8 de out de 2010 | By: @igorpensar

A Encarnação e uma Igreja Relevante

Por Igor Miguel

Pra muita gente, a Igreja Local é aquele lugarzinho que todo mundo vai lá, faz uma coreografia de culto e adoração a Deus, ficam em silêncio ouvindo um sermão e depois de alguns tapinhas nos ombros e saudações automáticas, cada um segue seu rumo, e correm para ver se dá tempo de ver o "Fantástico".

Ao admitirmos que Jesus Cristo é o centro e fundamento donde tudo faz sentido, temos que admitir que sua comunidade, chamada por Ele de "corpo", tem uma papel magnífico de estender sua missão e a relevância de sua mensagem através do tempo e do espaço.

O mundo muda, as coisas mudam, a cultura muda, igualmente os desafios de tornar o evangelho relevante também mudam. Amei a definição de meu amigo e historiador José Cristiano, quando conceitua o cristianismo como uma "visão de mundo", um locus, a interface entre a linguagem de Sião (a linguagem dos santos) e a linguagem dos gregos. Lá se acumulam as experiências, o conhecimento, os argumentos, os concílios, os fracassos e acertos, lá estão as impressões que "joios" e "trigos" imprimiram, e é isto que me faz acreditar no cristianismo, como um espaço fértil, donde a Igreja, noiva misteriosa de Cristo, pode se enriquecer e ser enriquecida. Não é porque ele - o cristianismo - é "certinho", unânime, uniforme e "purinho", que me faz o cristianismo um movimento interessante, é justamente por sua capacidade de lidar com a complexidade da cultura.

Não dá para brincarmos de "Igreja", não dá para nos distrairmos dentro de um gueto religioso, não dá. Não dá porque estamos diante de um mundo cheio de questões culturais complexas. Nossos jovens não conseguem nos entender mais, nossa linguagem se tornou massante, hermética, sem sentido. Quando se fala de "Igreja" o mundo responde com as impressões saturadas da linguagem gospel. Definitivamente não dá.

Nos grandes centros, nos caldeirões culturais a coisa ainda é mais grave. Lá a comunidade local não sabe lidar com os movimentos artísticos, com os desafios que nossos jovens encaram na universidade. Nossos pastores não sabem (tirando raras exceções) que suas ovelhas andam se corroendo pela lógica fria, pelos determinismos numéricos, pelos filósofos pós-estruturalistas, pelos marxistas doutrinários. Sem contar, aquelas ovelhas imaturas, que são seduzidas pela ambição de se tornarem "bem sucedidas" como último sentido da vida.

Enquanto algumas comunidades estão preocupadíssimas com movimentos internos, com "possíveis rebeldes" no rebanho, esquecem que suas ovelhas já estão sendo devoradas por dentro, pelos valores deste século. Infelizmente, estes líderes não conhecem mais a música de sua geração, não conhecem as tribos urbanas e a cultura narcisista de seu tempo.

A resposta? Lembre-se, Deus está em missão! Ele se voltou para o mundo e se lançou no meio da história. O Verbo em Carne, Jesus, é Deus dramatizado, é a vontade de Deus em 3D. Com que propósito?
"... a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus." (Ef 3:18-19).
A encarnação é escandalosamente desafiadora. Ela nos adverte que Deus quis se tornar tão conhecido que "apelou". Ele enviou seu Verbo de forma que pudéssemos apreendê-lo. Se Deus virou gente para se tornar conhecido, então, no que deveríamos nos transformar para que a comunicação de Cristo se torne relevante? Paulo responde:
"Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele."(I Co 9:22-23).
De alguma forma, o drama da encarnação do verbo, continua pela Igreja. A comunidade batizada (empréstimo de Vanhoozer), a cidade de Deus, agora testemunha aos cidadãos da cidade dos homens, por meio de uma linguagem clara e relevante: Jesus Cristo já tomou os poderosos deste século, tudo e todos estão agora sob seu poder.

Neste sentido, nossa missão muda e o desafio é que, mais e mais, cristãos precisam se tornar engajados, precisam saber circular na cultura, nas artes e na política. Como Daniel, que na corte babilônica, no epicentro da cultura do mundo antigo, não comia das iguarias do Rei, pois tinha uma missão. A missão de Daniel, como a nossa, é sermos jovens, sábios, integrados com Deus, sem nos deixarmos desintegrar pela Babilônia, e lá, desvendar e desnudar, os mistérios, até que Nabucodonozor tenha que admitir:
"Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério." (Dn 2:47-48).
Honestamente, não dá pra ser "crente burro" na atual conjuntura. Do contrário seremos engolidos por este século, destruídos e nossa identidade ficará aos cacos.

Coragem! Jesus Cristo é o Senhor.

4 comentários:

Anônimo disse...

Assim como DEUS, a igreja tbm precisa encarnar no mundo, não deve ter medo. Deus se contextualizou no mundo para salvar o mundo, pq a igreja então se esonde dentro de quatro paredes esperando ele voltar ?

N'ao vos conformeis com este mundo...

Eric disse...

como se fala Eu sou em grego?

@igorpensar disse...

Isso aí anônimo!

Eric... há há há. Perguntas assim, pode mandar por e-mail, tá aí do lado direito do blog na parte superior.

De qualquer forma: "eu sou" é εγω ειμι (ego eimí).

Abraços,
Igor

marthatwice disse...

Muito bom seu texto! Precisamos cada vez mais de cristãos comprometidos em falar de forma séria sobre o reino e mostrar que temos que estudar e aprender a conviver com as realidades de nosso tempo. Entendo que viver o Reino de Deus é viver o amor de Cristo fora das paredes da igreja. É entender e assumir a mensagem da cruz. Viver a graça! Apresentar Cristo a essa geração é levar dignidade para as pessoas. É reafirmar que nós somos a imagem e semelhança do nosso criador. É não negociar valores, mas respeitar quem está ao seu lado. Não podemos enfiar pela garganta das pessoas nossa crença. Precisamos parar de ficar presos aos métodos e ao “sempre foi assim” e buscar inspiração do céu para fazer coisas novas, e aprender a conviver com as diferenças. A verdadeira reforma é pessoal, é o nosso compromisso com o amor de Deus, nós cristãos temos que mudar de atitude e realmente buscar viver segundo o evangelho de Cristo. Martha Twice