26 de out de 2010 | By: @igorpensar

Justiça Imputada

Por Igor Miguel

A mensagem da justificação pela fé e a salvação por meio da graça nunca podem se esgotar. Jamais se tornarão periféricas, uma mensagem para iniciantes, jamais a graça será uma "doutrina rudimentar". Não há como meditar sobre a suficiência de Cristo e não se maravilhar.

Não é a omissão da mensagem da graça que conduzirá os crentes a uma vida ética e santa, ao contrário é a afirmação e a clareza do amor de Deus a nós, mediante Cristo, que nos convida irresistivelmente a uma vida de obediência à sua lei.
Pela graça descobrimos uma vida de obediência amorosa e voluntária, cheia de gratidão.
A justificação pela fé é uma doutrina incrível, sempre esquecida ou banalizada. A justificação significa que a reta justiça de Deus deve ser realizada. O pecado evoca a ira de Deus e infelizmente o pecado está nos homens. O que os transforma em alvo da indignação divina. Entretanto, este Deus justo é carregado de amor abundante, e como demonstração de seu amor incondicional, Ele expõe seu Filho como alvo de todo juízo e ira divina.

Pela fé nos unimos misteriosamente com Cristo em uma pacto, em uma troca expiatória. Jesus Cristo é o bode expiatório, o Isaque sacrificado, aquele que recebeu integralmente todas as minhas iniquidades. Ele recebe em meu lugar todo juízo e violência, Ele se torna o "maldito de Deus", em meu lugar. Quando me uno a Cristo, igualmente, toda justiça e retidão, dele, se tornam minha, e o Pai me vê como filho de seu amor, e não mais filho da ira.
Dessa forma, a justificação significa que Deus atribuiu e imputou justiça a um injusto, por meio da justiça daquele inocente que foi violentado em lugar do que era digno de toda violência.
À união misteriosa com Cristo por meio da fé -- que é uma confiança e fidelidade graciosa -- dá-se o nome de unio mistica. Uma unidade que nos coloca como justos e desencadeia um processo dinâmico de santificação, em que nos tornamos servos da justiça (Rm 6) e não mais em escravos do pecado. Assim, o apóstolo Paulo observa:
... agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis (Cl 1:22).
Segundo Martinho Lutero, foi este entendimento que trouxe profunda transformação a seu coração. Assim, ele pôde se libertar da condenação que lhe afligia, e encontrar alívio em um Deus que lhe justificou mediante tão magnífico sacrifício:

“Embora, com monge, vivesse uma vida irrepreensível, sentia-me um pecador com a consciência culpada diante de Deus. Eu também não podia acreditar que havia agradado a Deus com minhas obras... comecei a entender a 'justiça de Deus' como aquela justiça por meio da qual o justo vive pelo dom de Deus (a fé); em que essa frase: 'é revelada a justiça de Deus', faz referência a uma justiça passiva, por meio da qual o Deus misericordioso nos justifica pela fé, conforme está escrito, 'o justo viverá pela fé'. Imediatamente, tive a sensação de haver nascido de novo, como se estivesse entrando pelos portões abertos do paraíso. Desde aquele momento, vi toda a Bíblia sob a perspectiva de uma nova luz... E agora, aquilo que eu havia uma vez odiado na frase 'a justiça de Deus', comecei a amar e a glorificar como a mais doce das frases, pois essa passagem em Paulo tornou-se para mim o verdadeiro portão do paraíso” (Leituras de Romanos).
Quem ou o que tem nos mantido firmes? Não nos firmamos como justos em nossa própria capacidade, não nos gloriamos de nossas obras sociais, não nos exaltamos sobre nossa performasse espiritual, encontramos alívio e firmeza, na suficiência do amor de Deus. Não estenderíamos a mão ao pobre se não pelo amor e graça de Cristo que opera em nós.
Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. (Rm 5:1).
Nossa justiça é a justiça de Jesus, Ele cumpriu e obedeceu as exigências da Torá (lei) em toda perfeição, não errou em absolutamente nada, não escorregou em nenhum preceito ou mandamento que lhe cabia. Obtivemos "paz" (shalom) com Deus, não há mais beligerância, tensão ou juízo, mas alívio mediante o sacrifício do Cordeiro de Deus. Por isto, somente por esta graça "estamos firmes", e nos gloriamos, nos orgulhamos somente na esperança do triunfo glorioso de Deus, que é presente e escatológico em Cristo Jesus.

15 comentários:

Anônimo disse...

Como um deus irado com o pecador pode mandar seu filho para salvar este pecador ?

Não faz sentido!

@igorpensar disse...

A ira de Deus é parte de sua justiça amorosa, o problema é que transferimos nossas frustrações paternas à figura de Deus. A justiça exige punição. É engraçado, pois ao lidarmos com o tema da ira divina, sempre queremos fingir que ela não está ali. Sempre queremos enfatizar o "amor" sem "justiça", mas quando um Hitler ou Mussolini aparecem, sempre pensamos: - isto deve ser punido de alguma forma. A diferença entre Hitler e eu, é que aprouve a Deus me segurar com sua graça, para não dar continuidade a meus pensamentos perversos e caídos, dignos de toda indignação divina.

Quanto ao sentido... Exatamente por não fazer sentido, exatamente por isto é amor. Se fizesse sentido seria recompensa e não graça, seria prêmio e não amor incondicional. Eis o escândalo do evangelho, ele começa quando admito minha perversidade e acolho a suficiência de seu amor.

"Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, -pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus." (Ef 2:4-7).

Anônimo disse...

Seguindo seu raciocínio de hitler e mussolini não existe este negócio de "justiça amorosa". Aliás nunca lí isto nas Escrituras!

O que existe nas Escrituras é graça e Amor, e quanto a isso Deus é justo e fiel. Justiça de Deus até onde sei não é sinônimo de vingança!

Vc disse que Deus te segurou com sua graça e Hitler não segurou, por isso deu no que deu. Ora, que deus é este que podendo evitar o mal não evita ? E se evitou vc de não dar continuidade a seus pensamentos perversos, pq não evitou Hitler ? P q pessoas (crianças, idos e mulheres) inocentes pagaram por esta escolha deste deus ?

Fiquei incucado agora!

Anônimo disse...

O texto é mto bom, mais a resposta ao comentário é magnifica.
Shalom amigo,
Maurílio.
Que amor é esse? A música de Ricardo Bordetela do Clamor pelas Nações é maravilhosa, coloque no seu blog. Estou apaixonado e não me canso de adorar AQUELE que é digno de todo meu louvor.

Anônimo disse...

Retificando Ricardo Robortella Clamor pelas Nações.
Abraços, Maurílio.

Anônimo disse...

Se realmente Deus te segurou com sua graça e não o fez com Hitler ou Mussolini não há justiça nisso. Penso que se o mundo funciona assim não tem razão de existir um salvador pois alguns não serão salvos e além disso servirão como algozes da humanidade, como Judas!

Loucura!!!!!!!!!!

Anônimo que não é o anônimo.

@igorpensar disse...

Anônimo,

Deus não segurou Hitler, pois o mal, é mal, mas o é, como parte de uma complexa rede de sentido. Deus é um tapeceiro, as manchas da história redundam em glória para Ele em algum sentido. Deus é com um tapeceiro, só ele sabe o final da história, só ele sabe como os pixels apagados, comporão a obra de arte no final. Onde abundou o pecado, superabundará a graça.... escute, leia e medite nesta música belíssima do Stênio Marcius e não perca a esperança. Amo este evangelho aterrador...

http://letras.terra.com.br/stenio-marcius/1112765/

Anônimo disse...

"Amo este evangelho aterrador..."

É fácil amar este evangelho aterrador quando estamos no lado bom da história! Quando temos teto, comida e água, banho quente e dinheiro para consumir!

Será que os pobres do mundo inteiro, largados à beira dos córregos, que não tomam banho há anos, que dividem comida [lixo] com os porcos pensam assim ??

Não acredito que o sofrimento destes pequeninos resulte em glória para Deus!

Igor, precisamos fazer teologia tendo o pobre e o oprimido como sujeito da nossa leitura! Pense nisso. O teólogo NÃO pode ser o sujeito da leitura, ams sim os pequeninos de Deus. Foi isso que Jesus fez e os religiosos e entendidos da lei não compreenderam...

Grande abraço

@igorpensar disse...

O pobre está lá por minha causa... está lá porque todos nós pecamos em Adão. O pobre está lá para ser amado e para comunicarmos a graça de Deus. Porém, não podemos achar que aquilo está fora do controle de Deus. Devemos nos revestir de Cristo, que em sua soberania imergiu entre os pobres, entre os desvalidos, entre os marginalizados... Não tenho dúvida que o evangelho também e principalmente é o evangelho para estas pessoas. Nossa missão e evangelho é levar a integridade de Cristo indistintamente. O problema da teodiceia não é resolvida excluindo a soberania de Deus e o senhorio de Deus sobre tudo... o paradoxo do evangelho (e não a contradição) é que Deus é 100% soberano e somos 100% responsáveis, se abrirmos mão soberania, temos que admitir que há um mal sem o controle de Deus, se abrirmos mão da responsabilidade, seremos desobedientes.

Obrigado por sua contribuição... mas, por favor, pense nas proporções incríveis que é a doutrina da justificação.

@igorpensar disse...

Maurílio obrigado pelo comentário e pela dica de um música tão bela...

Em Cristo

Anônimo disse...

"O problema da teodiceia não é resolvida excluindo a soberania de Deus e o senhorio de Deus sobre tudo... o paradoxo do evangelho (e não a contradição) é que Deus é 100% soberano e somos 100% responsáveis"

IGOR RACIOCINA COMIGO:

a)DEUS está no controle da terra.
b)A terra está um caos terrível.
c)Logo DEUS é o responsável pelo caos da terra.

Não podemos negar este raciocínio lógico. Então o q está errado neste raciocínio ? A primeira premissa! DEUS não está no controle da terra!

a)O Homem está no controle da terra.
b)A terra está um caos terrível.
c)Logo o homem é o responsável pelo caos da terra.

Se DEUS estivesse no controle da terra e de nossas ações o mundo com certeza absoluta não estaria um caos como está. A terra só está assim pq nós escolhemos este caminho, fizemos escolhas erradas que resultaram no q vemos hoje.

Nisto não estou excluindo a soberania de DEUS, pelo contrário,DEUS é soberano e seu propósito de ter um povo para compartilhar de seu amor não se frustará, mesmo ainda muitos homens continuando fazendo esolhas erradas.

Nossa vida não é como um filme que já está escrito o começo, meio e fim...Nós é quem escrevemos e construímos nossa história, e isso [livre arbítrio] com DEUS como parceiro ou sem DEUS.

Abraços fraternos

@igorpensar disse...

Vou usar seus silogismos, apesar de que não gosto desta lógica aristotélica implacável...

a) O Homem está no controle da terra.
b) A terra está um caos terrível.
c) Logo o homem é o responsável pelo caos da terra.

Ao admitir que o "homem está no controle da terra", você excluiu o "controle de Deus" e o reduziu como você disse:

"... DEUS é soberano e seu propósito de ter um povo para compartilhar de seu amor não se frustará"

A soberania de Deus não se restringe em ter um "povo", antes se estende a toda criação. A ausência de Deus da criação significa um naturalismo, a velha separação "natureza x graça" de Tomás de Aquino, que tem raízes no neo-platonismo.

O que nos parece "caos" e "descontinuidade" não estão ausentes do controle de Deus, não há dúvida de que o homem é responsável por suas escolhas, mas mesmo as escolhas humanas em algum sentido, quando o "tapeceiro" terminar a obra, fará todo sentido.

Abraços,

Anônimo disse...

Olá Igor....

Leia este texto:
http://www.elielbatista.com/2010/02/o-tribunal-da-graca-alianca-de-amor.html

@igorpensar disse...

Texto bom, mas evasivo quanto a "ira", me parece bem moderno, sucumbiu ante o dualismo marcionista do Deus irado do AT e do Deus amoroso do NT.

Eric disse...

Anônimo, discordo do seu ponto de vista. Você escreveu:
a)DEUS está no controle da terra.
b)A terra está um caos terrível.
c)Logo DEUS é o responsável pelo caos da terra.

O problema de raciocínios como este é a sua conclusão falaciosa. A letra a) é a única assertiva verdadeira (Bíblica), as outras foram afirmadas por indução ou dedução. Observe que antes de pressupor sua conclusão, você teria que estabelecer o que seria um “caos terrível”.
E após isto, provar que este caos:
- não estaria de acordo com o propósito de Deus
- negaria Deus em Suas características
- tiraria a soberania de Deus
E provar que por Deus estar no controle da Terra:
- este caos seria Sua responsabilidade e não a do homem

Parabéns pelo texto Igor.
Um abraço,
Eric