31 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Amor, Corpo e Liturgia

Disponibilizo uma breve e recente reflexão sobre liturgia, sacramento (ceia e batismo), ressurreição e amor. Pode não parecer, mas estes aspectos da fé cristã se integram de forma maravilhosa. O texto aqui disponível é fruto de algumas leituras, principalmente da obra do jovem autor reformado e professor de filosofia do Calvin College, James K.A. Smith. Ele anda preocupado com uma teologia cristã relevante e que saiba dar respostas adequadas à pós-modernidade, sem se submeter ao relativismo ou a alguma "ortodoxia generosa" (perdoe-me pela ironia).

Enfim, este texto, como todos que escrevo, não encerra o assunto que é vasto, também, não está vedado a futuros ajustes, mas é uma forma de convidar teólogos, cristãos e leigos, a um debate importante, a revalorização da liturgia em um mundo evangélico que só se interessa pelo "novo" e esquece suas raízes. Claro, procuro refletir sobre a importância da inserção do corpo nesta dramatização da fé e como isto tem raízes na ressurreição que é uma resposta definitiva a qualquer tipo de espiritualidade "platônica" que ainda subsiste em alguns círculos cristãos do ocidente.

Boa leitura!

26 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Arte e Ciência por Calvino

Por João Calvino, reformador, século XVI d.C.

Enquanto isso, não esqueçamos, porém, que estes são mui excelentes dons do Espírito Divino, os quais, para o bem comum do gênero humano, ele dispensa àqueles a quem quer. Ora, se a Bezalel e a Ooliabe foi indispensável que se instilassem neles, pelo Espírito de Deus, a inteligência e o conhecimento que se requeriam para a construção do tabernáculo [Ex 31.2-11; 35.30-35], não é de admirar caso se diga que nos é comunicado através do Espírito de Deus o conhecimento dessas coisas que são mui relevantes na vida humana.

Nem há por que alguém pergunte: Que os ímpios, que se alienaram totalmente de Deus, têm a ver com o Espírito? Ora, quando lemos que o Espírito de Deus habita somente nos fiéis [Rm 8.9], é preciso que se entenda isso como referência ao Espírito de santificação, através de quem somos consagrados por templos ao próprio Deus [1Co 3.16]. Entretanto, nem por isso menos preenche, aciona, vivifica a todas as coisas pelo poder do mesmo Espírito, e isso segundo a propriedade de cada espécie, a que a atribuiu pela lei da criação. Pois se o Senhor nos quis assim que fôssemos ajudados pela obra e ministério dos ímpios na e nas demais áreas do saber, física, na dialética, na matemática façamos uso delas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, caso negligenciemos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.

Mas, por outro lado, para que alguém não julgue ser o homem sumamente ditoso, quando se lhe concede tão grande poder de compreender a verdade sob os elementos deste mundo, deve-se, ao mesmo tempo, apreender que não só toda esta capacidade de compreensão, como também a compreensão que daí resulta, é coisa sem consistência e sem estabilidade diante de Deus, quando não subjaz nela o sólido fundamento da verdade. Pois, com muita procedência ensina Agostinho, a quem, como dissemos, o mestre das Sentenças e os escolásticos foram obrigados a subscrever: como, após a queda, foram subtraídos ao homem os dons graciosos, assim também foram corrompidos estes dons naturais que lhe restavam. Não que, até onde procedem de Deus, possam de si mesmos corromper-se, senão que ao homem corrompido deixaram de ser puros, de modo que daí não logre ele algum louvor.

Fonte: As Institutas, Livro II, Capítulo II, Cap. 16 (grifo nosso).

------------------------------------
Uma AnálisePor Igor Miguel

O que me impressiona neste texto de João Calvino é a forma responsável com que nega a percepção escolástica de que aquilo que é produzido por não-cristãos não tem graça, o que incluiria a cultura, o trabalho e a ciência humana em geral. Calvino refuta isto, asseverando que uma percepção apropriada da "lei da criação", aquilo que muito mais tarde Herman Dooyeweerd chamaria de cosmonomia, testemunha que há uma graça comum de Deus despejada na criação. O que significa que a habilidade humana em geral deve ser reconhecida como graça, dádiva divina, e não fruto de uma auto-dotação.

Entretanto, Calvino chama a atenção para o fato de que com a queda, o homem se corrompeu, por isso nem tudo que o homem produz consegue expressar a perfeição e santidade de Deus. Aquilo que estes homens produzem, mesmo que operados pela graça, podem estar comprometidos pelo pecado no homem.

Porém, no parágrafo anterior a este, o reformador genebrino assevera que o cristão não deve ser negligente, antes deve encarar as ciências e as artes, como dádivas, que devem ser desfrutadas, porém com a consciência do trecho posterior. Daí, a necessidade de discernimento do cristão ante ao que o mundo produz.

João Calvino no século XVI, à luz de sua habilidade hermenêutica, não concordaria com a abordagem pietista e legalista presente em alguns círculos evangélicos da atualidade, de que aquilo que é produzido por "mundanos" e "ímpios" não deve ser desfrutado, como a música, a arte, o conhecimento científico. Hoje, o reformador alertaria os cristãos a não serem relapsos, mas que aprendessem a desfrutar destas boas dádivas, sem esquecer porém, que há imperfeições, manchas, que precisam ser discernidas, julgadas e analisadas à luz da boa consciência cristã.

Enfim, a espiritualidade reformada neste sentido não isola o santo do mundo, mas também não permite que ele seja absorvido por ele. Antes o insere lá, porque há graça lá. Porém, o insere consciente de que deve discernir seu tempo, os conhecimentos, tornando-o sóbrio a respeito das consequências da queda.

Soli Deo Gloria
Kol HaKavod LaShem

Raízes que Permanecem

Por Igor Miguel

Estou acabando de ler o livro Surpreendido pela Esperança de N.T. Wright e fiquei muito feliz em encontrar insights teológicos que já vinha escrevendo e ensinando desde 2001, e claro, muita coisa nova que não tinha se quer lido. Mas de fato, fui surpreendido pela "Esperança" e isto tem mais sentido do que o leitor, que passa por aqui, pode imaginar.

Como alguns sabem, venho dedicando alguns anos de minha vida em um esforço para manter o equilíbrio apropriado nas relações entre a teologia cristã e a teologia judaica. Entretanto, o mais difícil é este equilíbrio, afinal, ou supervalorizamos a herança judaica, ofuscando a centralidade de Cristo e os valores do cristianismo, ou supervalorizamos a tradição cristã de forma dogmática e seu anti-judaísmo não tratado, sem permitir que esta fé cristã seja enriquecida com um contato apropriado com suas raízes.


Ao ler alguns autores do cristianismo que entendiam os vínculos entre judaísmo e cristianismo, percebi, que não são poucos os estudiosos do meio cristão engajados nesta compreensão e que no final das contas, admitiam que um bom cristianismo não pode ignorar estes fundamentos. De fato autores como Oskar Skarsaunne, Francis Schaeffer, N.T. Wright, Brad Young, James Parkes, W.D. Davies e muitos outros, me surpreenderam quanto a esta abordagem.

O que me preocupa é o tom ácido adotado por algumas pessoas envolvidas neste tipo de diálogo. O que excetua os autores citados acima. Pois ao não serem cuidadosas com sua pretensa agenda teológica, acabam atingindo o único movimento historicamente constituído que pregou, carregou, anunciou Jesus Cristo por quase dezoito séculos. Neste ponto, tenho que ser honesto: não foi o judaísmo que se encarregou desta tarefa. Entretanto, será que o cristianismo rejeitou tanto assim suas raízes judaicas como escutamos frequentemente no senso comum?

Ora, que rejeição "total" é esta? Afinal, vejamos alguns elementos evidentemente judaicos ainda presentes no cristianismo:

Jesus Cristo: pode parecer óbvio, mas um obviedade omitida por muitos. Jesus Cristo é o que há de mais judaico no cristianismo. A afirmação de Jesus como salvador e Senhor tem origem nos profetas judeus, algo que os pais da Igreja e os reformadores, por mais "anti-judaicos" que fossem, jamais renegaram, Jesus é o cumprimento das palavras do profetas da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento). Sem mencionar que Ele descende dos judeus segundo a carne (como afirma Paulo) e seus vínculos com este povo não é em vão. A propósito, se não houvesse nenhum vínculo genético entre Jesus e o povo judeu, isto tiraria todo crédito de seu papel messiânico.

Os Apóstolos: não há dúvidas, de que ao afirmar a fidelidade cristã à doutrina dos apóstolos, afirma-se com isso, uma fidelidade a apóstolos judeus, oriundos da terra de Israel, que foram convocados por Cristo propositalmente dentre os filhos de Israel, por questões óbvias, o que reserva maiores explicações.

A Bíblia: em especial o protestantismo, neste sentido, foi tão fiel a seus fundamentos judaicos, que adotou o cânon rabínico do Antigo Testamento, instituído no Conselho de Jamnia (Iavnnê), rejeitando o cânon grego (Septuaginta/LXX), que incluía os livros chamados "apócrifos". Neste sentido, a reforma teve profunda reverência ao que fora produzido pelo judaísmo. Não há nada mais judaico no cristianismo do que admitir um cânon de livros sagrados, compostos em sua quase totalidade por autores judeus (exceto Lucas). Apesar de que há um debate sobre as intensões judaicas (em Jamnia/Yavne 90 d.C.) sobre este cânon.

Liturgia: Elemento litúrgico cristão importante é a homilia, a leitura e explicação pública das Escrituras, eis uma prática oriunda das sinagogas judaicas, de um momento chamado de kriát Torá (leitura da Torá), sem mencionar os cânticos e recitações de confissões, credos e perguntas catequéticas, que remetem a própria forma rabínica de estudo (perguntas-e-respostas).

Ceia (eucaristia): o cristianismo, em geral, reconhece ao menos dois sacramentos com raízes no judaísmo: a ceia e o batismo. A primeira nasceu do Sêder judaico de Páscoa (pêssach). Curiosamente, a utilização de vinho, por exemplo, não tem origem bíblica, mas foi inserida no judaísmo pelo famoso rabino Hilel, é irônico como mais tarde, a eucaristia cristã eternizou e universalizou uma prática da tradição oral judaica. Sobre os vínculos entre a ceia e a tradição judaica, vale a observação de N.T. Wright:

[...] quando Jesus celebrou a Páscoa, os discípulos não imaginavam que estavam fazendo algo diferente da celebração original. Durante a celebração da Páscoa, os judeus costumavam dizer: "Esta é a noite em que o Senhor nos tirou do Egito", o que torna as pessoas sentadas ao redor da mesa não apenas herdeiros distantes da geração do deserto, mas também parte do mesmo povo. Tempo e espaço se unem. No mundo dos sacramentos, passado e presente são uma só coisa. Juntos, eles apontam para a libertação, que acontecerá no futuro.[1]

Batismo: Herança de uma longa tradição de imersões rituais presentes na prática judaica de purificação. Basta uma olhada no testemunho arqueológico ao redor do Monte do Templo em Jerusalém e em lugares como a região de Qunram no Mar Morto, que se saberá os verdadeiros fundamentos desta prática. A tevilá (imersão em hebraico) era uma prática largamente utilizada inclusive nas cerimônias de conversão ao judaísmo. Sendo um rito de passagem e renúncia ao passado pagão. Prática que foi incorporada pelo cristianismo e resinificada, quando assumiu a forma de sacramento.

Calendário: não parece, mas Igrejas Cristãs históricas ainda preservam um calendário litúrgico, com celebrações como páscoa e pentecostes. Celebrações de profunda relevância para a narrativa evangélica oriundas da cultura do povo judeu.

Poderia citar ainda muitos outros pontos e práticas cristãs que estão lá enraizadas na cultura judaica, mas, resignificadas e contextualizadas à novas circunstâncias culturais. Afinal, apesar do cristianismo originar-se entre os judeus, ainda assim, o cristianismo é uma outra coisa, não pode ser judaísmo, mas é judaico em seu fundamento.

A propósito, o termo "judaísmo" após o ano 90 d.C. (como já discutido em um post por aqui), assume conotações complicadas para a fé cristã. Associar-se ao judaísmo após este período tornou-se insuportável. O judaísmo tinha assumido uma agenda explicitamente apologética a respeito de tudo que se referia a Jesus e a seus seguidores. O judaísmo assumiu uma agenda político-revolucionária contra o império romano, o que não podia ser amparado pela comunidade cristã, crescentemente menos judaica e mais gentílica. Sem contar que a fé proposta por Jesus, desde o início, não tinha pretensões revolucionárias em termos políticos, como claramente afirmado por ele. A inserção de orações litúrgicas que ofendiam a fé "nazarena" tornou a tensão Igreja-Sinagoga cada vez mais complicada, a ruptura seria inevitável e providencial, naquele momento histórico, como já demonstrei no post acima mencionado.

Lembro-lhes, que a proposta deste artigo é deixar claro, que admitir e dialogar estas duas tradições, não significa assim, que o cristianismo deva abrir mão de sua herança histórica, de sua identidade e tornar-se uma sinagoga. O que seria literalmente uma aberração cultural e traria sérias implicações teológicas como: tensões identitárias, sobrecarga cultural judaica em ambientes não judaicos, elementos litúrgicos de um judaísmo resistente a Jesus (judaísmo rabínico) e a temida judaização etc. Porém, o diálogo é importante e o conhecimento de uma visão de mundo judaica, enriquece hermeneuticamente a compreensão das Escrituras e da própria espiritualidade cristã.

Cito agora, um trecho traduzido do artigo do Dr. Daniel Juster, renomado líder e judeu-messiânico (judeu que crê em Jesus como Messias) americano a respeito das relações entre o cristianismo e suas raízes judaicas:

No entanto, muitas pessoas que acusam a Igreja de ser pagã, me deixam com "a pulga atrás da orelha". Eles precisam entender que uma tradição ou ritual deve ser entendido de acordo com o significado que lhe é dada pela comunidade de praticantes. Nem mais nem menos. O culto dominical, por exemplo, independentemente das razões como ele surgiu no I século, ele é hoje universalmente entendido como uma festa que comemora a ressurreição de Yeshua (Jesus) no primeiro dia da semana. Muitos gentios, que pensam que estão descobrindo as implicações das raízes judaicas e, ao mesmo tempo, criticam a Igreja, simplesmente não têm um conhecimento profundo do patrimônio da Igreja. Na verdade, às vezes, a questão de uma restauração apropriada das raízes judaicas deveria começar por levantar a consciência das raízes judaicas mantidas pela Igreja agora. Fonte: Rediscovering the Roots that Remain (Redescobrindo as Raízes que Permanecem): http://www.tikkunministries.org/newsletters/dj-nov09.asp

Se desejamos aproximar estas duas tradições, ela deve ser feita sem fundamentalismo, com bom senso, com conhecimento apropriado do patrimônio da Igreja, levando-se em consideração o que a Igreja produziu em seus quase dois milênios de existência, tratando o anti-judaísmo que trouxe consequências já conhecidas (cruzadas, pogrons, holocausto etc) e claro explorando as raízes judaicas já preservadas pela Igreja.

Tenho críticas a uma "neutralidade" teológica, como se fosse possível acessar a Bíblia sem considerar a herança hermenêutica de gerações. Em breve escreverei um texto sobre a relação entre "tradição" e "revelação", infelizmente na atualidade, muito da crise cristã evangélica deve-se a isto: uma rejeição moderna a tudo que é tradicional.

Para terminar, cito a conclusão de Oskar Skarsaunne (teólogo luterano) em sua obra monumental "À Sombra do Templo", a respeito do tema aqui tratado:

A triste história do anti-semitismo cristão é bem conhecida e bem documentada. Contudo, houve em muitas ocasiões, e nos lugares mais inesperados, uma tendência implícita em sentido contrário. Não devemos, é preciso enfatizar mais uma vez, exagerar sua força; entretanto, não se pode também subestimá-la. Para os cristãos que, no início do século 21, sentem-se estimulados e fascinados com a redescoberta das raízes judaicas de sua fé e prática, é importante que saibam que não foram eles os primeiros. Houve precursores, e esperamos que haja sucessores.[2]

_______________
[1] WRIGHT, N.T. Supreendido pela Esperança. Viçosa: Ed. Ultimato, 2009, p.288.
[2] SKARSAUNNE, Oscar. À Sombra do Templo: as influências do judaísmo no cristianismo primitivo. São Paulo: Ed. Vida, 2004, p. 460.
24 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Realmente Pentecostal

Por Igor Miguel


Não sou pentecostal, no sentido de que minha espiritualidade se resume à "experiência pentecostal", apesar de que a própria experiência dos apóstolos em pentecostes tinha outra conotação.

Os discípulos estavam reunidos no dia conhecido como
festa das semanas (hb. shavuôt), uma referência a festa das primícias de trigo celebrada 7 semanas (49) após a celebração das primícias (hb. bikurim) de cevada (celebrada logo após a pascoa), além de ser uma celebração de conotação agrícola, era uma festa de gratidão e rememoração da dádiva da lei (hb. Torá) no Monte Sinai.

Pentecostes era uma celebração de peregrinação (Dt 16:16) o que significa que as famílias judias eram convocadas a comparecerem em Jerusalém para celebrá-la.

A grande pergunta é:
por que o Espírito Santo foi derramado justamente no dia de pentecostes? A resposta está justamente na relação entre o Espírito Santo e a Dádiva da Lei.

O profeta Jeremias (31:31 e seg.) já houvera predito dias em que o Senhor (YHVH) firmaria uma Nova Aliança com a Casa de Israel e com a Casa de Judá. Dias que Ele inscreveria e imprimiria a
Torá na mente e nos corações. De fato, quando Paulo assevera que seu ministério é do Espírito e não da Letra (II Co 3:6 e seg.), não despreza a lei (a Palavra/Torá) da Nova Aliança, mas admite, que ela é reabilitada e opera de forma distinta naqueles que estão sob a graça de Cristo. Nestes termos, João Calvino observa de forma brilhante:
Quando, porém, nos movem acusação, de que nos apegamos demasiadamente à letra que mata, nisto incorrem na pena de desprezarem a Escritura. Ora, salta à vista que Paulo está ali [2Co 3.6] a contender com os falsos apóstolos, os quais, na realidade, insistindo na lei à parte de Cristo, alienavam o povo da graça da nova aliança, na qual o Senhor promete que haverá de gravar sua lei nas entranhas dos fiéis e lhas imprimir no coração [Jr 31.33]. Portanto, morta é a letra, e a lei do Senhor mata a seus leitores, quando não só se divorcia da graça de Cristo, mas ainda, não tangido o coração, apenas soa aos ouvidos. Se ela, porém, mediante o Espírito, é eficazmente impressa nos corações, se a Cristo manifesta, ela é a palavra da vida [Fp 2.16], a converter as almas, a dar sabedoria aos símplices etc. [Sl 19.7]. (Institutas, Livro I, Cap. IX, pgf. 2).
Confesso que fiquei muito feliz de ler as impressões de Calvino (no século XVI) e seu cuidado em deixar claro a perenidade da Lei na Nova Aliança, demonstrando que Paulo se opõe a uma observância legalista, desprovida de graça, da Torá (lei) que é santa, justa e boa (Rm 7:12).

O que ocorreu em pentecostes, foi uma "segunda" dádiva da "Torah" (lei ou instrução divina). Naquele dia, os preceitos de Deus foram inscritos nos corações dos santos, tornando-os em "testemunhas" (At 1:8). Outrora o que anunciava a vontade de Deus eram as "tábuas do testemunho" (Ex 31:18), tábuas de pedra. Agora, a partir de pentecostes, os santos testemunham a verdade de Deus, pelo Espírito Santo, em corações de carne [regenerados] e não mais de pedra (Ez 36). Afinal, o próprio verbo de Deus, Jesus Cristo, é inscrito em
união misteriosa com os santos por meio da adoção, pelo Espírito Santo.

Neste sentido, os santos não andam [comportam-se] mais segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8), pois o pecado, a única barreira entre o homem e a lei, fora desfeito em sua carne,
"a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito." (Rm 8:4).

Conclui-se que ser pentecostal, significa admitir a atuação do Espírito Santo em condicionar o homem a uma obediência voluntária e operosa, em permanente convite aos preceitos do Senhor, desfazendo a pretensa "autonomia" moderna, entregando-se à Lei da Liberdade (Tg 1:25). Celebrando, assim, a inscrição da lei na mente e nos corações, o que tornou os santos cartas vivas:


"Estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações." (II Co 3:3).
23 de ago de 2010 | By: @igorpensar

I Heart Brazil

O avivamento brasileiro em potencial, no que dizem, tem alguma coisa à contribuir com o que será a quarta maior economia mundial até 2050. Qual é a vocação dos santos neste momento de transição? O papel da Igreja? Veja este clipe ao som do palavrantiga, e banda que gosto!


17 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Pés sujos (um conto)

Por Igor Miguel

Um menino passou correndo com seus pés preto de um chão cheio de fuligem da poluição. O chão ao menos é sujo, quanto ao coração do menino, bem pode ser que seja límpido.

La vai ele, como corre, olha para um lado e para o outro, ante o frenético movimento dos carros barulhentos. Ansioso, cruza a rua, uma motocicleta quase o pega, o motoqueiro buzina estridentemente.

Ele chega. Pega sua caixa de papelão cortada e adaptada com um pedaço de arame, faz uma caixa onde organiza de forma atraente doces e pastilhas de hortelã. A caixa me parece de sabão em pó.

Com a mesma agilidade, ao sinal vermelho, percorre os carros, exibindo seu mostruário, carro após carro, contando com a sensibilidade e o interesse dos motoristas por suas balas baratas, mas gostosas, como dizia.

Um "sim" aqui, moedas ali, mais "não" do que "sim", acaba vendendo mais do que se esperava. Em sua bermuda, um tanto surrada e suja, em um bolso mole, sambam pratinhas aos montes.

Se orgulha de seu lucro, exibia para seu amigo malabarista. La vai ele!

Corre, põe a caixa na cabeça e de novo, de pé ainda mais sujo, volta para o lado de cá, cruza os carros, para por onde os pedestres se concentram. Eles se afastam, olham-no com uma visão precavida, damas seguram firme suas bolsas. Ele vai rindo, como debochando e assumindo o poder que lhe atribuíam.

Chega em sua casa, com porta de MDF velha. Mitico, uma vira-lata de pelo branco e um "tapa-olho", um verdadeiro pirata, pula de alegria. Ele brinca e ri e ouve uma voz enfurecida de dentro de casa... era o namorado de sua mãe.

Correu, olhou e lá estava ele. Com olhos avermelhados, trôpego, macho, violento, valente e bêbado. Olhou para o menino, carregado de raiva, gritando, dando ordens, para que desse o dinheiro das balas. O menino o encarou colocando a mão no bolso e disse não. Pois o dinheiro era para o remédio da mãe.

Sua mãe padecia em leito, cirrose hepática, sofria as agruras de estar à margem da sociedade. Ele, o pequeno jovem dos pés sujos, a defende como um grande homem, mas o namorado de sua mãe insiste e sugere um espancamento. Lhe defere um golpe, mas ele reage, vira-se como um gato e consegue escapar. O homem lhe segue pra fora e lá, ao cruzar a rua, o menino vê um ônibus e grita para o homem tomar cuidado, mas seu berro não chegou ao cérebro do bêbado a tempo por efeito letárgico do álcool.

Mitico late sobre o corpo ensanguentado. Os outros moradores do condomínio, como chamavam o emaranhado de barracos debaixo do viaduto, chegam-se como curiosos ante a cena do menino que chora.

Não o odiava a este ponto, pensara na possibilidade de tê-lo por pai. Sentia um misto de pena e culpa. Sua mãe, grita se apoiando na parede de concreto, em prantos, acusava o menino, perguntando o que fez.

O menino chorava e corria, corria muito. Correu tanto que perdeu o caminho de casa, perdeu-se entre as pedras da cidade, perdeu-se entre os muros e o cheiro de urina das marquises. Perdeu-se no tempo e no espaço, foi absorvido, pelos olhares que o ignoravam. Perdeu-se ante os vidros fechados dos carros sob o hálito do ar condicionado levando meninos bem arrumados indo pra escola. Perdeu-se de casa, perdeu-se na vida sombria. Perdeu-se na impureza de seus pés sujos. Virou fuligem...
15 de ago de 2010 | By: @igorpensar

O Código da Aliança

Por Igor Miguel

Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. (Cl 1:13-14)



Os eleitos, uma vez salvos pela graça e adotados, são inseridos, ou melhor, transportados do império das trevas para o Reino do Filho de Deus (Jesus). Este "transporte" tem implicações muito sérias, pois significa uma mudança de "realidade". Neste versículo, Paulo faz uso de uma linguagem de libertação, que remete a páscoa israelita [hb. pêssach - פסח], quando o povo israelita foi liberto do Egito e engajados em uma jornada para a liberdade (Êxodo).

De fato, o próprio termo hebraico para "páscoa" quer dizer "passagem", uma transição do estado de cativeiro e prisão, para o estado de liberdade. Neste sentido, Israel torna-se o povo de YHVH e este "tornar-se povo", implica um tipo adoção nacional ou uma relação de suserania e vassalagem.

Nos povos da antiguidade, quando um reino mais fraco era dominado por um reino mais forte, os cidadãos
que se rendiam do reino dominado, eram absorvidos pelo reino suserano, tornando-se assim seus vassalos. Um "rei" ou "senhor" exigia, como um tipo de rito de absorção nacional, que os vassalos se comprometessem com o novo reino por meio de uma confissão pública dos decretos reais, firmando assim uma aliança com aquele rei, podendo estes decretos serem denominados de código da aliança.

Em uma lógica semelhante, Deus ao libertar o povo de Israel do Egito, os inseriu em seu reino, transformando-os em povo da aliança ou gente peculiar, ao menos esta é a linguagem que encontramos em Êxodo quando é dito:

Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel. (Ex 19:5-6)

Interessante que este quadro teológico de nova nacionalidade e adoção nacional é também usado pelo apóstolo João ao se referir à Igreja (Ap 1:6; 5:10) e pelo apóstolo Pedro quando escreveu em sua primeira carta:

Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia. (I Pe 2:9-10).


As palavra de Pedro remetem ao êxodo, uma linguagem do imaginário judaico da relação exílio-libertação. A teologia petrina é que a Igreja é composta por um "povo" que se tornou "povo de Deus". Esta mudança de estado é afirmada com o uso de algumas expressões e conceitos chaves como: o movimento "trevas-luz", o "chamado" (ideia de eleição), o adjetivo propriedade exclusiva, e outras termos que evocam este novo estado. Neste ponto, é importante destacar a noção de Senhorio de Cristo.

Não são poucas vezes que o Novo Testamento se refere a Jesus como Senhor (gr. kyriós). Isto se deve ao fato, de que há uma relação de soberania entre Cristo e seus súditos. Ele é o senhor "suserano", o rei, com quem os cativos-libertos firmam um pacto de liberdade. Por isso, os "chamados" são inseridos no novo reino, onde desfrutarão de todos os benefícios deste pacto. Na lógica bíblica não existem despatriados, ou se pertence a um reino tirano de escravidão ou a um reino de liberdade e justiça.

No Reino de Deus, não há "autonomia" no sentido moderno, no sentido de uma "lei para si mesmo". Esta proposta, remete a queda do homem no Éden. Por isso a "liberdade moderna" é uma falsa liberdade. A proposta bíblica é que em lugar da "autonomia" baseada no ego humano afetado pela queda, a verdadeira liberdade, que remete à criação, está em se submeter a lei de Deus. Nossa liberdade, neste sentido, se encontra em uma heteronomia, ou seja, na "lei de outro", neste caso, a Lei de Deus.  Herman Dooyeweerd, importante filósofo cristão, chamaria isto de cosmonomia, ou seja, o princípio bíblico de um mundo, uma realidade ou reino, regido por leis divinamente constituídas.

De forma mais clara, o que seria uma cosmonomia pautada nas Escrituras?  Seria a admissão de que no Reino de Deus, a verdadeira liberdade opera-se pela internalização da lei de Deus pelo Espírito. Se baseia no cumprimento da profecia de Jeremias sobre a Nova Aliança , em que um dia a lei do Senhor seria escrita na mente e nos corações (Jr 31:31 e seg.). O Novo Pacto é uma nova relação senhorio-súdito, pois, no pacto anterior, havia uma submissão mecânica ao código da aliança, neste pacto renovado, a lei é inscrita, integrada ao interior humano. Por isso o profeta Ezequiel viu dias em que um coração regenerado seria dado ao homem, e que o próprio Deus operaria (monergisticamente) a obediência da lei a partir de seu coração (Ez
e36:26-27). Esta é a liberdade do Espírito!

Enfim, a vocação é entender que vivendo nesta realidade do Espírito, no Reino de Deus (no Civitas Dei - adotando Agostinho), Jesus Cristo tornou-se Senhor, soberano sobre o Povo de Deus. O Povo de Deus vive uma realidade completamente nova e uma liberdade que é operada por Deus, quando Ele inscreve nos corações dos santos seus preceitos, concedendo-lhes nova identidade e novo sentido existencial. Isto é algo que atinge as relações concretas desta existência, a rotina; envolve o comer, beber, casar, trabalhar, pesquisar etc. Agora, os resgatados vivem sob uma aliança, a linguagem e o estilo de vida de um novo reino, o Reino de Deus sob o senhorio de Jesus Cristo.


Soli Deo Gloria
13 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Lírio

Por Igor Miguel

Ontem à noite foi a formatura da minha esposa. Tivemos a graça da presença de algumas pessoas muito especiais. Dentre as lembranças e os gestos de superação de mais uma fase da vida, minha esposa ganhou da Alessandra Carvalho (esposa do Guilherme Carvalho) um belíssimo lírio, com uma de suas flores já desabrochadas e os outros botões potencialmente preparados para se exibirem.

Hoje de manhã, lá estava o lírio, com mais duas flores abertas totalizando três flores abertas. Um espetáculo da criação, puro ato de graça. Fiquei alguns minutos, que pareciam horas, contemplando a cor quente das flores do lírio, observando, como sem pressa, aquelas pétalas extravagantes me surpreendendo. Imaginei, que enquanto eu dormia, elas lentamente se movimentavam sobre o decreto divino. Constatei, que a mesma ordem que faz a chuva vir, o vento soprar, fez aquelas flores se abrirem silenciosamente, e quando atentei para elas, logo de manhã, sob a luz do sol, elas estavam lá, prontas para que eu as pudesse ver.

Pode ser que algumas delas se sequem, pode ser que esta beleza se passe, mas há outros botões, sei que elas podem me alegrar de amanhã e novamente louvarei ao Senhor por seus benefícios. Pude entender as palavras de Jesus, quando disse que 'nem Salomão em toda sua glória se vestiu como um lírio'.

Nesta altura, vale a pena lembrar as palavras de G.K. Chesterton:

Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: "Vamos de novo"; e todas as noites à lua: "Vamos de novo". Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um BIS teatral. O céu talvez peça bis ao passarinho que botou um ovo. (CHESTERTON, 2007, p.63).

Nas palavras de Jesus e em meu contato pessoal, o lírio tornou-se um símbolo da providência divina.
________________
CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

Novos Evangélicos

Post aqui, meu comentário ao interessante posicionamento de Wallace Corrêa responsável pelo Blog Despotês ao artigo da Revista Época sobre os "novos evangélicos".

_________________________________

Wallace, esta é a pegada.

Quando li o texto da Época, depois da euforia, comecei a pensar, pensar e pensar. E claramente, ouvi as vozes de comunidades emergentes com uma ortodoxia minimalista ou a-ortodoxas, arreganhadas à pós-modernidade, mas sem uma proposta, ou com uma proposta teológica privatizada. James K.A. Smith está certo, a melhor forma de subverter a modernidade é ser pré-moderno, é erguer a Igreja de seus fundamentos, de uma boa tradição cristã.

A Época não falou, por exemplo, da retomada da tradição reformada em alguns círculos, a afirmação da clássica fé protestante, sem desconsiderar o
Missio Dei. O artigo não considerou o despertamento intelectual em alguns círculos teológicos, em que se pretende um engajamento político sem as pretensões do materialismo-histórico. O artigo não considerou, salvo os fragmentos de vozes reformadas na matéria, que há uma velha e renovada orientação teológica que afirma a soberania de Deus, sua graça comum despejada no mundo e a depravação dos homens.

No artigo, todos parecem articulados. Cobeligerantes? Mas, não! Estes são pequenos movimentos, destinados a serem engolidos pelo relativismo cultural. Honestamente, no final, só sobrarão as comunidades simples, sem grandes pretensões, que sejam fervorosas, criativas, amorosas e enraizadas em sólida tradição teológica.

Obrigado por seu texto!

Soli Deo Gloria.
Igor Miguel
10 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Espiritualidade Integral (III)

Este é o terceiro podcast da série de reflexões sobre "Espiritualidade Integral". Desta vez falamos sobre o "Princípio de Hospitalidade". Espero que gostem e comentem.








5 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Espiritualidade Integral (II)

Este é o segundo podcast da série de curtas reflexões [12 min] sobre "Espiritualidade Integral". Espero que gostem e comentem.








3 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Salvação pela Graça

Por Igor Miguel

Espero que este texto seja o primeiro de uma série de impressões sobre os fundamentos do evangelho e as conexões existentes entre a fé cristã em sentido estrito e suas origens no judaísmo. Quando digo, "sentido estrito", afirmo que a fé cristã deve ser considerada como um movimento legítimo de acolhimento das nações não-judias em Cristo. Porém, devido a sua diversidade confessional e teológica durante a história e os diversos ambientes culturais em que se instalou, alguns ramos do cristianismo e algumas tradições inerentes a seu desenvolvimento, acabaram por absorver elementos não-cristãos e não-bíblicos em seu arcabouço. [clique aqui e baixe o artigo completo em PDF]

2 de ago de 2010 | By: @igorpensar

Espiritualidade Integral (I)

Este é o primeiro podcast da série de curtas reflexões [7 min] sobre "Espiritualidade Integral". Espero que gostem e comentem.