27 de out de 2012 | By: @igorpensar

Protestante e Católico (Universal)

"Se o protesto da reforma significa alguma coisa, então, certamente há uma dicotomia, ou no mínimo, uma diferença entre ser reformado e ser uma católico romano. Sobre isto, eu concordo plenamente. Porém, eu não acho que Roma é detentora da catolicidade. Nossa fé "católica" é a fé histórica da Igreja, enraizada nas Escrituras, recebida dos apóstolos, elucidada e articulada em credos e concílios ecumênicos, reformada em nossas confissões, com a convicção que o Espírito de Deus tem guiado a Igreja através da história. A reforma protestante não é uma "mudança de paradigma", a "emergência" de uma "nova fé". Ao invés, deveríamos ver a reforma protestante como um movimento de renovação agostiniana na Igreja Católica."* (James K.A. Smith**)

Quando Smith se refere ao termo "católico", não faz referência ao "catolicismo romano", mas ao sentido literal do termo grego katolikós (universal). A catolicidade se constitui naqueles princípios comuns que unem e definem os cristãos universalmente. O que obviamente, transcende o catolicismo romano.


A tese de Smith é que a fé protestante reformada não é um movimento "novo", mas um esforço para retomar o que há de mais universal na fé cristã clássica e histórica. A menção a Agostinho de Hipona no texto, refere-se ao esforço deste grande teólogo da Igreja, em afirmar a suficiência da graça em Cristo para salvar o pecador e sua oposição à heresia pelagiana, que insistia em uma "capacidade inata" nos homens para obedecer a Deus, e assim, serem aceitos por Ele. Tal heresia comprometia a doutrina apostólica e paulina que concebe o homem como "morto em seus delitos e pecados" (Ef 2), incapaz de se voltar para Deus, o que explicita o fato de que a salvação dependeria de uma ação soberana, procedente graciosa e exclusivamente de Deus. 

A ênfase em Cristo e na graça foi retomada por Agostinho e renovada pelo movimento protestante (lembrando que Lutero foi um monge agostiniano). Neste sentido, a catolicidade é o solus Christus (somente Cristo) e sola gratia (só a graça), como revelado nas Escrituras (sola scriptura). Exatamente, os princípios afirmados pela fé protestante. Estes seriam os elementos "católicos" da Igreja.  Desta forma, a fé reformada é católica em seu sentido mais profundo.

* Citação do texto John Calvin’s Catholic Faith.
**James K.A. Smith é uma filósofo americano, atualmente é professor de filosofia no Calvin College. Escritor profícuo, escreve sobre ortodoxia radical, cristianismo e pós-modernidade, liturgia e adoração e ética.

1 comentários:

Dionizio Neto disse...

Ótimo texto!!!