuel

Por Igor Miguel

Solicitaram minha opinião sobre o conflito entre o Hamás e Israel. Traduzi minhas impressões em uma crônica, que ilustra o crônico conflito que testemunhamos - Igor

Manuel era forte e inteligente, mas com certeza não estava entre os mais fortes. Manuel morava em um bairro de periferia esquecido pelo mundo, um bairro perigoso e cheio de hostilidades. Manuel sofria hostilidade, talvez por sua mente aberta e seus sonhos ou talvez por ter chegado no bairro vindo de lugar nenhum, como um forasteiro.

No começo Manuel não era tão forte, era uma criança, seus pais eram pobres, vieram de andar o mundo a procura de emprego. Mas, Manuel cresceu e de tanto apanhar e sofrer, aprendeu as artes, a cultura e a se defender. O antes pequeno e fraco Manuel, agora se tornou forte e criou seus meios para continuar existindo.

Quando Manuel chegou no bairro, havia muitos meninos, que não aceitavam a forma como Manuel se comportava, mas o respeitavam, pois Manuel tinha fama de forte e que sabia se defender.

Mas, havia um rapaz muito "marrento" na vizinhança, menino encrenqueiro e que tinha muita inveja de Manuel.

O rapaz vivia todo o tempo, planejando formas de acabar com Manuel, talvez por inveja, talvez por opressão de seus vizinhos que cobravam dele uma posição, mas o rapaz passava noites e dias planejando uma forma de acabar com a fama do Manuel.

Mas, esse rapaz era covarde, ao invés de lutar contra o Manuel, tocava naqueles que o Manuel gostava, agredia seus parentes, seus amigos próximos e criava formas de atingi-lo indiretamente, afinal não podia contra ele.

Então um dia o rapaz viu a namorada do Manuel. Ela era linda, seus olhos eram castanhos claros, seus cabelos de cor caramelo anelados e sua pele queimada pelo deserto. O rapaz pensou em uma estratégia para roubar a namorada do Manuel: fazer-se de vítima. Essa seria a estratégia final.

Um dia o rapaz encontrou com o Manuel e o encarou. Provocou relembrando tudo que tinha feito contra seus amigos e próximos. Como Manuel não reagia, o rapaz lhe deu uma cusparada no rosto. Manuel ainda não reagira e finalmente, o rapaz lhe disse que ele era um fracassado, filho de homens errantes, de conspiradores e que se aproveitava de sua trágica história para comover a vizinhança.

Nesse momento Manuel teve que reagir, deu-lhe um belo soco no rosto, o rapaz caiu sangrando e começou a chorar. Todos correram para ver o que acontecia. O comportado Manuel batia no rapaz, o rapaz chorava, esperneava e a namorada do Manuel, bela da cor do deserto, pulou no pescoço do rapaz para ajudá-lo. A namorada do Manuel tinha pena dele, e começou a gritar contra o Manuel, lhe dizendo que ele era covarde, impiedoso e que o rapaz tinha razão.

O plano deu certo! Manuel* virou vilão e o rapaz** tornou-se vítima.

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*Israel
** Hamás