7 de mai de 2009 | By: @igorpensar

Rirás: o drama da obediência

Por Igor Miguel

Meu nome é Rirás. Sentei-me aqui em uma pedra para narrar o que me aconteceu há pouco em um monte, um Lugar de ver Deus.

Tudo começou quando meu pai – Pai de Povos – acordou cedo e pegou seu jumentinho, selando-o para uma jornada relativamente longa. Para mim, meu pai sairia a procura de pastos para o rebanho ou iria em contato com alguns dos vilarejos da região, mas estranhamente ele veio até minha esteira, com a sandália de suas peregrinações e me chamou:
- Rirás! Rirás!
Chamou-me enfaticamente, meu pai e Pai de Povos. Levantei-me imediatamente. Pois, entre nosso povo, se o pai chama, logo levantamos e respondemos. Perguntei-lhe o que desejava e que estava à sua disposição. Apontando para um monte ao longe, meu pai referiu-se a uma região onde há muito tempo atrás ele teve um encontro com um tal Rei da Justiça, governante de Paz, sacerdote do Deus dos Lugares Altos, homem misterioso, sem história e sem genealogia.

Meu pai tomou uma faca, que costumeiramente usamos para abater ovelhas, pegou os mantimentos para a viagem e quando partíamos, ele chamou minha atenção para um feixe de lenha que estava amarrado em um canto. Tomei-o sem entender, também não perguntei, pois afinal, meu pai sabia certamente o que queria, sempre confiei em tudo que ele fazia. Aprendemos a não questionar nossos progenitores, por isso obedeci e fui com ele.

Na caminhada meu pai contava histórias sobre minha infância e sobre como meu nascimento foi especial. Que minha mãe riu-se de um mensageiro do Deus dos Lugares Altos que lhe dizia que em breve ela daria luz a um filho. Riu-se pois era velha, há muito não sabia o que eram os prazeres do Éden. Por rir-se, deu-me o nome de Rirás. Pois de fato, ela riu-se de alegria quando percebeu que estava à espera de um filho sendo já de muita idade. Meu pai sempre se emociona quando conta esta história, mas ele continuava caminhando, narrando contos antigos, como que para se consolar. Ele relutava em se manter obtuso, eu percebia que meu pai vivia um conflito entre firmeza e medo, mas não parava de caminhar.

Passamos por um altar, provavelmente levantado por sacerdotes locais, imediatamente ele se lembrou dos altares que levantou e lembrou-se de suas peregrinações, lembrou-se quando recebeu seu nome por promessa, pois recebera uma letra do nome do Deus dos Lugares Altos, confirmando seu nome Pai de Povos.

Estávamos no sopé da montanha e ele me disse que ela se chama Lugar de Ver Deus e respirando como que vendo algo, disse que um dia aquele lugar receberia povos de todos os lugares do mundo, que se tornaria uma Cidade de Paz.

Continuamos a marcha e meu pai, apresentava um cansaço que não lhe era peculiar, mas encontrou forças sabe-se lá onde, para continuar, tentava ajudá-lo, era idoso, mas perseverava em sua marcha. Finalmente, chegamos ao Lugar de Ver Deus e lá meu pai me pede para ajudá-lo a construir um altar de pedras do deserto.

Quando o altar finalmente estava pronto, meu pai e Pai de Povos, amarrou a lenha, colocou-a sobre as pedras e percebi que ele estava preparando um sacrifício. Perguntei-lhe onde estava o animal para o holocausto para que o pegasse, mas ele hesitou e com os olhos cheios de lágrima, me tomou nos braços e chamou-me e disse-me:
- Rirás! O Deus dos Lugares Altos, nos fez chegar a este Lugar de Ver Deus e Ele Certamente Verá. Deita-te no altar!
Dentro de mim, vieram vários questionamentos. O que meu querido pai estava pensando naquele momento?

Vi que naquele instante, meu nome não era compatível com o que estava acontecendo. Como rir em um momento tão difícil. Seja lá o que meu pai estava fazendo, eu sabia que tinha que obedecê-lo, meu pai me ensinou bem sobre obediência, que devemos ser obedientes se necessário até com a vida. Deitei-me sem demora, ele me amarrou como se amarra uma ovelha e lágrimas continuavam rolando em seu rosto, isto sim me preocupava.

Repentinamente distrai-me com uma pequena gota de lágrima que escorreu de sua barba e tocou a minha testa, distrai-me e lá estava ele – Pai de Povos e meu pai, erguendo a faca que abate ovelhas e quando já descia com ela, fechei meus olhos e ele também, até que um voz densa e de fazer tremer os ossos gritou, dizendo:
- Pai de Povos. Basta!
Meu pai, caiu de joelhos e em profundo respeito ouvi a voz que do céu vinha. Era a voz do Deus dos Lugares Altos, que lhe dizia que por sua obediência ele confirmaria seus descendentes e o faria crescer e se multiplicar. Enquanto meu pai ouvia eu permanecia no altar, sem saber exatamente o que acontecia, salvo as vozes e os ditos.

Ao terminar isso, meu pai levantou-se com o rosto pálido e aos poucos, o rubor voltou junto com sua consciência. Ele tirou apressadamente as cordas que me amarravam e vimos um animal para o sacrifício amarrado à alguns arbustos. Meu pai o tomou, o imolou e a fumaça subia até o Lugar Alto de Deus e finalmente vi uma alegria nunca vista no rosto do meu pai. Ele ria, ria muito, pegou-me nos braços, dançava e se alegrava e dizia:
- Ri filho! Ri! Pois Ele viu e nós o vimos. Podemos ser testados, mas no final, quando obedecemos rimos! Essa é tradição do nosso povo, certamente Rirás!
Foi assim, que meu pai tornou-se Pai de Povos. Ele mostrou que o homem quando responde àquele que o chama, pode aprender a arte da obediência e assim realizar-se, não no que possui, mas no quanto está disposto a se desprender por amor ao Deus das Alturas. Pois, realizar-se está em realizar Sua vontade, que é surpreendente, pois Ele Sempre Verá.
Enfim, meu pai me ensinou a alegria da possibilidade do ser, ao invés do sofrimento causado pela perda da posse.
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Elenco:

Abraão: (hb. avraham) - Pai de Povos.
Isaque: (hb. Itschák) - Rirás.
Melquisedeque: (hb. malki-tsédek) - Rei da Justiça.
El Elion: (hb. El-Elion) - Altíssimo, Deus das Alturas.
Monte Moriá: (hb. Makon Ree Iá) - Lugar de ver YHVH.
Jerusalém: (hb. Yerushalaim) - Cidade da Paz.
O Senhor Proverá: (hb. YHVH Ireê) - Yhvh Verá.

4 comentários:

Anônimo disse...

Lindo...de arrepiar!!!!

Jerusa disse...

Desta vez o anônimo não sou eu!!!Mas concordo que realmente é lindo,chega a ser poético.
Abraço....Jerusa.

Eric Jóia disse...

Terrível, denso e doloroso.

Euclides Alberto Pacule disse...

Jeova Nao ha outro igual a ti. Imprencionante quanto esse escritor narrou este acontecimento puro da Obediencia a este Deus.