14 de ago de 2008 | By: @igorpensar

Intérpretes do Mundo

Por Igor Miguel

Existem ao menos duas posturas do homem diante do mundo: a ingênua e a hermenêutica. Porém, antes de definir os sujeitos envolvidos nessas duas posições existenciais, vale a pena definir a que "mundo" me refiro.

A palavra mundo acabou por se tornar um termo genérico, do tipo 1001 utilidades. Era de se esperar, que uma palavra com tanto peso, tão universal, tão abrangente, alargaria seu sentido para outras esferas.

Mundo
tem conotações muito específicas de acordo com o jargão que é utilizado. Se tal expressão é usada por geógrafos, astrônomos, filósofos, cientístas sociais, teólogos, psicólogos, matemáticos, biólogos, físicos ou químicos, ela vai se transmutar de acordo com a demanda e a estrutura semântica envolvida em cada uma dessas explicações.

Porém, mundo nesse texto, assume um sentido um tanto multidisciplinar, algo a-paradigmático, talvez. Pensa-se em mundo como a realidade chamada objetiva. O mundo da rotina, do trabalho, das relações sociais, da liturgia, dos ruídos, do diálogo e do monólogo.

Esse mundo de imagens, de cenas, de um enredo caótico, aparentemente desorganizado, alienante. Hora verde, hora cinza, hora negro, hora branco e hora azul. Mundo de luzes e de trevas, de tantos gestos, um palco.

O ingênuo é aquele que passa por isso tudo, sonolento, adormecido, entorpecido e desatento. Amarra-se à rotina, responde a seus empurrões como um gado açoitado por aguilhões. Move-se, mexe-se, desloca-se, alimenta-se e permanece ali, em silêncio, inconsciente.

O mundo para o ingênuo, não é mundo, é um vácuo amorfo, um quadro branco, sem cores, sem vida, apenas aquilo que passa tão rápido que não dá pra ver.

O hermenêuta é um outro sujeito. Homem que lê o mundo (Paulo Freire), que lê a vida, que vê as cores do arco-íris na folha branca. Ele sabe que o óbvio não é tão óbvio assim. O hermenêuta é o intéprete, aquele que decodifica, que ouve as vozes da vida, que procura sentido nos gestos mais banais, que entende o aceno das folhas, discute as frases da vida, recorta sentenças no vento e procura evidências de sua existência.

O hermenêuta aprendeu decriptografia, a arte de quebrar a senha, de burlar a esfera sólida através de suas fissuras. Imagens não são imagens, são recados muito bem dados, e ele sabe ler. O hermenêuta não ouve simplesmente, ele compreende e apreende as entrelinhas, as frases óbvias, resgata da angústia respostas, nem sempre reconfortantes, quase sempre angustiantes. Mas, as lê, sem medo. O único medo que tem é da surdez e da cegueira. O único medo que tem é da ingenuidade, de se vê apático diante de um mundo que precisa ser compreendido, julgado, criticado e pensado.

O ingênuo diz: - Por que ler, se posso ver tudo?
O hermenêuta responde: - Como podes ver, se nem tudo está escrito?

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