1 de jul de 2010 | By: @igorpensar

Evangelho, simplesmente.

Por Igor Miguel

O evangelho é relativamente simples. Tão simples, que confunde os homens mais habilidosos. Não é um evangelho que se conforma a nossas expectativas. É uma antítese. É a negação das expectativas. O evangelho mostra quão vulgar, quão depravadas são nossas expectativas. O evangelho toca nas dimensões mais profundas. Joga luz nas trevas revelando toda decadência humana.

Hannah Arendt falava sobre o "mal latente". Como demorou para o mundo entender isso. O homem só voltou a aprender o que os antigos diziam, depois de coisas terríveis como o holocausto. Sim, o homem, em seu atual estado, é mal. O mal o desumanizou. Uma consciência agostiniana de mal absoluto, de vulgarização bem nos termos de Paulo, quebra dos vasos nos termos dos místicos judeus. Tudo estilhaçado!

Nesse estado de absoluta perdição e desorientação. Não há nada, repito, absolutamente nada no homem que possa livrá-lo desta angústia. Não há um "deus interior", não há introspecção, não há autonomia, não há nada em sua subjetividade que possa orientá-lo. Um olhar para dentro, só causará mais angústia, terror e desespero. Pois haverá um conflito entre a reminiscência de um Imago Dei (imagem de Deus) e uma condição distorcida, uma consciência de que algo está fora do lugar. Há feiúra no coração!

Também, não se achará solução em outros homens, em nenhum guru iluminado, uma filosofia pós-moderna ou uma negação teórica de toda realidade. Não! Nada disso pode orientá-lo. Pois, o mal fundamental ainda não pode ser confrontado por nenhum destes meios.

A grande verdade é que enquanto o homem odiava a Deus, enquanto ele abominava os caminhos amorosos de Deus, Ele (Deus) o amava na forma mais extrema. Enquanto, sob o homem só repousava dura punição e juízo, nos termos mais "antiquados" e mais justos da Bíblia, Deus entregava Seu Filho.

Jesus pode ser interpretado sob várias óticas. Pode ser interpretado sob uma ótica socialista, histórica, filosófica, antropológica, mas ainda não se chegará ao fundamento de sua missão.

Jesus foi amaldiçoado! Foi vulgarizado! Violentado! Aquilo que aconteceu na cruz não era pra Ele, era pra mim. Se há algum mérito em mim e em qualquer homem, este mérito era o absoluto juízo, sem qualquer misericórdia. Pergunta-se: então o que ele faz lá? Desce daí Jesus, aí é meu lugar! Saí daí, este juízo é meu! Pedro teve a mesma sensação e foi repreendido.

Mas, dEle, de Deus o Pai procedeu algo que se movimentou, o processo foi interrompido, o juízo foi banido pela obediência do filho. Jesus se submeteu ao juízo ao receber tudo que eu merecia, toda violência que eu era digno. Agora, segundo o beneplácito de Sua perfeita e amorosa vontade, Ele me transportou das trevas, para o Reino do Filho do seu amor.

Sim, não vem de mim! Vem dEle, absolutamente dEle! Sobre todas as racionalizações. Sobre todas as lógicas. Sobre todas as hipóteses. Dele, absolutamente dEle procede toda salvação. A Deus pertence a salvação!

Após esta tensão entre juízo e misericórdia, lágrimas se rompem, retratação, admissão de todo pecado, de toda mancha, arrependimento, simples retorno a Deus por meio da morte indigna que Seu filho recebeu em nosso lugar.

Neste ponto, grande alegria, indizível, indescritível alegria. Tudo faz sentido! As cores fazem sentido! A vida começa a fazer sentido! Graça sobre graça! Glória em Glória! Nova condição! Novo nascimento! Nova vida!
Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fossemos chamados filhos de Deus. (I Jo 3:1).
Sim, filhos...

10 comentários:

Aender Borba disse...

Igor, simplesmente paradoxal. Pensar um evangelho cuja obra da cruz nos coloque juntamente com Cristo naquele madeiro. O problema nem é pedi-lo para descer de lá, mas sim, nos colocarmos lá com ele. Como você mesmo diz: "a cruz é um terror para os poderosos"! Concordo com você, pois ali deveriam estar pregadas todas as pretensões humanas, todos os poderes, todos os pecados, todos os pensamentos que nos afastam da verdade de Deus. Só os simples entendem e permitem isso! Para estes Cristo é tudo em todos!
Parabéns mais uma vez meu amigo! Lindo texto.

@igorpensar disse...

Sim Borba! Simplesmente paradoxal. Nunca uma contradição. Mas, puro paradoxo. Céus e terras, transcendência e imanência, Criador e criatura, estava tudo nEle lá. Eu amo isso! Amo Jesus até as últimas conseqüências...

Mitch disse...

Olá, Igor! Muito bom este texto. Você me permitiria publicá-lo editado em meu blog na categoria 'Outros Autores', com os devidos créditos? A edição não alteraria conteúdo; apenas quantidade de caracteres. Peço que responda via comentário em meu blog, por favor. Agradeço a atenção, fique à vontade para negar. Um abraço! www.blogdomitch.wordpress.com

@igorpensar disse...

Mitch,

Fique à vontade. Identificando não tem problema. Favor colocar o endereço do blog no post.

Abração!
Igor

Jorge Fernandes Isah disse...

Igor,

o irmão está virando um doxologista de carteirinha {rsrs]. E isso é ótimo, pois se há uma missão nos servos é o de servirem e adorarem ao bom Deus, ainda que o nosso débito seja impagável.

E o louvor e adoração só podem vir de um coração que ao mesmo tempo reconhece a santidade e perfeição de Deus, e a própria miserabilidade, pecaminosidade. Nenhum homem poderá louvar corretamente o Senhor se não reconhecer as duas coisas: sou miserável, e pobre, e cego, e nu, enquanto Deus é o soberano, santo, perfeito e justo.

Parabéns por esta reflexão.

Esperamos mais.

Cristo o abençoe!

Abraços.

@igorpensar disse...

Jorge,

Obrigado pelo comentário, como sempre ele é muito bem vindo. Confesso, que estou vivendo um tempo de "contemplatio domini", tenho extraído muita inspiração a respeito do mistério de minha união com Cristo. Um misto de temor e admiração extasiante sempre me apodera nestes momentos. Impossível não escrever.

Soli Deo Gloria!
Kol HaKavod LaShem!

Sonia Gomes disse...

Olá Igor,acabei de ler este texto e o que me chamou a atenção foi o parágrafo que fala sobre a missão de Jesus. Realmente,nós nunca entenderemos a missão de Jesus, se não começarmos a demonstrar amor "fazendo" algo pelo nosso próximo. Jesus olhava com olhos do Pai,cheio de amor,ele parava e tocava nas pessoas no momento certo,independente de quem era este ou aquele individuo,podia ser um leproso ou uma prostituta,não importava quem!Ele fazia!Esta ação tem sido esquecida na igreja hoje.Um abraço Sônia Brasília

@igorpensar disse...

Sônia, é exatamente isso que está em Fp 2:5-7, algo que chamamos de "kenosis" (esvaziamento). Esta "kenosis" é um exemplo perene do que devemos reproduzir dEle. Devemos nos "acomodar", no sentido, de nos despojarmos de qualquer "glória", para nos fazermos entendidos e para comunicarmos em vida (nem tanto com palavras) tão grande salvação.

Um beijo!
Igor

Anônimo disse...

A melhor definição para o evangelho é a palavra simples!!!parabens.Assisti a ultima aula do cates aqui no tele ponto em uberlãndia gostei muito e decidi me ingressar pena que hoje vejo a noticia do seu desligamento porque foi atraves de sua aula que me despertou a vontade de investir nesse conceio.Do mais que Deus te abençõe nessa nova fase e eu continuo te seguindo aqui no blog.Um abraço!!!

Anônimo disse...

abençoada mensagem, no abençoado blog do igor - estarei sempre aí, mantendo o vínculo, o elo de amor do D'us que nos une como Seus filhos, sedentos da compreensão dos mistérios de tão infinito amor, tão infinita confiança e tão infinita obediência do Filho...
EMUNÁ...

abraço, Stella (Curitiba)