19 de dez de 2008 | By: @igorpensar

Pensamento Complexo e um Mundo Complexo (revisado)

Por Igor Miguel

O que está acontecendo com o mundo?

Esta é um pergunta desafiadora e tem implicações profundas com nossa existência neste mundo, pois apesar de não pedirmos para nascer nele, aqui estamos e o desafio está posto. O que fazer agora, que os fatos são tão rápidos e as coisas tão complexas?

Por complexidade, entende-se a percepção de que as coisas que aí estão e os fenômenos que nos deparamos, não são tão simples como parecem. Uma gota d'água, não é uma coisa fluida, é uma composição complexa. Água para químicos é H2O, mas para os que vivem em países em que ela é escassa é sinônimo de sobrevivência e toda uma complexidade de relações que estão envolvidas no fator água.

Durante muito tempo, as coisas e os fatos eram compreendidos dentro de uma linearidade e de leis estáticas que explicavam tudo. Hoje porém, sabe-se que o elemento humano torna tudo mais profundo e com múltiplas matizes e significados.

Falar de complexidade sem evocar Edgar Morin, judeu sefardita, seria no mínimo uma ingratidão. Este filósofo e acima de tudo epistemólogo, elaborou o conceito de pensamento complexo. Basicamente, pode-se dizer que o pensamento complexo lida com a idéia de totalidade, de uma estrutura de partes que interagem e que só estão aí por causa de sua existência nas relações que a sustentam.

A grande contribuição dessa abordagem é que ao invés de se tentar organizar o que é aparentemente caótico, desorganizado, deve-se pensar o descontínuo, como algo inteligível desde que abordado dentro de uma ótica que permite sua estadia aí, na realidade.

Não poucas vezes, o ser humano lida com pequenos "incidentes" irracionais e a-matemáticos, que esbarram em sua rotina que são denominados por ele de coincidências. O que ele faz quando essas coincidências acontece? O homem elabora uma explicação artificial com ares de probabilidade para justificar o não-explicável. A isso os antigos chamavam de "milagre".

O milagre é complexo e é de uma ordem incrível, tão fascinante que não se enquadra aos modelos clássicos de racionalidade. Mas, é um fenômeno e acontece. Um acontecimento não mensurável, incalculável, mas ainda um acontecimento que conflita nossos paradigmas e nos aterroriza.

Interessante a reação do homem com as coincidências, como que por um lapso mesmo os mais céticos viram religiosos, um tipo de xamã, de místico e procura explicar de forma fantástica - ainda que na discrição de seus silenciosos pensamentos - o inexplicável. Incrível, como que neste momento, o homem remente às funções mais "primitivas" de sua mente para lidar com o caos.

O grande problema é que este pensamento dito "fantasioso" ou "místico" é de uma esfera ainda desconhecida para o homem, que prefere artificialmente ignorá-la, dando-lhe ares de infantilidade, quando na verdade é um mecanismo que ele traz desde de sua infância.

Alguns deram asas a esta "imaginação", ingenuamente e sem medo peregrinaram pelas veradas do espiritual, do misterioso e foram absorvidos pelas transcendência.

Porém outros, ao invés de lidarem com um misticismo absorvente, optaram por uma percepção religiosa com uma racionalidade típica e de natureza própria.

A experiência religiosa da fé monoteísta (em todas suas matizes) desafia o mundo a compreender o aspecto transcendente sem perder contato com a realidade. O monoteísmo toca em uma máxima filosófica paradoxal deliciosa: 'o caos ordenado'. O mundo é caótico, não porque ele está aí seguindo uma trajetória não mensurável, mas porque caminha dentro de uma racionalidade de outra natureza, seu eixo tem uma matemática sui generis, para além do que pode-se dizer ou pensar.

Este mundo complexo, mas inteligível, criou uma nova demanda sócio-cultural e um novo desafio cognitivo. O grande desafio é pensar fé, ciência, educação e filosofia a partir dessa complexidade, deste mundo de "milagres" que escapam aos critérios convencionais. A explicação não estaria nem em um misticismo espiritualista icognoscível e nem em um materialismo objetivista e quantificável.

Interessante pensar que a matemática lida geralmente com o 'ideal', mas o 'real' (natural) é cheio de interrupções, números ímpares e primos, de 7 e não de 10. Sabe-se que há um trabalho pela complexidade e pelo caos, mas até que ponto este ainda não é um serviço viciado, uma tentativa de submeter a profundidade da realidade em um tubo de ensaio?

De certa forma, Jesus estava certo quando disse: "Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele" (Mc 10:15). O que é o Reino de Deus, se não este mundo de Deus, do supervisor soberano, que colocou o mundo como um enigma e o homem como um grande curioso? Ele deu o segredo, ser como uma criança, resgatar aquele pensamento complexo, aquele desejo de explicar as coisas por sua natureza e evocar a idéia da um senhor soberano.

Pensamento complexo é pensar como uma criança nesse sentido, de se portar curiosamente e naturalmente, sem se preocupar com o que vão dizer, se recorremos a fantasias, explicações religiosas ou milagreiras. Essas coisas estão aí e os que abandonaram a infância, foram engolidos por um racionalismo sintético e artificial que não leva em conta a multiplicidade cores e matizes nesta grande bolha da vida.

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