25 de nov de 2010 | By: @igorpensar

Apocalipse now!

Por Igor Miguel

"... a questão da literatura apocalíptica não é a predição, mas um desmascarar - desvelar a realidade ao redor de nós como ela realmente é [...] O que nós precisamos então, é um tipo de apocalipse contemporâneo - uma linguagem e um gênero que vê através das engrenagens e nos revele o caráter idólatra e religioso das instituições contemporâneas..." (SMITH, James K.A. Desiring the Kindom: worship, worldview and cultural formation. Grand Rapids: BakerAcademic Pub., 2009. p. 92. tradução nossa).

O que me impressionou neste trecho do livro de James K.A. Smith, dentre outras coisas que me impressionaram, é que ele propõe uma outra abordagem de livros como Apocalipse. Comumente tratamos esta obra bíblica como um livro apenas de predições proféticas ou de uma escatologia futurista. Entretanto, nos esquecemos que o termo "apocalipse", um termo grego que significa "revelação", além de ter o sentido de uma revelação do futuro, envolve uma descortinar de estruturas iníquas. Grande parte das visões de bestas, prostitutas, insetos demoníacos, reis e cavaleiros apocalípticos, são impressões divinas em uma mente judaica, conectadas às predições proféticas do passado ou de uma substancial tradição e imaginário apocalíptico outrora anunciado, tendo em vista denunciar, desvelar a verdadeira face do mundo, da Babilônia, do reino paralelo ao Reino de Deus, que os homens querem constituir:
Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável, pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se prostituíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria. Ouvi outra voz do céu, dizendo: Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos; porque os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou dos atos iníquos que ela praticou. [...] Ora, chorarão e se lamentarão sobre ela os reis da terra, que com ela se prostituíram e viveram em luxúria, quando virem a fumaceira do seu incêndio, e, conservando-se de longe, pelo medo do seu tormento, dizem: Ai! Ai! Tu, grande cidade, Babilônia, tu, poderosa cidade! Pois, em uma só hora, chegou o teu juízo. E, sobre ela, choram e pranteiam os mercadores da terra, porque já ninguém compra a sua mercadoria. (Ap 18:2-11).
O gênero apocalíptico precisa ser retomado, esta é a ideia, precisamos deste gênero literário que levanta a "saia" da prostituta babilônica e denuncie suas vergonhas. Neste caso, as implicações políticas de Apocalipse são inimagináveis.

O que Deus mostra pra João em Apocalipse é que o que parece próspero e excitante, bem como toda busca frenética por expansão comercial, os prazeres, cheiros e cores, e a exploração sensual de seu tempo e mesmo as relações de poder de impérios que ascendiam e caíam, eram a face ilusória de um mundo tomado por demônios, governado por homens possessos, por palavras de blasfêmia e instituições que mais parecem Leviatãs e bestas feras do que estruturas burocraticamente organizadas.

Apocalipse é um gênero que revela que toda estrutura iníqua, o vinho da prostituta babilônica, a ideologia sedutora da pax romana, é construída ao preço de martírio dos santos, daqueles que denunciaram as vergonhas dos poderosos e afirmavam o senhorio de Cristo.

A literatura apocalíptica mais do que um livro de desespero é uma denúncia esperançosa, afirma o juízo eminente sobre estas estruturas do pecado, e por outro lado, o triunfo final dos santos, a vingança sobre o sangue dos mártires que perderam suas vidas por causa de seu compromisso com a justiça:

Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder são do nosso Deus, porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande meretriz que corrompia a terra com a sua prostituição e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. (Ap 19:1-2)

A corrupção política, as campanhas pela naturalização do pecado, articulações políticas pela criminalização de valores judaico-cristãos, o consumismo e a mercantilização de bens culturais, a venda de títulos sacerdotais e a prostituição religiosa, precisam ser denunciadas em tom apocalíptico, com a mesma veemência e linguagem escatológica dos primeiros cristãos. O desafio é aproximar escatologia e história, apocalipse e política. A missão do apóstolo João e nossa missão.

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