24 de mar de 2017 | By: @igorpensar

Cegos por Excesso de Luz

Deus é portador de toda Luz.  Não há energia, brilho ou claridade neste universo que não proceda dele, que não tenha, em última instância, Deus como sua fonte.  Porém, sua intensidade é, em grande medida, uma dose muito extravagante de sobriedade.  Para gente acostumada à penumbra e escuridão isso é muita clareza.  Hoje, os homens ficam cegos quando olham para Cristo, não por falta de luz, mas por seu brilho excessivo.  Ele é verdade tão nítida, tão intensamente narrada, que nos embaraçamos.

Deus quis tornar sua luz minimamente acessível, 'se fez carne e habitou entre nós',  'vimos a sua glória', e definitivamente, 'Ele era a luz dos homens'.  Mas, ainda assim, o brilho era intenso, suas palavras demoram a ser compreendidas, e finalmente, apropriadas.   Por esta razão, não raramente, ouvimos gente dizer que entendera um versículo recorrentemente lido, mas que pela primeira vez fez sentido.  Um raio de luz da glória do Filho perpassou as letras, a tinta e as finas páginas da Bíblia, e assim, lançou nitidez ao coração peregrino.  

Digo tudo isso, pois versículos e trechos claros como os que se referem a 'auto-negação', 'perder vida', 'tomar a cruz', 'renúncia', 'fazer a vontade de Deus' e similares, tornam-se nítidos, mesmo depois de algum tempo de intensa meditação.  Confesso que ainda me debruço, medito, e sempre mais luz projeta-se de lá.

No meu caso, libertar-se de algumas tentações, fontes de pecado e de flertes com a auto-afeição, estão caminhando para o sepultamento.  Experimentar a quietude, a negação de falsa existência, da ilusão de relevância, que no fim, não passam de pixels de bits.   A realidade não se fez post, se fez carne, e habitou entre nós.

Quanto custa a liberdade de um cristão?  Custa a negação da vontade do Filho e a adesão à vontade do Pai.  Custa a renúncia da vontade própria, por uma vontade maior.  Mas quem pode fazer tal loucura?  Os loucamente arrebatados de amor pelo Pai, os feridos pelos raios de glória.  Ouse abrir mão, tome uma decisão radical, busque a quietude, o silêncio e doses de "desaparecimento".  Deixe Cristo te encaminhar para a lucidez.

Peregrine em direção à cruz.  Vá até o Cristo.  Não tema mais um golpe no velho homem.  Parece morte, esquecimento e anonimato, mas é o desaparecimento em Cristo, para encontrá-lo, e assim, se reencontrar novo nEle.  

Se Cristo te chamou, ele não falhará, em suas veredas fará tudo que lhe apraz para que você seja todo dele.  Cada vontade, paixão, pulsão ou desejo, ele não te dará descanso até que tudo seja entregue a Ele.  Esta é sua liberdade, todo sentido que buscas.
5 de jan de 2017 | By: @igorpensar

Casamento x Romantismo

Casamento não é uma instituição romântica. O romantismo é um movimento de apenas 250 anos. O casamento existe antes disso. O casamento é prioritariamente o lugar onde uma comunidade se forja sob outros critérios. E, se você confunde afeição, amor e expressões de afago com romantismo, que é a meu ver, um tipo de soteriologia (doutrina da salvação), pode ser um importante indício de seu cativeiro.

Casamentos estão aos cacos ou acabando porque as pessoas ainda estão cativas do romantismo. Alain de Botton* insiste que as "pessoas casam para fazerem um sentimento legal permanente", querem engarrafar a "alegria que sentem". A honestidade de Botton é perturbadora mas realista: "Escolher com quem nos comprometeremos é meramente um caso de identificar que tipo de variedades de sofrimentos nós gostaríamos mais de nos sacrificar", mas o sacrifício é inescapável no casamento. E, se você, já quer correr dele, veja se sua mente não está acorrentada a uma invenção cultural de menos de três séculos.

Um pouco de realidade ajuda muito o casamento. Não é um "encaixe" perfeito onde demandas são satisfeitas, é um lugar onde nos tornamos maiores do que nossas demandas exigem, mas nunca sem negação de si, sem renúncia e sem sacrifício. O contrário disso é um eterno jardim de infância criado pela imaginação romântica. Casamento não salva mas é o melhor lugar para nos tornarmos adultos.