21 de dez de 2009 | By: @igorpensar

Educação ética religiosamente neutra?

Por Igor Miguel

Lawrence Kohlberg (1927-1987) foi um psicólogo americano, envolvido com a psicologia moral, ramo da psicologia responsável pelo estudo do comportamento ético. Kohlberg estudou com Piaget, de quem recebeu profunda influência. Sua teoria procura racionalizar um "desenvolvimento" em "etapas" (como propõe a psicogênese piagetiana) da evolução moral. Kohlberg será sempre respeitado por sua empreitada, em um campo que carecia de estudos, mas naturalmente, como todo bom cientista ou pioneiro em determinado campo científico, ele não estará isento de críticas. Dentre os crítico(as) de sua teoria estão Carol Gilligan (1985) Sastre, G. (et al, 1994).

A contestação basicamente gira em torno do quesito "racionalidade", a um tipo de"construtivismo moral". A ideia de Kohlberg parece primar pela racionalidade como veículo organizador da "estrutura comportamental", sendo ela responsável por orientar determinada resposta moral à determinados dilemas éticos. Então, se um sujeito vive um conflito entre "roubar uma banana para não morrer de fome" e "não roubar a banana por causa de valores éticos", sua escolha é determinada puramente por como suas estruturas cognitivas se organizaram, influenciando sua escolha moral. O problema é que este modelo ignora um fator absurdamente poderoso, o quesito "afetividade". Em processos em que o dilema moral está posto, mescla-se com a racionalidade com aspectos da vida emotiva. Neste sentido, ocorre um "aparente paradoxo" entre "emoções racionalizadas" e "raciocínios afetados".

O apego de Kohlberg à psicogênese de J. Piaget, que por sua vez tem profunda influência do kantianismo e as pretensões de "racionalizar" fenômenos "empíricos" (fenômenos observados pelos sentidos), fará com que sua teoria ignore qualquer ruído de elementos "não-racionais" como a afetividade e a emoção.

O peso do individualismo capitalista de uma lado e os esforço iluminista de rompimento com o "moralismo religioso" do outro, trouxe alguns desconfortos à dimensão do sociedade que não podem ser descartados. Os sintomas são nítidos: a desonestidade profissional, o egoísmo, a depredação inconsequente do meio ambiente, o desrespeito à figura feminina, a erotização precoce, a falta de cidadania, a depredação e vandalismo a símbolos e espaços públicos, o conflito ético na ciência e outros dilemas, que estão sempre presentes na moderna sociedade.

A conclusão lógica é a retomada de uma educação ética, que leve em consideração o convívio do homem com os outros e com o mundo. Porém, as grandes investigações teóricas que levam em conta a "psicologia moral" ou a "educação moral", esbarram em um elemento pós-moderno: o relativismo cultural. O relativismo cultural, pressupõe que determinados comportamentos que são considerados "imorais" em uma sociedade dada, podem não ser considerados imorais em outra sociedade. Este relativismo moral, tornou-se tão generalizado, que se questiona até mesmo regras "convencionadas" ou "universalizadas". O relativismo moral (ou cultural) é uma resposta às pretensões do iluminismo, que propunha algum tipo de "moralismo universal" ou no positivismo, algum tipo de "moralidade convencional".

Há um conflito entre "relativismo" (pós-estruturalista) e "universalismo" (moderno-iluminista), como lidar com estes dilemas? Minha crítica é a um elemento excluído nos dois movimentos. O relativismo tornou-se tão generalizado, que quase não é possível pensar em "convenções" ou "pactos-sociais", pois acabam relativizando "valores" ao nível do indivíduo, o que torna a responsabilidade ética quase insustentável, pois ignora-se alguma "unidade moral". Por outro lado, o universalismo (anterior ao relativismo), pretende ser "neutro", "imparcial", o que é negado pela disparidade moral de uma cultura para outra.

Penso, que ambos os movimentos, ignoram um elemento importantíssimo, que sustentou as antigas civilizações: a ética religiosa. A tendência moderna de se criar um mundo "a-religioso", uma sociedade "secularizada", que segrega a dimensão religiosa ao espaço da Igreja, da Mesquita ou Sinagoga, é de uma pretensão irritante. A própria ideia de dar uma orientação "racional" à sociedade inclina-se à "religiosidade" ao colocar a "razão" no status de uma divindade (sem teologia explícita) ou de um poder orientador para a vida humana. Vale a leitura do artigo brilhante de Guilherme Carvalho intitulado: A Objeção Reformada ao Dogma da Autonomia Religiosa da Razão.

A neutralidade religiosa da razão é mitológica. O que é a religiosidade, se não a admissão de um "meio orientador" da existência, um sistema de crenças irrefutáveis que dão sentido à atuação e participação humana no mundo. Este "meio orientador" pode ser uma ideologia política, uma divindade, um demiurgo, um conceito, a ciência ou outros "mitos" explicativos à existência e aos fenômenos com que o homem se depara.

Alguns educadores, cuja agenda é dirigida a uma educação moral, desconsideram este elemento e para evitar quaisquer debates ou conflitos "religiosos", mesmo criticando, acabam recorrendo a uma suposta neutralidade da razão e consequentemente, uma "educação ética" a-religiosa. Ora, o crescimento do Islã, os recentes movimentos de afirmação da religiosidade cristã na Europa, o fundamentalismo cristão nos EUA, o crescimento evangélico na América Latina, são fenômenos reais, que não podem ser desconsiderados ou atropelados pela pretensa neutralidade iluminista.

Sendo assim, educadores cristãos (por exemplo), devem se articular, para propor agendas de uma formação ética judaico-cristã consistente, que dialogue com a cultura, que proponha um modus vivendi criativo, desvinculado do escolasticismo medieval, ou da síntese cristã-aristotélica, que é 'anti-cristã' neste sentido. O movimento de retomada de tradições esquecidas ou ignoradas, como a tradição reformado-calvinista, as experiências culturais como o de Abraham Kuyper (no neo-calvinismo holandês) e os movimentos de afirmação das raízes judaicas do cristianismo, são elementos que podem resultar em nova e fresca direção à formação de uma sociedade plenamente humana, pois o pretenso discurso iluminista de "neutralidade religiosa", atropelou o apelo à fé. O fenômeno religioso apegou-se à história humana com tal poder, que seria sobremodo artificial negá-la. A história prova isto!

Deus pode ter morrido, mas já pensaram na hipótese dele já ter ressuscitado?

5 comentários:

Anônimo disse...

Um religioso que estude matemática até pode escrever notas de agradecimento religiosas. Quando leio um livro de estatística que nas primeiras páginas está escrito: "Agradeço a Deus", isso tem algo de engraçado. Mas um pedagogo construir um sistema educacional que parte de um pressuposto religioso é, em definitivo, bobo.

Amplexos,
Constantino.

Igor Miguel disse...

Então de que pressuposto um "sistema educacional" ou uma "teoria pedagógica" deveria partir? De uma teoria supostamente neutra? Interessante pois atualmente o discurso de neutralidade ideológica iluminista é altamente criticado pelo pós-estruturalismo. Fala-se que esta "neutralidade científica" é carregada de uma "meta-discurso" que no fundo é ideológico. A única forma, intelectualmente honesta, seria admitir que não há uma neutralidade científica, mas expor claramente que pressupostos teleológicos sustentam determinados "métodos". Teorias científicas não são neutras religiosamente, pois ou partem de teorias "ontologicamente explicativas" (procurar dar um sentido, partindo de alguma "verdade" orientadora) ou partem de teorias que procuram negar a existência de Deus. Mesmo o pós-estruturalismo foucaultiano é aterradoramente "explicativo". A única saída é admitir explicitamente de que visão de mundo religiosa se está partindo. Um sistema educacional que parte de teorias pretensiosamente "neutras" é, em definitivo, bobo.

Eric disse...

A teologia liberal está cada vez mais em nossas igrejas e seminários, relativizando tudo e afirmando que as doutrinas e afirmações das religiões são símbolos que os homens empregam para descrever suas experiências com Deus (com o transcendente). Dizem, também, que com a evolução da sociedade, os símbolos devem evoluir também. Partindo desta teologia poderíamos também afirmar que já que todas as religiões estão certas, elas também estão erradas. Ou seja, num universo onde cosmovisões contraditórias são igualmente verdadeiras, o conceito de verdade se tornará sem significado. É o que temos visto hoje, infelizmente.
Um abraço,

Igor Miguel disse...

Pois é Eric, concordo com você plenamente. A teologia liberal é uma tentativa de sujeição da revelação à supremacia da razão, ao dogma idólatra cartesiano. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó é diferente do "Deus dos Filósofos", pois Ele é conhecido relacionalmente e não "objetivamente" ou "teoricamente". Existe racionalidade própria na compreensão relacional. O dia que provarem Deus cientificamente, eu serei o primeiro a abandoná-lo, pois Ele é a fonte de tudo aquilo que a ciência estuda, ele está para além dos objetos científicos. Não pode ser reduzido ao conhecimento objetivo, ele é compreendido em relação aos se encontram com Ele. Uma compreensão relacional de Deus, nos livre do racionalismo teológico e do fideísmo fundamentalista. Libera-nos para compreender Deus a partir da revelação como ela é, porém, de forma criativa.

Marcus Vinicius disse...

Igor,
Acho que Constantino está errado. Não o Constantino histórico, mas o Constantino blogger.
O que Constantino escreveu implica no que fragmenta, a saber, a dicotomia.
Mas, quando penso sobre a Soberania de Deus sobre o todo da vida, derivo um problema:
(i)As tragédias são portanto responsabilidade de Deus.

Pode parecer um salto gigantesco, mas é possível.

Fraterno abraço,
M. V. M. de Arruda.