21 de dez de 2009 | By: @igorpensar

Educação ética religiosamente neutra?

Por Igor Miguel

Lawrence Kohlberg (1927-1987) foi um psicólogo americano, envolvido com a psicologia moral, ramo da psicologia responsável pelo estudo do comportamento ético. Kohlberg estudou com Piaget, de quem recebeu profunda influência. Sua teoria procura racionalizar um "desenvolvimento" em "etapas" (como propõe a psicogênese piagetiana) da evolução moral. Kohlberg será sempre respeitado por sua empreitada, em um campo que carecia de estudos, mas naturalmente, como todo bom cientista ou pioneiro em determinado campo científico, ele não estará isento de críticas. Dentre os crítico(as) de sua teoria estão Carol Gilligan (1985) Sastre, G. (et al, 1994).

A contestação basicamente gira em torno do quesito "racionalidade", a um tipo de"construtivismo moral". A ideia de Kohlberg parece primar pela racionalidade como veículo organizador da "estrutura comportamental", sendo ela responsável por orientar determinada resposta moral à determinados dilemas éticos. Então, se um sujeito vive um conflito entre "roubar uma banana para não morrer de fome" e "não roubar a banana por causa de valores éticos", sua escolha é determinada puramente por como suas estruturas cognitivas se organizaram, influenciando sua escolha moral. O problema é que este modelo ignora um fator absurdamente poderoso, o quesito "afetividade". Em processos em que o dilema moral está posto, mescla-se com a racionalidade com aspectos da vida emotiva. Neste sentido, ocorre um "aparente paradoxo" entre "emoções racionalizadas" e "raciocínios afetados".

O apego de Kohlberg à psicogênese de J. Piaget, que por sua vez tem profunda influência do kantianismo e as pretensões de "racionalizar" fenômenos "empíricos" (fenômenos observados pelos sentidos), fará com que sua teoria ignore qualquer ruído de elementos "não-racionais" como a afetividade e a emoção.

O peso do individualismo capitalista de uma lado e os esforço iluminista de rompimento com o "moralismo religioso" do outro, trouxe alguns desconfortos à dimensão do sociedade que não podem ser descartados. Os sintomas são nítidos: a desonestidade profissional, o egoísmo, a depredação inconsequente do meio ambiente, o desrespeito à figura feminina, a erotização precoce, a falta de cidadania, a depredação e vandalismo a símbolos e espaços públicos, o conflito ético na ciência e outros dilemas, que estão sempre presentes na moderna sociedade.

A conclusão lógica é a retomada de uma educação ética, que leve em consideração o convívio do homem com os outros e com o mundo. Porém, as grandes investigações teóricas que levam em conta a "psicologia moral" ou a "educação moral", esbarram em um elemento pós-moderno: o relativismo cultural. O relativismo cultural, pressupõe que determinados comportamentos que são considerados "imorais" em uma sociedade dada, podem não ser considerados imorais em outra sociedade. Este relativismo moral, tornou-se tão generalizado, que se questiona até mesmo regras "convencionadas" ou "universalizadas". O relativismo moral (ou cultural) é uma resposta às pretensões do iluminismo, que propunha algum tipo de "moralismo universal" ou no positivismo, algum tipo de "moralidade convencional".

Há um conflito entre "relativismo" (pós-estruturalista) e "universalismo" (moderno-iluminista), como lidar com estes dilemas? Minha crítica é a um elemento excluído nos dois movimentos. O relativismo tornou-se tão generalizado, que quase não é possível pensar em "convenções" ou "pactos-sociais", pois acabam relativizando "valores" ao nível do indivíduo, o que torna a responsabilidade ética quase insustentável, pois ignora-se alguma "unidade moral". Por outro lado, o universalismo (anterior ao relativismo), pretende ser "neutro", "imparcial", o que é negado pela disparidade moral de uma cultura para outra.

Penso, que ambos os movimentos, ignoram um elemento importantíssimo, que sustentou as antigas civilizações: a ética religiosa. A tendência moderna de se criar um mundo "a-religioso", uma sociedade "secularizada", que segrega a dimensão religiosa ao espaço da Igreja, da Mesquita ou Sinagoga, é de uma pretensão irritante. A própria ideia de dar uma orientação "racional" à sociedade inclina-se à "religiosidade" ao colocar a "razão" no status de uma divindade (sem teologia explícita) ou de um poder orientador para a vida humana. Vale a leitura do artigo brilhante de Guilherme Carvalho intitulado: A Objeção Reformada ao Dogma da Autonomia Religiosa da Razão.

A neutralidade religiosa da razão é mitológica. O que é a religiosidade, se não a admissão de um "meio orientador" da existência, um sistema de crenças irrefutáveis que dão sentido à atuação e participação humana no mundo. Este "meio orientador" pode ser uma ideologia política, uma divindade, um demiurgo, um conceito, a ciência ou outros "mitos" explicativos à existência e aos fenômenos com que o homem se depara.

Alguns educadores, cuja agenda é dirigida a uma educação moral, desconsideram este elemento e para evitar quaisquer debates ou conflitos "religiosos", mesmo criticando, acabam recorrendo a uma suposta neutralidade da razão e consequentemente, uma "educação ética" a-religiosa. Ora, o crescimento do Islã, os recentes movimentos de afirmação da religiosidade cristã na Europa, o fundamentalismo cristão nos EUA, o crescimento evangélico na América Latina, são fenômenos reais, que não podem ser desconsiderados ou atropelados pela pretensa neutralidade iluminista.

Sendo assim, educadores cristãos (por exemplo), devem se articular, para propor agendas de uma formação ética judaico-cristã consistente, que dialogue com a cultura, que proponha um modus vivendi criativo, desvinculado do escolasticismo medieval, ou da síntese cristã-aristotélica, que é 'anti-cristã' neste sentido. O movimento de retomada de tradições esquecidas ou ignoradas, como a tradição reformado-calvinista, as experiências culturais como o de Abraham Kuyper (no neo-calvinismo holandês) e os movimentos de afirmação das raízes judaicas do cristianismo, são elementos que podem resultar em nova e fresca direção à formação de uma sociedade plenamente humana, pois o pretenso discurso iluminista de "neutralidade religiosa", atropelou o apelo à fé. O fenômeno religioso apegou-se à história humana com tal poder, que seria sobremodo artificial negá-la. A história prova isto!

Deus pode ter morrido, mas já pensaram na hipótese dele já ter ressuscitado?
14 de dez de 2009 | By: @igorpensar

Cristianismo sim! Algum problema?

Por Igor Miguel


Em círculos judaicos é sempre recorrente uma abordagem negativa a respeito do cristianismo, as vezes tão honesta que beira à injustiça. Não há dúvidas, os judeus sofreram muitas agruras em nome de falsos seguidores de Cristo, ou em nome de um cristianismo oficial. Não há dúvidas que a Alemanha Nazista - por exemplo - era composta de mais de 50% de luteranos. Não há dúvidas que muito do discurso anti-semita medieval sustentava-se por "frases isoladas" ou mesmo explícitas de uma postura "anti-judaica" entre alguns Pais da Igreja.

Porém, reduzir o cristianismo a falsos-cristãos, seria tão incoerente quanto reduzir o judaísmo a falsos-judeus. O joio era previsto pelo próprio Jesus, e mesmo Paulo, o apóstolo, já alertava a Igreja de Roma a respeito de uma possível jactância da parcela gentílica da Igreja em relação aos judeus (Rm 11). Ainda sim, deve-se admitir que é parte da natureza do cristianismo a existência de falsos-cristãos. Penso que no cristianismo há muitos "judas", como no judaísmo, deve haver muitos "Tsvi Shabatai", "Saduceus Aristocratas", fundamentalistas religiosos, que desqualificam a essência do judaísmo. Reduzir da mesma forma o judaísmo a estes "sujeitos" seria incoerente.

O termo cristianismo foi usado pela primeira vez no período pós-apostólico, no II século d.C. Inácio de Antioquia foi o responsável pelo uso inédito do termo (ao menos estes são os registros). Alguns críticos veem na criação de uma terminologia nova para identificar os seguidores de Jesus um problema. Neste sentido, supõe-se que a procura por uma identidade independente do judaísmo traria prejuízos à fé chamada "cristã". Mas, como veremos, este é um receio parcialmente compreensivo.

Não acho que Inácio tinha alguma pretensão conspiratória, penso que não havia outra opção. Desde o ano 95 d.C. quando os judeus se reuniram em Yavne (Jamnia) para um conselho que redefiniria o rumo do judaísmo pelos próximos séculos, fora elaborado mecanismos religiosos e litúrgicos para repelir a presença dos "nazarenos" (judeus crentes do I século) do círculo judaico. A rejeição inicial não foi da Igreja, foi do próprio judaísmo. Se a situação era difícil para estes primeiros judeus seguidores de Jesus, o que dirá aos gentios recém chegados do paganismo. Estes eram um grupo com grandes problemas identitários: por um lado não eram judeus (pois não se submetiam à conversão formal ao judaísmo) e nem eram pagãos (pois não frequentavam os cultos pagãos).

A sinagoga não queria mais os seguidores de Jesus, o mundo pagão também repelia os gentios seguidores de Jesus. A única saída foi a afirmação de uma identidade independente, tanto do mundo pagão como do mundo judaico. Ignácio, quando afirmou o aspecto "universal" (católico) da Igreja, queria deixar claro que a "Igreja" era uma instituição para além dos limites "étnicos". Enfim,
quais foram as principais consequências da inauguração do cristianismo?

Consequências positivas:
a expansão da fé cristã, que sem exagero (basta uma olhadela nos atuais estudos), seria um tipo de "judaísmo minimalista" para acolhimento dos gentios à fé em Jesus e ao monoteísmo derivado deste. Este judaísmo minimalista (cristianismo) dialogava bem com as culturas pagãs, principalmente em províncias e territórios onde a sinagoga já não estava presente (países nórdicos - por exemplo).Consequências negativas: o distanciamento da matriz hebraica produziu gradualmente um perda da cosmovisão judaica; uma cristologia excessivamente preocupada com a transcendência, ofuscando a humanidade e a identidade cultural do verbo quando se fez carne. O diálogo com a cultura grega, por vezes foi promissora, por outras vezes, a síntese entre "cristianismo" e "cultura grega" trouxe grandes problemas para o seio do cristianismo.

Sendo assim, o cristianismo é um movimento legítimo, enquanto a resposta do Espírito Santo para um momento de tensão entre a Igreja e Sinagoga. A ruptura seria inevitável e necessária. Neste sentido, o cristianismo deve ser honrado e respeitado, como um fenômeno legítimo de acolhimento e reunião das nações ao redor do Messias judeu, Jesus.

Por outro lado, o cristianismo depara-se com uma tendência mundial, de visita e releitura de sua própria fé a partir das fontes judaicas. Vários escritos judeus, protestantes, católicos e reformados, dedicam-se ao estudo da língua hebraica, da tradição rabínica, dos Manuscritos do Mar Morto e outros recursos da tradição judaica, para compreender e enriquecer a própria experiência do cristianismo e por que não do próprio judaísmo?

Um outro fenômeno que não pode ser ignorado, é a crescente presença de judeus que percebem Jesus como uma figura messiânica. A presença crescente dos ditos "judeus-messiânicos" em Israel e na Diáspora é um fato, e deve ser considerado. Não faço referência a grupos fundamentalistas, judaizantes ou que procuram descredibilizar a tradição cristã e o próprio cristianismo. Neste sentido, uma leitura do Manifesto Judeu-Messiânico de David Stern traz boa luz doutrinária. Segundo ele o judeu-crente, por uma questão identitária, deve permanecer judeu, vinculado a sua tradição e neste sentido, o cristianismo não é adequado para ele. Um espaço autônomo, que proporcione liberdade litúrgica e que remeta os tempos pré-inaciano de culto, seria interessante. Mas, neste sentido, o debate é longo.

O que quero afirmar com este breve texto é que o cristianismo é um movimento historicamente estabelecido, levantado por crentes piedosos, que na tensão com o judaísmo, viram-se obrigados a criar um espaço de acolhimento dos gentios convertidos a fé cristã. Nem tudo que é cristão é necessariamente apostólico, como nem tudo que é judaico é necessariamente mosaico. Pois ambos, desenvolveram suas tradições. Neste sentido, Alister McGrath apresenta que a melhor forma de lidar com a tradição é compreendê-la dinamicamente. Afinal, a tradição enriquece a fé ao afirmar experiências anteriores e é enriquecida em novos contextos culturais, demandas e experiências teológicas.
A tradição é relativa à revelação.

Não obstante, o cristianismo não está isento de algum tipo de crítica histórica ou religiosa, pois há elementos heterodoxos na diversificada tradição cristã que são incompatíveis com a fé apostólica, como por exemplo: as influências do tomismo aristotélico, o neo-platonismo, o antinomismo luterano, o legalismo pietista e por aí vai.

O cristianismo foi o grande precursor dos direitos humanos. E em seu formato reformado promoveu o avanço das pesquisas científicas e da produção de riquezas. O cristianismo implantou universidades em toda Europa e nas Américas; as primeiras academias brasileiras eram confessionais. O cristianismo erradicou a confusão politeísta e expandiu um monoteísmo transformador em lugares assolados pelo caos teórico e por crenças perversas que oprimiam mulheres e escravos. O cristianismo conseguiu popularizar e cumprir em muitos lugares, como a experiência do neo-calvinismo holandês, um tipo de atuação antecipadora das profecias. Os profetas judeus jubilariam se vissem o que Abraham Kuyper realizara na Holanda e o impacto de sua visão de mundo no universo reformado.

O cristianismo criou comunidades modestas, fervorosas, pensantes, atuantes e inspiradoras como L'Abri na Suíça com a família Schaeffer. Não foi em vão que Calvino ao fazer teologia em suas Institutas, o fazia a partir das Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento), mostrando uma unidade entre os "testamentos", evitando a heresia marcionista, que ainda aterrorizava outras tradições dentro do protestantismo e do cristianismo medieval.

Penso que é possível uma experiência cristã real dentro do cristianismo. Uma pessoa pode desfrutar perfeitamente de Deus através da modalidade cristã de fé, pois de fato o cristianismo se estabeleceu criativamente como um movimento com tradição e espiritualidade próprias, e que vive um momento de redescoberta de suas raízes em Jerusalém, mas em um movimento que passa por Calvino, Agostinho, os Pais Capadócios, Nincéia, os Bispos Judeus (citados por Eusébio), aos Apóstolos, ao Messias, aos profetas e à realizara entre os séculos XIX-XX.
Torá (pentateuco), curando os cismas históricos com a ajuda da graça de Deus, em Cristo, que reconcilia judeus e gentios (Ef. 2) no madeiro.

Leia um complemento a este texto: Raízes que Permanecem
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Revisão 1.0: 16/12/2009
Revisão 2.0: 20/07/2010
7 de dez de 2009 | By: @igorpensar

Mais um golpe no deus Mamon!

Por Igor Miguel

Sob a perspectiva filosófica judaico-cristã, não se pode ignorar a santidade do trabalho. Diferente da percepção tomista medieval, o trabalho não é uma maldição, um efeito aterrador da queda sobre o homem. O trabalho existia antes do pecado de Adão e Eva. O texto bíblico diz que Deus colocou o homem no jardim para "cultivar" a terra. O termo hebraico usado para "cultivar" é leovdá [לעבדה], que é um verbo derivado do substantivo avodá [עבודה] que pode ser traduzido literalmente por "trabalho". Curiosamente, tal expressão ocorre também associada ao trabalho sacerdotal, pois de fato, o "culto" também era um tipo de "serviço".

O trabalho, no pensamento hebraico, também está ligado a ação ordenadora, de manutenção da criação. De alguma forma, o homem ao "trabalhar", cultuava seu Criador, pois ao projetar-se na criação, cultivando-a, refletia no mundo a imagem que herdara de seu Criador.

O trabalho, antes da queda, não era penoso, não era uma sujeição arbitrária e forçosa da "natureza", esperando dela algum benefício, não era uma atuação impositiva de poder e tecnologia, tendo em vista extrair da natureza bens duráveis ou alimento. Era uma gestão criativa em termos de "teo-mutua-sustentabilidade".

Os efeitos da queda sobre o trabalho são terríveis, pois a agradável permuta de criatividade entre homem e criação, torna-se uma ação penosa, dolorida e servil. O trabalho não é efeito do pecado, é parte da criação de Deus. O trabalho servil, sim, é a distorção do culto. O trabalho, após a queda, torna-se mecanismo de sustentação de uma existência humana pretensiosamente autônoma.

Os artífices, guerreiros, pecuaristas e músicos descendentes de Caim, são os homens da civilização, os tecnólogos. Criados pelo Diabo? Não, esse não cria, destrói. Criados por Deus, que soberanamente, faz uso dos efeitos da queda a seu favor. No pensamento judaico, há uma diferença entre "o mal moral" e este "impulso primitivo", esse
Yetser Ha-Rá (inclinação para o mal), que sem ele os homens não seriam comerciantes, não fariam sexo, não construiriam, não fariam arte, viveriam em eterna passividade, sem qualquer pretensão para além da letargia.

De alguma forma, esta "inclinação má" (não moralmente má), prestou um serviço que soberanamente Deus lançou mão para estabelecer o homem na cidade, tirando-o do jardim. Agora, na cidade dos homens, convivem santos e iníquos; idólatras e os amigos de Daniel. Na corte babilônica há os que se debruçam sobre as iguarias, e os que se negam comê-las. Lá no epicentro da corrupção e da altivez humana, há joelhos que não se dobram aos deuses.

Filósofos do início da modernidade, perceberam que há um impulso de auto-afirmação no homem. Adam Smith no século XVIII declara que o
auto-interesse dos homens poderia prestar um enorme serviço a favor da produção de "riquezas", com isso ele erguia a autonomia como uma virtude excelente, dando ao homem o que sempre desejara: a oportunidade de elevar-se como deus de si, senhor de posses, poderoso sobre a terra. Nasceria o individualismo.

Paralelamente, o mundo reformado e a civilização judaica, ambos dispersos pelo mundo, vendo novamente o mundo aberto, fundamentados na diligência e no mandato cultural, procuravam integrar sua espiritualidade em mundo posto, estabelecido pela recente revolução capitalista.

A diligência e a disciplina serão marcas indeléveis destes trabalhadores, criativos e engajados na transformação do mundo. Estes disciplinarão seu impulso criativo, redimindo-o, retomando a ideia bíblica, de trabalho como culto, como serviço para glorificar a Deus. Para estes homens estava claro, que o fim do trabalho não era a riqueza, mas a Glória de Deus.

Mais tarde, o secularismo se apropriaria da diligência judaico-cristã, arrancando a alma do trabalho, transformando-o em um culto obstinado pela "posse".

Entre os cristãos americanos, ainda aqueles pioneiros puritanos, havia uma ardente expectativa com a possibilidade de cultivar o novo mundo, transformando-o em um grande jardim de louvor. O impacto da ética puritana até hoje é sentido em território americano.

Mais tarde, já no avivamento encabeçado por Dwight L. Moody (1837-1899), ouvir-se-ão rumores de reuniões de orações em favor de negócios, do trabalho e pela vida financeira. Não podemos julgar a iniciativa de Moody, mas atitudes como essa, principalmente em círculos de predominância arminiana, prepararam o caminho para a tardia e idólatra teologia da prosperidade. Uma teologia conformada com o pressuposto capitalista, que associa a posse à realização humana.

E.W. Kenyon (1867-1948), admirador de D.L. Moody será o apóstolo da mentira, o criador dos ministérios "Word of Faith" (Palavra da Fé). Mais tarde, sob os auspícios do sr. Kenneth E. Hagin (1917-2003), leitor voraz dos livros de Kenyon, a teologia da prosperidade provocaria estragos incalculáveis. Do subúrbio de Tulsa em Oklahama, no
Rhema Bible Training Center (a partir de 1976), os "super-homens" e "pequenos deuses", arrasarão com a esperança simples do evangelho e com uma percepção integral da fé. Nestas escolas serão propaladas doutrinas de apropriação, de posse, de verbalizações esquizofrênicas, enriquecimento a qualquer custo, associadas a um pentecostalismo questionável.

O Brasil ignorará os pioneiros da fé, mesmo aqueles de origem pentecostal, que fizeram um importante trabalho na expansão da fé cristã-evangélica como Daniel Berg e Gunnar Vingren (início do séc. XX), ou o pioneirismo reformado realizado pela Igreja Congregacional que estabelecerá o primeiro templo evangélico em solo brasileiro (Igreja Fluminense). Ao importar o veneno idólatra dos EUA, ao tolerar o evangelho da "posse" ao invés do evangelho da "cruz", pavimentou-se o caminho para a autodestruição da Igreja Evangélica.

Se antes a Igreja Evangélica, por suas pretensões bíblicas, era questionadora, denunciadora da pobreza, da desigualdade, tornar-se-ia gradualmente meretriz do individualismo, da competitividade, da politicagem, prostituindo-se na cama dos poderosos, em orgias financeiras.

Não há um profeta? Não há um se quer? Certamente resta um remanescente que não dobrou seus joelhos a Baal. Mas, estão marginalizados, esmagados, na periferia da "Igreja Oficial", são os hereges, rebeldes e subversivos. Ainda há, pastores, pregadores e líderes, apegados a cruz, que não venderam seu sacerdócio por qualquer migalha. Porém, quase não aparecem, seus nomes, eles não estão associados aos poderosos, estão na cruz, e a cruz é sempre um escândalo.

Minha prospecção: com o recorrente questionamento e a exigência dos "membros" de comunidades evangélicas, os arautos de
Mamon (o deus da riqueza) tombarão, tropeçarão em sua ambição. Então ouviremos novamente músicas inspiradas, orações sinceras, generosidade, criatividade e submissão ao absoluto governo de Cristo sobre todos os aspectos da vida humana. Pois o Rei Jesus foi à cruz, para a Glória do Pai e o terror dos poderosos!
3 de dez de 2009 | By: @igorpensar

DRUI é um enigma.

Por Igor Miguel

DRUI é um enigma, que se lido da forma errada é a forma certa de uma abreviação.

Há "Igrejas Evangélicas" que não são mais evangélicas. Outras podem parecer. Mas, se continuarem reproduzindo a lógica da DRUI deixarão de ser em breve. E, por que a DRUI não é mais uma "Igreja Evangélica"?

Quando se diz que uma "Igreja" é evangélica, isto significa que ela está comprometida com o evangelho. Comprometimento com o "evangelho" significa, comprometimento com a boa-nova. E qual é a "boa-nova"? A mesma que o "jovem rico" ouviu e constrangeu-se. A "boa-nova" aterrorizou o jovem de posses, pois ele não podia obter o que sabia que era "melhor", pois tinha transformado o que era "bom" em ídolo. Ele queria juntar o "útil" ao "agradável", mas a mensagem do evangelho pregado por Jesus, não consegue dividir territórios. Não porque Jesus seja "anti-social" ou não tolere vizinhos, mas porque Ele simplesmente ocupa todas as lacunas, subjuga todo os senhores e governa absolutamente.

O desafio é entender, que Jesus foi profanado por "falsos evangélicos", o uso indiscriminado de seu nome em adesivos, placas, pichações, camisas e em orações à mesa de corruptos, manchou tudo aquilo que ele significa. Jesus foi vulgarizado, virou piada, seu nome foi profanado entre as nações. E, reconstituir Jesus de sua dignidade, agora, dá trabalho. Sabe por que? Porque, estes que "dizem que são, mas não são" roubaram as vestes do rei, arrancaram sua coroa, sepultando-0 sob os escombros do altar que derrubaram, altar onde deveriam morrer.

O resultado? Uma Igreja nada evangélica, pois o evangelho tem duplo efeito: atrai os que o Pai trouxer, mas repele aqueles que não o receberão. O evangelho é loucura, escândalo, pedra de tropeço, justamente para que só os escolhidos o alcancem, e os filhos das trevas sejam repelidos. Que pretensão! A salvação pertence ao Senhor! Nossa função? Dignificar aquele que é "rocha de escândalo" e "pedra de tropeço".

Isto é o evangelho, e ser evangélico é comprometer-se com esta "boa-nova", que não ergue altares manchados pelo desejo de possuir; que não galga o sucesso humano na posse, no desempenho e na superficialidade estética.

O evangelho é uma cruz escandalosa, onde sacrifica as ambições, a vontade pessoal e as aspirações idólatras. Se um Rei da mais alta estirpe judaica foi para a cruz, o que dirá dos pretensiosos poderosos deste século?

Que sejamos pregados em cruz de humilhação, em um madeiro de dor, sepultados em túmulo inviolável, e quando estivermos prontos, quando nossa sujeira estiver sobre Ele, que as chaves da morte e do inferno sejam colocadas na fechadura e que a porta se abra, elevando dos escombros de toda esta falsidade teológica, um novo homem à imagem d'Aquele que o criou e não à imagem de seu ídolo.

Se isso é evangelho, a DRUI não é mais Igreja Evangélica, e se ser evangélico é crer nesta boa-nova aterradora, é amor e fogo consumidor, neste sentido, sou plenamente evangélico. Plenamente crucificado! Eles não são! Eles são DRUIDAS, adeptos do DRUIDISMO, que é: "... uma religião natural, da terra baseada no animismo, e não uma religião revelada (como o Islamismo ou o Cristianismo), os druidas assumem então o papel de diretores espirituais do ritual, conduzindo a realização dos ritos..."*