17 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Pés sujos (um conto)

Por Igor Miguel

Um menino passou correndo com seus pés preto de um chão cheio de fuligem da poluição. O chão ao menos é sujo, quanto ao coração do menino, bem pode ser que seja límpido.

La vai ele, como corre, olha para um lado e para o outro, ante o frenético movimento dos carros barulhentos. Ansioso, cruza a rua, uma motocicleta quase o pega, o motoqueiro buzina estridentemente.

Ele chega. Pega sua caixa de papelão cortada e adaptada com um pedaço de arame, faz uma caixa onde organiza de forma atraente doces e pastilhas de hortelã. A caixa me parece de sabão em pó.

Com a mesma agilidade, ao sinal vermelho, percorre os carros, exibindo seu mostruário, carro após carro, contando com a sensibilidade e o interesse dos motoristas por suas balas baratas, mas gostosas, como dizia.

Um "sim" aqui, moedas ali, mais "não" do que "sim", acaba vendendo mais do que se esperava. Em sua bermuda, um tanto surrada e suja, em um bolso mole, sambam pratinhas aos montes.

Se orgulha de seu lucro, exibia para seu amigo malabarista. La vai ele!

Corre, põe a caixa na cabeça e de novo, de pé ainda mais sujo, volta para o lado de cá, cruza os carros, para por onde os pedestres se concentram. Eles se afastam, olham-no com uma visão precavida, damas seguram firme suas bolsas. Ele vai rindo, como debochando e assumindo o poder que lhe atribuíam.

Chega em sua casa, com porta de MDF velha. Mitico, uma vira-lata de pelo branco e um "tapa-olho", um verdadeiro pirata, pula de alegria. Ele brinca e ri e ouve uma voz enfurecida de dentro de casa... era o namorado de sua mãe.

Correu, olhou e lá estava ele. Com olhos avermelhados, trôpego, macho, violento, valente e bêbado. Olhou para o menino, carregado de raiva, gritando, dando ordens, para que desse o dinheiro das balas. O menino o encarou colocando a mão no bolso e disse não. Pois o dinheiro era para o remédio da mãe.

Sua mãe padecia em leito, cirrose hepática, sofria as agruras de estar à margem da sociedade. Ele, o pequeno jovem dos pés sujos, a defende como um grande homem, mas o namorado de sua mãe insiste e sugere um espancamento. Lhe defere um golpe, mas ele reage, vira-se como um gato e consegue escapar. O homem lhe segue pra fora e lá, ao cruzar a rua, o menino vê um ônibus e grita para o homem tomar cuidado, mas seu berro não chegou ao cérebro do bêbado a tempo por efeito letárgico do álcool.

Mitico late sobre o corpo ensanguentado. Os outros moradores do condomínio, como chamavam o emaranhado de barracos debaixo do viaduto, chegam-se como curiosos ante a cena do menino que chora.

Não o odiava a este ponto, pensara na possibilidade de tê-lo por pai. Sentia um misto de pena e culpa. Sua mãe, grita se apoiando na parede de concreto, em prantos, acusava o menino, perguntando o que fez.

O menino chorava e corria, corria muito. Correu tanto que perdeu o caminho de casa, perdeu-se entre as pedras da cidade, perdeu-se entre os muros e o cheiro de urina das marquises. Perdeu-se no tempo e no espaço, foi absorvido, pelos olhares que o ignoravam. Perdeu-se ante os vidros fechados dos carros sob o hálito do ar condicionado levando meninos bem arrumados indo pra escola. Perdeu-se de casa, perdeu-se na vida sombria. Perdeu-se na impureza de seus pés sujos. Virou fuligem...

12 comentários:

Anônimo disse...

Shalom Igor,
Real e verdadeiro, não direi tremendo porque extremeço por dentro ao me deparar a cada dia com esta cena em muitos sinais de trânsito. A misericórdia está em comprar suas balas? O que estamos fazendo, como ser social e corpo espiritual? Admito que falhamos e até pecamos por omissão e medo.

Valeria Angeli disse...

Me abala o espírito ouvir esse gemido, que aliás já virou clamor. Mas se é o grito que nos assusta, o choro que nos comove, a imagem do menino sujo batendo no vidro do carro, que nos sensibiliza...as "pedras" continuarão a clamar.
Tenho sido muito abençoada pelo seu "derramar" de carisma e sabedoria.

Valeria Angeli

Maurílio disse...

Inevitavelmente digo "que merda", não se assuste, nem se indigne antes de ler o texto de Jean Gabriel-JOCUM DF, esta fuligem tem subido e embaçado nossos olhos todos os dias, nos envergonha, pela falta de atitude enquanto embaixadores do Reino. Vamos engolir ou vamos gritar juntos, assumir a Bandeira da Salvação, ou culparmos o poder público.
"Que Merda", não fiz nada ou ainda mto pouco.
Como neste espaço, construir Jardins de Shalom, como vc mesmo diz.
Que o Senhor nos abençôe, nos guarde e nos ajude.
No amor do Messias, abraços,
Maurílio Appolonio.

@igorpensar disse...

A proposta do texto é despertar uma reflexão, um posicionamento, uma oração, uma intercessão...

Maurilio disse...

Se não leu, leia: Considerações sobre a "Merda", www.jocumdf.com
Shalom

@igorpensar disse...

O link é este Mauríllio: http://www.jocumdf.com/consideracoes-sobre-a-merda/ interessante o texto, uma descrição muito próxima do nosso estado sem Cristo. Uma mer....

Maurilio disse...

Logo depois do almoço me deparei com 2 deles ao voltar para o trabalho. Meu sentimento foi de profunda tristeza e impotência momentânea. Pude orar e clamar ao Eterno misericórdia. Aqui em Juiz de Fora existe uma campanha "Não de esmolas, indique o caminho", serviço de assistencia social da Prefeitura.

Maurilio disse...

O dar esmolas de certa forma é bíblico, com coerência como produzir tsedaka como ato de justiça e misericórdia ao dar esmolas.
Shalom,
Maurilio.

Paulo Dib disse...

Excelente texto, primo!

Tocante a forma como vc retratou a situação vivida pelo menino.

O retrato em si não tem nenhuma novidade, infelizmente! É uma foto já embotada, de cenas cotidianas de norte a sul do Brasil.

Mas o seu texto nos leva mais uma vez a refletirmos sobre a questão social e a posição da igreja frente a miséria que a cerca.

De tempos em tempos a Igreja como um todo precisa de um cutucãozinho para sair de seu mundinho particular, para acordar e agir com Sal e Luz.

Peço autorização para reproduzir seu texto em meu blog, com os devidos créditos, é claro.

Abraço

@igorpensar disse...

Primo,

Fique à vontade! Este blog também é seu...

Um grande abraço!
Igor

neto disse...

Olá Igor.
Ao ler o o seu conto entrei automaticamente na cena, mas ao ver o desfecho penso; poderia ter acabado de forma menos melancólica, menos doída, menos infeliz, mas esta é a realidade do mundo sem jesus, doída e doida e que sempre termina na infelicidade. Em um momento de reflexão peço a Deus que me faça fazer diferença nesse mundo desvairado e que eu possa não apenas ter empatia com esses fatos, mas que eu faça algo para mudá-los, pois afinal sou um cidadão do reino de D-us.

victor disse...

Ah, meu Brasil Varonil Evangélico. Te preocupas tanto com um inimigo invisível enquanto deixas Cristo em um estado desprezível. Garotos viram fuligem e o Diabo se veste de ouro. Para quê dar atenção ao "nada" se o imponente brilhoso nos ameaça? Ah, meu Brasil Varonil Envagélico, a graça de Cristo nos basta! O Diabo, com tanta atenção, vai bem, obrigado. Mas o nosso próximo, apanha do pai embriagado. Saiamos do nossa fé confortável e estendamos a mão ao "fuligem" tão deplorável.