26 de jan. de 2010 | By: @igorpensar

Quando será a minha altiVEZ?

Por Igor Miguel

Já fiz algumas críticas por aqui ao individualismo moderno. Procurei demonstrar que a proposta de Adam Smith, de transformar o auto-interesse e a competitividade a força motriz do desenvolvimento humano, resultou em uma supervalorização do indivíduo.

Neste sentido, penso que a cosmovisão bíblica é novamente elucidativa. A teologia monoteísta não é individualista e nem coletivista, ela é comunitária. O comunitarismo, pressupõe que indivíduos são respeitados em sua identidade e integridade pessoal, sem que esta "individualidade", o desconecte da consciência e do senso de pertencimento a uma comunidade. O individualismo moderno propõe um retorno do sujeito para dentro de si. O direito não é voltado para o outro, mas para o direito do indivíduo. O outro não é o outro-ser, é o outro-individualmente, como mônada, e não como um ser conectado em uma rede de interdependência e parceria.

O que se vive em um mundo individualista é uma guerra de semi-deuses, uma guerra agonística entre indivíduos que se afirmam poderosos. O agonismo pode ser definido como:
... todo corpo específico aspira a tornar-se totalmente senhor do espaço e a estender sua força (sua vontade de poder), a repelir tudo o que resiste a sua expansão. Mas incessantemente choca-se com as aspirações semelhantes de outros corpos e termina por arranjar-se (“combinar-se”) com os que lhe são suficientemente homogêneos: então conspiram juntamente para conquista a potência. (Sämtliche Werke. Kritische Studienausgabe - Obras reunidas. Edição crítica (1980) - XIII,14[186]).
Agonismo é a guerra pelo poder e a modernidade fundamenta-se basicamente por esta lógica. Quando olhamos ao nosso redor ou vemos televisão, ouvimos frases ou expressões como: "competitividade", "você consegue", "você é o melhor", "faça o melhor", "tenha sucesso" e outros. Os produtos por trás desta propaganda, tornam-se objetos de desejo, pois estão ligados a uma filosofia do "poder".

Tudo na sociedade moderna depende de "corpos" que se afirmam ou procuram se afirmar sobre os outros. Lembro-me do jogo que brincava quando era criança, chamado "Quem é o chefe?", em que um grupo de crianças disputavam o topo de um monte de areia lavada. O objetivo era permanecer no pico do monte o maior tempo possível, enquanto os outros tentavam derrubá-lo de lá. Interessante, que os que estavam embaixo se articulavam para derrubar o chefe, e quando o faziam, brigavam entre si, para ver quem ficaria no pico do monte de areia. Isto ilustra a ideia de agonismo, de guerra de deuses, do neopaganismo que estamos inseridos.

A lógica é simples. Somos individualistas, doentes em nos tornarmos chefes de determinada esfera de poder. Para nos mantermos ou alcançarmos esta condição de "poder", fazemos alianças, firmamos parcerias, para alcançarmos o status desejado. As pessoas, com quem nos aliançamos são "objetos", "seres instrumentos", que só nos servem até o momento que prestam um serviço aos nossos interesses. Depois, que a posição ou determinado fim é alcançado, rapidamente esta pessoa torna-se descartável. Neste ínterim, há elogios, sorrisos, abraços, homenagens, tudo com um fim, tornar aquela pessoa "meio". Falsas demonstrações de apreço é o cúmulo da instrumentalização da afetividade. Cruel não?

Agonismo é neopaganismo, é trazer o mito da guerra dos deuses à vida humana. É a institucionalização do Olimpo. A lógica de que a briga dos deuses afeta a vida humana. Quem são os deuses ou os pretensos deuses? Nós todos que amamos a competitividade e a altivez.

Qual seria a resposta cristã a um mundo "olímpico"?

A percepção judaico-cristã não é contra o poder. O poder serve para prestar um serviço ao gênero humano. Porém, este poder é legislado por um princípio ético, de que os mais "agraciados" (aqui está a ideia reformada de graça comum) tornam-se instrumentos de justiça para os menos agraciados. O rico neste sentido, tem uma responsabilidade moral com o mais pobre. Os poderosos têm uma responsabilidade ética com os menos poderosos. O poder, neste sentido, não volta para o poderoso, nos termos de Ben Parker (tio de Petter Parker - homem aranha), "grandes poderes exigem grandes responsabilidades". Neste ponto entra a resposta judaico-cristã ao agonismo moderno: A MODÉSTIA.

Modéstia é uma virtude, uma resposta ética, que afirma um gestor soberano do poder: Deus. Deus é o Senhor que distribui autoridade na criação, Ele o faz, para que este "poder" (graça) se distribua de forma a dignificar a criação. Mas, o desejo primevo humano de ser como Deus, quebra a lógica de justiça, de que o poder não flui de homens autônomos, mas de um Deus soberano.

Por isso, o livro da Torá (Deuteronômio 17) quando legisla a realeza, afirma que o rei de Israel, deveria fazer uma cópia de próprio punho da lei, para deixar claro que a soberania do Rei é relativa à soberania de Deus. Todos nós prestaremos contas a Deus do uso que fizemos do poder que nos foi outorgado.

A melhor resposta à lógica de poder é a kenósis, sim, o esvaziamento, o exemplo de Jesus. Que possamos seguir o conselho de Paulo:

"Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou [kenósis], assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz." (Carta de Paulo aos Filipenses 2:5-8)

O homem deseja um poder que não lhe é de direito, enquanto Jesus, renunciou um poder que lhe era por natureza. Que exemplo Jesus nos deixa?
21 de jan. de 2010 | By: @igorpensar

Haiti, os amigos de Jó e a oração de Ana.

Por Igor Miguel

Como previsto, ante o terror dos tremores no Haiti, o velho debate do problema do mal é levantado. Pelos blogs encontro explicações coerentes, humildes e outras um tanto infantis, não vou mencionar a explicação relacional (open theology) e emergente, pois seria entropia.

Mas, o que me cansa um pouco, foi o que encontrei no texto de Júlio Severo intitulado "Será necessário um terremoto?", no qual o autor procura dar uma explicação causal ao que ocorreu no Haiti. Sua justificativa básica, depois de articular vários textos bíblicos, em uma forma previsivelmente fideísta, é que o problema é uma suposta maldição ligada às práticas religiosas do vodu. A causa animista, conforme o Júlio destaca em seu blog, é uma paráfrase da fala do cônsul
Gerge Samuel Antoine, que em off durante uma entrevista afirmou que o povo haitiano fora amaldiçoado por causa da "macumba". Júlio deu os mesmos motivos de Gerge aos terremotos no Haiti, exceto o argumento de sua origem negro-africana.

Vou dizer o que penso desta explicação simplista. Ou melhor, começamos por uma pergunta, bem no estilo semita de pensar. Qual macumba é mais forte que: o vodu haitiano ou o capitalismo americano? O vodu haitiano ou o marxismo tupiniquim? A corrupção moral britânica ou os feiticeiro haitianos? A idolatria ao dinheiro e ao poder de alguns segmentos evangélicos ou o feitiço haitiano? Sinceramente, se a explicação para calamidades no mundo se resumirem à macumba, então, o mundo deveria ser abalado por terremotos, destruição em massa, e haja holocausto! Qual foi a macumba que os judeus fizeram por merecer o holocausto?

Sinceramente, não dá para explicar as coisas pela lógica da batalha espiritual e da esquizofrenia pseudo-pentecostal, sinceramente não dá!

Até quando não vamos entender que o dilema de Jó é a expressão máxima de que há um Deus que está para além das racionalizações humanas. O Deus que fez Jó sofrer é o mesmo Deus que agenciou seu sofrimento, tendo em vista fins misteriosos. Enquanto os amigos de Jó, procuravam dar explicações de causa e efeito, Jó se via sob a pressão dos racionalistas de seu tempo, dos jornalistas e teólogos, o círculo de sábios que não sabiam nada relevante para seu dilema existencial.

Deus é soberano e sempre será soberano sobre todas as coisas. O povo haitiano sofre como Jó. Dá explicações causais nesta altura, desculpe-me, é ridículo. Este profetismo é irritante. Querem usar de tudo que acontece como "alavanca" evangelística, este proselitismo pragmático é fatigante. A única resposta cristã possível, seria chorar com os que choram, ajudar os que carecem de ajuda, e se colocar em uma posição humilde ante o senhorio de Deus sobre todos os fenômenos.

Ontem, orando pelo povo haitiano com minha esposa, me lembrei das palavras de Ana que dizem:
Não multipliqueis palavras de orgulho, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o SENHOR é o Deus da sabedoria e pesa todos os feitos na balança. O arco dos fortes é quebrado, porém os débeis, cingidos de força. Os que antes eram fartos hoje se alugam por pão, mas os que andavam famintos não sofrem mais fome; até a estéril tem sete filhos, e a que tinha muitos filhos perde o vigor. O SENHOR é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz subir. O SENHOR empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. Levanta o pobre do pó e, desde o monturo, exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória; porque do SENHOR são as colunas da terra, e assentou sobre elas o mundo. (1 Samuel 2:3-8 ).
O que me impressiona nesta oração, é que Ana era uma mulher que sofria com sua esterilidade. Em sua angústia, uma judia sem filhos, considerada infrutífera, ampara sua confiança em Deus, com coração modesto, ante a arrogância dos homens e o deboche de sua comunidade. Mas, sua oração é definitiva: 'não multipliques palavras de orgulho, nem coisas arrogantes', pois o mesmo Deus que tira é o que gera a vida. Ele é Senhor do faminto e do que tem pão em abundância. Ele é o Senhor que empobrece e enriquece. Ele abate príncipes e eleva humilhados. Ele é Senhor absoluto!

Enfim, se Ele fosse Deus só da coisa boa, da paz e não da guerra, da alegria e não da tristeza, da cura e não da dor, Ele não seria Deus, seria um demiurgo, um "deus" (com 'd' minúsculo), senhor de uma fatia da realidade. Como Atenas senhora só da sabedoria, ou Apolo senhor só da luz, mas o Deus de Abraão, Isaque e Jacó é Senhor de toda terra.
"Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas." (Isaías 45:7).
13 de jan. de 2010 | By: @igorpensar

Eleições: se posicionando (Parte I)

Por Igor Miguel

As eleições se aproximam e ontem, em conversa com um amigo sobre o assunto, lhe perguntei: você, enquanto cristão, como se posiciona ideologicamente ante as opções partidárias ou de candidatos nas próximas eleições?

Estou longe de ser um crítico político. Mas, sou cidadão. E em minha diversidade confessional, pertenço a uma comunidade com valores filosóficos e religiosos específicos. Neste sentido, me incomoda, e muito, as contradições existentes entre ideologia, partidarismo e candidatura. Estas coisas podiam ser uma só, mas foram compartimentadas. Um candidato pode pertencer a um partido de esquerda e ser ideologicamente liberal. Ou pode ser ideologicamente liberal e em termos práticos adotar uma postura conservadora. Ou pode ser neo-liberal e pertencer a um partido de esquerda, que só é de esquerda nos ideais, mas porta-se bem aos moldes da burguesia. A politica partidária no Brasil é uma "hidra de sete cabeças", um pandemônio.

Há alguns anos, ouvi um cientista político dizer que o Brasil não tem política partidária ou ideológica, tem política privada narcisista. De fato, o recente filme a respeito do "messias sindicalista" deixa bem claro que as intensões políticas giram em torno de sujeitos e não do agregamento de pessoas com uma determinada posição ideológica.

Apesar da descontinuidade na tríade ideologia-partidarismo-candidatura, um teísta, cristão ou judeu, deveria se posicionar politicamente a partir de pressupostos ideológicos muito claros, rejeitando qualquer pretensão partidária que esbarre em seus valores judaico-cristãos.

Isto não é moralismo. Como afirmo frequentemente neste blog, minha visão de mundo é religiosa sim! Não admito que minha teologia seja ostracizada para dentro do universo eclesiástico, ou a uma pretensa espiritualidade privada, apesar desta ser a proposta da agenda secular.

Minha visão de mundo é religiosa sim! Acredito que ela é ordeira, humanizadora, justa e que os valores da cultura judaico-cristã, desde que orientada a partir de uma tradição correta, pode desencadear transformações profundas na sociedade e cultura.

Poderia citar aqui, filósofos, teólogos e juristas judeus ou cristãos, cujos pressupostos podem iluminar um engajamento político biblicamente orientado. Quando digo biblicamente, não proponho um fideísmo obtuso, mas me refiro a valores bíblicos estruturados dentro de determinada tradição hermenêutica, pois são aplicações de valores fundamentalmente bíblicos, contextualizados a determinados desafios e demandas sócio-culturais.

Termino a primeira parte deste post, com a seguinte pergunta: é possível a elaboração de uma ideologia política para além do binarismo esquerda-direita? Existe possibilidade de um cristão se alinhar ideologicamente com partidos de orientação marxista ou liberal?

No próximo post, em continuação a este, comentarei sobre minhas impressões de um estadista holandês, cuja posição política e ideológica é extremamente esclarecedora neste sentido.

[Continua...]
7 de jan. de 2010 | By: @igorpensar

Você morrerá!

Por Igor Miguel

Eu tenho uma notícia: você morrerá!

Talvez sua resposta a esta exclamação seja: "-Tá doido? Eu não! Você que vai!". Eu responderia: "- Sim eu vou! Mas... você também irá!"

Uma outra pessoa, poderia, com um ar de deboche, dizer: "- Que novidade...". Certo, pode não haver novidade na notícia da eminente morte que pode nos acometer, mas certamente, quando ela ceifa alguém próximo de nós, ou que tínhamos vínculos afetivos relevantes, somos surpreendidos com exclamações do tipo: "- Mas ele era tão jovem!" , "- Como assim?" , "- Impossível!", "- Meu Deus!!!". São tantas exclamações e interrogações, que o ar de deboche sobre a afirmação deste texto, ante a obviedade de minha exclamação, se desfaz.

Ora, se não é a morte o fato mais ignorado por nós. Quantos de nós, ao admitirmos que a morte é um fato, sempre a vemos como uma tragédia destinada aos outros, a um não-alguém, com a imagem televisiva e virtualizada do jovem morto em um acidente de trânsito depois da balada, da família carbonizada em um acidente aéreo, no senhor que morreu com câncer de próstata, ou de uma criança assassinada por um pai que não tolerou sua incontinência urinária.

Mas, quando a morte toca nossa existência, quando acomete aquele que nos inclinávamos a ouvir e a falar, quando quase nos alcança, somos aterrorizados com a hipótese e com o fato inevitável: iremos morrer!

Torcemos para não morrer, mas torcemos mais ainda para que um ente querido não morra. Mas, se a foice da morte o acometer, que garantias tenho de que ao sair de meu trabalho hoje não morrerei com uma parada cardíaca? Nenhuma garantia! Apenas ignoro a possibilidade, apenas adormeço minha racionalidade, virtualizo a passagem da morte, transformo na sensação de um sonho interrompido pelo despertar, e sigo, sigo pra onde?

Boa pergunta! A radicalidade da morte me assombra, porém, penso que a melhor forma de lidar com a bendita morte é encará-la como uma possibilidade real. Uma possibilidade que não precisa ser temida, mas que deve ser pensada. Como compreendê-la? Como encará-la? Como abordá-la sem superstições imaginárias de agouros ou almas penadas?

A morte é um rito de superação. Violenta ou tranquila, a vida é ceifada de forma impressionante, um ponto final é colocado no texto, a biografia se encerra, não há segunda chance. A chance se encerrou, a vida é esta, e sinceramente, só podemos viver a possibilidade de uma eternidade no pós-vida, se soubermos viver a eternidade do hoje. Agostinho dizia em Confissões que o "hoje é eterno", o hoje é a única realidade, o passado é uma memória e o futuro uma possibilidade, a única realidade é o hoje, que é sempre hoje, é a única coisa que é.

Encare a morte como parte da rotina existencial, como uma oportunidade de procurar o sentido da vida, como diria o sábio Salomão:
Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria. (Eclesiastes 7:2-4).
Amanhã, farei a experiência de viver o hoje, como se fosse o último hoje, como se pudesse ser absorvido por sua eternidade, nem que eu tenha que ir a um funeral.
5 de jan. de 2010 | By: @igorpensar

A vida tem sentido?

Por Igor Miguel

Os filósofos da antiguidade dedicavam-se em organizar as perguntas e as respostas inerentes à existência humana. As perguntas clássicas giravam em torno da origem, existência e o sentido da vida humana.


A última pergunta sempre me incomodou. De alguma forma, as duas primeiras perguntas, que envolvem “de onde viemos” e “o que somos”, podem ser respondidas pela última: “para onde vamos?”.

Eis uma questão que envolve o “sentido da vida”. Neste ponto lembro-me de uma lenda judaica, que diz que enquanto estivemos no útero de nossa mãe, sabíamos todos os segredos do universo. Sabíamos o sentido da vida e toda sabedoria para lidar com a existência, porém, quando nascemos, por uma obra misteriosa, nos esquecemos de absolutamente tudo que sabíamos na vida intrauterina. A partir daí, do dia do nascimento, nos engajamos em uma missão de reconstituição dos segredos esquecidos.

Esta lenda ilustra algo interessante, a ideia judaica de que a vida tem algum sentido, que ela caminha rumo a algum tipo de realização e plenitude. O progressivo processo de desencantamento do homem (Max Weber), uma vida outrora permeada de sentido religioso, torna-se gradualmente submetida à ideia de que, a razão e a lógica, trariam todo sentido da vida. Em vários momentos os homens darão respostas diversas à “finalidade” da vida. Alguns reduzirão o destino humano à produção material, outros à realização intelectual ou mesmo à realização política. Como sempre acontece, os mecanismos modernos procuram achatar não só a existência humana, mas também, o destino (“telos” em grego) dos homens, a seus ídolos e seus pressupostos. Não é só um reducionismo do ser, do existir, mas também uma redução do propósito da existência, do sentido de vida. Em termos filosóficos, não é apenas um reducionismo ontológico, mas também teleológico.

Os relativistas, por sua vez, tendem a quebrar qualquer possibilidade de “objetivo” de “telos” (fim). Eles o fazem, partindo do pressuposto de que essa é uma maligna herança judaico-cristã que contaminou o mundo científico, e deve ser purgado, tendo em vista a elaboração de respostas científicas realmente a-religiosas. Já comentamos as recentes investigações sobre a pretensa neutralidade religiosa da ciência (Guilherme Carvalho e Roy Clouser).

O homem não está reduzido à razão, mas uma das funções de sua racionalidade é elaborar um modelo de sentido da realidade. Todos compreendem o mundo a partir de uma estrutura de crenças que orientam o comportamento humano a um determinado fim. Esse “impulso” para além, é chamado de “movimento transcendente”, o homem tende a ir para além dos fins imediatos.

O mundo moderno, centrado na lógica do consumo e da apropriação como fim humano, é desumanizador. Principalmente porque coloca um dos “meios” como “fim”, como o sentido último da vida. Ao dizer que o dinheiro é a realização, que o poder de aquisição é a resposta definitiva pra vida, os outros aspectos da vida humana são esmagados pelo peso da soberania dada à esfera financeira. Como consequência, os outros aspectos tornam-se territórios selvagens ou não civilizados, que precisam ser “domados” pelo que realmente interessa. Assim, a modernidade explora a transcendência humana, impondo uma cultura de realização definitiva na aquisição de bens, quando não, na realização estética ou enfim no uso do poder
per se. Um círculo vicioso cruel em que o consumo é retroalimentado pelo desejo de ir além.

Uma resposta seria o desenvolvimento de uma modelo de crenças alternativas, de uma estrutura de valores que considere o que é realmente relevante para o humano, aquilo que faça parte de sua humanidade em toda sua complexidade, sem absolutizar e sem ignorar quaisquer um de seus aspectos.

O salto do homem a um fim, a partir de um modelo que organize o sentido de sua vida, dá-se por meio de uma “fé radical”, uma crença, uma confiança qualitativa em algo que possa amparar sua trajetória existencial. Um alerta é que ídolos e parasitas espirituais se aproveitam desta abertura radical à fé e propõe falsos modelos orientadores da realidade, criando uma percepção distorcida do mundo, das pessoas e dos fenômenos a seu redor.

Modelos que absolutizam ou que relativizam são os mais perigosos. A percepção cristã é que a humanidade está vulgarizada e radicalmente depravada pelo mal, o misticismo judaico chamaria isso de “quebra dos vasos”, um comprometimento estrutural do mundo e dos homens. Neste caso, a única solução seria a redenção ou restituição da condição original.

O primeiro passo para acessar uma visão de mundo responsável seria adotar modelos que expõe a totalidade da depravação humana, cuja alma em desespero, só tem a opção de lançar sua fé naquele que o ama, por isso o denuncia. Um retorno radical, um arrependimento profundo, que parta da consciência de que o homem e seus feitos estão comprometidos absolutamente. Somente este “retorno”, esta
teshuvá (como diríamos em hebraico), poderia desencadear um processo de transformação profunda neste homem. Uma mudança de mente (metanóia em grego), uma quebra radical de falsos sistemas de crenças, somente isso, poderia conduzir os homens de volta ao verdadeiro sentido da vida.
4 de jan. de 2010 | By: @igorpensar

Artigo publicado em revista católica.

Venho por este post comunicar que eu e a teóloga católica, membro da Comunidade Religiosa Nova Jerusalém, Aíla L. Pinheiro de Andrade, publicamos um artigo na Revista Convergência n.426 - (Novembro de 2009 - XLIV) que é uma revista mensal da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). O título do texto é: "Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo" (Fl 2,5). No referido artigo, fazemos um levantamento sócio-cultural e religioso da Igreja Cristã em Éfeso no I Século e partindo deste substrato, contextualizamos a teologia de Paulo encontrada em sua epístola destinada a esta comunidade. O enfoque teológico está na kenósis de Cristo (no esvaziamento de Cristo) e suas implicações teológico-pastorais.

Cito o trecho da chamada da revista de autoria da Irmã Maria Juçara dos Santos, redatora da revista.

"[...] o Apóstolo Paulo tem uma recomendação bem objetivo: 'Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo'. Aíla L.P. de Andrade e Igor da Silva Miguel, abordando a missão de Paulo na cidade de Filipos, nos ajudam a rever como se dá, hoje, a evangelização nas grandes cidades. Evidenciam o que facilita e o que dificulta a ação evangelizadora nos grandes centros urbanos. O texto nos permite entrever que as dificuldades enfrentadas por Paulo não o desanimam na missão assumida. Isso nos permite lançar um olhar avaliativo para nossas reações diante dos desafios da nossa ação evangelizadora. Partindo da pessoa de Jesus, o Apóstolo das Gentes enfatiza que o sucesso de qualquer missão depende da capacidade de quem executa, esvaziar-se de si e deixar sobressair o querer de Deus, o que só é possível perceber no confronto diário com sua Palavra.
É isso! Aos que quiserem adquirir a revista na qual o artigo foi publicado, solicite-a informando-se aqui.

Abraços,
Igor Miguel
21 de dez. de 2009 | By: @igorpensar

Educação ética religiosamente neutra?

Por Igor Miguel

Lawrence Kohlberg (1927-1987) foi um psicólogo americano, envolvido com a psicologia moral, ramo da psicologia responsável pelo estudo do comportamento ético. Kohlberg estudou com Piaget, de quem recebeu profunda influência. Sua teoria procura racionalizar um "desenvolvimento" em "etapas" (como propõe a psicogênese piagetiana) da evolução moral. Kohlberg será sempre respeitado por sua empreitada, em um campo que carecia de estudos, mas naturalmente, como todo bom cientista ou pioneiro em determinado campo científico, ele não estará isento de críticas. Dentre os crítico(as) de sua teoria estão Carol Gilligan (1985) Sastre, G. (et al, 1994).

A contestação basicamente gira em torno do quesito "racionalidade", a um tipo de"construtivismo moral". A ideia de Kohlberg parece primar pela racionalidade como veículo organizador da "estrutura comportamental", sendo ela responsável por orientar determinada resposta moral à determinados dilemas éticos. Então, se um sujeito vive um conflito entre "roubar uma banana para não morrer de fome" e "não roubar a banana por causa de valores éticos", sua escolha é determinada puramente por como suas estruturas cognitivas se organizaram, influenciando sua escolha moral. O problema é que este modelo ignora um fator absurdamente poderoso, o quesito "afetividade". Em processos em que o dilema moral está posto, mescla-se com a racionalidade com aspectos da vida emotiva. Neste sentido, ocorre um "aparente paradoxo" entre "emoções racionalizadas" e "raciocínios afetados".

O apego de Kohlberg à psicogênese de J. Piaget, que por sua vez tem profunda influência do kantianismo e as pretensões de "racionalizar" fenômenos "empíricos" (fenômenos observados pelos sentidos), fará com que sua teoria ignore qualquer ruído de elementos "não-racionais" como a afetividade e a emoção.

O peso do individualismo capitalista de uma lado e os esforço iluminista de rompimento com o "moralismo religioso" do outro, trouxe alguns desconfortos à dimensão do sociedade que não podem ser descartados. Os sintomas são nítidos: a desonestidade profissional, o egoísmo, a depredação inconsequente do meio ambiente, o desrespeito à figura feminina, a erotização precoce, a falta de cidadania, a depredação e vandalismo a símbolos e espaços públicos, o conflito ético na ciência e outros dilemas, que estão sempre presentes na moderna sociedade.

A conclusão lógica é a retomada de uma educação ética, que leve em consideração o convívio do homem com os outros e com o mundo. Porém, as grandes investigações teóricas que levam em conta a "psicologia moral" ou a "educação moral", esbarram em um elemento pós-moderno: o relativismo cultural. O relativismo cultural, pressupõe que determinados comportamentos que são considerados "imorais" em uma sociedade dada, podem não ser considerados imorais em outra sociedade. Este relativismo moral, tornou-se tão generalizado, que se questiona até mesmo regras "convencionadas" ou "universalizadas". O relativismo moral (ou cultural) é uma resposta às pretensões do iluminismo, que propunha algum tipo de "moralismo universal" ou no positivismo, algum tipo de "moralidade convencional".

Há um conflito entre "relativismo" (pós-estruturalista) e "universalismo" (moderno-iluminista), como lidar com estes dilemas? Minha crítica é a um elemento excluído nos dois movimentos. O relativismo tornou-se tão generalizado, que quase não é possível pensar em "convenções" ou "pactos-sociais", pois acabam relativizando "valores" ao nível do indivíduo, o que torna a responsabilidade ética quase insustentável, pois ignora-se alguma "unidade moral". Por outro lado, o universalismo (anterior ao relativismo), pretende ser "neutro", "imparcial", o que é negado pela disparidade moral de uma cultura para outra.

Penso, que ambos os movimentos, ignoram um elemento importantíssimo, que sustentou as antigas civilizações: a ética religiosa. A tendência moderna de se criar um mundo "a-religioso", uma sociedade "secularizada", que segrega a dimensão religiosa ao espaço da Igreja, da Mesquita ou Sinagoga, é de uma pretensão irritante. A própria ideia de dar uma orientação "racional" à sociedade inclina-se à "religiosidade" ao colocar a "razão" no status de uma divindade (sem teologia explícita) ou de um poder orientador para a vida humana. Vale a leitura do artigo brilhante de Guilherme Carvalho intitulado: A Objeção Reformada ao Dogma da Autonomia Religiosa da Razão.

A neutralidade religiosa da razão é mitológica. O que é a religiosidade, se não a admissão de um "meio orientador" da existência, um sistema de crenças irrefutáveis que dão sentido à atuação e participação humana no mundo. Este "meio orientador" pode ser uma ideologia política, uma divindade, um demiurgo, um conceito, a ciência ou outros "mitos" explicativos à existência e aos fenômenos com que o homem se depara.

Alguns educadores, cuja agenda é dirigida a uma educação moral, desconsideram este elemento e para evitar quaisquer debates ou conflitos "religiosos", mesmo criticando, acabam recorrendo a uma suposta neutralidade da razão e consequentemente, uma "educação ética" a-religiosa. Ora, o crescimento do Islã, os recentes movimentos de afirmação da religiosidade cristã na Europa, o fundamentalismo cristão nos EUA, o crescimento evangélico na América Latina, são fenômenos reais, que não podem ser desconsiderados ou atropelados pela pretensa neutralidade iluminista.

Sendo assim, educadores cristãos (por exemplo), devem se articular, para propor agendas de uma formação ética judaico-cristã consistente, que dialogue com a cultura, que proponha um modus vivendi criativo, desvinculado do escolasticismo medieval, ou da síntese cristã-aristotélica, que é 'anti-cristã' neste sentido. O movimento de retomada de tradições esquecidas ou ignoradas, como a tradição reformado-calvinista, as experiências culturais como o de Abraham Kuyper (no neo-calvinismo holandês) e os movimentos de afirmação das raízes judaicas do cristianismo, são elementos que podem resultar em nova e fresca direção à formação de uma sociedade plenamente humana, pois o pretenso discurso iluminista de "neutralidade religiosa", atropelou o apelo à fé. O fenômeno religioso apegou-se à história humana com tal poder, que seria sobremodo artificial negá-la. A história prova isto!

Deus pode ter morrido, mas já pensaram na hipótese dele já ter ressuscitado?
14 de dez. de 2009 | By: @igorpensar

Cristianismo sim! Algum problema?

Por Igor Miguel


Em círculos judaicos é recorrente uma abordagem negativa a respeito do cristianismo. Às vezes tão honesta que beira à injustiça. Não há dúvidas de que judeus sofreram muitas agruras em nome de falsos seguidores de Cristo. Não há dúvidas que a Alemanha Nazista - por exemplo - era composta de mais de 50% de luteranos (claro, já identificados com um teologia liberal, em sua maioria). Parece óbvio que muito do discurso antissemita medieval sustentava-se por "frases isoladas" ou mesmo explícitas de uma postura "anti-judaica" entre alguns Pais da Igreja.

Porém, reduzir o cristianismo a falsos-cristãos, seria tão incoerente quanto reduzir o judaísmo a falsos-judeus. O joio era previsto pelo próprio Jesus, e mesmo Paulo, o apóstolo, já alertava a Igreja de Roma a respeito de uma possível jactância da parcela gentílica da Igreja em relação aos judeus (Rm 11). Ainda sim, deve-se admitir que não é surpresa, nem entre os primeiros discípulos, a existência de falsos-irmãos. No cristianismo há muitos "Judas", como no judaísmo, deve haver muitos "Tsvi Shabatai", "Saduceus Aristocratas", fundamentalistas religiosos, que desqualificam a essência do judaísmo. Reduzir da mesma forma o judaísmo a tais "sujeitos" seria desonesto.

O termo cristianismo foi usado pela primeira vez no período pós-apostólico, no II século d.C. Inácio de Antioquia, que foi responsável pelo uso inédito do termo (ao menos estes são os registros). Alguns críticos veem na criação do termo um problema para os seguidores de Jesus. Supõe-se que a procura por uma identidade, independente do judaísmo, traria prejuízos à fé chamada "cristã". Mas, como veremos, este é um receio parcialmente compreensivo, e em grande medida, exagerado.

Inácio não tinha qualquer pretensão conspiratória quando criou o termo 'cristianismo', na verdade, não havia outra opção. Desde o ano 95 d.C. quando os judeus se reuniram em Yavne (Jamnia) para um conselho que redefiniria o rumo do judaísmo pelos próximos séculos, fora elaborado mecanismos religiosos e litúrgicos para repelir a presença dos "nazarenos" (judeus crentes do I século) do círculo judaico (por exemplo a criação da Birkat Ha-Minim - Benção dos Hereges). A rejeição inicial não foi da Igreja, foi do próprio judaísmo. Se a situação era difícil para esses primeiros judeus seguidores de Jesus, o que dirá aos gentios recém chegados do paganismo. Eles eram um grupo com grandes problemas identitários: por um lado não eram judeus (pois não se submetiam à conversão formal ao judaísmo), por outro, nem eram pagãos (pois não frequentavam os cultos pagãos).

A sinagoga não queria mais os seguidores de Jesus, o mundo pagão também repelia os gentios seguidores de Jesus, a única saída seria a afirmação de uma identidade independente, tanto do mundo pagão como do judaico. Inácio, quando afirmou o aspecto "universal" (católico) da Igreja, queria deixar claro que a "Igreja" era uma instituição para além dos limites "étnicos" e das lealdades nacionalistas. Mas, 
quais foram as principais consequências da inauguração, ao menos terminológica, do cristianismo?

Consequências positivas:
a expansão da fé cristã, que sem exagero (basta uma olhadela nos atuais estudos), seria um tipo de "judaísmo minimalista" para acolhimento dos gentios à fé em Jesus e ao monoteísmo derivado deste. O cristianismo é o cumprimento das promessas de salvação universal (católica) dada aos patriarcas. De alguma maneira, a catolicidade da Igreja é abraâmica. Tal judaísmo minimalista (cristianismo) dialogava bem com as culturas pagãs, principalmente em províncias e territórios onde a sinagoga já não estava presente (países nórdicos - por exemplo).

Consequências negativas: o distanciamento da matriz hebraica produziu gradualmente um perda da cosmovisão judaica; uma cristologia excessivamente preocupada com a transcendência, ofuscando a humanidade e a identidade cultural do verbo quando se fez carne. O diálogo com a cultura grega, por vezes foi promissora, por outras vezes, a síntese entre "cristianismo" e "cultura grega" trouxe grandes problemas para o seio do cristianismo. Nada que o movimento espiritual de reforma na Igreja na cuide ao longo da história. Basta se familiarizar com os temas da teologia histórica.

Dessa forma, o cristianismo torna-se um movimento legítimo, enquanto resposta do Espírito Santo na história em um momento de tensão entre a Igreja e Sinagoga. A ruptura seria inevitável e necessária. Neste sentido, o cristianismo deve ser honrado e respeitado como um fenômeno legítimo de acolhimento e reunião das nações ao redor do Messias judeu, Jesus.

Por outro lado, o cristianismo depara-se com uma tendência mundial, de visita e releitura de sua própria fé a partir das fontes judaicas. Vários escritores judeus, protestantes, católicos e reformados, dedicam-se ao estudo da língua hebraica, da tradição rabínica, dos Manuscritos do Mar Morto e outros recursos da tradição judaica para compreender e enriquecer sua própria vivência com o cristianismo, e por que não, do próprio judaísmo?

O que quero afirmar com esse breve texto é que o cristianismo é um movimento historicamente estabelecido, levantado por crentes piedosos, que na tensão com o judaísmo, viram-se obrigados a criar um espaço de acolhimento dos gentios convertidos a fé cristã. Nem tudo que é cristão é necessariamente apostólico, como nem tudo que é judaico é necessariamente mosaico. Pois ambos, desenvolveram suas tradições. Neste sentido, Alister McGrath apresenta que a melhor forma de lidar com a tradição é compreendê-la dinamicamente. Afinal, a tradição enriquece a fé ao afirmar experiências anteriores e é enriquecida em novos contextos culturais, demandas e experiências teológicas.
A tradição é relativa à revelação.

Não obstante, o cristianismo não está isento de algum tipo de crítica histórica ou religiosa, pois há elementos heterodoxos na diversificada tradição cristã que são incompatíveis com a fé apostólica, como por exemplo: as influências do tomismo aristotélico, o neo-platonismo, o gnosticismo, o marcionismo, o arianismo, o antinomismo, o legalismo pietista e assim por diante.

O cristianismo foi o grande precursor dos direitos humanos. E, em seu formato reformado, promoveu o avanço das pesquisas científicas e da produção de riquezas. O cristianismo implantou universidades em toda Europa e nas Américas; as primeiras academias brasileiras eram confessionais. O cristianismo erradicou a confusão politeísta e expandiu um monoteísmo transformador em lugares assolados pelo caos teórico e por crenças perversas que oprimiam mulheres e escravos. O cristianismo conseguiu popularizar e cumprir em muitos lugares, como a experiência do neo-calvinismo holandês, um tipo de atuação antecipadora das profecias. Os profetas judeus jubilariam se vissem o que Abraham Kuyper realizara na Holanda e o impacto de sua visão de mundo no universo reformado.

O cristianismo criou comunidades modestas, fervorosas, pensantes, atuantes e inspiradoras como L'Abri na Suíça com a família Schaeffer. Não foi em vão que Calvino ao fazer teologia em suas Institutas, o fazia a partir das Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento), mostrando uma unidade entre os "testamentos", evitando a heresia marcionista, que ainda aterrorizava outras tradições dentro do protestantismo e do cristianismo medieval.

Penso, finalmente, que é possível uma experiência cristã real dentro do cristianismo. Uma pessoa pode desfrutar perfeitamente de Deus através da modalidade cristã de fé, pois de fato o cristianismo se estabeleceu criativamente como um movimento com tradição e espiritualidade próprias, e que vive um momento de redescoberta de suas raízes em Jerusalém, mas em um movimento que passa por Calvino, Agostinho, os Pais Capadócios, Niceia, os bispos judeus (citados por Eusébio), os apóstolos, o Messias, os profetas e a Torá
, curando assim, cismas históricos que com a ajuda da graça de Deus, em Cristo, reconcilia judeus e gentios (Ef. 2).
7 de dez. de 2009 | By: @igorpensar

Mais um golpe no deus Mamon!

Por Igor Miguel

Sob a perspectiva filosófica judaico-cristã, não se pode ignorar a santidade do trabalho. Diferente da percepção tomista medieval, o trabalho não é uma maldição, um efeito aterrador da queda sobre o homem. O trabalho existia antes do pecado de Adão e Eva. O texto bíblico diz que Deus colocou o homem no jardim para "cultivar" a terra. O termo hebraico usado para "cultivar" é leovdá [לעבדה], que é um verbo derivado do substantivo avodá [עבודה] que pode ser traduzido literalmente por "trabalho". Curiosamente, tal expressão ocorre também associada ao trabalho sacerdotal, pois de fato, o "culto" também era um tipo de "serviço".

O trabalho, no pensamento hebraico, também está ligado a ação ordenadora, de manutenção da criação. De alguma forma, o homem ao "trabalhar", cultuava seu Criador, pois ao projetar-se na criação, cultivando-a, refletia no mundo a imagem que herdara de seu Criador.

O trabalho, antes da queda, não era penoso, não era uma sujeição arbitrária e forçosa da "natureza", esperando dela algum benefício, não era uma atuação impositiva de poder e tecnologia, tendo em vista extrair da natureza bens duráveis ou alimento. Era uma gestão criativa em termos de "teo-mutua-sustentabilidade".

Os efeitos da queda sobre o trabalho são terríveis, pois a agradável permuta de criatividade entre homem e criação, torna-se uma ação penosa, dolorida e servil. O trabalho não é efeito do pecado, é parte da criação de Deus. O trabalho servil, sim, é a distorção do culto. O trabalho, após a queda, torna-se mecanismo de sustentação de uma existência humana pretensiosamente autônoma.

Os artífices, guerreiros, pecuaristas e músicos descendentes de Caim, são os homens da civilização, os tecnólogos. Criados pelo Diabo? Não, esse não cria, destrói. Criados por Deus, que soberanamente, faz uso dos efeitos da queda a seu favor. No pensamento judaico, há uma diferença entre "o mal moral" e este "impulso primitivo", esse
Yetser Ha-Rá (inclinação para o mal), que sem ele os homens não seriam comerciantes, não fariam sexo, não construiriam, não fariam arte, viveriam em eterna passividade, sem qualquer pretensão para além da letargia.

De alguma forma, esta "inclinação má" (não moralmente má), prestou um serviço que soberanamente Deus lançou mão para estabelecer o homem na cidade, tirando-o do jardim. Agora, na cidade dos homens, convivem santos e iníquos; idólatras e os amigos de Daniel. Na corte babilônica há os que se debruçam sobre as iguarias, e os que se negam comê-las. Lá no epicentro da corrupção e da altivez humana, há joelhos que não se dobram aos deuses.

Filósofos do início da modernidade, perceberam que há um impulso de auto-afirmação no homem. Adam Smith no século XVIII declara que o
auto-interesse dos homens poderia prestar um enorme serviço a favor da produção de "riquezas", com isso ele erguia a autonomia como uma virtude excelente, dando ao homem o que sempre desejara: a oportunidade de elevar-se como deus de si, senhor de posses, poderoso sobre a terra. Nasceria o individualismo.

Paralelamente, o mundo reformado e a civilização judaica, ambos dispersos pelo mundo, vendo novamente o mundo aberto, fundamentados na diligência e no mandato cultural, procuravam integrar sua espiritualidade em mundo posto, estabelecido pela recente revolução capitalista.

A diligência e a disciplina serão marcas indeléveis destes trabalhadores, criativos e engajados na transformação do mundo. Estes disciplinarão seu impulso criativo, redimindo-o, retomando a ideia bíblica, de trabalho como culto, como serviço para glorificar a Deus. Para estes homens estava claro, que o fim do trabalho não era a riqueza, mas a Glória de Deus.

Mais tarde, o secularismo se apropriaria da diligência judaico-cristã, arrancando a alma do trabalho, transformando-o em um culto obstinado pela "posse".

Entre os cristãos americanos, ainda aqueles pioneiros puritanos, havia uma ardente expectativa com a possibilidade de cultivar o novo mundo, transformando-o em um grande jardim de louvor. O impacto da ética puritana até hoje é sentido em território americano.

Mais tarde, já no avivamento encabeçado por Dwight L. Moody (1837-1899), ouvir-se-ão rumores de reuniões de orações em favor de negócios, do trabalho e pela vida financeira. Não podemos julgar a iniciativa de Moody, mas atitudes como essa, principalmente em círculos de predominância arminiana, prepararam o caminho para a tardia e idólatra teologia da prosperidade. Uma teologia conformada com o pressuposto capitalista, que associa a posse à realização humana.

E.W. Kenyon (1867-1948), admirador de D.L. Moody será o apóstolo da mentira, o criador dos ministérios "Word of Faith" (Palavra da Fé). Mais tarde, sob os auspícios do sr. Kenneth E. Hagin (1917-2003), leitor voraz dos livros de Kenyon, a teologia da prosperidade provocaria estragos incalculáveis. Do subúrbio de Tulsa em Oklahama, no
Rhema Bible Training Center (a partir de 1976), os "super-homens" e "pequenos deuses", arrasarão com a esperança simples do evangelho e com uma percepção integral da fé. Nestas escolas serão propaladas doutrinas de apropriação, de posse, de verbalizações esquizofrênicas, enriquecimento a qualquer custo, associadas a um pentecostalismo questionável.

O Brasil ignorará os pioneiros da fé, mesmo aqueles de origem pentecostal, que fizeram um importante trabalho na expansão da fé cristã-evangélica como Daniel Berg e Gunnar Vingren (início do séc. XX), ou o pioneirismo reformado realizado pela Igreja Congregacional que estabelecerá o primeiro templo evangélico em solo brasileiro (Igreja Fluminense). Ao importar o veneno idólatra dos EUA, ao tolerar o evangelho da "posse" ao invés do evangelho da "cruz", pavimentou-se o caminho para a autodestruição da Igreja Evangélica.

Se antes a Igreja Evangélica, por suas pretensões bíblicas, era questionadora, denunciadora da pobreza, da desigualdade, tornar-se-ia gradualmente meretriz do individualismo, da competitividade, da politicagem, prostituindo-se na cama dos poderosos, em orgias financeiras.

Não há um profeta? Não há um se quer? Certamente resta um remanescente que não dobrou seus joelhos a Baal. Mas, estão marginalizados, esmagados, na periferia da "Igreja Oficial", são os hereges, rebeldes e subversivos. Ainda há, pastores, pregadores e líderes, apegados a cruz, que não venderam seu sacerdócio por qualquer migalha. Porém, quase não aparecem, seus nomes, eles não estão associados aos poderosos, estão na cruz, e a cruz é sempre um escândalo.

Minha prospecção: com o recorrente questionamento e a exigência dos "membros" de comunidades evangélicas, os arautos de
Mamon (o deus da riqueza) tombarão, tropeçarão em sua ambição. Então ouviremos novamente músicas inspiradas, orações sinceras, generosidade, criatividade e submissão ao absoluto governo de Cristo sobre todos os aspectos da vida humana. Pois o Rei Jesus foi à cruz, para a Glória do Pai e o terror dos poderosos!
3 de dez. de 2009 | By: @igorpensar

DRUI é um enigma.

Por Igor Miguel

DRUI é um enigma, que se lido da forma errada é a forma certa de uma abreviação.

Há "Igrejas Evangélicas" que não são mais evangélicas. Outras podem parecer. Mas, se continuarem reproduzindo a lógica da DRUI deixarão de ser em breve. E, por que a DRUI não é mais uma "Igreja Evangélica"?

Quando se diz que uma "Igreja" é evangélica, isto significa que ela está comprometida com o evangelho. Comprometimento com o "evangelho" significa, comprometimento com a boa-nova. E qual é a "boa-nova"? A mesma que o "jovem rico" ouviu e constrangeu-se. A "boa-nova" aterrorizou o jovem de posses, pois ele não podia obter o que sabia que era "melhor", pois tinha transformado o que era "bom" em ídolo. Ele queria juntar o "útil" ao "agradável", mas a mensagem do evangelho pregado por Jesus, não consegue dividir territórios. Não porque Jesus seja "anti-social" ou não tolere vizinhos, mas porque Ele simplesmente ocupa todas as lacunas, subjuga todo os senhores e governa absolutamente.

O desafio é entender, que Jesus foi profanado por "falsos evangélicos", o uso indiscriminado de seu nome em adesivos, placas, pichações, camisas e em orações à mesa de corruptos, manchou tudo aquilo que ele significa. Jesus foi vulgarizado, virou piada, seu nome foi profanado entre as nações. E, reconstituir Jesus de sua dignidade, agora, dá trabalho. Sabe por que? Porque, estes que "dizem que são, mas não são" roubaram as vestes do rei, arrancaram sua coroa, sepultando-0 sob os escombros do altar que derrubaram, altar onde deveriam morrer.

O resultado? Uma Igreja nada evangélica, pois o evangelho tem duplo efeito: atrai os que o Pai trouxer, mas repele aqueles que não o receberão. O evangelho é loucura, escândalo, pedra de tropeço, justamente para que só os escolhidos o alcancem, e os filhos das trevas sejam repelidos. Que pretensão! A salvação pertence ao Senhor! Nossa função? Dignificar aquele que é "rocha de escândalo" e "pedra de tropeço".

Isto é o evangelho, e ser evangélico é comprometer-se com esta "boa-nova", que não ergue altares manchados pelo desejo de possuir; que não galga o sucesso humano na posse, no desempenho e na superficialidade estética.

O evangelho é uma cruz escandalosa, onde sacrifica as ambições, a vontade pessoal e as aspirações idólatras. Se um Rei da mais alta estirpe judaica foi para a cruz, o que dirá dos pretensiosos poderosos deste século?

Que sejamos pregados em cruz de humilhação, em um madeiro de dor, sepultados em túmulo inviolável, e quando estivermos prontos, quando nossa sujeira estiver sobre Ele, que as chaves da morte e do inferno sejam colocadas na fechadura e que a porta se abra, elevando dos escombros de toda esta falsidade teológica, um novo homem à imagem d'Aquele que o criou e não à imagem de seu ídolo.

Se isso é evangelho, a DRUI não é mais Igreja Evangélica, e se ser evangélico é crer nesta boa-nova aterradora, é amor e fogo consumidor, neste sentido, sou plenamente evangélico. Plenamente crucificado! Eles não são! Eles são DRUIDAS, adeptos do DRUIDISMO, que é: "... uma religião natural, da terra baseada no animismo, e não uma religião revelada (como o Islamismo ou o Cristianismo), os druidas assumem então o papel de diretores espirituais do ritual, conduzindo a realização dos ritos..."*
30 de nov. de 2009 | By: @igorpensar

Bíblia Judaica Completa - David H. Stern

Prezados leitores,

Venho por meio desta anunciar que em breve teremos a Bíblia Judaica Completa do teólogo judeu David H. Stern publicado em língua portuguesa pela Editora Vida. Como se sabe a versão previamente publicada restringia-se ao Novo Testamento, logo após, a Ed. Atos publicou o comentário. A Ed. Vida dedicou-se a traduzir a obra completa em Inglês intitulada por Complete Jewish Bible. Espero que seja um obra iluminadora daqueles que apreciam as Escrituras Sagradas sob uma ótica oriental e judaica.

Vamos aguardar a publicação!

Abraços,
Igor


27 de nov. de 2009 | By: @igorpensar

Calvino e a Lei

AS INSTITUAS DE JOÃO CALVINO - LIVRO II - CAPÍTULO VII - PARÁGRAFO 14: "A LEI ESTÁ CANCELADA NO TOCANTE À MALDIÇÃO, NÃO A SEU MAGISTÉRIO".
"Portanto, visto que agora a lei tem em relação aos fiéis o poder de exortação, não aquele poder que ate suas consciências na maldição, mas aquele que, com instar repetidamente, lhes sacode a indolência e lhes espicaça a imperfeição, enquanto querem significar sua libertação da maldição, muitos dizem que a lei (continuo falando da Lei Moral) foi suprimida aos fiéis, não significando que não mais lhes ordene o que é reto, mas somente que não mais lhes é o que lhes era antes, isto é, que não mais lhes condena e destrói a consciência, aterrando-as e confundindo-as.
E, sem dúvida, Paulo não ensina obscuramente esse cancelamento da lei. Que esse cancelamento foi também pregado pelo Senhor, disso se evidencia o fato de que ele não refutou aquela opinião de que a lei teria sido abolida por ele, a não ser que essa idéia viesse a prevalecer entre os judeus. Como, porém, não poderia ela emergir ao acaso, sem qualquer pretexto, crê-se que ela se originou de uma falsa. Primeira edição: “Pelo que, isto não refiramos a uma era única: que Davi faz permanente na meditação da Lei a vida do homem justo ...” interpretação de sua doutrina, exatamente como quase todos os erros costumeiramente se arrimam na verdade. Nós, porém, para que não tropecemos na mesma pedra, distingamos acuradamente o que foi cancelado na lei e o que permanece firme até agora.

Quando o Senhor testifica que não viera para abolir a lei, mas para cumpri-la, até que se passem o céu e a terra não deixaria fora da lei um til sem que tudo se cumpra [Mt 5.17, 18], confirma ele sobejamente que, por sua vinda, nada seria detraído da observância da lei. E com razão, uma vez que ele veio antes para este fim, a saber, para que lhe remediasse às transgressões. Por parte de Cristo, portanto, permanece inviolável o ensino da lei, a qual, instruindo, exortando, reprovando, corrigindo, nos plasma e prepara para toda obra boa."
(grifo meu)
24 de nov. de 2009 | By: @igorpensar

Espiritualidade e Dinheiro

Por Igor Miguel

Em um mundo em que o poder financeiro é um ídolo, para uma pessoa que queira manter sua espiritualidade integrada com seu estilo de vida, é fundamental fazer uso de alguns princípios. Diferente do que muitos podem imaginar, não vou escrever sobre 10 passos para ficar milionário, 7 princípios para acumular tesouros ou 666 dólares para virar uma besta quadrada. O que proponho neste breve post é expor alguns princípios éticos, que pessoalmente adoto, para lidar com a dimensão financeira da vida sem tornar o "dinheiro" e o "consumo" ídolos.

Antes de tudo, digo princípios, pois diferente do que comumente ouve-se, o salvo procura uma vida de justiça, não para se justificar, pois a justificação dá-se pelos vínculos de fé com Cristo, e a salvação é exclusivamente por graça. Neste sentido, a teologia reformada é muito elucidativa.

Porém, o salvo continua no mundo e em constante conflito com os ídolos de seu tempo, sendo assim, a experiência da salvação traduz-se em missão ou na linguagem paulino-reformada, vocação.

A ideia de vocação tem raízes no "chamamento" de Israel, a teologia de Paulo é derivada de uma tradição anterior. A presença de uma nação livre da escravidão (Egito), envolveria algum tipo missão. A libertação não é só "de", mas principalmente "para". Este "para" fala de um "fim", de um "propósito", ou em grego um "télos".

A salvação é pela graça, mas a atuação do salvo, seu papel vocacional, envolve tornar-se "servo da justiça" (Rm 6), o que significa que a atuação do vocacionado pode ser iluminada pela lei, daí o conceito de teonomia* tão propalado por teólogos reformados, que pode ser definido como:

[...] Teonomia é a legislação inspirada por Deus, estabelecida em sua soberana lei da criação... A peculiaridade do Calvinismo é a ideia de que Deus é Senhor e o legislador de todos os homens. Esta ideia pode ser encontrada em Calvino, em sua percepção da vida cristã, quando disse: "nós somos propriedades de Deus, e não somos proprietários de nós mesmo", e "deixe a Sua vontade, então, ser a influência fundamental sobre todos os nossos atos"[...]**

O homem precisa abordar as coisas e o seres da criação segundo princípios da soberania de Deus. Uma relação desorientada, pode conduzi-lo a uma experiência de "apropriação" que é idólatra. A lei regula a relação do salvo com o mundo criado, ela evita o ascetismo, que priva o homem dos desafios das bençãos do mundo criado, mas também, o protege de um apego idólatra. A lei deixa claro, quem é criatura, criação e quem é o Criador. Este é um princípio ético do calvinismo muito próximo da abordagem dos judeus chassídicos da Europa no século XVII.

Então quais princípios "teonômicos" podem ser aplicados na relação do salvo com o dinheiro?

Segue uma sugestão, são princípios que me orientam neste sentido:

1) O dinheiro não pode se tornar um ídolo, Mamom não pode ter primazia sobre Cristo;
2) O dinheiro é meio e não fim;
3) O dinheiro deve prestar um serviço à vida humana e não um de-serviço, o que significa que brigas, discórdias, avareza e outros, não podem existir na vida de um cristão, se isso acontecer, o dinheiro é um ídolo a ser quebrado;
4) Imagine-se sem dinheiro, imagine-se lesado, se isto lhe causa algum desespero, ou passa pela cabeça abandonar a Deus por causa disso, o dinheiro é um ídolo, quebre-o;
5) Não é o dinheiro que te sustenta, mas Deus. Ele o fará como quiser, com dinheiro, com maná, com trabalho, como ele quiser.
6) Meu sustento não vem do meu trabalho, vem de Deus, que pode usar o trabalho para este fim;
7) Trabalhe porque é mandamento trabalhar, o trabalho é um culto, sendo assim o faça com diligência, criatividade e dedicação, o que vem não é resultado do trabalho, mas é graça de Deus. É mandamento "seis dias trabalharás"!
8) Não lide com o dinheiro como proprietário, mas como "gestor", "administrador", faça uso inteligente, mas lembre-se que a relação de "posse" é idólatra, o princípio bíblico é de "hospitalidade", tudo que desfrutamos de Deus é por "graça", a graça do anfitrião;
9) Não se encante com os produtos na vitrine, use roupas simples, compre um carro popular, ande de bicicleta, compre uma casa simples. Crie um equilíbrio entre "dignidade" e "modéstia". É possível viver uma vida de qualidade, com um bom café da manhã, sem ter o melhor carro, a melhor casa, etc. Economize!
10) Doe, seja generoso, doe sem limites. Dê o quanto o Senhor o mover para isso.

Esses são princípios que procuro viver, que regulam meu comportamento e minha forma de ver o mundo e as riquezas. Há outros princípios secundários, mas sem dúvida, se você elaborar uma lista de princípios você será iluminado com a "lei da liberdade" e não com a "autonomia" vendida pelo ocidente. Somente o salvo em Cristo pode desfrutar da liberdade da lei. Esses princípios poderiam ser recheados de referências bíblicas, mas nascem de um ethos judaico-cristão, de uma cosmovisão fundamentalmente monoteísta.
_____________
* Teonomia: Do grego theos (Deus) + nomos (lei).
** Geesink, William (1931) (in Dutch). Gereformeerde ethiek. Kampen. p. (pages unknown).