13 de abr de 2013 | By: @igorpensar

Breve Caminhada

Por Igor Miguel

"...como estrangeiros e peregrinos no mundo..." I Pe 2:1

Peregrinação: do latim per agros, literalmente 'andar pelos campos'

Quando eu era criança, costumava deitar no chão cimentado da minha casa e olhar para o céu limpo.  Com os olhos fixos no infinito azul, me perguntava: – Será que Deus mora depois do azul?  Claro que aquele era o “grande” de uma criança, Deus não podia ser contido por algo tão limitado.  Mera filosofia infantil certamente, mas nem por isso menos consciente.  Se tudo que eu via era enorme, aquele que o criou deveria ser muito maior.  Se Deus existe, talvez eu o encontraria na infinitude, na enormidade e no mistério, talvez, depois disto tudo, ele estaria lá me esperando.  Irresistível e fascinante atração.

Em outros momentos, minhas reflexões e experiências com lupas, provocavam minha curiosidade a respeito da complexidade das coisas pequenas: formigas e pequenos insetos.  Claro que as estrelas e o escuro do céu à noite me fascinavam, mas como coisas tão insignificantes podiam ser tão sofisticadas, pensava.  Qual é o limite da pequenez?

Adorava ir à praia com uma máscara de mergulho e ver aquilo que parecia um universo paralelo: peixes, algas, ouriços, pedras, conchas e estrelas do mar, aquilo que a maioria das pessoas simplesmente ignora. Eu, com aquele simples dispositivo, me sentia alguém solitário contemplando peixes bailando como em uma coreografia harmoniosa.  O fundo do mar parece outra dimensão.

Na minha juventude, tinha medo de compartilhar minhas curiosidades, dúvidas e impressões.  Lá estava eu capturado pelo sensus divinitatis (senso da divindade), diante de um Deus que se exibe de forma estonteante.  Mas, paralelo ao fascínio, lá ia eu à escola, lugar da razão rigorosa, da lógica implacável e das explicações causais.  Tudo que era misterioso, tornou-se explicável, tudo que era belo, reduziu-se a números, frequência de luz, amido e partículas atômicas.  O único mistério que não podia ser domado por tais categorias era o amor, infelizmente, cativo pela banalização erotizante de nossa era.  O amor e o sexo pareciam fascinantes, pois me pareciam possuidores de alguma pulsão transcendente, mas se misturavam com a banalidade e as piadinhas de corredor de escola.  Até mesmo, o que me sobrara de misterioso e sacro, agora era profanado por uma cultura que adorava transgredir.

No meu mundo, pouca coisa de sagrado sobrara, apenas na Igreja, esperava encontrar algo de santo.  Lá, pessoas choravam diante do sagrado, as senhoras oravam fervorosamente, os cânticos e pregadores contagiavam corações com as narrativas bíblicas.  Aquele texto sagrado devolvera meu fascínio por Deus.  Moisés fala com Deus, os reis recebem profetas, anjos se encontram com homens, Deus se faz carne e cura cegos, paralíticos e confronta os demônios.  E mais tarde, em Apocalipse, encontram-se bestas, guerras celestiais e um Cristo vitorioso montado em um cavalo branco.  Livro fascinante este que chamam de Bíblia.

Na vida comunitária, olhava para os mais piedosos e para minha própria vida, e vivia naquela tensão interna, entre a hipocrisia e a mera reprodução da piedade.  Queria ser como aquele “irmão consagrado”, mas me faltavam recursos, a máxima paulina era insistente: eu quero fazer, mas não faço.  Até que enfim, se ergueu Cristo.

Cristo se levantou de forma incrível, fui tomado de consciência.  Jesus não me acusou de nada, eu mesmo pude ver minhas sujeiras mais profundas a partir da luz que dele emanou.  Eu andava em trevas, mas nele vi graça e verdade.  Com as mãos estendidas, não tive medo, me levantei, em lágrimas, torrentes, mas me levantei.   Por um instante, ali estava meu Senhor e meu Deus, não era uma visão, não era um sonho, nem imaginação, não era um presença empírica.  Era a narrativa de Cristo, era o Cristo ressuscitado, contado pelas Escrituras, preservado pelos mártires, anunciado pelo pregadores.  Seu Evangelho me atingiu em cheio.  Não pude resistir.  Quem ousaria resistir?

Diante do espetáculo de amor tão penetrante, só me restou uma modesta afirmação, que brotava dos lugares mais profundos da minha existência, eu simplesmente disse: – Eu creio!   Fui tomado de alegria, de plenitude, uma vontade de me entregar a tudo aquilo, deixando tudo para trás.  Eu só queria ser acolhido por aquela presença.  Quase lhe fiz uma tenda, reproduzindo a vontade dos discípulos na transfiguração.

Decidi, desde então, construir todas as minhas ações e vida, sob o Cristo inabalável, sobre a Rocha, e não na areia móvel.  Por um tempo, me aventurei, por ignorância e orgulho, em me afastar dele, tentei encontrar sentido em algo que não fosse apenas Cristo, quase fui absorvido pela mentira e a ilusão.  Mas, a aparição do pastor atrás de sua ovelha perdida, novamente, me trouxe à épocas áureas de gratidão e arrependimento.  Como o filho pródigo, corri ao encontro daquele que me chamou outrora.

Finalmente, nesta caminhada, desfrutei da verdade que Jesus e os apóstolos ensinaram:  não há nada estável no universo, tudo é volátil e fluido.  Cristo é a única coisa que se pode lançar irrestrita confiança e crédito.  Toda vitalidade e alegria procedem de uma fé resignada e insistente em Jesus.  Como ele disse:
“Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior, fluirão rios de águas vivas.” (Jo 7:38).  
E não pense que Jesus é um gênio da lâmpada que realiza todos os seus desejos idólatras.  Ele não é um ídolo ou fantoche que obedece seus caprichos religiosos.  Ele é indomável, quase selvagem, como diria C.S. Lewis.  Jesus faz o que apraz ao Pai, e nós aprendemos a tratar nossos interesses privados à boa, perfeita e agradável vontade de Deus.  Finalmente, aprende-se que liberdade autêntica só é possível nos domínios do Deus que se revela em Jesus Cristo.  Uma liberdade que se traduz na oração que o Senhor nos ensinou: “Seja feita a tua vontade!”.

Soli Deo Gloria

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