22 de set. de 2011 | By: @igorpensar

Série de Sermões: Origens


A Igreja Esperança em Belo Horizonte - MG deu início a uma série com o tema "Origens" que está sendo ministrada por seu pastor Guilherme de Carvalho. Todo os residentes em Belo Horizonte estão convidados. Segue abaixo as datas e os respectivos temas de cada domingo.


ORIGENS: Gênesis 1-11 (Pr. Guilherme)
Aos Domingos, a partir das 18h

04/09 - O Sentido do Mundo: Salmo 19
11/09 - Três Temas em Gn 1.1-2.4
18/09 - O Criador: Pai Todo-Poderoso
25/09 - O Homem como Imagem de Deus
02/10 - O Éden
16/10 - O Sentido da Tentação
23/10 - O Paraíso Perdido
06/11 - Caim
13/11 - A "Civilização" fora do Éden
20/11 - Deus Reina sobre o Dilúvio (Noé)
27/11 - A Aliança do Arco-Íris
04/12 - Babel: Deus e as Nações
11/12 - A Casa de Sem e o Futuro do Homem
18/12 - Jesus Cristo e a Promessa de Abraão

Av. Pedro II, 2744 - Caiçara - Belo Horizonte - MG


20 de set. de 2011 | By: @igorpensar

Crianças diante do Criador

Por Igor Miguel


Não quero que meus filhos brinquem que Deus é um ser imaginário, fruto do acaso e da decepção com o tempo.   Quero que brinquem com Deus mesmo, que rolem no chão ao rirem de suas proezas, chorem desnudados diante de sua absoluta pureza e se emocionem com sua habilidade em confundir as probabilidades.

Quero vê-los correndo sobre grama verde e sentirem o vento como um hálito soprado por Deus.  Que sejam tomados de assombro quando os relâmpagos rasgarem os céus em estrondoso e tardio trovão.   Quero que sejam visitados por sua presença em noites silenciosas, sintam as letras do Livro Sagrado cuja sacralidade procede de seu admirável conteúdo.  

Gostaria de me ver em meus filhos rompendo em olhar curioso o rumo das gaivotas, e cheios de senso de sentido, perguntarem o destino da revoada.  Que eles lancem os olhos em noite escura para um céu infestado de estrelas exibidas, brincando de ligação de pontos, procurando por ordem ao que parece arbitrário e aleatório.

Que meus filhos se deixem encantar.  Que sejam cheios de gratidão por verem um mundo tão excitante e tão cheio de vida.  Mesmo no drama da dor e da perda, que saibam dar graças, pois mesmo a perda e a morte não podem dar cabo da vida que ainda floresce.

Que juntem mãozinhas em sinal de gratidão e digam com toda doçura: "papai do céu."  Que vejam no "papai deles", este sujeito trôpego e vacilante, o olhar que o Senhor do Tempo lhes dirige, mesmo quando ele - o pai deles -  não pode mais vigiá-los.

E que finalmente, se descubram maculados e percebam, o mais cedo possível, que nasceram com defeito.  Que não podem muitas coisas, que são egoístas, iracundos, ressentidos e ambiciosos.  Que descubram rápido que o vaso é belo, mas está trincado.   E finalmente, ao serem tomados pela vergonha de sua própria condição... que possam correr para a cruz.  E lá, ao abraçarem o Filho com fé inabalável, que se encontrem com o verdadeiro Pai, com Aquele que verdadeiramente os amou.  E assim, quando já estiverem jovens e independentes, que corram sob grama verde, como no início, e voltem a ser crianças recém chegadas ao mundo... ao novo mundo que Deus inaugurou.
E Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles.   E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. (Mt 18:2-3).
20 de ago. de 2011 | By: @igorpensar

Tempo Integral

Por Igor Miguel

Aprouve a Deus colocar suas criaturas em mundo marcado pelo tempo.  As referências do envelhecimento, do movimento do sol e dos eventos são testemunhas de que o tempo passa.   Para não se perder na jornada, as pessoas criaram memoriais, registros escritos, impressões em cavernas e calendários.  Inventaram também a história, uma ciência da memória, que tenta organizar, registrar e interpretar os rastros da humanidade no tempo.


Em algum sentido, este ser humano é feito no tempo e projeta-se na história.  A pressão do tempo e dos que vivem com ele ali e antes daquele momento, permanecem, e ele é construído em resistência ou complacência a esta pressão, este homem do/no tempo.
"Noé, porém, achou graça aos olhos do SENHOR.  Esta é a história de Noé. Noé era homem justo e íntegro entre seus contemporâneos; Noé andava com Deus." (Gn 6:8-9).
Contemporâneos?  O termo "contemporâneo" tem o sentido de "mesmo tempo".  Noé não era "justo" e "íntegro" simplesmente.  Ele o era entre os de seu tempo.  Noé não era um retirante, um sacerdote em fuga ou um religioso segregado.  Ele era um homem no tempo, na história.  Noé nasceu naquele tempo, naquela ocasião, naquela cultura, entretanto, o que o fazia distinto?

Este trecho de Gênesis é antecipado pela descrição do tempo de Noé: violência, desordem moral e social, todo tipo de caos de tamanho comprometimento, que o próprio Deus, insatisfeito sobre tais circunstâncias, se volta com indignação a sua criação.

Mas... Noé achou graça, bendita graça.  Observe que a história de Noé só começa depois que ele "achou graça aos olhos de Deus", curioso não?  Sim, não há história sem a graça.  A graça conecta o homem em uma linhagem, a uma tradição de justos no tempo.  Mesmo no tempo, este homem escolhido não absorve seu tempo ingenuamente.  Ele resiste a linguagem predominante e não se curva à obscuridade.   

Sem a graça não há história significativa, ou memória, apenas um permanente "deixa a vida me levar, vida leva eu".  Por isso, somente quando se acha a "graça", se é tirado do "curso deste século", como foi dito pelo apóstolo:
E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. (Ef 2:1 e 2)
Noé foi colocado justo e íntegro no tempo.  Justiça não é apenas retidão moral.  No original, tsédek צדק, também pode ser entendido por "retidão" ou "posição correta".  Noé foi colocado lá, no lugar original.  Naquele lugar que Adão tivera abandonado, lugar vazio, que fez Deus perguntar: Onde estás?   Agora, pela graça, lá está Noé, reposicionado, dentro do palco, no papel planejado, por isso, não só homem no tempo, mas homem na história, com uma história.  Deus reapresentou o jardim a Noé.
Remindo o tempo; porquanto os dias são maus.  (Ef 5:16)
Mas, para cumprir a história no "tempo", não basta se encontrar na posição determinada. É importante integridade, ou no texto original: tamim תמים.  Sim, é necessário "inteireza", "completude" e "integralidade".  Curiosamente, em algumas versões, esta palavra é traduzida como "perfeição".  Talvez, o leitor despreparado, possa ler "perfeição" em um sentido quase platônico e idealizado de inerrabilidade.  Mas, de fato, o que está em jogo aqui, não é apenas "integridade moral", mas "integridade existencial".   Noé era um homem "inteiro" e "integral", no sentido que, não havia nenhum "centímetro" de sua existência que não fosse da competência de Deus.  A existência de Noé não era fragmentada pelo tempo ou reduzida a qualquer aspecto do mundo de Deus.  De modo algum!  Subtende-se que Noé possuía sua vida completamente rendida sob o governo de Deus.

Se a graça justificou e restaurou Noé, ela também desencadeou um processo pedagógico, um culto. Afinal, "Noé andava com Deus".

A graça é justificadora, restauradora, mas também, educadora.  Ela inaugura uma trajetória, uma jornada com Deus.  Andar com Deus é viver uma rotina orientada por uma vida em Deus.  Costumeiramente, o homem é levado a pensar, que quanto mais sutil e rotineira sua atividade diária, seu trabalho, menos implicações espirituais aquilo tem em Deus.  O problema é que grande parte de nosso tempo, envolve exatamente este tipo de atividade.  

Certamente, quanto mais atenção for dedicada a esta nova dinâmica existencial que a graça inaugura, mais perceptível será que é exatamente no que se chama de "insignificante" e "irrelevante", que Cristo deseja instaurar o seu trono.

Jesus é justificador, restaurador, mas também educador.  Sua salvação inaugura uma história específica em cada ser alcançado.  Desencadeia processos no tempo e desígnios que envolvem a glória de Deus.  Jesus, por graça, entra na rotina e chama.  Como fez com seus discípulos.  Ele não queria homens absorvidos pelo tempo, mas queria que eles vivessem no tempo, e simultaneamente, conectados existencialmente com os planos eternos de Deus.  Somente, uma vez conectados com a eternidade, os discípulos entraram na história.

A graça de Cristo faz isso: livra o homem do caos desta geração, da desordem moral, da justa ira de Deus e do príncipe deste século. Para enfim, colocar o homem em retidão, integralmente submisso e caminhando, em uma jornada ao lado do mestre.  Somente assim, o homem livra-se da tirania do tempo, sem fugir dele.  Somente assim, cumpre ele uma tarefa significativa e relevante entre seus contemporâneos.

Z. Bauman & pós-modernidade

Entrevista com o filósofo e judeu polonês Zygmunt Bauman para o Fronteiras do Pensamento, apresentada na ocasião do encontro com o pensador francês Edgar Morin.  Bauman tem sido reconhecido mundialmente como um dos grandes intérpretes do fenômeno conhecido como "pós-modernidade", ele mesmo foi o criador do termo "modernidade líquida".  O vídeo está legendado e é uma excelente introdução ao fenômeno de migrações e crises identitária oriundas do desenraizamento e estreitamento das fronteiras, produzido pela modernidade e a globalização.


18 de ago. de 2011 | By: @igorpensar

A young calvinist speaks!

James K.A. Smith, professor do Calvin College, fala sobre a proposta pedagógica de seu livro "Letters to a Young Calvinist: a invitation to the Reformed Tradition" (Cartas a um Jovem Calvinista: um convite à tradição reformada), que ficou conhecido como "From Piper to Kuyper".  Neste trecho da entrevista, Smith compartilha suas impressões e expectativas a respeito da emergência do que a revista Times chamou no seu emblemático artigo de "new calvinism" (novo calvinismo).  Referindo-se, aos  milhares de jovens que estão redescobrindo a centralidade de Cristo, a graça soberana, a paixão pelas Escrituras, a glória de Deus na criação e outras riquezas deste movimento que abalou o ocidente, por ser um cristianismo fervoroso.   Quais são os desafios desta nova geração de apaixonados por Jesus, por sua Palavra e pela perspectiva reformada de fé?

A entrevista está em inglês:


12 de ago. de 2011 | By: @igorpensar

Geração Y, Redes Sociais & Inteligência

Hoje ministramos uma palestra pra galera do ensino médio do Colégio Batista Getsêmani em BH, sobre o tema "Geração Y, Redes Sociais e Inteligência".  A ideia basicamente foi falar sobre como podemos fazer um uso criativo e inteligente desta tecnologia, ao invés de darmos um tratamento reducionista e emburrecedor, ou darmos um tratamento moralista. Se, nossos alunos estão "distraídos" com estas tecnologias e rendendo pouco em sala de aula, isto pode ser fruto de um distanciamento ou uma inadequação de nossa linguagem com esta web-geração.  

A Internet e as Redes Sociais podem ser um grande recurso para desenvolvimento de uma inteligência comunitária, participativa, e a elaboração de uma nova leitura, como já coloquei aqui no post intitulado "Inteligência Hipertextual".

Disponibilizo os slides... a fala, quem quiser, é só convidar a Humanitas, minha empresa de consultoria educacional, para dar uma palestra em sua escola ou instituição educacional.  Para isto, envie um e-mail contato@humanitas.com.br


Abraços,
Igor Miguel
3 de ago. de 2011 | By: @igorpensar

Uma Visão Cristã do Trabalho

Prezados leitores,

Foi publicado na página da Editora Ultimato um texto de nossa autoria intitulado "Uma Visão Cristã do Trabalho", ele pode ser acessado neste endereço: http://www.ultimato.com.br/conteudo/uma-visao-crista-do-trabalho 

Que Deus, nesta breve reflexão, vos inspire à grande tarefa de cultivarmos um jardim para sua glória em Cristo Jesus.

Abraços,
Igor
2 de ago. de 2011 | By: @igorpensar

O HOJE ETERNO

Prezados leitores,

Compartilho aqui a reflexão que fiz no Culto de Ações de Graças pelos formandos em psicologia da FEAD-MINAS 2011.  Turma que meu grande amigo Aender Borba participou.

Parabéns aos formandos!

Para baixar o texto na íntegra, clique aqui.

Abraços,
Igor


20 de jul. de 2011 | By: @igorpensar

Mundo Amestrado

Por Igor Miguel

Encontrei uma pérola, um trecho da obra "O Mal-Estar da Pós-Modernidade" de Zygmunt Bauman.  Em específico, leio o capítulo  intitulado "Religião Pós-Moderna?", cujo trecho cito e tento explicar logo a seguir:
‎"Sugiro que, em grande parte, a mais importante das realizações da rotina diária é precisamente cortar as tarefas da vida conforme o tamanho da auto-suficiência humana. Tanto quanto a rotina pode continuar não-perturbada, oferece pouca oportunidade para se ruminar sobre as causas e finalidades do universo; os limites da auto-suficiência humana podem ser mantidos fora de foco." (BAUMAN, 1998, p.209-210).
Para a compreensão desse texto é necessário entender basicamente "o que é a modernidade".  A modernidade se caracteriza  basicamente pela ênfase na autonomia (auto-suficiência) e liberdade do homem; também pelo racionalismo, o controle e a técnica.  O homem moderno é aquele que preza pela privacidade e os direitos individuais, pela propriedade privada e pelo controle lógico de tudo.

Hoje, eu mesmo me vejo dentro de um apartamento cheio de artefatos, de "trecos" como: porta caneta, porta CDs, prateleiras, computador, furadeira, celular, ferro de passar roupas, aparelho de DVD, máquina digital, MP3 player, lâmpada de leitura, grampeador, fita durex, caixa de ferramentas, impressora e um monte de "coisinhas", que me dão uma sensação de liberdade, de facilitação da vida, de distanciamento do mundo exterior, e de que não preciso me expor ao mundo e correr riscos, afinal tudo está aqui.  Sabe, este "world of stuff", de artefatos e próteses?  Pois é, me assusto... me assusto.  Pois na verdade, meu apartamento é uma gaiola típica de um hamster que fica na "rodinha" distraído com sua "liberdade" em andar em círculos.

Basicamente é sobre essa "falsa liberdade" que postula Bauman: o homem precisa 'cortar as tarefas da vida conforme o tamanho de sua auto-suficiência'.   Em outras palavras: como o homem moderno não tem liberdade para ir além das paredes de sua vida privada e não se sentir ameaçado, ele faz uma gaiola, um cubículo, um universo restrito, onde ele pode exercer a ilusão de liberdade.   E, ao se entreter com esta "vida privada" e este reino entre quatro paredes, ele se aliena.  Enquanto esta rotina estiver "sob controle", enquanto ele acha que vive em um mundo domesticado, ele nunca vai se preocupar com as questões e os problemas de verdade.

Uma vez que se vive nesta "liberdade privada", literalmente na "caverna" que os gregos denunciaram, no sofisma de uma falsa verdade, pouca oportunidade haverá "para se ruminar sobre as causas e finalidades do universo".  Permita-me: ter-se-á pouco tempo para pensar em Deus, espiritualidade, religião, ética, comunidade, responsabilidade política e existencial.  

A auto-suficiência tem limites e quanto mais eles são testados, mais provocatividade encontra-se nas perguntas: de onde viemos? Para onde vamos?

fotos da gaiola hamster Um problema que atinge a Igreja?  Para ilustrar, conto um caso: algum tempo atrás, ministrando em uma Igreja, um pastor desabafava comigo seus dilemas pastorais.  Me disse que um de seus membros alegara a ausência na "Ceia do Senhor", porque teve que arrumar o guarda-roupas.  Incrível como Bauman me ajudou a entender este cristão relapso.  Ele já não vê na comunidade uma parte integrante de sua identidade cristã.  A modernidade lhe aprisionou, não consegue sair das quatro paredes de sua casa, e se deixou seduzir pelas grades da gaiola e por seu reino particular.  Por isso, ele perde o milagre de comer pão e beber vinho dados graciosamente por Jesus Cristo, porque está sob o encantamento de um universo que pode dominar, ou melhor, que já o dominou.

Com relativa frequência vejo cristãos que não conseguem mais encontrar na Igreja Local um lugar para culto.  Que estão tão acostumados a viverem uma vida "anestesiada", que estão com medo de se arriscarem no amor  e nas tensões inerentes à vida comunitária.  De novo, me utilizo de um dos  apaixonantes conselhos de Dietrich Bonhoeffer:
"Jesus Cristo é o que fundamenta a necessidade de que os crentes tem uns dos outros; [...] só Jesus Cristo torna possível sua comunhão, e finalmente, que Jesus Cristo nos elegeu desde a eternidade para nos acolhamos durante nossa vida e nos mantenhamos unidos para sempre."  (Dietrich Bonhoeffer) 
Enfim, fica aí o desafio de não vivermos uma vida amestrada, e consequentemente nos tornarmos amestrados por seus apetrechos.  O desafio para deixar esta zona de conforto alienante seria desfrutar da exposição da vida pessoal na experiência comunitária, com seus afetos e desafetos.  A vida da comunidade cristã não preserva o corpo, parte o corpo, e fazemos isso em memória de Jesus, que se expôs publicamente em nosso favor, nos oferecendo pão e vinho gratuitamente.

____________
BAUMAN, Z. O Mal-Estar da Pós-Modernidade.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
17 de jul. de 2011 | By: @igorpensar

Palestra em Curitiba - PR


Estaremos ministrando em Curitiba - PR no dia 30 de julho às 19 horas na Pousada Betânia a respeito do tema: "A Justiça no Reino e o Sermos Um", será um enorme prazer tê-lo conosco.

Maiores informações: jvalim@ipathmos.org.br
19 de mai. de 2011 | By: @igorpensar

Porque amo a Igreja!

Por Igor Miguel

Igreja = Corpo Místico de Cristo, a Igreja Invisível
igreja = igreja local, a reunião visível dos santos.

Em tempos quando muita gente anda insatisfeito com suas igrejas e comunidades locais, acho que sigo à contramão da tendência. Ando aos amores pela Igreja e por expressões comunitárias de culto, e especificamente, por minha igreja local. Não somente eu, minha esposa anda às voltas pela experiência comunitária também, nada que boa doutrina e leitura não façam.

Vivo dias de suspiro por esta comunidade que chamam igreja, e não me refiro aqui à Igreja Invisível (Corpo Místico de Cristo). Refiro-me a algo bem visível, concreto e humano, refiro-me à igreja local, com endereço físico, com estrutura litúrgica formalmente organizada, com obreiros ordenados, com canções, salmos, pregação, ceia, ofertório e confissão de fé. Bem clássica mesmo. 

Dirijo minha gratidão a Deus por pessoas que ficam com corações fixos em cada música, cada partícula de pão mastigado e o gosto cítrico do vinho da ceia. Creio em uma comunidade que entoa junto cânticos de gratidão, que não exalta nada além da grandeza do Deus criador, que se revelou redentor em Jesus Cristo.

Sim, desde o livro de James K.A. Smith, Desiring the Kingdom, tenho procurado viver uma espiritualidade na comunidade, por isto, menos individualista, intimista e pietista. Eis o motivo de alguns textos aqui escritos sobre orações, a docilidade da vida comunitária e outras amostras de louvor e gratidão por tudo que tenho aprendido. Outro livro que em ajudou nesta jornada de superação da "frustração com a igreja" foi o livro de Kevin DeYoung & Ted Kluck, intitulado "Por que amamos a Igreja". A obra me surpreendeu por sua simplicidade e objetividade ao apresentar a possibilidade de amarmos a Igreja Local novamente. E, como não mencionar o clássico "Vida em Comunhão" de Dietrich Bonhoeffer que trata bem a inevitabilidade da vida congregacional para os salvos, bem  como a necessidade da reunião visível dos santos.

Em dias em que todo mundo quer dar uma resposta à "crise evangélica", encontramos boas opiniões a respeito, mas também péssimas soluções.  Muitas das "soluções" ou são pós-modernas demais, como o caso do movimento "Igreja Emergente", "Igreja Orgânica" ou movimento primitivistas.  Como o caso do restauracionismo judaizante que insiste no dualismo "Jerusalém x Roma" como a tensão, quando na verdade a crise da Igreja evangélica está em sua rejeição a algo muito mais simples: O EVANGELHO (JESUS CRISTO).

Entre primitivistas, encontramos também soluções radicais, como a galera que quer "desinstitucionalizar" a Igreja, sustentado que estruturas formais de organização eclesiásticas são um problema para a "espiritualidade". Uma canseira!  Esses parecem cair naquilo que Irineu de Lion detectou nos gnóstico: "blasfêmia contra o Criador". Afirmam corretamente a Igreja como Corpo Místico e Invisível de Cristo, mas erram ao negarem qualquer forma de estrutura institucional, local e visível. O Corpo de Cristo se visibiliza no tempo e na criação. Instituições são providências do Espírito Santo na história, e sem algum nível de institucionalização, comunidades cristãs não criariam universidades, escolas confessionais, seminários, bibliotecas, editoras, escolas bíblicas, agências missionárias e comentários bíblicos. Sem a providência da institucionalização, a Igreja de Cristo, não sobreviveria às ondas de tensões históricas e pressões culturais do mundo. Instituição é dádiva do Espírito na criação, e qualquer tentativa de afirmar a invisibilidade mística da Igreja, sem reconhecer que ela é encarnacional no tempo e no espaço, é um quase-platonismo. Uma blasfêmia contra o Criador.

A Igreja se visibiliza na reunião formal do santos, e certamente, onde os santos se reúnem, existirão viúvas, crianças, missões, discipulado, horário de reunião, coletas e por aí vai. Impossível que esta estrutura se mantenha sem uma mínima organização institucional. Entretanto, a instituição serve à Igreja, e não o contrário. É verdade que este é um detalhe que falha às vezes, e por esta falha, já assumem a filosofia "nós vamos quebrar tudo" e voltar pra Jerusalém, pra Igreja Primitiva e para a Igreja de Atos. Assumindo assim uma clara doutrina restauracionista. Voltemos ao evangelho, Jesus Cristo é mais que suficiente, foi Ele mesmo, a causa primeira e última de todas as reformas, curas e renovações da história da Igreja.

Bob Kauflin, citado por Kevin DeYoung, assumiu seu orgulho:
"Durante anos, considerei as tradições religiosas como um impedimento à espiritualidade bíblica. Associava orações repetidas, recitação conjunta dos credos, confissão pública do pecado, leitura das Escrituras, calendário litúrgico e ordens de culto a legalismo e servidão. Propus-me a repensar a adoração coletiva a partir do zero. Buscaria apenas as Escrituras e não dependeria de nada que as pessoas tivessem feito nos séculos anteriores. Achei que estava sendo original. Na verdade, estava sendo apenas ignorante -- e orgulhoso." (DeYoung, p. 121).
Muita gente anda decepcionada com a igreja local, alguns com motivos, outros por transferência psicológica ou por um idealismo quase platônico de Igreja. Idealismo refletido em um modelo de "Igreja Apostólica Pura". Pura? A Igreja do I Século era cheia de problemas identitários, tensões apostólicas, divisões, rebeldia, falsos mestres, incursões heréticas de movimentos pré-gnósticos e judaizante. Muitos desses problemas da Igreja Primitiva já  foram resolvidos pelo consenso comunitário da Igreja ao longo da história. Então, que Deus nos livre de um retorno a problemas já resolvidos.

No idealismo, esquecemos, que a Igreja continua caminhando, e por isso é uma Igreja no tempo e na história. Temo, que no desejo de uma igreja ideal, esquecemos de amar a igreja real, aquela que temos agora. Preocupação que compartilho com o grande mártir cristão moderno Dietrich Bonhoeffer que afirmou certa vez:
"Qualquer um que amar mais o sonho da comunidade que a comunidade cristã em si (com todos os seus defeitos) torna-se destruidor desta, ainda que a devoção àquela seja impecável e suas intenções sejam extremamente honestas, sérias e sacrificiais."
A igreja tem pecadores igual lá fora dela (o mundo), talvez com uma diferença: na igreja você encontrará pecadores assumidamente pecadores, por isso, dentre eles, vários arrependidos. Arrependidos, que se voltaram para Cristo e seu evangelho, encontrando cura para suas vidas em uma caminhada de progressivo crescimento espiritual rumo a consumação desta magnífica salvação.

Então vou resumir a opera: amo viver em igreja. Quando muitos querem viver na "igreja Cristo em casa", eu quero viver Cristo com outros. Quero estapear meu individualismo me expondo e olhando para os rostos. Quero me arriscar, me lançar aos olhares alheios, às vezes amorosos, às vezes nem tanto.

Mas... é bom, bom de mais segurar o pão da ceia e olhar pra ele e saber que é um pedaço do mesmo pão que toda minha comunidade segura simultaneamente (I Co 10:17). Muito bom recitar confissões cristãs milenares junto com minha comunidade ao final do culto, aquelas que afirmam claramente o senhorio, missão universal e divindade de Jesus. É muito bom ouvir um bom sermão, independente da retórica, mas que seja ao menos bíblico e centrado em Cristo.

Então, enquanto muitos correm da Igreja Local, eu corro pra lá. O lugar onde recitamos salmos, cânticos espirituais, bebemos da doutrina apostólica, da suficiência e centralidade de Jesus Cristo.  Pois nEle, por Ele para Ele são todas as coisas (Rm 11:36).

Infelizmente, às vezes o que encontramos é compensação afetiva disfarçada de falso vínculo religioso. Falsa comunhão, fruto de uma unidade sentimental desprovida da iluminação de Cristo. Convívio social travestido de espiritualidade. Na verdade, relacionamento recreativo retroalimentado por orgulho e narcisismo. Se Cristo não for o núcleo de nossa vida comunitária, esquece, é clube, mas não é Igreja.

Enfim, a Igreja Invisível, universal, não-institucional, santa e sem mácula, se visibiliza na Igreja Local, com seus dilemas e virtudes (não muito diferente das Igreja exortadas por Cristo em Apocalipse), mas ainda amada por Cristo, e por isso, dignas de seu amor e severidade. Se Cristo ama a Igreja, certamente também a amo.
10 de mai. de 2011 | By: @igorpensar

Uma oração: escapei da ira

Pai. Aqui estou, pecador por minha culpa, justo pela ausência de culpa daquele que me justificou. Sei que sobre mim justamente deveria cair sua indignação. Pequei, falhei, transgredi e me rebelei. Sim, justamente sobre mim deveria vir todo zelo do Senhor, ele deveria consumir cada centímetro do que sou. Se teu fogo se voltasse contra mim, eu olharia para ele aterrorizado, mas jamais questionaria, pois seria a justa ira por minha tolice primeva.

Pai. Te chamo assim, pois por graça fui criado no justo Jesus. Por graça, tua mão salvadora, sua destra amorosa, se voltou para mim e me transportou de um reino de confusão e caos, para um reino de sentido e luz. Sim, a ira foi derramada, o fogo consumidor de sua santidade devorou... quem? O pecador? O injusto? O iníquo? Não, o Justo, o Santo, o Perfeito, o Amado... o Filho Amado: Jesus Cristo.

Sobre Ele, o Filho do teu Amor, sobre Ele derramaste pavor, para que eu, teu inimigo, aquele que te perseguia, que fugia em manobras legalistas, sombrias lógicas de compensação, folhas de figueira. Eu mesmo, este filho das vergonhas, fosse ressuscitado em novidade de vida e revestido da justiça, retidão e pureza, atribuídas a mim por meio daquele de quem fui revestido.

Sim Pai. Miserável homem que sou, mas grato homem que sou, por ter sido alcançado com tal amor, com tal graça, dádiva incondicional. Pai, obrigado pela visita de tão grande salvação. Celebro grande livramento, celebro a paz... por meus méritos? Jamais! Pelos méritos de Cristo, sempre.

Em nome de Jesus Cristo, teu Filho Amado, amém.

Igor Miguel