21 de dez de 2009 | By: @igorpensar

Educação ética religiosamente neutra?

Por Igor Miguel

Lawrence Kohlberg (1927-1987) foi um psicólogo americano, envolvido com a psicologia moral, ramo da psicologia responsável pelo estudo do comportamento ético. Kohlberg estudou com Piaget, de quem recebeu profunda influência. Sua teoria procura racionalizar um "desenvolvimento" em "etapas" (como propõe a psicogênese piagetiana) da evolução moral. Kohlberg será sempre respeitado por sua empreitada, em um campo que carecia de estudos, mas naturalmente, como todo bom cientista ou pioneiro em determinado campo científico, ele não estará isento de críticas. Dentre os crítico(as) de sua teoria estão Carol Gilligan (1985) Sastre, G. (et al, 1994).

A contestação basicamente gira em torno do quesito "racionalidade", a um tipo de"construtivismo moral". A ideia de Kohlberg parece primar pela racionalidade como veículo organizador da "estrutura comportamental", sendo ela responsável por orientar determinada resposta moral à determinados dilemas éticos. Então, se um sujeito vive um conflito entre "roubar uma banana para não morrer de fome" e "não roubar a banana por causa de valores éticos", sua escolha é determinada puramente por como suas estruturas cognitivas se organizaram, influenciando sua escolha moral. O problema é que este modelo ignora um fator absurdamente poderoso, o quesito "afetividade". Em processos em que o dilema moral está posto, mescla-se com a racionalidade com aspectos da vida emotiva. Neste sentido, ocorre um "aparente paradoxo" entre "emoções racionalizadas" e "raciocínios afetados".

O apego de Kohlberg à psicogênese de J. Piaget, que por sua vez tem profunda influência do kantianismo e as pretensões de "racionalizar" fenômenos "empíricos" (fenômenos observados pelos sentidos), fará com que sua teoria ignore qualquer ruído de elementos "não-racionais" como a afetividade e a emoção.

O peso do individualismo capitalista de uma lado e os esforço iluminista de rompimento com o "moralismo religioso" do outro, trouxe alguns desconfortos à dimensão do sociedade que não podem ser descartados. Os sintomas são nítidos: a desonestidade profissional, o egoísmo, a depredação inconsequente do meio ambiente, o desrespeito à figura feminina, a erotização precoce, a falta de cidadania, a depredação e vandalismo a símbolos e espaços públicos, o conflito ético na ciência e outros dilemas, que estão sempre presentes na moderna sociedade.

A conclusão lógica é a retomada de uma educação ética, que leve em consideração o convívio do homem com os outros e com o mundo. Porém, as grandes investigações teóricas que levam em conta a "psicologia moral" ou a "educação moral", esbarram em um elemento pós-moderno: o relativismo cultural. O relativismo cultural, pressupõe que determinados comportamentos que são considerados "imorais" em uma sociedade dada, podem não ser considerados imorais em outra sociedade. Este relativismo moral, tornou-se tão generalizado, que se questiona até mesmo regras "convencionadas" ou "universalizadas". O relativismo moral (ou cultural) é uma resposta às pretensões do iluminismo, que propunha algum tipo de "moralismo universal" ou no positivismo, algum tipo de "moralidade convencional".

Há um conflito entre "relativismo" (pós-estruturalista) e "universalismo" (moderno-iluminista), como lidar com estes dilemas? Minha crítica é a um elemento excluído nos dois movimentos. O relativismo tornou-se tão generalizado, que quase não é possível pensar em "convenções" ou "pactos-sociais", pois acabam relativizando "valores" ao nível do indivíduo, o que torna a responsabilidade ética quase insustentável, pois ignora-se alguma "unidade moral". Por outro lado, o universalismo (anterior ao relativismo), pretende ser "neutro", "imparcial", o que é negado pela disparidade moral de uma cultura para outra.

Penso, que ambos os movimentos, ignoram um elemento importantíssimo, que sustentou as antigas civilizações: a ética religiosa. A tendência moderna de se criar um mundo "a-religioso", uma sociedade "secularizada", que segrega a dimensão religiosa ao espaço da Igreja, da Mesquita ou Sinagoga, é de uma pretensão irritante. A própria ideia de dar uma orientação "racional" à sociedade inclina-se à "religiosidade" ao colocar a "razão" no status de uma divindade (sem teologia explícita) ou de um poder orientador para a vida humana. Vale a leitura do artigo brilhante de Guilherme Carvalho intitulado: A Objeção Reformada ao Dogma da Autonomia Religiosa da Razão.

A neutralidade religiosa da razão é mitológica. O que é a religiosidade, se não a admissão de um "meio orientador" da existência, um sistema de crenças irrefutáveis que dão sentido à atuação e participação humana no mundo. Este "meio orientador" pode ser uma ideologia política, uma divindade, um demiurgo, um conceito, a ciência ou outros "mitos" explicativos à existência e aos fenômenos com que o homem se depara.

Alguns educadores, cuja agenda é dirigida a uma educação moral, desconsideram este elemento e para evitar quaisquer debates ou conflitos "religiosos", mesmo criticando, acabam recorrendo a uma suposta neutralidade da razão e consequentemente, uma "educação ética" a-religiosa. Ora, o crescimento do Islã, os recentes movimentos de afirmação da religiosidade cristã na Europa, o fundamentalismo cristão nos EUA, o crescimento evangélico na América Latina, são fenômenos reais, que não podem ser desconsiderados ou atropelados pela pretensa neutralidade iluminista.

Sendo assim, educadores cristãos (por exemplo), devem se articular, para propor agendas de uma formação ética judaico-cristã consistente, que dialogue com a cultura, que proponha um modus vivendi criativo, desvinculado do escolasticismo medieval, ou da síntese cristã-aristotélica, que é 'anti-cristã' neste sentido. O movimento de retomada de tradições esquecidas ou ignoradas, como a tradição reformado-calvinista, as experiências culturais como o de Abraham Kuyper (no neo-calvinismo holandês) e os movimentos de afirmação das raízes judaicas do cristianismo, são elementos que podem resultar em nova e fresca direção à formação de uma sociedade plenamente humana, pois o pretenso discurso iluminista de "neutralidade religiosa", atropelou o apelo à fé. O fenômeno religioso apegou-se à história humana com tal poder, que seria sobremodo artificial negá-la. A história prova isto!

Deus pode ter morrido, mas já pensaram na hipótese dele já ter ressuscitado?
14 de dez de 2009 | By: @igorpensar

Cristianismo sim! Algum problema?

Por Igor Miguel


Em círculos judaicos é sempre recorrente uma abordagem negativa a respeito do cristianismo, as vezes tão honesta que beira à injustiça. Não há dúvidas, os judeus sofreram muitas agruras em nome de falsos seguidores de Cristo, ou em nome de um cristianismo oficial. Não há dúvidas que a Alemanha Nazista - por exemplo - era composta de mais de 50% de luteranos. Não há dúvidas que muito do discurso anti-semita medieval sustentava-se por "frases isoladas" ou mesmo explícitas de uma postura "anti-judaica" entre alguns Pais da Igreja.

Porém, reduzir o cristianismo a falsos-cristãos, seria tão incoerente quanto reduzir o judaísmo a falsos-judeus. O joio era previsto pelo próprio Jesus, e mesmo Paulo, o apóstolo, já alertava a Igreja de Roma a respeito de uma possível jactância da parcela gentílica da Igreja em relação aos judeus (Rm 11). Ainda sim, deve-se admitir que é parte da natureza do cristianismo a existência de falsos-cristãos. Penso que no cristianismo há muitos "judas", como no judaísmo, deve haver muitos "Tsvi Shabatai", "Saduceus Aristocratas", fundamentalistas religiosos, que desqualificam a essência do judaísmo. Reduzir da mesma forma o judaísmo a estes "sujeitos" seria incoerente.

O termo cristianismo foi usado pela primeira vez no período pós-apostólico, no II século d.C. Inácio de Antioquia foi o responsável pelo uso inédito do termo (ao menos estes são os registros). Alguns críticos veem na criação de uma terminologia nova para identificar os seguidores de Jesus um problema. Neste sentido, supõe-se que a procura por uma identidade independente do judaísmo traria prejuízos à fé chamada "cristã". Mas, como veremos, este é um receio parcialmente compreensivo.

Não acho que Inácio tinha alguma pretensão conspiratória, penso que não havia outra opção. Desde o ano 95 d.C. quando os judeus se reuniram em Yavne (Jamnia) para um conselho que redefiniria o rumo do judaísmo pelos próximos séculos, fora elaborado mecanismos religiosos e litúrgicos para repelir a presença dos "nazarenos" (judeus crentes do I século) do círculo judaico. A rejeição inicial não foi da Igreja, foi do próprio judaísmo. Se a situação era difícil para estes primeiros judeus seguidores de Jesus, o que dirá aos gentios recém chegados do paganismo. Estes eram um grupo com grandes problemas identitários: por um lado não eram judeus (pois não se submetiam à conversão formal ao judaísmo) e nem eram pagãos (pois não frequentavam os cultos pagãos).

A sinagoga não queria mais os seguidores de Jesus, o mundo pagão também repelia os gentios seguidores de Jesus. A única saída foi a afirmação de uma identidade independente, tanto do mundo pagão como do mundo judaico. Ignácio, quando afirmou o aspecto "universal" (católico) da Igreja, queria deixar claro que a "Igreja" era uma instituição para além dos limites "étnicos". Enfim,
quais foram as principais consequências da inauguração do cristianismo?

Consequências positivas:
a expansão da fé cristã, que sem exagero (basta uma olhadela nos atuais estudos), seria um tipo de "judaísmo minimalista" para acolhimento dos gentios à fé em Jesus e ao monoteísmo derivado deste. Este judaísmo minimalista (cristianismo) dialogava bem com as culturas pagãs, principalmente em províncias e territórios onde a sinagoga já não estava presente (países nórdicos - por exemplo).Consequências negativas: o distanciamento da matriz hebraica produziu gradualmente um perda da cosmovisão judaica; uma cristologia excessivamente preocupada com a transcendência, ofuscando a humanidade e a identidade cultural do verbo quando se fez carne. O diálogo com a cultura grega, por vezes foi promissora, por outras vezes, a síntese entre "cristianismo" e "cultura grega" trouxe grandes problemas para o seio do cristianismo.

Sendo assim, o cristianismo é um movimento legítimo, enquanto a resposta do Espírito Santo para um momento de tensão entre a Igreja e Sinagoga. A ruptura seria inevitável e necessária. Neste sentido, o cristianismo deve ser honrado e respeitado, como um fenômeno legítimo de acolhimento e reunião das nações ao redor do Messias judeu, Jesus.

Por outro lado, o cristianismo depara-se com uma tendência mundial, de visita e releitura de sua própria fé a partir das fontes judaicas. Vários escritos judeus, protestantes, católicos e reformados, dedicam-se ao estudo da língua hebraica, da tradição rabínica, dos Manuscritos do Mar Morto e outros recursos da tradição judaica, para compreender e enriquecer a própria experiência do cristianismo e por que não do próprio judaísmo?

Um outro fenômeno que não pode ser ignorado, é a crescente presença de judeus que percebem Jesus como uma figura messiânica. A presença crescente dos ditos "judeus-messiânicos" em Israel e na Diáspora é um fato, e deve ser considerado. Não faço referência a grupos fundamentalistas, judaizantes ou que procuram descredibilizar a tradição cristã e o próprio cristianismo. Neste sentido, uma leitura do Manifesto Judeu-Messiânico de David Stern traz boa luz doutrinária. Segundo ele o judeu-crente, por uma questão identitária, deve permanecer judeu, vinculado a sua tradição e neste sentido, o cristianismo não é adequado para ele. Um espaço autônomo, que proporcione liberdade litúrgica e que remeta os tempos pré-inaciano de culto, seria interessante. Mas, neste sentido, o debate é longo.

O que quero afirmar com este breve texto é que o cristianismo é um movimento historicamente estabelecido, levantado por crentes piedosos, que na tensão com o judaísmo, viram-se obrigados a criar um espaço de acolhimento dos gentios convertidos a fé cristã. Nem tudo que é cristão é necessariamente apostólico, como nem tudo que é judaico é necessariamente mosaico. Pois ambos, desenvolveram suas tradições. Neste sentido, Alister McGrath apresenta que a melhor forma de lidar com a tradição é compreendê-la dinamicamente. Afinal, a tradição enriquece a fé ao afirmar experiências anteriores e é enriquecida em novos contextos culturais, demandas e experiências teológicas.
A tradição é relativa à revelação.

Não obstante, o cristianismo não está isento de algum tipo de crítica histórica ou religiosa, pois há elementos heterodoxos na diversificada tradição cristã que são incompatíveis com a fé apostólica, como por exemplo: as influências do tomismo aristotélico, o neo-platonismo, o antinomismo luterano, o legalismo pietista e por aí vai.

O cristianismo foi o grande precursor dos direitos humanos. E em seu formato reformado promoveu o avanço das pesquisas científicas e da produção de riquezas. O cristianismo implantou universidades em toda Europa e nas Américas; as primeiras academias brasileiras eram confessionais. O cristianismo erradicou a confusão politeísta e expandiu um monoteísmo transformador em lugares assolados pelo caos teórico e por crenças perversas que oprimiam mulheres e escravos. O cristianismo conseguiu popularizar e cumprir em muitos lugares, como a experiência do neo-calvinismo holandês, um tipo de atuação antecipadora das profecias. Os profetas judeus jubilariam se vissem o que Abraham Kuyper realizara na Holanda e o impacto de sua visão de mundo no universo reformado.

O cristianismo criou comunidades modestas, fervorosas, pensantes, atuantes e inspiradoras como L'Abri na Suíça com a família Schaeffer. Não foi em vão que Calvino ao fazer teologia em suas Institutas, o fazia a partir das Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento), mostrando uma unidade entre os "testamentos", evitando a heresia marcionista, que ainda aterrorizava outras tradições dentro do protestantismo e do cristianismo medieval.

Penso que é possível uma experiência cristã real dentro do cristianismo. Uma pessoa pode desfrutar perfeitamente de Deus através da modalidade cristã de fé, pois de fato o cristianismo se estabeleceu criativamente como um movimento com tradição e espiritualidade próprias, e que vive um momento de redescoberta de suas raízes em Jerusalém, mas em um movimento que passa por Calvino, Agostinho, os Pais Capadócios, Nincéia, os Bispos Judeus (citados por Eusébio), aos Apóstolos, ao Messias, aos profetas e à realizara entre os séculos XIX-XX.
Torá (pentateuco), curando os cismas históricos com a ajuda da graça de Deus, em Cristo, que reconcilia judeus e gentios (Ef. 2) no madeiro.

Leia um complemento a este texto: Raízes que Permanecem
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Revisão 1.0: 16/12/2009
Revisão 2.0: 20/07/2010
7 de dez de 2009 | By: @igorpensar

Mais um golpe no deus Mamon!

Por Igor Miguel

Sob a perspectiva filosófica judaico-cristã, não se pode ignorar a santidade do trabalho. Diferente da percepção tomista medieval, o trabalho não é uma maldição, um efeito aterrador da queda sobre o homem. O trabalho existia antes do pecado de Adão e Eva. O texto bíblico diz que Deus colocou o homem no jardim para "cultivar" a terra. O termo hebraico usado para "cultivar" é leovdá [לעבדה], que é um verbo derivado do substantivo avodá [עבודה] que pode ser traduzido literalmente por "trabalho". Curiosamente, tal expressão ocorre também associada ao trabalho sacerdotal, pois de fato, o "culto" também era um tipo de "serviço".

O trabalho, no pensamento hebraico, também está ligado a ação ordenadora, de manutenção da criação. De alguma forma, o homem ao "trabalhar", cultuava seu Criador, pois ao projetar-se na criação, cultivando-a, refletia no mundo a imagem que herdara de seu Criador.

O trabalho, antes da queda, não era penoso, não era uma sujeição arbitrária e forçosa da "natureza", esperando dela algum benefício, não era uma atuação impositiva de poder e tecnologia, tendo em vista extrair da natureza bens duráveis ou alimento. Era uma gestão criativa em termos de "teo-mutua-sustentabilidade".

Os efeitos da queda sobre o trabalho são terríveis, pois a agradável permuta de criatividade entre homem e criação, torna-se uma ação penosa, dolorida e servil. O trabalho não é efeito do pecado, é parte da criação de Deus. O trabalho servil, sim, é a distorção do culto. O trabalho, após a queda, torna-se mecanismo de sustentação de uma existência humana pretensiosamente autônoma.

Os artífices, guerreiros, pecuaristas e músicos descendentes de Caim, são os homens da civilização, os tecnólogos. Criados pelo Diabo? Não, esse não cria, destrói. Criados por Deus, que soberanamente, faz uso dos efeitos da queda a seu favor. No pensamento judaico, há uma diferença entre "o mal moral" e este "impulso primitivo", esse
Yetser Ha-Rá (inclinação para o mal), que sem ele os homens não seriam comerciantes, não fariam sexo, não construiriam, não fariam arte, viveriam em eterna passividade, sem qualquer pretensão para além da letargia.

De alguma forma, esta "inclinação má" (não moralmente má), prestou um serviço que soberanamente Deus lançou mão para estabelecer o homem na cidade, tirando-o do jardim. Agora, na cidade dos homens, convivem santos e iníquos; idólatras e os amigos de Daniel. Na corte babilônica há os que se debruçam sobre as iguarias, e os que se negam comê-las. Lá no epicentro da corrupção e da altivez humana, há joelhos que não se dobram aos deuses.

Filósofos do início da modernidade, perceberam que há um impulso de auto-afirmação no homem. Adam Smith no século XVIII declara que o
auto-interesse dos homens poderia prestar um enorme serviço a favor da produção de "riquezas", com isso ele erguia a autonomia como uma virtude excelente, dando ao homem o que sempre desejara: a oportunidade de elevar-se como deus de si, senhor de posses, poderoso sobre a terra. Nasceria o individualismo.

Paralelamente, o mundo reformado e a civilização judaica, ambos dispersos pelo mundo, vendo novamente o mundo aberto, fundamentados na diligência e no mandato cultural, procuravam integrar sua espiritualidade em mundo posto, estabelecido pela recente revolução capitalista.

A diligência e a disciplina serão marcas indeléveis destes trabalhadores, criativos e engajados na transformação do mundo. Estes disciplinarão seu impulso criativo, redimindo-o, retomando a ideia bíblica, de trabalho como culto, como serviço para glorificar a Deus. Para estes homens estava claro, que o fim do trabalho não era a riqueza, mas a Glória de Deus.

Mais tarde, o secularismo se apropriaria da diligência judaico-cristã, arrancando a alma do trabalho, transformando-o em um culto obstinado pela "posse".

Entre os cristãos americanos, ainda aqueles pioneiros puritanos, havia uma ardente expectativa com a possibilidade de cultivar o novo mundo, transformando-o em um grande jardim de louvor. O impacto da ética puritana até hoje é sentido em território americano.

Mais tarde, já no avivamento encabeçado por Dwight L. Moody (1837-1899), ouvir-se-ão rumores de reuniões de orações em favor de negócios, do trabalho e pela vida financeira. Não podemos julgar a iniciativa de Moody, mas atitudes como essa, principalmente em círculos de predominância arminiana, prepararam o caminho para a tardia e idólatra teologia da prosperidade. Uma teologia conformada com o pressuposto capitalista, que associa a posse à realização humana.

E.W. Kenyon (1867-1948), admirador de D.L. Moody será o apóstolo da mentira, o criador dos ministérios "Word of Faith" (Palavra da Fé). Mais tarde, sob os auspícios do sr. Kenneth E. Hagin (1917-2003), leitor voraz dos livros de Kenyon, a teologia da prosperidade provocaria estragos incalculáveis. Do subúrbio de Tulsa em Oklahama, no
Rhema Bible Training Center (a partir de 1976), os "super-homens" e "pequenos deuses", arrasarão com a esperança simples do evangelho e com uma percepção integral da fé. Nestas escolas serão propaladas doutrinas de apropriação, de posse, de verbalizações esquizofrênicas, enriquecimento a qualquer custo, associadas a um pentecostalismo questionável.

O Brasil ignorará os pioneiros da fé, mesmo aqueles de origem pentecostal, que fizeram um importante trabalho na expansão da fé cristã-evangélica como Daniel Berg e Gunnar Vingren (início do séc. XX), ou o pioneirismo reformado realizado pela Igreja Congregacional que estabelecerá o primeiro templo evangélico em solo brasileiro (Igreja Fluminense). Ao importar o veneno idólatra dos EUA, ao tolerar o evangelho da "posse" ao invés do evangelho da "cruz", pavimentou-se o caminho para a autodestruição da Igreja Evangélica.

Se antes a Igreja Evangélica, por suas pretensões bíblicas, era questionadora, denunciadora da pobreza, da desigualdade, tornar-se-ia gradualmente meretriz do individualismo, da competitividade, da politicagem, prostituindo-se na cama dos poderosos, em orgias financeiras.

Não há um profeta? Não há um se quer? Certamente resta um remanescente que não dobrou seus joelhos a Baal. Mas, estão marginalizados, esmagados, na periferia da "Igreja Oficial", são os hereges, rebeldes e subversivos. Ainda há, pastores, pregadores e líderes, apegados a cruz, que não venderam seu sacerdócio por qualquer migalha. Porém, quase não aparecem, seus nomes, eles não estão associados aos poderosos, estão na cruz, e a cruz é sempre um escândalo.

Minha prospecção: com o recorrente questionamento e a exigência dos "membros" de comunidades evangélicas, os arautos de
Mamon (o deus da riqueza) tombarão, tropeçarão em sua ambição. Então ouviremos novamente músicas inspiradas, orações sinceras, generosidade, criatividade e submissão ao absoluto governo de Cristo sobre todos os aspectos da vida humana. Pois o Rei Jesus foi à cruz, para a Glória do Pai e o terror dos poderosos!
3 de dez de 2009 | By: @igorpensar

DRUI é um enigma.

Por Igor Miguel

DRUI é um enigma, que se lido da forma errada é a forma certa de uma abreviação.

Há "Igrejas Evangélicas" que não são mais evangélicas. Outras podem parecer. Mas, se continuarem reproduzindo a lógica da DRUI deixarão de ser em breve. E, por que a DRUI não é mais uma "Igreja Evangélica"?

Quando se diz que uma "Igreja" é evangélica, isto significa que ela está comprometida com o evangelho. Comprometimento com o "evangelho" significa, comprometimento com a boa-nova. E qual é a "boa-nova"? A mesma que o "jovem rico" ouviu e constrangeu-se. A "boa-nova" aterrorizou o jovem de posses, pois ele não podia obter o que sabia que era "melhor", pois tinha transformado o que era "bom" em ídolo. Ele queria juntar o "útil" ao "agradável", mas a mensagem do evangelho pregado por Jesus, não consegue dividir territórios. Não porque Jesus seja "anti-social" ou não tolere vizinhos, mas porque Ele simplesmente ocupa todas as lacunas, subjuga todo os senhores e governa absolutamente.

O desafio é entender, que Jesus foi profanado por "falsos evangélicos", o uso indiscriminado de seu nome em adesivos, placas, pichações, camisas e em orações à mesa de corruptos, manchou tudo aquilo que ele significa. Jesus foi vulgarizado, virou piada, seu nome foi profanado entre as nações. E, reconstituir Jesus de sua dignidade, agora, dá trabalho. Sabe por que? Porque, estes que "dizem que são, mas não são" roubaram as vestes do rei, arrancaram sua coroa, sepultando-0 sob os escombros do altar que derrubaram, altar onde deveriam morrer.

O resultado? Uma Igreja nada evangélica, pois o evangelho tem duplo efeito: atrai os que o Pai trouxer, mas repele aqueles que não o receberão. O evangelho é loucura, escândalo, pedra de tropeço, justamente para que só os escolhidos o alcancem, e os filhos das trevas sejam repelidos. Que pretensão! A salvação pertence ao Senhor! Nossa função? Dignificar aquele que é "rocha de escândalo" e "pedra de tropeço".

Isto é o evangelho, e ser evangélico é comprometer-se com esta "boa-nova", que não ergue altares manchados pelo desejo de possuir; que não galga o sucesso humano na posse, no desempenho e na superficialidade estética.

O evangelho é uma cruz escandalosa, onde sacrifica as ambições, a vontade pessoal e as aspirações idólatras. Se um Rei da mais alta estirpe judaica foi para a cruz, o que dirá dos pretensiosos poderosos deste século?

Que sejamos pregados em cruz de humilhação, em um madeiro de dor, sepultados em túmulo inviolável, e quando estivermos prontos, quando nossa sujeira estiver sobre Ele, que as chaves da morte e do inferno sejam colocadas na fechadura e que a porta se abra, elevando dos escombros de toda esta falsidade teológica, um novo homem à imagem d'Aquele que o criou e não à imagem de seu ídolo.

Se isso é evangelho, a DRUI não é mais Igreja Evangélica, e se ser evangélico é crer nesta boa-nova aterradora, é amor e fogo consumidor, neste sentido, sou plenamente evangélico. Plenamente crucificado! Eles não são! Eles são DRUIDAS, adeptos do DRUIDISMO, que é: "... uma religião natural, da terra baseada no animismo, e não uma religião revelada (como o Islamismo ou o Cristianismo), os druidas assumem então o papel de diretores espirituais do ritual, conduzindo a realização dos ritos..."*
30 de nov de 2009 | By: @igorpensar

Bíblia Judaica Completa - David H. Stern

Prezados leitores,

Venho por meio desta anunciar que em breve teremos a Bíblia Judaica Completa do teólogo judeu David H. Stern publicado em língua portuguesa pela Editora Vida. Como se sabe a versão previamente publicada restringia-se ao Novo Testamento, logo após, a Ed. Atos publicou o comentário. A Ed. Vida dedicou-se a traduzir a obra completa em Inglês intitulada por Complete Jewish Bible. Espero que seja um obra iluminadora daqueles que apreciam as Escrituras Sagradas sob uma ótica oriental e judaica.

Vamos aguardar a publicação!

Abraços,
Igor


27 de nov de 2009 | By: @igorpensar

Calvino e a Lei

AS INSTITUAS DE JOÃO CALVINO - LIVRO II - CAPÍTULO VII - PARÁGRAFO 14: "A LEI ESTÁ CANCELADA NO TOCANTE À MALDIÇÃO, NÃO A SEU MAGISTÉRIO".
"Portanto, visto que agora a lei tem em relação aos fiéis o poder de exortação, não aquele poder que ate suas consciências na maldição, mas aquele que, com instar repetidamente, lhes sacode a indolência e lhes espicaça a imperfeição, enquanto querem significar sua libertação da maldição, muitos dizem que a lei (continuo falando da Lei Moral) foi suprimida aos fiéis, não significando que não mais lhes ordene o que é reto, mas somente que não mais lhes é o que lhes era antes, isto é, que não mais lhes condena e destrói a consciência, aterrando-as e confundindo-as.
E, sem dúvida, Paulo não ensina obscuramente esse cancelamento da lei. Que esse cancelamento foi também pregado pelo Senhor, disso se evidencia o fato de que ele não refutou aquela opinião de que a lei teria sido abolida por ele, a não ser que essa idéia viesse a prevalecer entre os judeus. Como, porém, não poderia ela emergir ao acaso, sem qualquer pretexto, crê-se que ela se originou de uma falsa. Primeira edição: “Pelo que, isto não refiramos a uma era única: que Davi faz permanente na meditação da Lei a vida do homem justo ...” interpretação de sua doutrina, exatamente como quase todos os erros costumeiramente se arrimam na verdade. Nós, porém, para que não tropecemos na mesma pedra, distingamos acuradamente o que foi cancelado na lei e o que permanece firme até agora.

Quando o Senhor testifica que não viera para abolir a lei, mas para cumpri-la, até que se passem o céu e a terra não deixaria fora da lei um til sem que tudo se cumpra [Mt 5.17, 18], confirma ele sobejamente que, por sua vinda, nada seria detraído da observância da lei. E com razão, uma vez que ele veio antes para este fim, a saber, para que lhe remediasse às transgressões. Por parte de Cristo, portanto, permanece inviolável o ensino da lei, a qual, instruindo, exortando, reprovando, corrigindo, nos plasma e prepara para toda obra boa."
(grifo meu)
24 de nov de 2009 | By: @igorpensar

Espiritualidade e Dinheiro

Por Igor Miguel

Em um mundo em que o poder financeiro é um ídolo, para uma pessoa que queira manter sua espiritualidade integrada com seu estilo de vida, é fundamental fazer uso de alguns princípios. Diferente do que muitos podem imaginar, não vou escrever sobre 10 passos para ficar milionário, 7 princípios para acumular tesouros ou 666 dólares para virar uma besta quadrada. O que proponho neste breve post é expor alguns princípios éticos, que pessoalmente adoto, para lidar com a dimensão financeira da vida sem tornar o "dinheiro" e o "consumo" ídolos.

Antes de tudo, digo princípios, pois diferente do que comumente ouve-se, o salvo procura uma vida de justiça, não para se justificar, pois a justificação dá-se pelos vínculos de fé com Cristo, e a salvação é exclusivamente por graça. Neste sentido, a teologia reformada é muito elucidativa.

Porém, o salvo continua no mundo e em constante conflito com os ídolos de seu tempo, sendo assim, a experiência da salvação traduz-se em missão ou na linguagem paulino-reformada, vocação.

A ideia de vocação tem raízes no "chamamento" de Israel, a teologia de Paulo é derivada de uma tradição anterior. A presença de uma nação livre da escravidão (Egito), envolveria algum tipo missão. A libertação não é só "de", mas principalmente "para". Este "para" fala de um "fim", de um "propósito", ou em grego um "télos".

A salvação é pela graça, mas a atuação do salvo, seu papel vocacional, envolve tornar-se "servo da justiça" (Rm 6), o que significa que a atuação do vocacionado pode ser iluminada pela lei, daí o conceito de teonomia* tão propalado por teólogos reformados, que pode ser definido como:

[...] Teonomia é a legislação inspirada por Deus, estabelecida em sua soberana lei da criação... A peculiaridade do Calvinismo é a ideia de que Deus é Senhor e o legislador de todos os homens. Esta ideia pode ser encontrada em Calvino, em sua percepção da vida cristã, quando disse: "nós somos propriedades de Deus, e não somos proprietários de nós mesmo", e "deixe a Sua vontade, então, ser a influência fundamental sobre todos os nossos atos"[...]**

O homem precisa abordar as coisas e o seres da criação segundo princípios da soberania de Deus. Uma relação desorientada, pode conduzi-lo a uma experiência de "apropriação" que é idólatra. A lei regula a relação do salvo com o mundo criado, ela evita o ascetismo, que priva o homem dos desafios das bençãos do mundo criado, mas também, o protege de um apego idólatra. A lei deixa claro, quem é criatura, criação e quem é o Criador. Este é um princípio ético do calvinismo muito próximo da abordagem dos judeus chassídicos da Europa no século XVII.

Então quais princípios "teonômicos" podem ser aplicados na relação do salvo com o dinheiro?

Segue uma sugestão, são princípios que me orientam neste sentido:

1) O dinheiro não pode se tornar um ídolo, Mamom não pode ter primazia sobre Cristo;
2) O dinheiro é meio e não fim;
3) O dinheiro deve prestar um serviço à vida humana e não um de-serviço, o que significa que brigas, discórdias, avareza e outros, não podem existir na vida de um cristão, se isso acontecer, o dinheiro é um ídolo a ser quebrado;
4) Imagine-se sem dinheiro, imagine-se lesado, se isto lhe causa algum desespero, ou passa pela cabeça abandonar a Deus por causa disso, o dinheiro é um ídolo, quebre-o;
5) Não é o dinheiro que te sustenta, mas Deus. Ele o fará como quiser, com dinheiro, com maná, com trabalho, como ele quiser.
6) Meu sustento não vem do meu trabalho, vem de Deus, que pode usar o trabalho para este fim;
7) Trabalhe porque é mandamento trabalhar, o trabalho é um culto, sendo assim o faça com diligência, criatividade e dedicação, o que vem não é resultado do trabalho, mas é graça de Deus. É mandamento "seis dias trabalharás"!
8) Não lide com o dinheiro como proprietário, mas como "gestor", "administrador", faça uso inteligente, mas lembre-se que a relação de "posse" é idólatra, o princípio bíblico é de "hospitalidade", tudo que desfrutamos de Deus é por "graça", a graça do anfitrião;
9) Não se encante com os produtos na vitrine, use roupas simples, compre um carro popular, ande de bicicleta, compre uma casa simples. Crie um equilíbrio entre "dignidade" e "modéstia". É possível viver uma vida de qualidade, com um bom café da manhã, sem ter o melhor carro, a melhor casa, etc. Economize!
10) Doe, seja generoso, doe sem limites. Dê o quanto o Senhor o mover para isso.

Esses são princípios que procuro viver, que regulam meu comportamento e minha forma de ver o mundo e as riquezas. Há outros princípios secundários, mas sem dúvida, se você elaborar uma lista de princípios você será iluminado com a "lei da liberdade" e não com a "autonomia" vendida pelo ocidente. Somente o salvo em Cristo pode desfrutar da liberdade da lei. Esses princípios poderiam ser recheados de referências bíblicas, mas nascem de um ethos judaico-cristão, de uma cosmovisão fundamentalmente monoteísta.
_____________
* Teonomia: Do grego theos (Deus) + nomos (lei).
** Geesink, William (1931) (in Dutch). Gereformeerde ethiek. Kampen. p. (pages unknown).

Ahmadinejad: o indesejável!

Um pessoa que nega uma das mais intraduzíveis barbáries da história da humanidade, não deveria jamais pisar em solo brasileiro. O holocausto não pode ser negado, questionado, deve ser lembrado para sempre, para ficar claro que o homem é o único que pode praticar a violência com requintes de "racionalidade". Isto me assombra! Como ouvi diretamente de uma pedagoga israelense no Yad Vashem (Museu do Holocausto): "- O problema não são os números. Lembre-se! Cada pessoa é um mundo".






23 de nov de 2009 | By: @igorpensar

Pedagogia da Sabedoria: aprender a viver

Por Igor Miguel

Um texto foi aqui postado sobre "A Sabedoria para Além do Racionalismo", de fato, há no conceito de sabedoria hebraico, um elemento muito rico que pode ser explorado pela educação em sentido amplo. Como ainda vivemos em uma sociedade técnico-capitalista, pedagogias enraizadas no pensamento cartesiano, uma educação concentrada no racionalismo e no desempenho cognitivo, ainda possuem muito peso. Por outro lado, a concentração demográfica nas grandes metrópoles contíguo ao individualismo tão perturbador, provoca em educadores uma inquietante pergunta: não está na hora de uma educação que considere outros fatores da complexidade humana?

A educação concentra-se na inteligência lógica, no desempenho cognitivo, na habilidade técnica, por uma questão óbvia, atender uma demanda mercadológica. Os ídolos da modernidade são o mercado e a produtividade, naturalmente, a pedagogia e a atuação educacional se concentrará neste sentido: fornecer o máximo de estímulo tendo em vista a formação técnico-cognitiva.

A pedagogia tornou-se reducionista, tanto como a sociedade atual reduziu-se ao mercado e ao capital. Assim, como a esfera capitalista devora os outros aspectos da complexidade humana, inevitavelmente a educação deixou-se devorar por esta lógica. Como instituição pública, a escola, uma dimensão cada vez mais sujeita ao mercado, mensura seu desempenho a partir do mesmo paradigma.

A grande contradição é que há um falso discurso de que tudo na vida é sucesso financeiro e desempenho profissional. Por outro lado, os homens procuram estabilidade emocional, afetiva e social, uma realização subjetiva, que o mundo objetivo não consegue preencher.

Como lidar com esta contradição? Eis um terreno que a educação está distante. A pedagogia moderna não ensina os jovens a lidar com a complexidade da vida humana, não introduz seus aprendizes aos desafios e contradições da vida espiritual, da vida social e dos dilemas de um mundo cada vez mais truculento. O que se vê são jovens cada vez mais apegados a um reino de conforto e de "realizações digitais", do que sujeitos treinados para lidar com a vida social e com o mundo do convívio.

Não há uma educação orientada para o "homem", para os dilemas internos da vida humana, não há uma educação concentrada no plano vital, na responsabilidade social. É claro que não se pode generalizar. De fato há iniciativas aqui e acolá, que procuram desenvolver a solidariedade e convivência, mas a realidade em escolas públicas de periferia é nua e crua. Há um abismo monstruoso entre o que a escola promete e a realidade de se viver em comunidades excluídas.

A sabedoria hebraica pode ser inspiradora neste sentido. As "instituições comunitárias" (família, a comunidade religiosa, escolas, etc) são as grandes responsáveis por introduzir seus jovens à vida. Um pedagogia pela sabedoria, orientaria os jovens ao princípios do "saber viver", não somente a viver uma experiência lógico-matemática, mas à compreender os dilemas de sua vida afetiva, dando sentido aos próprios sentimentos, procurando meios para o desenvolvimento da convivência com o outro no mundo, considerando as relações humanas um universo de possibilidades desafiadoras.

Neste sentido, o elemento ético presta um serviço importante. Lidar com dilemas éticos pode ser muito elucidativo. De alguma forma, o que se vê são pais criando seus filhos privando-os de experiências desconfortáveis, são jovens entorpecidos pelo conforto, que não sabem sofrer e lidar com adversidades. Os efeitos de uma educação analgésica, pode trazer efeitos desastrosos a jovens que mais tarde estarão diante da vida em toda sua brutalidade, sem ferramentas adequadas para lidar com tais desafios.
17 de nov de 2009 | By: @igorpensar

Reformado? Emergente? Judaico?

Por Igor Miguel

Sei da pergunta inevitável, andam me mandando e-mails a respeito, sua pergunta é: que blog é esse? Reformado? Emergente? Judaico? Marxista? Liberal? Teológico? Educacional? O que você produz definitivamente neste blog?

Existem blogs que são explicitamente religiosos, pois assumem uma linguagem religiosa e um conteúdo de natureza explicitamente teológica. Porém, de forma alguma digo com isso que meu blog não seja de conteúdo teológico, ou que apresenta um conteúdo implícito, subliminar, neutro, ou coisa do gênero. De fato não! Não há um meta-discurso neste blog, há é um discurso claro, em linguagem clara, em termos que o mundo cultural compreenda.

Não há neutralidade religiosa, meu blog é explicitamente cultural, e religioso na medida em que pressupostos da minha visão de mundo iluminam ações reais em um mundo real.

Os conteúdos aqui são iluminados por uma filosofia judaico-cristã, cujos princípio filosóficos pré-modernos, iluminam minha atuação política, educacional, intelectual e cultural.

Onde localizo as fontes da minha cosmovisão? Primariamente nas Escrituras Sagradas, fonte de toda inspiração e revelação. Daí, derivam percepções e tradições interpretativas que iluminam sua prática. Recorro à tradição judaica, em específico, os ecos desta tradição na tradição talmúdica, midráshica e targumica. Para mim, ignorar os fundamentos judaicos do cristianismo é um anacronismo, o que não se traduz em "judeulatria" ou algum tipo de "etnocentrismo teológico", ao contrário, o cristianismo é enriquecido a partir desta perspectiva e há muita gente pensando sobre isso há alguns anos: James Parkes, Oscar Skarsaune, W.D. Davies e outros. Tradição que considero de fundamental importância.

Por outro lado, posso dizer que nos últimos 4 anos, tenho recebido boa influência da percepção de mundo neo-calvinista, sob os auspícios de Abraham Kuyper, Herman Dooyweerd, Nicholas Wolterstorff e outros. Esta é uma tradição que dialoga em muito com a ética judaica, principalmente aquelas traduzidas em termos modernos como Martin Buber, Franz Rosenzweing e Abraham Joschua Heschel, porém com um elemento importante, Jesus Cristo.

Não poderia deixar de mencionar, que há algo em específico, um tendência teológica latina que me apaixona toda vez que me aprofundo sobre o tema. Refiro-me a proposta exposta por Rene Padilla [excetuando sua dependência do materialismo-histórico] chamada: missão integral. Um conceito de que a evangelização está comprometida com um evangelho pleno, integral e expansivo, me apaixona, borbulha em meu coração. Qualquer tentativa de percepção do evangelho que o coloque na condição devida, no status que lhe cabe, me interessa.

Não acredito em revelação sem teologia e teologia sem tradição, lemos a Bíblia a partir do que já foi lido. E muita coisa dita "nova", brota de uma ação dialeticamente dirigida pelo Espírito a partir de determinada tradição. Estas são combinações que me interessam.

Enfim, todo conteúdo deste blog é orientado por uma tradição que se dividiu e deve se reconciliar. Por um lado a tradição cristã, que deve em muito a Agostinho, Calvino e Kuyper, por outro judaica, que deve em muito ao farisaísmo, hassidísmo, Buber, Rosenzweing and Heschel, e isto não é pós-moderno, é a delimitação devida a minha atuação como discípulo de Jesus Cristo, sabendo lidar com a tradição de forma dinâmica e aberta, até que cheguemos à unidade da fé. Até que a conversão do coração dos filhos aos pais e dos pais aos filhos, seja uma realidade.
10 de nov de 2009 | By: @igorpensar

O idólatra e o monoteísta


O idólatra:
- está pronto!

O monoteísta:
- tenho que pensar...

O idólatra:
- te tenho.

O monoteísta:
- quero te compreender.

O idólatra:
- te vejo.

O monoteísta:
- sou visto por Ele

O idólatra:
- este é o meu deus.

O monoteísta:
- meu Deus é.

O idólatra:
- meu deus é sagrado.

O monoteísta:
- o meu Deus é santificador.

O idólatra:
- eu provo que meu deus existe.

O monoteísta:
- meu Deus está acima de qualquer prova.

O idólatra:
- o meu deus me dá tudo que quero.

O monoteísta:
- o meu Deus me dá tudo o que Ele quer.

O idólatra:
- o meu deus manda chuva.

O monoteísta:
- o meu Deus manda no seu deus.


Autor: Igor Miguel
30 de out de 2009 | By: @igorpensar

Conteudismo x Densidade intelectual

Por Igor Miguel

Há algumas semanas na FEUSP, tive o privilégio de ouvir uma aula interessantíssima com o Prof. Dr. Miquel Martinéz educador e ex-vice-reitor da Universidade de Barcelona, envolvido com educação de valores e qualificação de docentes. Tive a alegria de ouvir uma afirmação que me chamou muito a atenção.

Ele fez um contra-ponto ao discurso pós-moderno de crítica à educação enciclopédia da "educação tradicional", asseverando que esta contradição transformou-se em uma desqualificação da profissão docente, enquanto um profissional possuidor de boa densidade cultural/intelectual.

Eis uma crítica que compartilho. Não sou favorável a ideia corrente de que a sofisticação intelectual do educador pode ser uma reprodução do "discurso burguês". Infelizmente galgados nessa ideologia, muitos educadores tornaram-se insípidos culturalmente e intelectualmente. A consequência inevitável foi o declínio e a desvalorização da profissão docente.

Não acho que o problema da docência e da baixa qualidade educativa tenha respostas simples, mas qualquer visita à sala de aula de uma escola pública ou mesmo privada, o que se verá são excelentes docentes, mas também péssimos docentes. O problema não é o salário, como se pode imaginar, ao contrário, há docentes mal pagos, mas que são simultaneamente excelentes profissionais.

Sem dúvida, um dos fatores é a falta de reconhecimento social e público da profissão docente. O próprio professor não se valoriza, devido ao fato de que a sociedade não o reconhece, não o reconhece pois há um esvaziamento intelectual, o professor deixou de ser mestre.

Já sei, sei que pode haver algum tipo de reação aqui, uma proposta de retorno ao tradicionalismo pedagógico ou coisa do gênero. Já deixo claro que não! Não concordo com a linearidade pedagógica, com modelos de docência diretiva, com o conteudismo, a marginalização do aluno no processo e a homogeneização institucional. Ao contrário, porém, em processos revolucionários e em reformas culturais, sempre ocorrem perdas e renúncias de conquistas.

Não se pode chamar de “conteudista” um processo educativo fecundo culturalmente, ou que prima pela democratização da informação e o acesso à determinados conteúdos aos alunos. O mundo é permeado de códigos culturais, de valores e a mídia está aí. O grande volume de informação disforme, aos olhos dos jovens expectadores precisa ser criticado, articulado e retro-alimentado. Mas, como fazer isso, se muitas vezes os professores chegam como técnicos da educação, como reprodutores de livros didáticos, se muitos chegam sem articulação e sem consciência de sua autonomia docente.

Sim! O professor necessita se articular, se sofisticar e se tornar um agente criativo e fomentador de ambientes propícios à atividade intelectual, cultural, emocional e ética. Na dimensão intelectual, abordar com critério a realidade; na dimensão cultural propiciar a fecundidade criativa e uma postura interpretativa; na dimensão emocional explorando os potenciais afetivos e na esfera ética a responsabilidade dialógica. Sem sofisticação intelectual, sem emoção e sem diálogo, esvaziar-se-á a atividade docente e dar-se-á a última “pá de cal” o atual status docente.
27 de out de 2009 | By: @igorpensar

Ubuntu 9.04 experiência e 9.10 expectativas

Por Igor Miguel

Pois é, falta 1 dia (pelo menos enquanto este post está sendo escrito) para o lançamento da próxima versão do Ubuntu batizada com o nome de Karmic Koala, a versão 9.10 (outubro de 2009) da referida distribuição GNU/LINUX. Para quem não conhece o mundo Linux e dos sistemas operacionais livres, vou darei um relato de minha experiência com o OS (operational system).

A maioria dos iniciantes e usuários antigos de microcomputadores preferem o sistema operacional produzido pela Micro$oft denominado "Window$". O sistema operacional é uma interface, um mediador, entre os verdadeiros processos que ocorrem no computador e o usuário. Antigamente, por exemplo, se você desejasse criar um "diretório" (uma pasta) você deveria digitar um comando (nem sempre simples) para realizar tal efeito no computador. A idéia de um sistema operacional de "janelas" (windows) veio para facilitar e criar um ambiente gráfico, amigável, fácil e intuitivo. A moda pegou, o Windows ganhou espaço e Bill Gates ficou multimilionário. Vale lembrar que a ideia de um sistema operacional interfaceado graficamente por ícones e janelas fora criado pela Xerox e depois ROUBADA por Bill, basta assistir ao filme "Piratas do Vale do Cilício".

Pois bem, paralelamente ao universo Microsoft, houve um esforço de vários programadores voluntários ao redor do mundo de contribuir com um sistema operacional que não tivesse um código criptografado (como é o caso da Microsoft), mas que fosse aberto (open source) para que outras pessoas pudessem contribuir e desenvolvê-lo. Um destes sistemas operacionais é o Linux. Para os que querem saber mais detalhes basta "googlear". Mas, em termos bem objetivos o Linux é um sistema operacional livre, gratuíto, seguro, leve e inteligente.

O universo Linux é muito vasto, existem várias distribuições do referido sistema operacional. Cada distribuição adota uma "interface gráfica visual" específica, com aparência e versatilidade específicas. Os mais conhecidos são KDE, Gnome e Xfce.

Eu comecei no mundo Linux usando a antiga distribuição brasileira denominada Kurumim, que funcionava com a interface KDE, muito parecido com o Windows em algumas funções. Porém, por causa do incentivo de uma grande amigo André Tavares entrei de cabeça no universo livre através da distribuição Ubuntu.

O Ubuntu é uma distribuição Linux maravilhosa. Leve, rende o hardware, não precisa de antivírus, e não me deixa na mão em nada em relação ao Windows naquelas funções: editor de texto, internet, porta usb, wi-fi, editores de imagem, mídia (players mp3, wmv, etc.) e outras funções básicas.

Faço tudo com meu Ubuntu, projeto vídeos em power point nas minhas aulas, digito meus artigos, faço desenhos, administro meu blog, uso o BibleWorks (for windows emulado em Wine), escuto minhas músicas, administro minhas planilhas, etc. Faço absolutamente tudo e até mais do que faria com o Windows.

Segundo li hoje no site Ubuntu a nova versão terá muitas vantagens, inclusive a mais importante para mim: inicialização rápida. Apesar do Ubuntu já ter uma boot muito rápido se comparado ao Windows, uma melhoria na performance de inicialização nunca é de mais, com certeza.

Mas, a coisa que acho mais formidável em uma distribuição Linux é o formato de particionamento adotado pela distribuição, que ao invés de NTFS ou FAT32, usa EXT, que é um formato de particionamento inteligente que não fragmenta os arquivos no HD, o que significa nunca ter perda de rendimento e velocidade com o tempo, pois os arquivos não estão fragmentados e nunca precisa usar programas como o "defrag" do Windows.

O Windows é sempre assim, uma delícia após formatação e instalação, e depois de um ou dois meses, um inferno. Meu Ubuntu tem o mesmo desempenho (ou se não melhor) há mais de 1 ano, nunca caiu o rendimento, nunca fica naquela lentidão do Windows, que independente do poder da máquina, sempre cai o rendimento a longo prazo.

Vocês não sabem como é bom ter um sistema operacional que sempre é rápido, quase independente do processador (hi hi hi). Fica aí o estímulo, o universo livre é muito mais fácil do que você pode imaginar.
23 de out de 2009 | By: @igorpensar

Promoção: Sorteio do Livro "Noções de Hebraico Bíblico"

Prezados visitantes do blog Pensar...

Estou lançando uma promoção relâmpago com duração até o dia 23 de Novembro de 2009, quando sortearei o livro "Noções de Hebraico Bíblico" de Paulo Mendes pela editora Vida Nova, de segunda mão, mas em perfeito estado. Esta é uma forma de agredecer a todos os educadores, teólogos, filósofos, leigos e amigos que visitam nosso blog.

Para participar do sorteio é simples: basta seguir o twitter do blog Pensar... para seguir o blog no twitter clique aqui.

O sorteio será com o nome de todos os seguidores do blog no dia 23 à tarde. Postarei aqui no blog e no twitter o nome do ganhador. Basta que o ganhador entre em contato comigo pelo e-mail igor@teologo.org e enviarei imediatamente a obra pelos correios.

Em breve sortearei outra obra, um Dicionário de Hebraico-Português/Aramaico-Português da editora Sinoidal. Imperdível, divulguem!

Abraços a todos,
Igor Miguel
19 de out de 2009 | By: @igorpensar

Uma visita à filosofia do diálogo de Martin Buber


Estarei discutindo com um grupo de amigos, teólogos, estudantes, pesquisadores e leigos, a respeito da "Filosofia do Diálogo de Martin Buber" no colóquio da AKET que acontecerá hoje.

Segue aí maiores informações:

Dia:
19 de outubro de 2009.

Local:
Livraria Status - Café, cultura e arte.
Rua Pernambuco, 1150 - Savassi
Belo Horizonte - MG
Horário 19:30

Informações:
Guilherme ou Alessandra 25358962.

ENTRADA FRANCA
14 de out de 2009 | By: @igorpensar

Qual é a melhor tradução da Bíblia?

Por Igor Miguel

Qual é a melhor tradução da Bíblia? Me perguntam isso com tanta frequência que me sinto obrigado a escrever um comentário sobre o assunto. Tentarei ser breve a este respeito.

Não existe uma melhor tradução da Bíblia em termos absolutos.
Porém, existem boas traduções para determinados textos que são péssimas para outros. Então, qual seria a solução? Uma leitura comparada. O que é leitura comparada?

A leitura comparada, seria a leitura de um determinado texto bíblico comparado entre as diversas versões disponíveis em língua vernácula (em nosso caso o português) e/ou em outras idiomas que se tem domínio. Isso significa ter um monte de Bíblia aberta sobre a mesa? Não, pois hoje em dia é possível ter programas de computadores com várias versões, que podem ser abertas paralelamente, possibilitando assim, a leitura comparada entre as diversas versões.

Quais seriam as principais versões em língua portuguesa? O Brasil é o pais com mais versões e traduções da Bíblia no mundo. Existem mais versões da Bíblia em português do que em qualquer idioma. Isso é uma vantagem? Sim, sem dúvida!

O problema da tradução é que ela é limitada por natureza. O texto original em hebraico (AT) ou grego (NT) possui algumas palavras com dezenas de possibilidades de tradução, obviamente, o tradutor é limitado e só pode eleger uma tradução dentre as várias possiblidades. Resultado? Tradução é uma limitação do original, inevitavelmente. Um afunilamento das possibilidades tradutórias. Por isso, a leitura comparada é o mais indicado, e quanto mais versões para essa leitura, melhor.

Obviamente, que a melhor forma de se ler os textos bíblicos é lê-los no original (hebraico para a Bíblia Hebraica e grego para o chamado Novo Tesamento). Porém, aos que tem dificuldades para aprender alguma dessas línguas o indicado é a leitura comparada.

Segue abaixo as principais versões da Bíblia em português:

- Tradução João Ferreira de Almeida: Revista e Atualizada (ARA)
- Tradução João Ferreira de Almeida: Revista e Corrigida (ARC)
- Tradução João Ferreira de Almeida: Edição Contemporânea (AEC)
- Nova Versão Internacional (NVI)
- Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB)
- Bíblia Hebraica em Português da Editora Sêfer (BHP) - só Antigo Testamento.
- Novo Testamento Judaico - David Stern (NTJ)
- Bíblia de Jerusalém (BJ)
- King James - tradução para o português - (KJV)

Existem versões que são nativas em português, outras que já são tradução de tradução, como a BJ que veio do francês, a NTJ, NVI e a KJV que vieram do inglês.

Bíblia em outros idiomas que ajudam muito, Hebrew Bible - Jewish Publish Society (só a Bíblia Hebraica - Antigo Testamento), Young Literal Translation (uma tradução literal da Bíblia), New King James Version (nova versão da King James) e em espanhol a consagrada Reina Valera, principalmente a Nueva Version.

Importante mencionar, que não se deve confundir "versões" com "Bíblias de Estudo". Algumas pessoas me perguntam: A Bíblia Thompsom é boa? Bíblia Thompsom não é uma versão ou tradução, é uma Bíblia temática de estudo. A Thompsom é baseada em uma versão, neste caso a Almeida Edição Contemporânea (AEC). A Bíblia de Estudo Pentecostal, por exemplo, adotou a Almeida Revista e Corrigida (ARC). A Bíblia de Estudo Almeida, adotou a Almeida Revista e Atualizada (ARA) e assim por diante.

Bem, se alguém tiver mais algum dúvida sobre traduções da Bíblia é só comentar. Farei o possível para orientá-los!

____________
Nota: Bíblia Linguagem de Hoje não é "Bíblia" no meu ponto de vista. É uma paráfrase teológica da Bíblia, por isso não listei a referida obra acima.

9 de out de 2009 | By: @igorpensar

Sabedoria para além do racionalismo

Por Igor Miguel

Minha investigação no mestrado tem sido uma tentativa de aproximar o conceito hebraico de sabedoria (chochmá | חכמה) e as novas perspectivas educacionais, neste caso, os modelos que procuram aproximar ética, cognição e afetividade.

Uma das coisa que percebi em minha investigação, principalmente no livro
Provérbios de Salomão, também conhecido em hebraico pelo nome Mishlei [משלי], é que o conceito de sabedoria ali apresentado diferenciava em muito da forma moderna e popular da idéia de sabedoria. A primeira definição do termo no Dicionário Aurélio é: "grande conhecimento, erudição, saber, ciência.", curiosamente, não é este o conceito de sabedoria presente entre os antigos judeus.

Chochmá (sabedoria) na Bíblia é um tipo de habilidade específica, que envolve desde de habilidades técnicas como a metalurgia (p.ex. Bezalel que trabalhava com ouro e bronze), a costura (p.ex. as mulheres que faziam roupas sacerdotais e cortinas para o tabernáculo), indo até a gestão, a capacidade administrativa, por exemplo aplicado ao sábio Rei Salomão.

Porém, no livro de
Provérbios de Salomão, onde o termo ocorre com mais freqüência, a sabedoria está associada a uma série de princípios éticos de cunho comportamental. De alguma forma, não há uma separação entre o "conhecer" e o "fazer", não há dicotomia entre o "logos" e a "práxis", o que se vê é um conhecimento tácito, tão tácito, que o sábio de provérbios recorre frequentemente à natureza para obter exemplos e analogias para orientar determinados comportamentos. A orientação de que o preguiçoso deveria ir às formigas para aprender a diligência é interessantíssima. De fato o homem socrático obteria tal orientação nos mitos, ou mesmo, na metafísica, ou ainda na transcendência, mas para Salomão, a resposta esta lá na Criação, nas coisas feitas por Deus.

Chochmá tem aspectos multidisciplinares, quando envolve desde o conhecimento técnico, passando pelo comportamento ético, ao conhecimento natural e chegando até a associação rabínica de "sabedoria" à Torá.

Mas, de onde veio a concepção moderna de "sabedoria" ligada ao conhecimento enciclopédico, à performance cognitiva e à algum tipo de conhecimento puramente teórico?

São Tomas de Aquino, considerado o pai da escolástica, introduziu no pensamento europeu a dicotomia entre graça e natureza, separando a esfera
metafísica-teológico-espiritual da dimensão natural-material-objetiva. Descartes, mais tarde, foi o responsável por separar (no sopro da teologia tomista) o sujeito que pensa (res cogitans) da coisa extensa (res extensa), ou seja, Descartes separou a mente do corpo, as ideias da natureza, a inteligências das emoções, resultado? Uma ênfase na racionalidade em detrimento da dimensão física e da realidade chamada "objetiva", assim nasce o racionalismo-moderno.

A percepção cartesiana de mundo foi tão eficiente, que até hoje pessoas percebem o mundo ou si mesmas dentro do seguintes esquemas binários: razão/emoção, subjetividade/objetividade, espírito/corpo, metafísico/físico, sobrenatural/natural, teoria/prática e outros pares.

Quando retomamos a percepção bíblico-judaico-cristã de
sabedoria, encontramos um modelo pré-moderno e digamos pós-moderno, de superação da percepção de mundo cartesiana. Chochmá é integradora, sabedoria é "saber viver" e não apenas "saber pensar".

O sábio, no sentido bíblico, é alguém integrado com Deus e com a criação, está enraizado na realidade, interage com ela e com os outros seres humanos. O sábio bíblico não é um filósofo grego, não é alguém que vive em um
gueto intelectual, em um areópago de devagações metafísicas, é alguém enraizado na vida, nos círculos sociais, na comunidade e na natureza. O sábio articula toda sua integridade humana, em toda sua complexidade (alma, corpo, mente, emoções e intelecto) a serviço da vida e da existência.

A sabedoria hebraica, não é racionalista, naturalista ou materialista, ela não permite reducionismos, é integradora. A sabedoria está com a costureira, o ferreiro, o rei, o guerreiro, a dona-decasa e é o princípio ativo da criação, arquiteta do mundo.

Curiosamente, sob muitas críticas, especialistas classificam diversos tipos de inteligência (como a teoria das inteligências múltiplas de Gardner), esta abordagem é uma tentativa de superação do modelo cartesiano de restringir as habilidades humanas à dimensão da razão, à lógica. Como a história e a experiência demonstram, há pessoas profundamente articuladas no campo da racionalidade, mas são desarticuladas na vida social e nas relações humanas.


A sabedoria bíblica, não permite esta fragmentação, propõe, pode-se dizer uma "inteligência integral", um saber holístico, integrado com a ação, o comportamento e a responsabilidade ética.

Um pergunta final: então por que o mundo ocidental ignora estas fontes? Por que a modernidade é tão resistente à tradição judaico-cristã? Aí, seria necessário outro post!
7 de out de 2009 | By: @igorpensar

Eu e Tu na tenda frágil.

Por Igor Miguel

Deixe-me te acolher. Não quero te ver como estranho, não quero te ver como "Ele", "Ela" ou "Isso", quero te acolher como "Tu". Hospeda-te aqui, entra em minha tenda frágil.

Mas, o Tu Eterno se fez carne e morou aqui no meio de nós.

Não quero te ver como um estranho, não quero te ver como estrangeiro e peregrino, hospeda-te em meus domínios. Tem água fresca para acalentar tua sede. Tem pão fresco e esfumaçante para matar tua fome. E, se a noite esfriar, tenho lenha o suficiente para aquecer os teus pés. Mas, não passe de teu servo, sem antes inclinar-te sob este teto simples. Juro que te acolho, que te sentirás confortável e que não te faltará nada.

O vento costuma vir contra esta casa frágil, ouço o som dos pregos ruindo forçados pelas rajadas, mas não temo enquanto estas aqui, sei que nada acontecerá, sei que enquanto estás aqui, por graça ou por mistério o vento não prevalecerá. A única coisa que posso fazer, não por recompensa, não por interesse, mas por amor, é te servir.

Vou enfeitar a mesa, eu juro! Vou colocar frutos, flores, velas e a toalha que herdei de meus avós e te assentarás aqui, só Eu e o Tu, juntos, sem objetos, sem ilusões, pura comunidade, puro vínculo e puro encontro.

Enquanto estiveres aqui na minha tenda frágil, não poderei mais usar enquanto, pois será sempre, será eterno. "... mais vale um dia em teus átrios que milhares a meu modo..." (Sl 84:11).

Arrepia-me a tua presença, meus ossos tremem diante de tua integridade, meus olhos marejam de emoção, sinto um fogo ardendo dentro de mim e esgotam-me as palavras. Neste momento só há o Tu, puro, imediato, eterno, atemporal, inesgotável, indescritível... [silêncio].

"O homem se torna Eu na relação com Tu" (Martin Buber)
5 de out de 2009 | By: @igorpensar

Twitter: come and follow me!

By Igor Miguel (from Brazil)

Jesus said, 'Come and follow me'. If he used Twitter I'd follow him certainty. But just how to follow the man of Nazareth discipline me as a human being, in some instance the Twitter concept is disciplining me as an amateur blogger. It took me a release from the academic tendency to write articles and not "posts". The Twitter disciplined me to avoid redundancy and prolixity. I feel myself comfortable I don't feel compelled to write and to put all content in a "post" alone, I can divide it. Comfortable for those who write and comfortable for those who read.

Anyway, I will post my experience with Twitter concept for almost 3 months of user (without prolixity, I hope).

A lot of people saying that twitter is a narcissistic tool, as it is a lot of people saying a series of banalities like, I'm gonna go to the bathroom, I'm at my grandmother eating hot dogs, watching Dr. House and so on . I don't know if this can be considered narcissism, probably there is a "audience" interested in the privacy of the subject "followed", but most times no one has the patience to read such reports snapshots.

I found a secret, Twitter is good according to their criterion of subjects (or institutions) to pursue (them). My Twitter network has a lot of people and institutions that interest me, the production of mini-content interests me. I follow friends, academics, writers, readers of my blog, researchers, collectors of comic books and strangers who produce good content, indicating books, create interesting sayings, indicate breaking news and also those whose post trivia, and again, I like as my friend Marcos Custodio @marcoscustodio describing his pleasure in eating a pie at the free market with his family.

I will stop here (you see as twitter discipline me?), after all, I don't want to write something that you do not support reading, the philosophy is the same and you do not need to get my cross. In Him, I think so! @igorpensar

Twitter: vem e me segue!

Disse Jesus: 'Vem e me segue'. Se ele tivesse twitter eu o seguiria com certeza. Mas, assim como seguir o homem de nazaré me disciplina enquanto ser humano, em alguma instância o conceito twitter vem me disciplinando enquanto blogueiro amador. Custei a me libertar da tendência acadêmica de escrever artigos e não "posts". O twitter me disciplinou a evitar a redundância e a prolixidade. Sinto-me confortável por não me sentir obrigado a escrever a colocar todo conteúdo em um "post", posso dividí-lo. Confortável pra quem escreve e confortável pra quem lê.

De qualquer forma vou postar minha experiência com o conceito twitter nestes quase 3 meses de usuário (sem prolixidade, espero).

Tem muita gente dizendo que o twitter é uma ferramenta narcisista, pois fica um monte de gente dizendo uma série de banalidades do tipo: vou ao banheiro, estou na casa da minha vó, comendo cachorro-quente, assistindo Dr. House e por aí vai. Não sei se isto pode ser considerado narcisimo, desde que haja um "público" interessado na vida privada do sujeito "seguido", porém, na maioria das vezes ninguém tem paciência em ler tais relatos instantâneos.

Descobri um segredo, o twitter é bom de acordo com seu critério de sujeitos (ou instituições) a serem seguidas(os). Minha rede twitter tem um monte de gente e instituições que me interessam, cuja produção de mini-conteúdo me interessa. Sigo amigos, acadêmicos, escritores, leitores do meu blog, pesquisadores, colecionadores de revista em quadrinhos e desconhecidos que produzem bons conteúdos, que indicam livros, criam provérbios interessantes, indicam notícias de última hora e também postam trivialidades, vez ou outra, eu leio, como meu amigo Marcos Custódio @marcoscustodio descrevendo seu prazer em comer um pastel na feira em família.

Vou parar por aqui (tá vendo como o twitter me disciplina), afinal não quero escrever algo que você não suporte ler... a filosofia é a mesma e você não precisa pegar a minha cruz. A dEle, penso que sim! @igorpensar

3º Congresso da Aket: Globalização e Comunidade: Perspectivas Cristãs.

O fenômeno da globalização é um fato no qual todos estamos implicados. O acelerado avanço tecnológico em áreas como transportes e comunicação, aliado à crescente permeabilidade de antigas barreiras que restringiam as trocas entre atores globais, como aquelas apresentadas pelos Estados Nacionais, reconfiguraram grandemente as relações sociais e vidas pessoais por todo o mundo, fazendo deste um local simultaneamente muito grande e muito pequeno. Pessoas, instituições públicas e privadas passam a ter de se relacionar com este novo cenário mundial e com suas implicações para o futuro.

Mas embora a globalização seja um fato, não há unanimidade sobre ele. Intensos debates têm sido travados em torno dos riscos e reais benefícios para a vida de pessoas e instituições por todo o mundo. Será a globalização um caminho inevitável, no qual o mundo tenderá a se tornar uma aldeia global, mais consciente e mais tolerante? Ou será ela uma grande construção virtual e impessoal, destrutiva para as instâncias e instituições que sustentam a individualidade e a comunidade? Em qualquer caso, que tipo de resposta o cristianismo deve articular diante desse “mundo novo”?

Estas e outras perguntas se tornam relevantes à medida que participamos deste momento histórico sem precedentes como agentes conscientes e responsáveis. E é com prazer que a Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares convida os interessados para o seu 3º Congresso: “Globalização e Comunidade: Perspectivas Cristãs”, quando teremos a oportunidade de imaginar um mundo diferente.

Marque em sua agenda: 23 a 25 de Outubro de 2009.
Valor da Inscrição:
R$ 20,00 para membros da AKET
R$ 30,00 para estudantes (não associados à AKET)
R$ 40,00 para outros participantes (não associados à AKET)
Maiores informações pelo email secretaria@aket.org.br.
Informações: Guilherme | 31 8417-6211
www.aket.org.br
24 de set de 2009 | By: @igorpensar

Moralidade Política: Campanha Ficha Limpa

Saiba sobre este movimento popular contra a corrupção política-partidária, divulgue em blogs, twitter e e-mails. Assista o vídeo:


7 de ago de 2009 | By: @igorpensar

Sarney: entenda o que está acontecendo

Por Igor Miguel

Muitas dúvidas são levantadas quando se tenta acompanhar na mídia as imagens e vozes envolvendo a figura do ex-presidente da república e atual presidente do senado José Ribamar Sarney. No papel mínimo de cidadão e de brasileiro, procurei entender um pouco de todo pandemônio político envolvido em torno dessa figura política, que envelhece aos auspícios do generoso suporte financeiro advindo dos cofres públicos.

A República Federativa do Brasil é constituída pelos poderes executivo, legislativo e judiciário. O poder executivo é responsável pela administração do Brasil e é exercido primariamente pelo Presidente da República, conforme regula a Constituição Federal Brasileira nos artigos 76 e 91. O poder legislativo é exercido desde 1981 pelo Congresso Nacional, que segue o modelo clássico bicameralista, composto assim pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. O poder judiciário é responsável pela função jurisdicional.

O Senado Federal, que é objeto deste texto, nasceu junto com a primeira constituição do Império em 1824. O Senado foi inspirado na Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha, que mais tarde na república, transformou-se em algo relativamente próximo ao modelo americano.

O Senado Federal possui 81 senadores cujo mandato é de duração de oito anos. O atual presidente do Senado Federal é o senador José Sarney vinculado ao PMDB do Amapá.

O senado possui um Código de Ética e Decoro Parlamentar instituído pela resolução n.20, de 1993. Neste código estão estabelecidos os limites éticos dos senadores, cujos deveres fundamentais são lá descritos como:

Art. 2º São deveres fundamentais do Senador: I - promover a defesa dos interesses populares e nacionais; II - zelar pelo aprimoramento da ordem constitucional e legal do País, particularmente das instituições democráticas e representativas, e pelas prerrogativas do Poder Legislativo; III - exercer o mandato com dignidade e respeito à coisa pública e à vontade popular; IV - apresentar-se ao Senado durante as sessões legislativas ordinárias e extraordinária e participar das sessões do plenário e das reuniões de Comissão de que seja membro, além das sessões conjuntas do Congresso Nacional.
Foram solicitados ao Conselho de Ética do Senado a abertura de investigação contra o senador José Sarney, sob suspeita de sua participação na edição dos atos secretos (medidas administrativas secretas), nepotismo (favorecimento de familiares em nomeação a cargos), favorecimento de empresa de propriedade de seu neto em operações de empréstimos consignados aos servidores do Senado, interferência que favorece os convênios entre a fundação José Sarney e a Petrobrás.

Algumas questões são levantadas como, por exemplo, o engavetamento "sumário" (nas palavras de Gabriela Guerreiro da Folha) de 4 dos 11 processos levados ao Conselho de Ética do Senado pelo atual presidente do conselho Paulo Duque (também do PMDB). O argumento de Duque foi que enquanto presidente do Coselho de Ética, ele tem poder de natureza "imperial" quanto ao arquivamento ou não dos processos. Alegou, baseado em jurisprudência do STF (Superior Tribunal Federal), que recortes de jornal não são provas suficientes para dar prosseguimento a um processo da natureza exigida.

Se de fato há nepotismo e favorecimento a empresas de parentes próximos, José Sarney entra em choque com o Artigo 5º, Incisos I e II do Código de Ética do Senado que diz:

I - a atribuição de dotação orçamentária, sob a forma de subvenções sociais, auxílios ou qualquer outra rubrica, a entidades ou instituições das quais participe o Senador, seu cônjuge, companheira ou parente, de um ou de outro, até o terceiro grau, bem como pessoa jurídico direta ou indiretamente por eles controlada, ou ainda, que aplique os recursos recebidos em atividades que não correspondam rigorosamente as suas finalidades estatutárias;
II - a criação ou autorização de encargos em termos que, pelo seu valor ou pelas características da empresa ou entidade beneficiada ou contratada, possam resultar em aplicação indevida de recursos públicos.
A questão é que há forças políticas complexas envolvidas, possíveis interesses do PT na remoção de uma força de oposição no senado também atuam. O que a população tem interesse neste momento é saber a verdade e se tais acusações são verídicas. José Sarney é um homem público, ele deve explicações ao fato de receber por mês (segundo a Folha de São Paulo) algo em torno de R$ 52.000 reais dos cofre públicos, o que excede duas vezes o permitido pela Constituição, cujo teto salarial é de R$ 24.500,00. Como senador Sarney recebe um salário de R$ 16.500,00 que somando-se às aposentadorias no Maranhão chegaram às cifras de R$ 35.560,98 em 2007. Sem mencionar um ofício da Procuradoria Geral do Estado do Maranhão encaminhado ao senador, exigindo explicações sobre o acúmulo de renda que recebe enquanto ex-funcionário do Tribunal de Justiça e ex-governador do Estado do Maranhão entre os anos de 1966-1970, que excedem o teto imposto pela Constituição Brasileira.

O brasileiro precisa saber destas tramóias e precisa se posicionar diante do demagógico discurso de defesa do atual presidente do Senado Federal. Atenção para as notícias daqui para frente e sobre o destino dos processos ainda em tramitação e os arquivados que sofreram recursos da oposição.
30 de jul de 2009 | By: @igorpensar

Uma dose de saudosismo

Acabei de receber do meu primo Felipe Abreu (Rasta) lá de Cabo Frio-RJ, minha cidade natal. Fotos incríveis, tive uma experiência de quase regressão. Ele encontrou fotos de 1996, quando participávamos de um encontro escoteiro no Colégio Estadual Miguel Couto (onde estudei da 3a. série até parte do Ensino Médio). Meu primo é o menor de todos nas fotos, eu apareço hasteando a bandeira nacional (ao som de: Tropa! Bandeira Nacional em saudação!) e depois em outro quadro, apareço atrás de meu primo, provavelmente brincando com ele, como sempre fazia.

Fiquei muito emocionado com estas fotos, pois fora um tempo muito divertido. Na foto aparecem vários amigos e pessoas que nem sei como encontrar mais. Bruno, Margarete (Maga), Marcelo (Heavy Metal), Jefferson e outros... nessa época estávamos tentando organizar um Grupo de Escoteiros no Rotary Clube de Cabo Frio.

Saudade, muita saudade... Tempo cruel!