21 de mai de 2010 | By: @igorpensar

Uma luta com classe!

Por Igor Miguel


"Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária, da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em luta." (Marx & Engels no Manifesto do Partido Comunista).
Não posso concordar com Marx/Engels.  O pressuposto de uma revolução  desencadeada pela ideia de luta de classe me soa tentadora, mas toca em questões de fé que me são muito caras.  A ideia de "conflito constante" e de "guerra ininterrupta" como algo natural, que conduzirá o homem a uma transformação revolucionária, como se houvesse algum tipo de "desenvolvimento" como afirmará Marx em vários pontos de seu manifesto, é insustentável a partir uma cosmovisão cristã.  Se eles sustentam um "desenvolvimento" pela contradição, pelo conflito, então sugerem que há algo de bom na tensão entre os interesses humanos, que ao meu ver, é a própria cooptação do mal primevo, já afirmado por Adam Smith (auto-interesse).

O auto-interesse do autor da Riqueza das Nações, agora domado, torna-se o germe, que no final "redimirá" o mundo por meio de processos revolucionários que culminarão com o desenvolvimento da sociedade e por fim a humanidade. O que Millbank [1] chama de "vontade demiúrgica do individualismo humano", torna-se a mola propulsora para o desenvolvimento. O paganismo aqui é explícito! Querem trazer o Olimpo para o mundo, divinizar os homens e colocá-los na condição de portadores do arbítrio divino.  


Aquilo que já era perverso nas raízes do capitalismo, torna-se ainda mais perverso na pena de Marx, pois o que era mau, agora torna-se o próprio meio que conduzirá os homens ao “paraíso” comunista. Adam Smith admitira o auto-interesse, procurou usá-lo para um fim objetivo, domando-o, legislando-o, enquanto Marx, diviniza-o, lhe dá um tratamento messiânico, um sabor escatológico à instauração da guerra dos deuses, dos indivíduos (agonismo).

De acordo com a tradição cristã, principalmente de raiz reformada, é insuportável a ideia de revolução por meio da subversão contra autoridades determinadas. Biblicamente, as autoridades foram instituídas por Deus, que em sua soberania, eleva e abate os poderosos, principados e potestades. Logo, quem “conspira” contra um poderoso, conspira contra os desígnios de Deus.

Neste sentido assevera Abraham Kuyper:

... segue-se que todos os homens ou mulheres, rico ou pobre, fraco ou forte, obtuso ou talentoso, como criaturas de Deus e como pecadores perdidos, não têm de reivindicar qualquer domínio sobre o outro, e que permanecemos como iguais diante de Deus, e conseqüentemente iguais como seres humanos. Por isso, não podemos reconhecer qualquer distinção entre os homens, exceto a que tem sido imposta pelo próprio Deus, visto que ele deu a um autoridade sobre o outro, ou enriquece um com mais talentos do que o outro, para que o homem de mais talentos sirva o homem de menos, e nele sirva a seu Deus. (A. Kuyper em O Calvinismo)
Isso significaria passividade ante à corrupção? Absolutamente não! Isto não significa em hipótese alguma que a tradição judaico-cristã seja “passiva” ante a corrupção, a injustiça e o abuso de poder. Diante destes males, tomamos a frase de São Pedro, “mais importa obedecer a Deus do que a homens”. Neste sentido, se uma autoridade falha em seu papel, julga-se que não se deve “derrubá-lo” pela “mão armada”, ou por qualquer tipo de “crime”. Pois isto seria responder “mal por mal”, seria fazer uso de tirania para derrubar o tirano.

Compete-nos, denunciar a injustiça pela justiça, confrontar a iniquidade com a lei, denunciar o “roubo” com o “não roubarás”. A exposição da lei, o exercício da denúncia profética, no estilo João Batista que apontou as orgias de Herodes. Mas, nunca, nunca se deixar seduzir pela revolução, jamais fazer uso da mesma lógica dos tiranos, a lógica do golpe. Nunca dar ouvido ao jacobino que procurou seduzir William Wilberforce, que finalmente optou pela transformação pelos caminhos da justiça ao invés da conspiração. Neste sentido, uma percepção política cristã, deveria se basear em uma “reforma” e nunca na “revolução”; na desobediência civil, mas nunca na conspiração.

Não há como ser progressista, não há como confiar no homem sob efeito da queda. Neste sentido, a visão agostiniana [2] de “queda” concebia que o cristão é um ser em permanente estado de “desconfiança” a respeito das pretensões humanas (ceticismo cristão) e absoluta “confiança” na soberania de Deus sobre os poderosos. Não é possível confiar na revolução a partir da
luta de classes, a resposta judaico-cristã envolve uma luta com classe e a sofisticação necessárias, para com graça, manifestar justiça onde opera a iniquidade.
“… o homem que vemos todos os dias – o trabalhador.... o pequeno funcionário... está mentalmente preocupado demais para preocupar-se com a liberdade. Ele é mantido sob controle com literatura revolucionária. É acalmado e mantido em seu lugar por meio de uma constante sucessão de filosofias insensatas. Ele é marxista num dia, nietzcheano no outro, super-homem (provavelmente) no dia seguinte e escravo todo os dias.” (G.K. Chesterton em Ortodoxia).
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[1] MILBANK, John. Theology & Social Theory: beyond secular reason. Malden, USA: Blackwell Pub., 2006.
[2] Se bem, que a visão de queda tem raízes profundas, mesmo em eras pré-paulinas. Há evidências de uma teologia da queda na escatologia dos essênios.

12 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Igor,

onde assino?

Uma questão: como você vê a redenção política via Cristianismo proclamada pelos pós-milenistas? Ou você as compreende apenas durante o reino milenar terreno (parece redundância, pois Cristo, ao meu ver, já reina!)?

É possível, assim como foi entre os puritanos, uma reforma política baseada nos princípios judaico-cristãos, sem a união da Igreja com o Estado?

E por que não existem partidos cristãos verdadeiros? Seria por impossibilidade ou omissão?

Autoriza-me a republicar mais este texto em um dos meus blogs?

Chega de perguntas! Por enquanto...

Abraços.

@igorpensar disse...

Há há há!

Vamos lá. Eu não me considero "pós-milenarista". Ao menos, por enquanto. Minha visão de "Reino de Deus" é mais ou menos a desenvolvida por Charles Dodd. O Reino é, mas não ainda. O Reino Milenar, tem dependência profunda das fontes judaicas. Era conhecida (e é até hoje) entre os rabinos de antes de Jesus (ou contemporâneos a ele) por "Yamei HaMashiach" (dias do Messias), que segundo a escatologia judaica, seria uma era em que o próprio Messias reinaria (em pessoa) o mundo, tornando-o plenamente digno da renovação do mundo, denominado por eles (e pelo novo testamento) por "Olam HaBá" (mundo vindouro), que seria o correspondente ao "Novos Céus e Nova Terra" (Ap. 21).

Dessa forma, o Reino de Deus é "de direito", mas não é "de fato". A Igreja neste sentido, através dos santos, antecipa as profecias em sua atuação. Sua ação discreta ou não, atrai o Reino de Deus à criação, tornando "tempo histórico e eternidade" convergentes. Porém, esta atuação antecipatória, torna-se um meio, para que Cristo possa definitivamente manifestar seu Reino visivelmente e universalmente sobre a criação.

Então, lidamos com um paradoxo (e não uma contradição) de que o Reino de Deus é, mas não ainda. Por isso, você fez uso do termo "redundância".

Onde que está o problema? Na pretensão humana de uma redenção sem Cristo. Onde está a soluça? Na explicitação de que a atuação do santos (que é semelhante a um grão de mostrada e um pouco de fermento), apesar de ser discreta, tornará a criação digna do advento do Rei. Por isso Mt 24 refere-se ao fato de que "quando este evangelho do Reino for pregado em toda terra, então virá o fim", lembrando que "fim" aqui é (gr.) "telos". Com o sentido de "propósitos", "desígnio", "finalidade", "cumprimento" e não "hecatombe". Este fim teleológico é o próprio encontro da "eternidade" com a "historia". Neste sentido, o Reino do Messias (milenar) é um meio para a "restauração de todas as coisas" (hb. Tikkun Olam) que é o fim.

Ufa! Estou escrevendo um livro sobre o tema... Estou retardando a publicação, pois tenho amadurecido alguns pontos.

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Quanto aos partidos cristãos. Penso que não existem, ao menos no Brasil, primeiro pela alienação política da "Igreja Cristã" ao menos nos segmentos evangélico-protestantes. Apesar de que há um envolvimento político ainda nos moldes "ingênuos" ou "politicários". Por outro, falta informação e treinamento teológico-político para o desenvolvimento de uma "cosmovisão cristã" que oriente a postura política destes.

Pode publicar o que quiser deste blog!

Um grande abraço e precisamos nos encontrar para tomarmos um café. Vem cá... pq vc não vai na Conferência L'Abri este ano?

@igorpensar disse...

Uma dica. Um livro bom para entender a visão escatológica e a linguagem escatológica usada por Jesus e os apóstolos no I século, que é fundamentalmente nos moldes da escatologia judaica "inter-testamental" é o "The Method and Message of Jewish Apocalyptic" de D.S. Russel.

Um grande abraço!

Matheus M. disse...

Igor, não entendo como defender um sistema que, sem qualquer aval bíblico, proíba e puna alguém por algo. Na verdade, essa é uma boa definição de crime e tirania. Principalmente quando observamos o tamanho da pena imposta por tal sistema a alguém. Consequentemente isso me faz pensar sobre o sistema atual, com suas punições, se elas são justas ou não.

Quanto ao Ariovaldo, além do socialismo (embora nenhum seja bom, o único socialismo que não cai no problema acima seria pacifista, mas não sei se o Ariovaldo o é) tenho dúvidas sobre a teologia dele. Embora tenha falado contra o liberalismo, participou de eventos que "lutariam pela igreja" com o Ed René K. É incoerente participar de um evento dessa finalidade com um fulano que não acredita em nenhum "Sola" -- só se ele passou a crêr ontem, não sei.

Isso me leva a outro assunto. Liberais e afins não temem a Deus. São, portanto, tolos. Ou seja, estúpidos. Como separar a crença deles da pessoa deles? Essa separação é no mínimo incoerente, parecerá até mesmo liberal ou neo-ortodoxa quem a afirme. O que quero te dizer é que tenho certa dúvida sobre a posição -- e às vezes sobre a cristandade -- da L'abri.

Abraços.

@igorpensar disse...

Olá Matheus,

Obrigado por sua participação aqui no blog. Mano, estas ambiguidades são possíveis. Penso, que se você ler alguns textos deste blog mais antigo. Os verá inclinados para a esquerda. E precisamente, meu contato com cristãos que são politicamente e teologicamente sóbrios, me permitiu um ajuste em minha visão política, antes dependente de alguns pressupostos do marxismo.

Agora, quanto a L'Abri não acho que haja algum problema de natureza teológica ou que comprometa sua ortodoxia cristã. Basta, uma olhadela no "Statements of Faifh" neste endereço: http://www.labri.org/statements.html na minha percepção, em especial L'Abri (no Brasil) tem feito um esforço culturalmente e espiritualmente relevante, para uma Igreja que se tornou menos cristã, quando se distanciou do mundo, não por santidade, mas por aceitar o discurso de segregação cultural imposto pelo secularismo.

Abraços,
Igor

Matheus disse...

Aproveitando a ocasião, não tenho conseguido acesar o arquivo mp3 "O que é L'Abri? - Rodolfo, Guilherme e Alessandra". Não sei se há como solucionar isso, mas de qualquer forma ... rs vou dar uma olhada no "Statements".

Ana Laura disse...

Bom dia!Tantas coisas para falar sobre o pensamento Marxista!
Incoerente,economicamente rudimentar,coersitivo,e acima de tudo extremamente preconceituoso.
Não entendo como até hoje, inúmeros acadêmicos propagam seus pensamentos e o defendem.
Poderia tentar colocar algumas considerações,mas,não serei capaz de fazê-lo em poucas palavras...Mas registro aqui que vale a pena se aprofundar no assunto.Qualquer pessoa que tenha um conhecimento histórico e econômico razoável é capaz de identificar as distorções do pensamento marxista.

abraços,

AL

Dan disse...

mano, agora faça um texto contra o liberalismo fazendo favor hahahahahaha

@igorpensar disse...

Dan... vc é D+

Pois é, o que não falta é texto sobre isso. Tenho ferrado aqui e acolá em meu blog, problemas com o liberalismo. A ideia de autonomia, o individualismo, o achatamento do capital, o culto a mamon, a divinização do homem (por Adam Smith). A própria ideia "progressista-positivista" presente do discurso desenvolvimentista e de crescimento ao infinito e por aí vai... são as muitas mazelas da outra ala.

@igorpensar disse...

Pois é Ana,

Eis nosso desafio, denunciar os sofismas de ambas ideologias.

Abraços,
Igor

Roberto Vargas Jr. disse...

Igor, caríssimo!
Como o Jorge, subscrevo-o.
Olha, como te falei via twitter, tenho pouca cultura política ou econômica para me pronunciar sobre o assunto. Sei dizer apenas que sou conservador. Não liberal e muito menos esquerdista.
Falo mesmo em "capitalismo redimido", mas aceito sua crítica quanto ao uso do termo "capitalismo". Entretanto, não conheço outro. Vejo-o apenas como um sistema de trocas via moeda. OK, outros sistemas poderiam fazer o mesmo, mas quero dizer é que o certo é que me refiro a algo que nada tem a ver com "a ideia de autonomia, o individualismo, o achatamento do capital, o culto a mamon, a divinização do homem"...
Também, tenho dúvidas escatológicas demais para afirmar um Reino de Justiça ainda neste século como possível. Se for a vontade do Eterno, claro que sim. E se sou suficientemente bíblico, só posso acreditar em um sistema justo se for culturalmente redimido pelo pensamento judaico-cristão. Pensamento reformado! Sejamos Igreja então e que nenhuma pedra clame em nosso lugar!
Bem, já falei demais para quem sabe tão pouco. Grande abraço, meu irmão!
No Justo,
Roberto

@igorpensar disse...

Pois é Roberto,

Metodologicamente, estamos avançado em algum sentido, ao menos podemos dizer o que "não" é compatível com a cosmovisão judaico-cristã em modelos de esquerda/direita. Podemos dizer o que da direita é intolerável, como o que de esquerda também não dá para sustentar.

Mas, vamos caminhando...

Obrigado pela contribuição ao debate!