31 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Simplicidade e permanência

Reproduzo aqui um texto belíssimo do pastor presbiteriano Ricardo Barbosa de Souza, espero que tirem o máximo proveito de um texto tão inspirador.

Por favor leia este texto, ore a Deus, e permita que o Espírito Santo te guie ao evangelho sem firulas, penduricalhos, simplesmente em Jesus, em uma vida de modesta obediência, amor, generosidade e fidelidade à doutrina de Cristo e dos apóstolos. Liberte-se pela simplicidade do evangelho, sendo simplesmente cristão.

Abraços,
Igor Miguel
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Simplicidade e permanência


Fonte: Site Ultimato

Por Ricardo Barbosa de Sousa

De vez em quando gosto de reler “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”, de C. S. Lewis. Sua habilidade em perscrutar os labirintos da tentação me impressionam. Ele nos ajuda a reconhecer nossa enorme ingenuidade e a profunda sagacidade do inimigo.

Em uma dessas cartas, o Diabo reconhece que o verdadeiro problema dos cristãos é que eles são “simplesmente” cristãos. O laço que os une é a vida comum que eles têm em Cristo. Ele então aconselha seu sobrinho: “O que nós desejamos, se não houver mesmo jeito e os homens tiverem de tornar-se cristãos, é mantê-los num estado de espírito que eu chamo de cristianismo e alguma outra coisa [...]. Substitua a fé em si por alguma moda com colorido cristão. Faça com que tenham horror à Mesma Coisa de Sempre”.

A “mesma coisa de sempre” nos deixa entediados. Ser “simplesmente” cristão, para muitos, não é suficiente. Precisamos de coisas novas. Sempre. Modelos novos de igreja, um jeito diferente de cantar, formas inovadoras de culto, estratégias sofisticadas de crescimento, e por aí vai. Somos movidos pelas novidades, não pela profundidade. Nosso interesse está na variedade, não na densidade.

O reverendo A. W. Tozer, num artigo intitulado “A velha e a nova cruz”, comenta o mesmo fenômeno: “Uma nova filosofia brotou dessa nova cruz com respeito à vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica -- um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Esse novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior”.

O Diabo, na carta ao seu sobrinho aprendiz, diz: “O horror pela mesma coisa de sempre é uma das mais preciosas paixões que incutimos no coração humano -- uma fonte infinita de conselhos estúpidos, de infidelidade conjugal e de inconstâncias na amizade”. A lista poderia se estender, mas o que se encontra por trás desse “horror pela mesma coisa de sempre” é a grande atração pelo novo seguida de uma profunda distração pelo essencial. O que a novidade faz é direcionar nossa atenção para outras preocupações, dando mais valor aos meios e não aos fins.

A formação espiritual cristã sempre requereu, basicamente, obediência a Cristo no seu chamado a proclamar o evangelho, fazer discípulos, integrá-los numa comunidade trinitária e ensiná-los a guardar a sua palavra. Ensiná-los a se comprometerem com o serviço como expressão de amor para com o próximo e com o cultivo e a prática de disciplinas espirituais como oração, jejum, arrependimento, confissão, leitura e meditação nas Escrituras e contemplação.

Não importa o quanto nossas igrejas e ministérios sejam sofisticados. Não importa o volume de novidades e tecnologias que oferecemos. Se no final não encontrarmos as mesmas coisas de sempre, significa que nos perdemos com o meio e não alcançamos o fim.

Existem dois aspectos que considero fundamentais na experiência espiritual cristã: simplicidade e permanência. Quando perguntaram para Jesus como o reino de Deus viria, ele respondeu afirmando o seu caráter discreto. Não viria com grande estardalhaço. Se estabeleceria dentro daqueles que o confessam como Senhor e Rei. Jesus apresenta um evangelho que transforma de dentro para fora. O que o vaso contém é infinitamente maior e mais valioso que o vaso. Ele cresce como uma pequena semente de mostarda. A simplicidade está na natureza própria do evangelho.

A permanência define o caráter pessoal e relacional da fé. Permanecer em Cristo é permanecer ligado como galho na videira. É somente nessa permanência que recebemos de Cristo sua vida e a transmitimos aos outros. Permanecer é mais do que conhecer -- é manter-se em constante e dinâmico relacionamento. As novidades não transformam o caráter; a permanência, sim. Para C. S. Lewis, a maturidade é algo que “todos alcançam na velocidade de sessenta minutos por hora, independentemente do que façam e de quem sejam”.

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Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração”.
29 de dez de 2010 | By: @igorpensar

A Trindade fora d'A Cabana

Em linguagem muito simples, Mark Driskoll pastor da Mars Hill Church, pastor reformado e membro do The Gospel Coalition (organização internacional que agrega os principais pastores reformados, tendo em vista a afirmação do evangelho como ele é), fala sobre a trindade em uma crítica ao livro "A Cabana".

Observe, como em sua explicação ele destaca algo que João Calvino chamaria de "ordem hipostática" ou "ordem econômica", que apesar do Pai, o Filho e o Espírito Santo serem UM quando a natureza e a divindade -- afinal a doutrina trinitária é monoteísta -- há distinção de papéis e funções entre as pessoas da trindade, inclusive "hipostaticamente", há um tipo de "hierarquia" nestas funções. Não obstante, não há qualquer "hierarquia" quanto a natureza divina, o que seria um erro teológico antigo. Infelizmente, muitas pessoas se colocam contra a trindade (como eu fazia) por não compreenderem estes detalhes, outros até creem na trindade, mas não a compreendem. Está aí uma forma simples e didática que não explica a doutrina de forma completa, mas toca em pontos que nem sempre ficam claros para quem os estuda.

28 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Ânsia & Idade

Por Igor Miguel

Uma boa dica para o próximo ano: mais discernimento e menos infância espiritual. Discernimento envolve uma habilidade para julgar situações, uma capacidade de avaliar escolhas a partir de valores e princípios adquiridos ao longo da vida.

No início de uma nova década, determinadas escolhas são fundamentais, mas não são fáceis. Refletir sobre sua trajetória, seus vínculos sociais, determinados intercursos de pessoas e espaços que viveu, tudo isso combinado formam um universo com infinitas possibilidades.

A ansiedade é uma disfunção que nos acomete frequentemente. No mundo moderno, quadros de ansiedade são ainda mais recorrentes justamente pela multiplicidade de possibilidades oferecidas.

Entretanto, nós cristãos, oramos o "Pai Nosso" e lá encontramos duas pequenas sentenças:
  • Venha a nós o vosso Reino.
  • Seja feita a vossa vontade.
Duas sentenças, dois pedidos, que carregam nossa vida de esperança e cuidado. Na incerteza da história e do tempo ancoramos nossas vidas na estabilidade da eternidade. Ou nas palavras do autor desconhecido da carta aos Hebreus:
Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu propósito, se interpôs com juramento, para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta; a qual temos por âncora da alma, segura e firme e que penetra além do véu... (Hb 6:17-19).
O propósito de Deus é imutável e nossa esperança é que podemos "ancorar" nossas vidas na estabilidade da eternidade. A analogia é interessante. Somos como navios frágeis sobre a instabilidade e imprevisibilidade das ondas, no entanto, nossas vidas estão ancoradas na estabilidade das imutáveis e eternas promessas de Deus.

Quando nossas vidas são capturadas pela graça de Deus em Jesus, nos integramos a Cristo, nossa vida não é mais "nossa", torna-se dEle, daí em diante, toda nossa trajetória existencial orbita sob o senhorio de Jesus. Ele ilumina como sol todos os aspectos de nossa existência, trazendo sentido em meio a obscuridade do pecado e da autonomia dos homens.

No Reino há um Rei soberano, um governante. No Reino nada é acidental, tudo envolve uma complexa agenda que no final glorificará a Deus em Jesus, e sem a glória de Deus, seremos escravizados por ídolos tiranos que persistem em usurpar nossa dignidade como criaturas à imagem de Deus.

No ano novo que se aproxima, ore o "Pai Nosso" com mais calma, mais consciência, invoque o Reino e a Vontade. Desfrute do governo de Deus, encare a dor e a adversidade como efeitos de um reajuste, de peças que se deslocam, para que sua existência se integre à vontade amorosa de Deus Pai que em Jesus no Espírito Santo, tem nos moldado para um fim proveitoso.

Lembre-se: ansiedade é sintoma de um pretenso poder humano sobre o tempo, esperança é lançar-se em confiança a um Deus que governa a história.

24 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Palha e Cruz

Por Igor Miguel

Sabemos que não foi em 25 de dezembro. Temos consciência que esta data era outra, celebrava outras coisas, sim, sabemos que sim.

Porém, o que mais sabemos nos foi dado a conhecer por meio de Jesus, que um dia nasceu. Certamente se revestiu de humanidade renunciando sua glória e divindade. Se esvaziou de honras e lisonjas, despojando-se do poder das alturas para assumir a baixeza dos homens.

Um dia isso aconteceu e a Igreja disse para aqueles que celebravam a escuridão dos ídolos e a obscuridade do paganismo: agora resplandeceu a Luz dos Homens, Jesus Cristo.

Ele habitou entre nós, respirou as mesmas partículas de ar que respiramos, pisou a mesma terra que pisamos, bebeu a mesma água que bebemos, morreu a morte que merecíamos, entretanto a venceu da forma que jamais conseguiríamos sem Ele.

Sim, o Verbo se fez carne, viveu, morreu e reviveu, triunfando definitivamente sobre a morte.

Jesus nasceu de fato e neste dia, distinguido por aqueles que substituíram o altar pagão pela cruz, podemos celebrá-lo como quem nascendo todos os dias em corações e comunidades, e assim, termos a certeza que não estamos sozinhos, afinal, Deus está Conosco: EMANUEL.
O menino deitado confortavelmente em palha
e admirado por muitos,
foi o mesmo que morreu desconfortavelmente na cruz
humilhado por todos.

22 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Simplesmente Cristão, o livro.


Se você quer entender meu retorno à fé cristã ortodoxa leia este livro. Nele, de forma simples, este grande escritor anglicano conseguiu demonstrar que o cristianismo faz todo sentido e que não precisamos reinventar a roda mas afirmar sempre a suficiência de Jesus Cristo e de sua graça.

N.T. Wright tem se tornado um escritor de renome internacional por sua sensibilidade hermenêutica e por valer-se de recursos culturais da época de Jesus para explicá-lo a partir da matriz judaica que sua missão emergiu. Bispo anglicano de Durham, na Inglaterra, foi professor das universidades de Cambridge e Oxford por vinte anos e é professor visitante de universidades como Harvard Divinity School, Universidade Hebraica de Jerusalém e Universidade Gregoriana em Roma, entre outras. É autor de mais de quarenta livros.

O livro Simplesmente Cristão: porque o cristianismo faz sentido, explora o conceito de antecipação escatológica do Reino e como isso lega ao ocidente o movimento mais poderoso que o mundo poderia testemunhar: o cristianismo. Uma comunidade edificada em Jesus, sob o fundamento dos apóstolos e profetas.

Disponibilizo o sumário para vossa apreciação:

1. Endireitar o mundo
2. A fonte escondida
3. Feitos um para o outro
4. Pela beleza da terra

5. Deus
6. Israel
7. Jesus: a chegado do reino de Deus
8. Jesus: regate e renovação
9. O fôlego de vida de Deus
10. Viver pelo Espírito

11. Adoração
12. Oração
13. O livro soprado por Deus
14. A história e a tarefa
15. Crer e pertencer
16. Nova criação, começando agora.

Adquira o livro em português publicado pela Editora Ultimato.

20 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Liturgia: orações diárias

Por Igor Miguel

Liturgia é uma palavra de origem grega que significa "serviço". Cristãos evangélicos temem esta palavra, principalmente aqueles oriundos de comunidades pentecostais e neo-pentecostais, por causa de alguma influência do "protestantismo radical" e dos avivamentos que receberam grande influência de correntes pietistas. Por isso, círculos renovados (carismáticos/pentecostais) preferem um culto espontâneo, com orações livres, sem expressões simbólicas de culto, por causa de uma radicalização da reforma protestante a seu passado católico romano, que se valia de expressões litúrgicas como meios de obtenção de graça e alguns problemas que foram criticados com razão pela reforma protestante.

Não obstante, a crítica reformada não era à liturgia em si, mas ao uso abusivo de "formas litúrgicas" que substituíam em muitos casos a consciência cristã e uma espiritualidade sóbria pela performance mecânica de determinados rituais.

Sempre tive apreço por algumas expressões clássicas de espiritualidade, sempre gostei de me integrar à textos bíblicos e recitá-los como se fossem orações de minha autoria para Deus. E o mais importante, expressões litúrgicas como: orações coletivas, leitura pública das Escrituras, a ceia do Senhor e outros elementos, expressavam uma espiritualidade comunitária, ao invés de um pietismo que explora e concentra a vida do espírito na experiência individual, algo recorrente em nossos dias, principalmente nos círculos cristãos já mencionados.

Por isso, estou a procura de expressões clássicas de espiritualidade, principalmente aquelas que me integram ao Corpo de Cristo e me fazem sentir parte de uma grande comunidade, a Igreja. Hoje, procuro trazer um tempero litúrgico para minhas orações devocionais, principalmente de manhã, e confesso, tem sido muito bom.

Tenho seguido o livro de orações diárias da Igreja da Inglaterra (Common Worship Prayer Book), que é um livro das comunidades protestantes daquele pais. Obviamente, o material não está em português, quem sabe um dia poderemos traduzi-lo. Esse livro de orações encontra-se disponível gratuitamente na Internet. Nele é possível encontrar uma sequência litúrgica em que orações se intercalam com textos bíblicos e orações de personagens cristãos importantes da antiguidade e da modernidade (Agostinho, Calvino, John Wesley, João da Cruz, Tertuliano e outros), além de motivos especiais de oração para cada dia semana.

De qualquer forma, para aqueles que não leem inglês e se interessam por este formato milenar de espiritualidade, abaixo lhes dou uma sugestão liturgicamente estruturada de devocional:

1) Oração do Senhor (O Pai Nosso)

2) Orar um Salmo de Louvor (Sl 113-118), ou
2.1) Orar um texto bíblico ou outros salmos.

3) Meditar na Lei do Senhor

Ler e meditar
(estas são algumas sugestões de textos que podem ser intercalados durante a semana):
  • Os 10 mandamentos.
  • Trechos do Sl 119
  • Trechos do Sermão da Montanha (Mt cap.5-7).
  • Deuteronômio 6:4 e seg. (conhecido conhecido entre os judeus por Shemá)
4) Afirmar o Credo Apostólico (resumo da fé cristã)
--> Sobre o uso protestante do Credo Apostólico veja aqui e aqui.

Creio em Deus Pai, todo-poderoso,
Criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo,
seu único Filho
nosso Senhor.
Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo,
nasceu da Virgem Maria,
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado,
desceu à mansão dos mortos,
ressuscitou ao terceiro dia,
subiu aos Céus
está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
donde há de vir julgar os vivos e mortos.
Creio no Espírito Santo,
na Santa Igreja Universal,
na comunhão dos santos,
na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne,
na vida eterna.

5) Oração espontânea.
- Motivos de intercessão:
  • Pela Igreja perseguida;
  • Pelos poderes políticos;
  • Pelos santos e a Igreja no mundo;
  • Pela expansão missionária;
  • Pela salvação dos eleitos do Senhor;
  • Pelas necessidades da comunidade local;
  • E outros motivos.
Obviamente, que esta é uma sugestão básica e flexível para aqueles que querem organizar seu devocional e sua vida de oração. Lembrado-lhes que, práticas como essa devem ser feitas a partir de uma perspectiva de "Docilidade Comunitária", de uma consciência de integração e pertencimento a uma comunidade eleita, composta de mártires, santos, missionários, de todos os tempos e eras na unidade do Espírito Santo. Em algum sentido, quando oramos e confessamos nossa milenar fé em Jesus Cristo, nos integramos aos discípulos de Cristo de todas as eras e lugares, fazemos parte de um Corpo.

Tenho observado, que uma estrutura litúrgica no devocional nos disciplina e cria "ilhas de eternidade"*, de reflexão e contrição em um mundo frenético, que igualmente é palco de nosso engajamento vocacional. Além disso, orações estruturadas desta forma, evitam orações egoístas, privadas e orações que por sua excessiva espontaneidade acabam se tornando vazias de conteúdo e direção. Após este ritmo devocional, mesmo as orações feitas de forma livre, tornam-se mais alinhadas com uma espiritualidade comunitária e menos individualizada.

Para uma reflexão sobre a liturgia vale a pena uma lida no meu texto: Amor, Corpo e Liturgia.

Vamos orar?
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*Para uma compreensão da ideia de "ilhas de eternidade" e espiritualidade no tempo, vale a pena ler o livro "O Schabbat" de Abraham Joschua Heschel. Uma reflexão filosófica e teológica de um filósofo judeu a respeito dos intercursos da eternidade na história e rotina.

Blog Pensar: quinto ano

Este post vem com cheiro de gratidão...

O blog, que você está conectado agora, nasceu em 2005 como uma atividade da minha licenciatura em educação pela FAE/UEMG, na disciplina de Sociedade da Informação, algo totalmente despropositado, sem qualquer intensão de se tornar o que modestamente se tornou.

Hoje, caminhando para seu quinto ano de existência. O Blog Pensar se tornou um livro online, a quantidade de textos por aqui se expandiu muito, principalmente nos últimos 3 anos. Fruto de uma série de leituras, impressões pessoais desde política, educação, filosofia e principalmente teologia. A gama é vasta, mas são textos que emergem do coração, da ideia de que a vida envolve uma experiência tão incrível que merece ser registrada.

Acaba que o blog mescla tom apologético, as vezes, tom de manifesto, hora, tom de gratidão, muitos textos aqui foram escritos em lágrimas, outros em risos, outros sob tensão, mas, são impressões honestas de um coração atraído por um Deus e uma espiritualidade criativa.

No final das contas, este blog é a trajetória de alguém obcecado pela verdade, que sabe que neste caminho, inverdades podem ser encontradas, mas apegado à promessa de Jesus, que falou a respeito do Espírito da Verdade (João 16), que nos guiaria a todo sentido e veracidade.

Agradeço pela média de 5000 visitas livres mensais desde o ano passado, algumas vezes mais, outras menos. Agradeço os quase 200 seguidores fixos que se mantêm conectados às novidades postadas no blog e claro os 400 seguidores do twitter, ranking que alcançamos a pouco.

E finalmente, agradeço as centenas de e-mails recebidos por mês, com palavras de ânimo e suporte espirituais para que continuemos escrevendo e tentando levar esperança a milhares de pessoas, algumas identificadas, outras anônimas e muitos que só passam, mas levam pedaços de amor e inspiração pelo mundo.

Minha expectativa é que em 2011 o Blog Pensar continue prestando este serviço às pessoas e aprendam uma lição básica: a verdade é cara, mas qualquer preço por ela, ainda é pouco ante sua preciosidade.

Muito obrigado a todos que passam por aqui. Boas festas e que Deus renove nossos dias em um novo ciclo vocacional em Deus.

Clique nos links abaixo e fique você também conectado ao Blog Pensar:
Com o coração saturado de esperança em Jesus Cristo nosso Senhor.

Igor Miguel
18 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Apascentai o Rebanho

Apascentai o rebanho de Deus,
que está entre vós,
não por força,
mas espontaneamente segundo a vontade de Deus;
nem por torpe ganância,
mas de boa vontade;
nem como dominadores
sobre os que vos foram confiados,
mas servindo de exemplo ao rebanho.


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Primeira Carta de Pedro o Apóstolo
Capítulo 5, Verso 2-3
17 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Riqueza das Nações

As nações andarão mediante a sua luz, e os reis da terra lhe trazem a sua glória. As suas portas nunca jamais se fecharão de dia, porque, nela, não haverá noite. E lhe trarão a glória e a honra das nações. (Apocalipse 21:24-26).

As nações e seus reis subirão à Nova Jerusalém trazendo suas riquezas, seus tesouros, sua cultura e suas conquistas. O Reino de Deus consegue reunir o ritmo árabe, a melodia europeia, a percussão africana, o poema latino, os gostos asiáticos e por ai vai. O Reino de Deus acolhe povos, línguas e nações, aí reside sua catolicidade (termo grego que significa - universal), sua hospitalidade a tudo que a graça de Deus pode outorgar aos homens, e por isso precisam ser devolvidas para sua glória.

O vídeo abaixo é uma demonstração de como a Igreja consegue antecipar o Reino de Deus, trazer a realidade escatológica de Apocalipse, neste vídeo, um afro-americano se alegra em suas raízes, se alegra a respeito do legado de seu povo ao Reino de Cristo. Que seja um convite para que todas as línguas, povos, raças, criaturas, louvem ao Senhor e tragam suas riquezas, seus carismas a Nova Jerusalém.

Por hoje, que possamos sentir o cheiro de terra africana, enriquecendo a Cidade Santa:



13 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Doce Comunidade

Por Igor Miguel

Tenho vivido dias modestos. Dias de simplicidade, de valorizar coisas básicas, criar expectativas próximas. Nada muito grande, sem pretensões ou sonhos aprisionadores. Descobri que a forma mais agradável de se viver é viver em comunidade.

A graça me beijou, meu coração enche-se de gratidão. Quando oro a oração que Jesus me ensinou, quando chamo Deus de Pai, alguma coisa me integra a uma multidão de mártires, peregrinos, a uma grande nuvem de testemunhas (Hb 12:1): homens, mulheres de desertos, de monastérios, de cidades, de universidades, de fogueiras, de livros, alguma coisa me inclui na cidade de Cristo, a Cidade de Deus.

Em comunidade vejo rostos familiares, uma família milenar, ao redor da mesa da comunhão, na sacralidade do partir do pão, do misterioso sacramento, que emerge da páscoa, shulchan arúch, mesa posta.

Quando seguro o pão, quanto pego no cálice da Nova Aliança, diante do banquete sacramental, alguma coisa me coloca na mesa da última ceia, ouvindo cantigas e salmos, com a presença de discípulos covardes, amados e traidores, lá estão todos reunidos, com riscos, alegrias, fraquezas e amor.

Comunidade... mesa eucarística[1], de comunhão, edificados não no Monte do Templo, agora, construídos sobre a Pedra Angular, sobre o fundamentos dos apóstolos e profetas: Jesus Cristo.

Uma comunidade universal. Nela a linha entre o existente e não-existente, incluídos e excluídos, se dissolve, porque lá todos se aproximam para se tornar um em Cristo. Evangelho da paz para que os estavam perto e para os que estavam longe (Ef 2).

Lá na comunidade, na comunhão dos santos, como assevera o credo, cresce um interesse pelo que é o outro. Uma curiosidade irresistível de saber como aquele que chamamos irmão vê a Cristo: será que com o mesmo olhar? Será com a mesma alegria? Que história o Espírito de Adoção inscreveu em sua história?

Perguntas silenciosas, que perpassam biografias, causos dramáticos, que compõem uma grande comunidade chamada: IGREJA.

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[1] Eucaristia significa comunhão.

Vem me Socorrer

Uma canção do amigo Marcos Almeida do Palavrantiga para embelezar o mundo.

10 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Cisco no Olho de Narciso

Por Igor Miguel

Viver em um mundo narcísico, significa viver imerso em uma cultura que adora a auto-imagem. Pior do que se aprisionar a um ídolo fora de si é estar-se preso a si mesmo. A ditadura do espelho, da imagem projetada, da exposição de si, envolve uma série de problemas. Para manter-se projetado, vale tudo, inclusive comprometer princípios e escrúpulos, vale até passar por cima daqueles que morreriam te defendendo, pensa o homem que quer tornar célebre seu nome.

Martin Buber já denunciava o uso instrumental do "outro", que neste caso não é encarado com dignidade enriquecedora, alteridade. Se o "outro" se torna objeto, o "eu" se torna sujeito, sujeitando todos ao redor de sua messianidade.

Grande tratamento é a desconstrução narcísica, o despir-se do velho homem e a constatação de que a plenitude não está em mim. Sim! Chegar à bela conclusão que meu desempenho e performance são pueris ante a grandeza da humilhação de Deus na cruz. Ele abriu mão, esvaziou-se. E eu? Continuo procurando me encher, continuo com sentimentos triunfalistas de que vou mudar o mundo, mudar a história, carregando um complexo de divindade.

Enquanto homens, queremos nos manter na história, perpetuar nossa altivez no tempo, mas, só Jesus Cristo, conseguiu mudá-la e instaurou-se no meio do calendário, dividindo a cronologia em antes e depois dEle. A introdução de Deus na história, a encarnação, é o mem entre o alef e o tav[1]. Certamente, Jesus uma vez crucificado, na horizontalidade da história, verticalizou-se formando uma cruz, encruzilhada entre rotina e teofania.

O cristianismo tornou-se despensa de homens que renunciaram o narcisismo, sacrificaram sua própria imagem, para tornar a áurea glória de Cristo conhecida. Negaram a admiração, para convidar os homens a se tornarem à imagem de Deus em Jesus. Em outras palavras, vale a pena "descer a serra" e deixar os apetrechos, memórias, aplausos, honra tudo caindo pelo caminho, para que no fim, só permaneça o Deus da eternidade, resplandecendo em toda sua majestade nos altos montes.

Enfim, o cristão é este sujeito sui generis que trocou a supremacia da história, pela supremacia da intrometida eternidade. Aparentemente, um pequeno cisco que mudou o ângulo de visão do espelho:

E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito. (II Co 3:18)

________________
[1] A palavra hebraica para verdade (emet - אמת) é formada pelas letras alef, mem e tav, que são justamente, uma letra do início, meio e fim do alfabeto hebraico. O pensamento judaico, por isso, considera o conceito de verdade como uma totalidade, uma plenitude, com início, meio e fim.

A Graça da Garça

Novo Calvinismo?

Excelente artigo publicado pelo site da Revista Ultimato, indicação de minha amiga Dan de Valinhos-SP

Movimento quer trazer jovens às raízes


Três pastores reformados recentemente sentaram juntos nos Estados Unidos para conversar sobre o Novo Calvinismo que esteve varrendo a nova geração de Cristãos. É um movimento para jovens fiéis voltarem às raízes – ou seja, a Escritura e a soberania de Deus.

“Você tem uma geração de Cristãos que cresceram em uma cultura predominantemente secular e não são parte de uma cultura de Igreja,” disse o Dr. Albert Mohler, presidente do Seminário Teológico Batista do Sul, em uma discussão informal realizado por The Gospel Coalition.

“Eles estão percebendo que alguma coisa tem de explicar como chegaram à fé no Senhor Jesus Cristo. Eles têm uma determinação absoluta, pode-se dizer, para deixar claro que o seu primeiro princípio é a soberania de Deus, não a soberania de si mesmo.”

O reverendo Kevin DeYoung, pastor sênior da Igreja University Reformed em East Lansing, Michigan, acredita que parte do apelo do Novo Calvinismo é que “tem algum músculo para isso” e é “robusto em doutrina.”

Há um sentido renovado de que “a soberania de Deus é bíblica e extraordinariamente importante, que Deus nos ama antes que o amássemos, que Ele é o único que faz o trabalho decisivo para a nossa salvação,” disse o jovem pastor.

Nos últimos anos, os pastores têm ponderado o aumento do interesse na teologia reformada – que inclui a manutenção da autoridade da Escritura, a soberania de Deus e a soberania da graça – com alguns propondo que se está saindo de uma inquietação e insatisfação com o evangelicalismo contemporâneo.

“Cansado de Igrejas que buscam entreter mais do que ensinar, sentindo falta depois da carne verdadeira da Palavra, estes jovens estão buscando doutrina e estão se tornando rapidamente novos Calvinistas,” afirma uma postagem no blog popular cristão Internet Monk.

Mohler foi identificado como um dos teólogos evangélicos contribuindo para o ressurgimento. Outros incluem o teólogo batista John Piper, CJ Mahaney das Igrejas da Sovereign Grace, e Mark Driscoll, Igreja Mars Hill.

“A novidade é que você tem gente nova em um novo tempo que estão redescobrindo os mesmos tipos de instintos teológicos e impulsos que levaram à Reforma e os encontra nas mesmas fontes – a Escritura,” explicou Mohler.

E o desejo por respostas carnais a perguntas como “como a graça de Deus vem a mim” emergem” de jovens que tentam nadar contra a maré do secularismo,” disse o conhecido evangélico.

O teólogo reformado Ligon Duncan explica o fenômeno desta maneira, “Eu acho que as antigas tradições confessionais abandonam sua fidelidade a algumas das grandes verdades que todos os protestantes têm valorizado porque nós os encontramos nas Escrituras, e os vemos no âmago do que a vida cristã e ministério são aproximadamente, você tem uma nova geração de pessoas que estão vasculhando a nossa lixeiras e dizendo ‘isso é ótimo, porque nunca ninguém me falou sobre isso?’”
Enquanto os jovens redescobrem as verdades bíblicas, DeYoung considera que pode “realmente revigorar evangélicos.”

Enquanto isso, para Mohler, o rótulo – se é o Novo Calvinismo – não importa.
Tudo se resume às Escrituras e “estar comprometido com o Evangelho, querendo ver a alegrar as nações em nome de Cristo, e querendo ver Igrejas evangélicas construídas e comprometidas,” indicou Mohler.

“Se você vai mergulhar profundamente as Escrituras, se você vai ter que explicar por que as Escrituras têm essa autoridade … [e] como isso se deu certo na vida, francamente, eu não ligo para como você rotula isso, você vai acabar em um bom lugar.”

Globalmente, os três teólogos estão animados.
“Eu acho que é uma coisa maravilhosa e puramente boa que esta nova geração esteja profundamente bíblica, profundamente apaixonada, profundamente convicta, cada vez mais confessional e pronto para fazer algo grande para o nome do Senhor Jesus Cristo,” disse Mohler.

Fonte: Christian Post/Creio
7 de dez de 2010 | By: @igorpensar

Torah: citação de um pastor

Citação de um pastor reformado sobre a Lei:

"A graça não aboliu a lei nem dissolveu a criação. Mesmo após o princípio de nova criação em Cristo [...] Da mesma forma que a vida tem diversas cores, o cosmo criado tem diversas leis. Juntas, elas compõem a boa, perfeita e agradável vontade de Deus, a sua Torah, a sabedoria por meio da qual ele criou o mundo."*

Autor: Pr. Guilherme de Carvalho.


Fiquei muito emocionado quando li isto pela primeira vez. Na ocasião quebraram-se meus preconceitos a respeito de um cristianismo que separava lei e graça. Aí encontrei finalmente, uma tradição dentro da fé cristã histórica que havia superado a heresia marcionista, e a insistente separação entre um Deus que cria e também redime. Sem legalismo e sem libertinagem.

Louvado seja o Senhor Jesus Cristo: Salvador, Legislador e Criador.
___________
* No livro Fé Cristã e Cultura - Ed. Ultimato.

Cartas a um Jovem Calvinista

"Cartas a um Jovem Calvinista" agora disponível*

Por James K.A. Smith**
Em 17/10/2010

Letters to a Young Calvinist (Cartas a um Jovem Calvinista) foi publicado e estará disponível em livrarias perto de vocês [N.T.: EUA]. Eu recebi minhas cópias há poucas semanas atrás e eu estava ansioso para vê-lo em formato impresso. A Editora Brazos fez um grande trabalho criando um livro pequeno e simpático, acessível e manuseável em seu formato e apresentação. Certamente ele é o mais "popular" e acessível livro que já publiquei.

Agora minha esperança é que ele alcance seu público. Minha expectativa é que todo tipo gente possa lê-lo, especialmente, espero que ele seja lido por uma geração jovem que, como eu, em minha juventude, fui despertado a um cristianismo pensante e por uma certa corrente da teologia reformada. Letters to a Young Calvinist é um convite para ver outras tendências da tradição reformada e valorizar a complexa riqueza dos vários aspectos do referido movimento.

Algumas vezes eu descrevo este pequeno livro como "Kuyper para Piper". O objetivo é edificar nos jovens, incansável interesse reformado nas doutrinas da graça, além de celebrar outros temas da tradição reformada como: criação, cultura, aliança e catolicidade, com uma preocupação especial em apreciar a eclesiologia dos reformadores. No processo, porém, há também algumas críticas internas oriundas do kuyperianismo [N.T. uma referência ao neo-calvinismo holandês de Abraham Kuyper].

Como em qualquer livro, alguém o envia ao mundo como uma criança, tremulo e com certa ansiedade, porém, com muita esperança e gratidão. Acompanhe por notícias sobre eventos relacionados ao livro em nossa página no Facebook que está funcionando.

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Tradução: Igor Miguel
Original: Fors Clavigera
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* Disponível até o momento somente em língua inglesa.
** PhD, Villanova University é professor associado de filosofia e professor adjunto no
Calvin College. Ele é autor da obra aclamada pela crítica: Who's afraid of Postmodernism? e Introducing Radical Orthodoxy e o editor do site www.churchandpomo.org
29 de nov de 2010 | By: @igorpensar

James Parkes: judaísmo e cristianismo

Por Igor Miguel*

James Parkes (1896-1981) foi clérigo anglicano, historiador e ativista social. Em 1929 escreveu sua primeira publicação intitulada The Jew and His Neighbour (O Judeu e seu Próximo), onde propõe a abertura de um diálogo entre cristianismo e judaísmo, especificamente interessado em uma reavaliação de cristãos em relação a religião que foi matriz cultural de sua fé.

Parkes se engajou fortemente na denúncia de algumas produções cristãs de cunho antijudaico e antissemitas, tratou estas questões de forma muito equilibrada, assumindo as tensões entre ambos os lados (judaísmo e cristianismo), fruto deste trabalho nasceu sua famosa obra: The Conflict of the Church and the Synagogue (O Conflito da Igreja e a Sinagoga) escrito em 1934. Sendo esta sua obra magna dentre seus 33 livros e centenas de artigos publicados.

Graças a Parkes, hoje há um centro de estudos de relação entre judeus e não-judeus na Universidade de Southampton (Parkes Institute), fundado por ele em sua carreira acadêmica independente. Um dos maiores centros de referência desta modalidade de estudos na Europa, perdendo talvez só para Institutum Judaicum Delitzschianum de Franz Delitzsch na Alemanha.

Traduzo abaixo um trecho de um de seus artigo sobre o diálogo entre judaísmo e cristianismo, um de seus melhores artigos. Compartilho os mesmos sentimentos deste cristão anglicano pioneiro na aproximação destas duas tradições há décadas atrás:
"Neste tempo e geração, eu não apenas não desejo ver a conversão de todos os judeus a presente forma de cristianismo, e tão pouco busco a união de duas religiões. Isto pode acontecer no futuro. Mas, isto só poderia vir a acontecer quando eu posso abertamente trazer tudo que valorizo da tradição cristã a um tanque comum onde o judeu possa igualmente trazer abertamente tudo que ele valoriza da tradição judaica. E, certamente este dia não chegou ainda, e em nossa atual circunstância uma religião feita de remendos e compromissos e sínteses superficiais seria um monstro carente das muitas qualidades que cada tradição poderia legar de seus respectivos permanentes valores para a humanidade." (James Parkes – Judaismo e Cristianismo – tradução e grifo nosso).
Amei este trecho!
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*A introdução biográfica foi baseada em textos da web e da wikipedia em Inglês no verbete James Parkes (clergyman)
27 de nov de 2010 | By: @igorpensar

Restauracionismo Discernido

Prezados leitores,

Como alguns sabem e outro não querem saber, a estes reservo-lhes este direito, tenho alegado em vários momentos neste blog, que um dos motivos que me fizeram retornar à fé cristã como ela foi consensualmente constituída pela história, me ligando a uma tradição teológica que me parece coerente com as Escrituras, deve-se ao fato de que cansei das soluções pós-modernas ou modernas para a crise da Igreja Evangélica. Não concordo que a Igreja Cristã tenha fracassado, ao contrário, creio que Cristo tem um profundo compromisso com sua Igreja, como ela se expressa por meio do cristianismo. Mesmo sendo este, passível de erros históricos, afinal é operado por homens, estes erros não descredibilizam as incontáveis conquistas e legítimo testemunho perante todos da absoluta suficiência de Jesus Cristo, como Senhor e salvador, de toda humanidade.

Alguns levantam a objeção de que "não querem doutrinas de homens" e acabam afirmando sua própria doutrina, como se fossem isentos de falhas e erros hermenêuticos. Os homens sempre estarão lá, mas não podemos nos esquecer nunca que muito das confissões teológicas da Igreja como o: Credo Apostólico, Credo Niceno, Credo de Atanásio, Confissão de Westminster, Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e muitos outros documentos, foram constituídos no esforço da Igreja em se manter coesa e em unidade. Afirmar arbitrariamente que estes documentos não têm valor, é negar a própria capacidade de Deus guiar seu povo no Espírito da Verdade a uma unidade doutrinária.

As causas que levam a Igreja Evangélica deparar-se com uma gama absurda de movimentos internos que se pretendem trazer alguma solução para a atual crise do evangelicalismo, não é uma novidade. Ao contrário, tem raízes históricas. Desta forma, movimentos restauracionistas, emergentes, pietistas, grupos "semi-cristãos", ou que não assumem nenhuma identificação com o cristianismo ou com o evangelicalismo, emergem em todos os lugares. Não obstante, sinto-me convencido de que a solução clara para a atual crise, não é a afirmação de um "purismo bíblico" ou um "primitivismo apostólico". Essas soluções nunca funcionaram, ao contrário, todas as grandes seitas e desvios doutrinários da Igreja emergiram de um alegado "retorno" à era apostólica. São velhas "soluções" que sempre trouxeram velhas heresias.

Enfim, fiquei muito feliz, quando me foi apresentado pelo Pr. Guilherme de Carvalho o brilhante artigo, recentemente publicado pela Revista Ultimato, que nos foi brindada pelo Bispo Anglicano Robson Cavalcanti a este respeito. Fiquei feliz, pois fui vítima e ativista neste tipo de desvio doutrinário, hoje em retorno à fé cristã, amparado pelas confissões e credos clássicos afirmados por protestantes e cristãos durante a história, sinto-me na obrigação de denunciar estes desvios. O texto abaixo me chega em tempos que termino um pequeno artigo em que denuncio os desvios doutrinários de movimentos restauracionistas (em breve será publicado) e de uma reforma radical (hiperprotestantismo), ou como denomina o Bispo Robson de neoanabatismo.

Sendo assim, compartilho o texto abaixo, ele é de excelente qualidade e é um convite para que cristãos encontrem nas fontes clássicas de sua fé a resposta a atual crise e não em inovações teológicas ou afirmações pretensamente "primitivistas", que são fruto mais de um hibridismo pós-moderno, do que de uma conexão honesta com um legado que fieis a Cristo vêm transmitindo pelas gerações.

Boa leitura!
Igor Miguel

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O Brasil e o Protestantismo Neoanabatista

Algumas Reflexões Sobre o Pretensamente “Novo”

Como Apenas Desdobramento do “Velho”

Fonte: www.dar.org.br

Há algumas décadas, o pensador peruano Samuel Escobar, um dos fundadores da Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), escreveu sobre o fenômeno da anabatistização do Protestantismo do nosso continente, não importando qual seja a denominação. Não é somente o fato de que algumas igrejas evangélicas apenas aqui rebatizam católicos romanos e ortodoxos orientais, contrariando o ensino dos reformadores e as suas práticas em outros continentes, mas se trata do Anabatismo como uma ideologia que se forma a partir da Reforma Radical, com seus desdobramentos históricos até os nossos dias. Vejamos algumas marcas:


1. Apostasia da Igreja como leitura histórica. Da morte do apóstolo João ao nascimento de Lutero, tudo que a Igreja fez foi errado, se afastando da sua “pureza” original. Isso se chocava com os pensadores da Primeira (Lutero, Cranmer) e da Segunda (Calvino) Reformas, que consideravam os velhos corpos cristãos não-reformados, a despeito dos seus “erros, desvios e superstições”, como autênticas expressões do Corpo de Cristo. A ideologia anabatista desqualifica quinze (hoje vinte) séculos de História, e dela retira a presença do Espírito Santo derramado no Pentecostes;

2. Restauracionismo como princípio re-fundante. Se todo o passado foi de erros, agora, o novo grupo vai “restaurar” a pureza da Igreja, segundo o mesmo entende (séculos depois) que era a Igreja Primitiva. Desde então, temos tido ciclos de expressões restauracionistas, ora dentro do espectro da Igreja, ora na fronteira (Adventismo), ora fora dela (Testemunhas de Jeová);

3. Presentismo, para usar de uma denúncia de C.S. Lewis contra as gerações movidas de um sentimento anti-histórico, que não leva em conta a Tradição Apostólica nem o Consenso dos Fiéis, mas, sem umbigo, pretendem, em uma tábula rasa, inventar a roda outra vez, sendo apenas superficiais;

4. Eclesiologia Dualista e Minimalista. Estabelece-se um dualismo neo-platônico entre o organismo (= bom, de Deus) e a instituição (= má, dos homens), entre a igreja invisível’ e a “igreja visível”, que, em uma concepção minimalista é a “igreja local” (congregação) crendo que a Igreja de Jerusalém era regida pelas regras parlamentares de Westminster... Um conjunto qualquer dessas “igrejas locais”, com suas peculiaridades, forma uma “denominação” (um conceito novo e extra-bíblico), com a satanização das organizações históricas, a negação dos sacramentos e o desprezo pela hierarquia ministerial;

5. Iconoclastia. Rejeição de toda a arte sacra: arquitetura, escultura, pintura, vitrais, símbolos, vestes, ritos. O feio é o belo. O inestético é o espiritual. A informalidade é a recuperação da pureza do Cristianismo. Aqui, entra uma dimensão que a Psicanálise tem estudado entre neuroses e rejeição à arte por repressão ao prazer. O “teológico” pode ser apenas uma fachada para o psicológico.

A ideologia anabatista perpassou vários momentos e movimentos na história da Igreja no Ocidente, desde os “entusiastas”, antecessores do pentecostalismo, encontrados (e combatidos) no Luteranismo e no Anglicanismo do século XVI, ao menonismo de vários matizes (Amish, Huteritas), o Pietismo, os Quackers, posteriormente os Irmãos Livres (Irmãos de Plymouth), a Igreja Apostólica e a Igreja Nova Apostólica, o “Pequeno Rebanho” (Watchman Nee/Witness Lee) e suas “igrejas locais”, “igrejas sem nome”, “comunidades evangélicas”, o movimento mais recente das “igrejas nos lares” (House Church), e, por fim, as Igrejas Emergentes e as Novas Iniciativas.

Hoje algumas dessas expressões se pretendem pós-denominacionais ou não-denominacionais (e se você for chegar perto são apenas variações de igrejas batistas e/ou pentecostais) sem usar esse título; outras mantêm vínculos mínimos ou estão hospedadas nas igrejas históricas ligadas a movimentos ou redes de ideologia de fundo anabatista (com as 5 características apontadas acima), que poderíamos denominar, mais adequadamente, de neoanabatismo. Algumas mantêm uma ênfase nas doutrinas históricas, outras afirmam que “as pessoas querem saber de vida e não de doutrinas”, havendo até quem negue o apóstolo Paulo e se resuma a pretensa radicalidade do Reino, aos ensinos de Jesus.

É interessante que uma das marcas do neoanabatismo contemporâneo foi herdada do Liberalismo teológico do século XIX: tornar o Evangelho palatável para o homem pós-moderno, como aqueles o pretendiam fazer para o homem moderno. O século termina por dar a agenda da igreja, primeiro na linguagem, métodos e abordagens, por fim no seu próprio conteúdo. “O homem pós-moderno não aceita essas coisas. Isso não faz sentido para ele”.

Um setor tem a preocupação em estabelecer “igrejas locais” moldadas para as novas tribos urbanas, particularmente de jovens. Cessa a riqueza da diversidade e da complementariedade, e se cai em algo padronizante. Não uma área da igreja, ou um ministério da igreja para os diversos grupos, mas uma igreja mesmo. E quando esses jovens envelhecerem, ficarão como aqueles curiosos anciãos hippies de um bairro de San Francisco, na Califórnia? E se esses jovens amadurecerem e rejeitarem o pitoresco do passado? E se virarem executivos e “empreendedores”?

Ouvi do velho Billy Graham, que, sem menosprezar a importância da comunicação transcultural, não devemos exagerar nesse ponto, porque atrás de qualquer “casca” está apenas um pecador que necessita se arrepender e depositar a sua fé em Jesus Cristo, e que para todas as culturas há um velho e eterno evangelho a ser anunciado.

Será que o Brasil será sempre um país religiosamente azarado, em que os mais refinados, os mais artisticamente sensíveis, terão que ficar presos aos extremos da idolatria e da iconoclastia, sem lugar para uma igreja reformada valorizadora da história, do consenso dos fiéis, bem como da reverência e da beleza na adoração, incluindo os símbolos e a liturgia? Quem rejeitar a idolatria está condenado ao empobrecimento estético, à iconoclastia do presentismo informalista?

O pretensamento “novo” é apenas um remake de velhas iniciativas, que respeitamos, desde que não se pretenda a verdadeira, e que não pretenda desqualificar as outras expressões da fé reformada.

O irônico é que o fenômeno que já vinha acontecendo nas últimas décadas no Primeiro Mundo, quando filhos e netos de antigas tradições anabatistas terminavam na Igreja Romana, em Igrejas Orientais, ou como Anglo-Católicos no Anglicanismo, famintos de mística, de reverência, de símbolos e de estética, agora também começa a se registrar nos filhos e netos das Igrejas Emergentes e das Novas Iniciativas... Em alguns países da América Latina a saturação do neoanabatismo já começa a produzir efeitos semelhantes em jovens protestantes.

A “atração fatal” do neoanabatismo, pentecostal ou não, para setores das igrejas históricas no Brasil, tem concorrido para uma baixa auto-estima e estima de identidade, como, por exemplo, temos conhecido “anglicanos” sui-gêneris: anti-Cânones, anti-Livro de Oração Comum e anti-Episcopado...

O neoanabatismo é um fenômeno enraizado, crescente, forte, que atinge a todas as denominações, como um grande rolo compressor em nosso continente e em nosso País..

Em coerência com a nossa identidade, em honra aos nossos antepassados na fé, em consideração a uma parcela da população brasileira que tem o direito de conhecer uma alternativa ao dualismo idolatria vs. iconoclastia, é que nós, setores das Igrejas Históricas, teimamos em ser o que somos, sem pedir licença ou desculpas, antes exigindo sermos respeitados e escutados, pois o futuro, cremos, se baseia no passado enraizado no eterno.

Ser ou não ser, é a velha (e atual) questão!

Paripueira (AL), 01 de setembro de 2010,

Anno Domini.

+Dom Robinson Cavalcanti, ose

Bispo Diocesano




25 de nov de 2010 | By: @igorpensar

Apocalipse now!

Por Igor Miguel

"... a questão da literatura apocalíptica não é a predição, mas um desmascarar - desvelar a realidade ao redor de nós como ela realmente é [...] O que nós precisamos então, é um tipo de apocalipse contemporâneo - uma linguagem e um gênero que vê através das engrenagens e nos revele o caráter idólatra e religioso das instituições contemporâneas..." (SMITH, James K.A. Desiring the Kindom: worship, worldview and cultural formation. Grand Rapids: BakerAcademic Pub., 2009. p. 92. tradução nossa).

O que me impressionou neste trecho do livro de James K.A. Smith, dentre outras coisas que me impressionaram, é que ele propõe uma outra abordagem de livros como Apocalipse. Comumente tratamos esta obra bíblica como um livro apenas de predições proféticas ou de uma escatologia futurista. Entretanto, nos esquecemos que o termo "apocalipse", um termo grego que significa "revelação", além de ter o sentido de uma revelação do futuro, envolve uma descortinar de estruturas iníquas. Grande parte das visões de bestas, prostitutas, insetos demoníacos, reis e cavaleiros apocalípticos, são impressões divinas em uma mente judaica, conectadas às predições proféticas do passado ou de uma substancial tradição e imaginário apocalíptico outrora anunciado, tendo em vista denunciar, desvelar a verdadeira face do mundo, da Babilônia, do reino paralelo ao Reino de Deus, que os homens querem constituir:
Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável, pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se prostituíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria. Ouvi outra voz do céu, dizendo: Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos; porque os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou dos atos iníquos que ela praticou. [...] Ora, chorarão e se lamentarão sobre ela os reis da terra, que com ela se prostituíram e viveram em luxúria, quando virem a fumaceira do seu incêndio, e, conservando-se de longe, pelo medo do seu tormento, dizem: Ai! Ai! Tu, grande cidade, Babilônia, tu, poderosa cidade! Pois, em uma só hora, chegou o teu juízo. E, sobre ela, choram e pranteiam os mercadores da terra, porque já ninguém compra a sua mercadoria. (Ap 18:2-11).
O gênero apocalíptico precisa ser retomado, esta é a ideia, precisamos deste gênero literário que levanta a "saia" da prostituta babilônica e denuncie suas vergonhas. Neste caso, as implicações políticas de Apocalipse são inimagináveis.

O que Deus mostra pra João em Apocalipse é que o que parece próspero e excitante, bem como toda busca frenética por expansão comercial, os prazeres, cheiros e cores, e a exploração sensual de seu tempo e mesmo as relações de poder de impérios que ascendiam e caíam, eram a face ilusória de um mundo tomado por demônios, governado por homens possessos, por palavras de blasfêmia e instituições que mais parecem Leviatãs e bestas feras do que estruturas burocraticamente organizadas.

Apocalipse é um gênero que revela que toda estrutura iníqua, o vinho da prostituta babilônica, a ideologia sedutora da pax romana, é construída ao preço de martírio dos santos, daqueles que denunciaram as vergonhas dos poderosos e afirmavam o senhorio de Cristo.

A literatura apocalíptica mais do que um livro de desespero é uma denúncia esperançosa, afirma o juízo eminente sobre estas estruturas do pecado, e por outro lado, o triunfo final dos santos, a vingança sobre o sangue dos mártires que perderam suas vidas por causa de seu compromisso com a justiça:

Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder são do nosso Deus, porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande meretriz que corrompia a terra com a sua prostituição e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. (Ap 19:1-2)

A corrupção política, as campanhas pela naturalização do pecado, articulações políticas pela criminalização de valores judaico-cristãos, o consumismo e a mercantilização de bens culturais, a venda de títulos sacerdotais e a prostituição religiosa, precisam ser denunciadas em tom apocalíptico, com a mesma veemência e linguagem escatológica dos primeiros cristãos. O desafio é aproximar escatologia e história, apocalipse e política. A missão do apóstolo João e nossa missão.
22 de nov de 2010 | By: @igorpensar

Ore hoje!

Por Igor Miguel

Tenho buscado de Deus uma espiritualidade que lhe agrade. Não quero uma espiritualidade pietista, subjetivista, eu quero me sentir como indivíduo, porém, ligado a uma comunidade. Quero me sentir como membro de um corpo, não fora dele.

Sempre me alegro quando o Espírito Santo me traz a consciência que estou unido com Cristo por mistério e graça. Que de alguma forma o batismo me revestiu de Jesus.

Quero uma espiritualidade em que a oração não é penosa, mas acolhedora e exortiva, simultaneamente confrontadora e consoladora. Quero orar guiado pela suavidade do Espírito Santo, que me conduz a consciência de que o pão e o vinho que segurei em minhas mãos na última ceia, anunciam a morte e ressurreição, o sepultamento e reconstituição, a morte do velho homem e surgimento de uma vida completamente nova.

Quero entoar salmos e cânticos espirituais, quero tanger a corda do meu coração cantando canções de amor e gratidão. Estou em busca de uma vida cheia do Espírito Santo, sensível, amorosa, honesta, que transpareça a graça que alcança todos os dias pecadores e homens altivos como eu.

Não quero ostentar meus feitos, minhas ações são fruto de graça, não são uma propaganda de uma religiosidade autônoma que ainda não entendeu a grandeza de Cristo. Jesus não pode ser um acessório, vulgarmente usado para justificar minhas pretensões religiosas, ao contrário, Jesus Cristo é o núcleo, a pedra angular, donde todas as coisas irradiam.

Quero uma espiritualidade cristocêntrica, fundada no Emanuel, naquele que revelou quem é Deus, projeção e expressão exata do Seu ser. Quero a eleição do Pai, a redenção do Filho e o selo do Espírito Santo (Efésios capítulo 1). Quero ser conduzido por uma vida consciente de que minha história vem sendo conduzida por um Deus de amor soberano até que alcancemos aquilo que aquele homem é: varão perfeito, Jesus Cristo homem e Deus.

Faça uma oração hoje!

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UNIÃO COM CRISTO
(uma oração puritana)

Ó PAI,
Fizeste o homem para tua glória,
e quando ele não serve a este propósito,
de nada serve;
Nenhum pecado é maior do que o pecado da incredulidade,
pois se a união com Cristo é o maior bem,
a incredulidade é o maior dos pecados,
é contrariar tua vontade;
Vejo que, seja qual for o meu pecado,
nada se compara a estar longe de Cristo pela incredulidade.
Senhor, livra-me de cometer o pecado
maior de me apartar dele,
pois aqui nunca poderei obedecer
e viver perfeitamente para Cristo.
Quando tu retiras minhas bençãos exteriores,
é por causa do pecado,
de não reconhecer que tudo que tenho vem de ti,
de não servir-te com tudo que tenho,
de sentir-me seguro e fortalecido em mim mesmo.
Bençãos legítimas tornam-se ídolos secretos,
e causam grande dano;
a grande injúria está em apegar-se ao ter,
o grande bem consiste em dar.
Por amor me privaste de bênçãos,
para que glorificasse mais a ti;
removeste o combustível do meu pecado,
para que eu pudesse apreciar
o ganho de uma pequena santidade
como a contrapartida de todas as minhas perdas.
Quanto mais te amo com um
amor verdadeiramente gracioso
mais desejo te amar,
e mais miserável sou na minha falta de amor;
Quanto mais tenho fome e sede de ti,
mais vacilo e falho em te encontrar;
Quanto mais meu coração está quebrantado pelo pecado,
mais oro para que ele seja quebrantado ainda mais.
Meu grande mal é que não relembro
os pecados da minha juventude;
de fato, os pecados de hoje, amanhã já os esqueci.
Livra-me de tudo aquilo que conduz à incredulidade
ou à falta do sentimento de união com Cristo.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho
Extraído de: The Valley of Vision:
A Collection of Puritan Prayers & Devotions,
organizado por Arthur Bennett, p.20
19 de nov de 2010 | By: @igorpensar

Morar no céu ou na terra?*

Por Igor Miguel

Lembro-me quando mais jovem, ao dar início a meus estudos bíblicos, eu pensava: Se um dia houver um destino final para os santos, este destino tem que estar nos últimos capítulos da Bíblia. Minha resposta prévia e expectativa era encontrar o que lá? O céu, naturalmente, afinal, os cânticos, os pastores, minha mãe, todos falavam que um dia os justos morariam naquele lugar.

Para minha surpresa o que encontrei lá foi o seguinte texto:
Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. (Apocalipse 21:1-3)
O que me surpreendeu em uma leitura simples do texto, foi que a história bíblica não encerrava com pessoas indo ao céu, mas ao contrário, alguma coisa do céu vinha de encontro a uma terra renovada. Depois as descrições dos últimos capítulos mostram uma terra maravilhosa, com povos e nações subindo a Nova Jerusalém para levar suas riquezas e honras.

Assim, descobri que a Bíblia não é um livro que convida os homens a escaparem do mundo, a salvação envolve uma restauração da própria criação. O mundo criado por Deus é muito bom, conforme encontramos em Gênesis, e mais, assim como Deus inaugura um novo homem pela ressurreição de Cristo, ele inaugura também uma terra nova.

Outra coisa que descobri é que temos que ter cuidado com o termo "novo" na Bíblia, esta expressão não tem o sentido moderno de "algo que substitui o velho", o termo tem raízes no hebraico, a expressão chadásh [חדש]. Chadásh tem ligações semânticas com o termo hebraico para lua - chôdesh - que é um astro cuja aparição se renova de um ciclo ao outro, daí as celebrações da lua nova [rosh chodêsh] no calendário judaico, como uma celebração da renovação dos meses neste calendário lunar.

A expressão "novo céu e nova terra" não é a inauguração de um novo planeta, mas a renovação da criação de Deus inaugurada no Gênesis, que depois de processos de fusão e purificação, será reapresentada renovada, restaurada e recondicionada para os santos. Paulo em sua carta ao Romanos assevera este ponto quando diz:

A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. (Rm 8:19-23).

Interessante como o cristianismo em suas principais correntes, como aquelas oriundas do pietismo evangélico, tem dificuldade com esta abordagem. Entretanto, os discípulos e os apóstolos, bem como os ramos reformados do cristianismo, entre seus pioneiros, não acreditavam em uma fuga do mundo, um escapismo doutrinário, ao contrário, encaravam a criação e sua presença na história de forma positiva, pois sabiam que sua ação na "terra" é antecipatória do Reino que está para ser desvelar perante os homens.

Uma teologia de fuga da realidade, que propõe que a terra se destruirá em um hecatombe final, afeta profundamente a atuação dos homens em seu tempo presente. Privando-os de atuarem como co-regentes da terra que será em breve redimida e que está em gemidos, aguardando a plena revelação dos filhos de Deus.

"Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra." (Mateus 5:5)

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*Esta reflexão nasce inspirada na excelente palestra do amigo Rodolfo Amorim no V Ciclo de Palestras do L'Abri.

UNIVERSIDADE MACKENZIE: EM DEFESA DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO RELIGIOSA

A Universidade Presbiteriana Mackenzie vem recebendo ataques e críticas por um texto alegadamente “homofóbico” veiculado em seu site desde 2007. Nós, de várias denominações cristãs, vimos prestar solidariedade à instituição. Nós nos levantamos contra o uso indiscriminado do termo “homofobia”, que pretende aplicar-se tanto a assassinos, agressores e discriminadores de homossexuais quanto a líderes religiosos cristãos que, à luz da Escritura Sagrada, consideram a homossexualidade um pecado. Ora, nossa liberdade de consciência e de expressão não nos pode ser negada, nem confundida com violência. Consideramos que mencionar pecados para chamar os homens a um arrependimento voluntário é parte integrante do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Nenhum discurso de ódio pode se calcar na pregação do amor e da graça de Deus.


Como cristãos, temos o mandato bíblico de oferecer o Evangelho da salvação a todas as pessoas. Jesus Cristo morreu para salvar e reconciliar o ser humano com Deus. Cremos, de acordo com as Escrituras, que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Somos pecadores, todos nós. Não existe uma divisão entre “pecadores” e “não-pecadores”. A Bíblia apresenta longas listas de pecado e informa que sem o perdão de Deus o homem está perdido e condenado. Sabemos que são pecado: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, rivalidades, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias” (Gálatas 5.19). Em sua interpretação tradicional e histórica, as Escrituras judaico-cristãs tratam da conduta homossexual como um pecado, como demonstram os textos de Levítico 18.22, 1Coríntios 6.9-10, Romanos 1.18-32, entre outros. Se queremos o arrependimento e a conversão do perdido, precisamos nomear também esse pecado. Não desejamos mudança de comportamento por força de lei, mas sim, a conversão do coração. E a conversão do coração não passa por pressão externa, mas pela ação graciosa e persuasiva do Espírito Santo de Deus, que, como ensinou o Senhor Jesus Cristo, convence “do pecado, da justiça e do juízo” (João 16.8).


Queremos assim nos certificar de que a eventual aprovação de leis chamadas anti-homofobia não nos impedirá de estender esse convite livremente a todos, um convite que também pode ser recusado. Não somos a favor de nenhum tipo de lei que proíba a conduta homossexual; da mesma forma, somos contrários a qualquer lei que atente contra um princípio caro à sociedade brasileira: a liberdade de consciência. A Constituição Federal (artigo 5º) assegura que “todos são iguais perante a lei”, “estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença” e “estipula que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Também nos opomos a qualquer força exterior – intimidação, ameaças, agressões verbais e físicas – que vise à mudança de mentalidades. Não aceitamos que a criminalização da opinião seja um instrumento válido para transformações sociais, pois, além de inconstitucional, fomenta uma indesejável onda de autoritarismo, ferindo as bases da democracia. Assim como não buscamos reprimir a conduta homossexual por esses meios coercivos, não queremos que os mesmos meios sejam utilizados para que deixemos de pregar o que cremos. Queremos manter nossa liberdade de anunciar o arrependimento e o perdão de Deus publicamente. Queremos sustentar nosso direito de abrir instituições de ensino confessionais, que reflitam a cosmovisão cristã. Queremos garantir que a comunidade religiosa possa exprimir-se sobre todos os assuntos importantes para a sociedade.


Manifestamos, portanto, nosso total apoio ao pronunciamento da Igreja Presbiteriana do Brasil publicado no ano de 2007 [LINK http://www.ipb.org.br/noticias/noticia_inteligente.php3?id=808] e reproduzido parcialmente, também em 2007, no site da Universidade Presbiteriana Mackenzie, por seu chanceler, Reverendo Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes. Se ativistas homossexuais pretendem criminalizar a postura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, devem se preparar para confrontar igualmente a Igreja Presbiteriana do Brasil, as igrejas evangélicas de todo o país, a Igreja Católica Apostólica Romana, a Congregação Judaica do Brasil e, em última instância, censurar as próprias Escrituras judaico-cristãs. Indivíduos, grupos religiosos e instituições têm o direito garantido por lei de expressar sua confessionalidade e sua consciência sujeitas à Palavra de Deus. Postamo-nos firmemente para que essa liberdade não nos seja tirada.


Este manifesto é uma criação coletiva com vistas a representar o pensamento cristão brasileiro.


Para ampla divulgação.

16 de nov de 2010 | By: @igorpensar

Falecimento de Jack Stroumsa

Faleceu no último domingo, dia 14 de novembro, aos 97 anos, o sobrevivente do holocausto Jack Stroumsa, ou para os íntimos, Jaquito, como também era conhecido entre os falantes de língua espana.

Em fevereiro de 2007 por ocasião de minha participação em um curso para educadores no Yad Vashem (Museu do Holocausto) e na Universidade Hebraica de Jerusalém em Israel, tive o privilégio de ouvir seu testemunho ao vivo e a cores, além da honra de ouvi-lo tocando seu violino.

Stroumsa era um judeu de origem grega, da cidade de Salônica, donde junto com sua família foi levado ao terrível campo de Auschwitz. Por milagre, sobreviveu e pôde reconstruir sua vida das cinzas de seus antepassados e parentes aniquilados pela máquina de destruição em massa.

Dentre as atividades de sua vida, dedicou-se intensamente à preservação da memória do holocausto, contado seu testemunho de sobrevivência. Várias pessoas de diversos lugares do mundo ouviram sua narrativa da Shoah (holocausto) pessoalmente.

Leia aqui um artigo em espanhol sobre este personagem que não pode ser esquecido, junto com todos os sobreviventes.

Bendita seja sua memória.

8 de nov de 2010 | By: @igorpensar

O evangelho segundo seu João

Por Igor Miguel

Seu João é um homem curado. O buraco de sua alma foi cicatrizada por um ato de bondade soberana e um presente irresistível.

Seu João não vive mais uma rotina melancólica como a maioria das pessoas que vivem ao seu lado. Um dia ele vivia como todos, mas quando o dito lhe chegou não pode resistir, viu-se dobrado, arrependido, despido de sua arrogância. Ao erguer-se, ergueu-se outro homem, um novo homem, agora filho do que o pariu, do novo Pai, membro de uma nova família.

Seu João virou gente boa, por causa de uma bondade que não era dele. Ele acorda todos os dias cheio de gratidão e mesmo quando as coisas parecem muito difíceis, seu João chama seu Pai, se une com o Filho, que se sacrificou, e em um novo Espírito encontra forças para prosseguir. O sorriso se renova em seu rosto todas as manhãs. Não há uma manhã que não consegue se encantar pelo belo, pelo sorriso de uma criança, pelo jeito de sua esposa, pelos pássaros, pela vida e pelos relacionamentos que constrói.

Claro que seu João não é um homem entorpecido, ele sabe que o mal está lá, que tem manchas lá, mas prefere proclamar com sua rotina que a morte foi vencida pela vida e que o mal sucumbiu diante do amor. Prefere olhar o mundo para além das cinzas dos automóveis e do concreto que concreta a frieza dos corações.

Seu João é jardineiro, gosta de cultivar flores, gosta de ter esperança, está cheio de gratidão, não há dádiva que chegue a ele que não diga "muito obrigado". Seu João entendeu o evangelho e este é o evangelho segundo seu João.

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29 de out de 2010 | By: @igorpensar
26 de out de 2010 | By: @igorpensar

Sobrenatural não Existe

Por Igor Miguel

Não sou naturalista, nos termos da física aristotélica, que insiste em tratar as coisas que aí estão como determinadas por leis autônomas, por uma previsibilidade matemática, por uma monotonia auto-determinada. Não creio em natureza, creio em criação. Creio em um Deus que age e opera constantemente no mundo, que decreta por sua palavra cada flor que se abre, o pássaro que cantou perto de minha janela, no beijo que minha esposa me deu, creio em um mundo que é fruto de um verbo constante e eterno. Creio na criação, não como um discurso dos homens, mas como fruto da palavra permanente do Criador:
Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder (Hb 1:3)
Ao negar o natural, nego o sobrenatural. Um sobrenaturalista é um naturalista esporadicamente surpreendido. Quando creio em criação, tudo é fruto de um permanente milagre, tudo é milagroso. Para mim, o pão que chegou em minha mesa é tão milagroso quanto um paralítico que salta de sua cadeira, tudo é dádiva, tudo é digno de gratidão. Um teísta -- como eu -- é aquele que vive em um permanente estado de graça e surpresa, ele se surpreende apenas com o fato de existir, de respirar.

Me assombra ouvir a palavra “sobrenatural” em lábios cristãos, seu uso significa que alguém se dobrou ao secularismo, já não consegue ver o mundo de Deus como criação, mas como invenção, como um mundo animado, por forças matemáticas previsíveis. Ele mesmo se vê em um mundo sem graça, sem dádiva, por isto tem que atrair para seu mundo opaco, algo de fora, como os pagãos sempre fizeram. Por favor, espante-se com o salmista, cante com ele:

Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir. (Sl 33:9)

Para o naturalista, tudo é uma questão de previsibilidade matemática, de números que se encontram, de uma realidade aprisionada na lógica da causa e efeito, para um teísta, tudo é um grande espetáculo, uma dramatização constante, de um Deus amorosamente exibido, que se descortina por meio das coisas que foram criadas.

O naturalista desencantou o mundo por não suportar a exigência da fé, por não dar conta do permanente milagre, do permanente decreto divino, não suportou o verbo. O naturalista acusa o teísta de subjetivismo, por firmar sua fé em uma experiência privada, penso que mais que uma acusação, é uma objeção honesta. Entretanto, o que na verdade um teísta, um cristão, experimenta é uma mudança de perspectiva, uma atração à realidade. Mais que uma experiência subjetiva, quando capturado pelo amor de Deus, um cristão é atingido com uma mudança existencial.

Ele começa a ver o mundo para além do mundo. Tudo começa a ficar colorido, ele se nega a aceitar a proposta acinzentada da ciência, ele não consegue ignorar o amor, ele quer um sentido, não se conforma com o discurso de que sua vida se esgotará em um vazio tenebroso.

Como é difícil traduzir para os naturalistas que nossa fé é pensante, mas não somente pensante, pois não se dobra aos reducionismos. Nossa fé desvenda um mundo pulsante e cheio de vida, por isso, ao observarmos as flores e os pássaros, temos a quem dirigir nossas lisonjas, nossa fé exige humildade e gratidão, palavra que os naturalistas abominam.

Não creio no sobrenatural, pois para isto teria que admitir um mundo natural que não é sustentado por Deus, creio em criação, em mundo que aí está por uma constante ação de Deus. Por isto, Ele é digno de toda gratidão, louvor e permanente ações de graças.

Não resisto... tenho que citar G.K. Chesterton novamente:
Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: "Vamos de novo"; e todas as noites à lua: "Vamos de novo". Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um BIS teatral. O céu talvez peça bis ao passarinho que botou um ovo. (Ortodoxia, p. 63)