31 de mar de 2010 | By: @igorpensar

O Nosso Fardo e o Fardo de Frodo

Por Igor Miguel

Tirei este ano para colocar as obras de J.R.R. Tolkien na minha agenda de leituras. Comecei com O Hobbit, naturalmente, e depois a trilogia Senhor dos Anéis. Depois de ver o filme, o livro me pareceu realmente muito mais rico em detalhes e ficou evidente as disparidades inevitáveis para uma produção hollywoodiana, que pretendia ser campeã de bilheteria. Sem desmerecer o filme, pois ele ainda continua sendo um excelente filme, que deixa claro que os produtores tiveram o cuidado de estudar a trilogia antes de se aventurarem nas filmagens. Traduzir as obras de Tolkien e sua genialidade em película foi de uma ousadia insuperável.

Minha leitura da saga do Anel, está me surpreendendo, talvez pela identificação inevitável com algumas figuras, com alguns arquétipos presentes na obra. Me identifico muito com a sabedoria e a sobriedade de Gandalf, com a honradez e a coragem de Aragorn, mas me comove a figura do hobbit, Frodo o Bolseiro.

Me identifiquei com sua missão. Um jovem que vivia enraizado na agradável nostalgia do Condado, uma região agrícola, pacata como seus moradores. Desta terra sem muito destaque, sem grandes reis, guerreiros, elfos ou sábios, fora escolhido um jovem, para os padrões hobbits, que levaria o terrível anel. Neste anel concentrava-se um grande poder, mas tão grande, que mesmo os mais piedosos, experimentados e honrados homens, não ousavam tocá-lo, temiam ser corrompido por ele. Mas, o jovem Frodo, de início segurava o anel com tal simplicidade, que parecia subestimá-lo por seu tamanho, se questionando, como algo tão aparentemente ínfimo poderia provocar tanto desconforto.

Por justamente sua simplicidade, seu coração se mostrou forte ao aceitar a missão que ninguém suportaria: levar o maldito anel até o único lugar que poderia ser destruído.

A trajetória de Frodo até o Monte da Perdição é narrado por vários momentos de alegria, de belos encontros, de cores, florestas místicas, pássaros exóticos, mas frequentemente e cada vez com mais intensidade a tentação recaía sobre o homem pequeno e não pequeno homem, Frodo. O anel tornava-se cada vez mais pesado, o jugo aumentava, e duras decisões recaiam sobre seus ombros.

As vezes, sobre nossos ombros recaem responsabilidades que temos vontade de voltar para o Condado, de regredirmos para o calor do útero materno, de desistir, voltar para a infância. Lá a responsabilidade não doía no pescoço, o poder não nos tentava, lá era o lugar da infância, do correr livre, dos cheiros, do som da família.

Mas, a responsabilidade urge, alguém tem que levar a cruz, alguém tem que carregar a maldição, e levá-la até seu cabal cumprimento. Alguém tem que se negar, alguém tem que abrir mão de si mesmo e de suas aspirações, por algo mais nobre, por algo que faça sentido.

Em vários momentos, Frodo pega-se lamentando, se questionando, querendo passar o Fardo (como chama) para outro. Mas, o fardo é dele, o sucesso ou fracasso da missão estão sobre seus ombros. Se não fossem vozes amigas dizendo: "- Vai! Não podemos carregar, mas estaremos contigo, te protegendo, te suportando, continue!"; se não fosse a sociedade, a comitiva de amigos, Frodo teria fracassado...

As vezes é difícil carregar o fardo. Mais difícil do que se imagina. Mas, alguém deve fazê-lo, e os que estão de fora, olham assombrados não entendendo como ele consegue, pois ninguém consegue. Mas, de alguma forma, todos lançam-lhe um olhar de misericórdia e piedade, mesmo sabendo que ele é humano como todos e que carrega seu próprio jugo. No final das contas, o que determina o peso de nossa missão, não é tanto a missão em si, mas quem nos acompanha. Como Sam, amigo de Frodo que o suportou até o final. A qualidade de nossos vínculos, os pactos de amor que firmamos, as alianças de ajuda mútua, são coisas assim que nos ajudam a suportar.

O que me consola é que há um companheiro, um parceiro de dor, que levou tudo sobre Ele, levou aquilo que realmente pesava. Levou nossa pretensão, altivez e autonomia. Nos tornando livres! Ele se tornou maldição em nosso lugar e por isso disse:
Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mt 11:30)

Amém!

11 comentários:

Macedo M12 disse...

Shalom Igor, estava lendo seu texto, e lembrei-me do momento no filme que o Sr. Frodo não conseguia mais caminhar de exaustão, e Sam, o amigo inseparável, mesmo após ter sido trocado por um falso amigo, carrega-o auxiliando no cumprimento da sua missão...e inevitavelmente me recordei de Paulo em Rm 8:11 "e, se o Espírito que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais pelo seu Espírito que em vós habita." E como diz David Stern, “o poderoso Espírito Santo de Deus, habitando nos cristãos, garante que Deus cumpra suas promessas e de aos cristão uma esperança solida mesmo quando eles estão passando por momentos de aflição e visível desespero.” Um grande abraço amigo.
Marcio - Sta Maria

@igorpensar disse...

É o Marcio ou o Macedo? Hi hi hi

Mano, suas palavras são precisas. Como precisamos de vínculos e pactos relacionais. Como precisamos do outro para continuarmos a caminhada. Como diria o filósofo judeu Martin Buber, Deus se revela em nossa relação com o outro. Há uma reciprocidade no encontro e na dependência do outro, que superior a isso, somente a relação que temos diretamente com Deus...

Eliete disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eliete disse...

O seu blog tem me edificado bastante,procurei por ele ao ouvir vc falando sobre "O carisma é comunitário", puxa me edifcou também!

Parabéns!! te abencoo pra cumprir com desenvoltura e raça!os desígnios de Deus pra ti!!!

Fernanda Miguel disse...

Mais uma vez posso dizer que fui abençoada por suas doces e sabias palavras.
Hoje acordei me perguntando exatamente isso..sobre o fardo que carregamos e que muitas vezes tentamos desistir por achar simplesmente que não vamos conseguir...mas é como vc falou...a vitoria ou a derrota cabe a nós..e com certeza a escolha certa é correr atras da vitoria..

te amo!
Beijos meu maninho

tiago disse...

Post delicioso de ler. No aspecto da perseverança em cumprir a missão e ajudar o amigo de chamado, todos os discípulos de Yeshua devem ser Frodo's e Sam's.

Que D-us te ajude a atravessar os "caminhos de Mordor" rumo ao cumprimento de pesada, mas honrosa missão, receber o Reino por meio de muito sofrimento, conforme indicam as Escrituras.

O destino de "sauron" já está determinado. Que D-us repreenda os "nazgul's, orcs e uruk'hai" na caminhada, enviando tropas de reforço para as Batalhas. No Grande Dia, olharemos para o Oriente, e veremos o Rei Em Sua Majestade e Luz, vindo com os exércitos celestiais para trazer-nos VITÓRIA E CONQUISTA DE UM REINO. QUE VENHA O RETORNO DO REI!

HAIL TO THE KING!!

@igorpensar disse...

Eliete, Fernanda e Tiago,

Muito obrigado pelos cometários. Que possamos intensificar nossa rede de ajuda mútua.

Abraços,
Igor

Lucas disse...

Achei fastástica sua leitura do livro, eu sempre pensei assim tb em relação ao Senhor dos aneis!

Gisele Aparecida disse...

Meu amigo, vou ser meio pessoal, mas...muito obrigada por nos encorajar, por ser destemido e disponível diante de D'us, permitindo que Ele aja através de você. Há muito não tenho a ilusão de que sua vida é uma tranquilidade ou que seu fardo não pesa (talvez nunca tenha tido), mas não se esqueça de que a nossa amizade (incluindo Lidi) sempre estará pronta pra te carregar, se for preciso.
Que a Graça e o Amor de Jesus sejam derramados abundantemente sobre você.
Grande abraço. Gi.

@igorpensar disse...

Gi/Lidi,

Sem os amigos o fardo seria insuportável. Agora, vc entende minha analogia entre sua trajetória vocacional e a do sr. Frodo, né?

Igor

Anônimo disse...

cunhadão, realmente há momentos de tanta dificuldades que não queremos as responsabilidades que nos é imposta. Hoje entendo como é importante esses fardos para o nosso crescimento, pois é deles que tiramos ensinamentos para outras jornadas, que D-us lhe abençoes sempre.
Hugo