3 de dez de 2013 | By: @igorpensar

Pedagogia e Olavo de Carvalho

Por Igor Miguel

“A partir dos anos 1980, a elite esquerdista tomou posse da educação pública, aí introduzindo o sistema de alfabetização “socioconstrutivista”, concebido por pedagogos esquerdistas como Emilia Ferrero, Lev Vigotsky e Paulo Freire para implantar na mente infantil as estruturas cognitivas aptas a preparar o desenvolvimento mais ou menos espontâneo de uma cosmovisão socialista, praticamente sem necessidade de “doutrinação” explícita.”
Não é a primeira vez que encontro afirmações dessa natureza nos escritos e ditos de Olavo de Carvalho, e já adianto, já encontrei coisas muito válidas em seus dizeres.  Porém, como alguém certa vez disse a respeito de Freud: como filósofo ele foi um excelente psiquiatra.  De fato, Olavo falha muitas vezes em questões de natureza educacional, e este é o ponto que tenho que compartilhar, pois Olavo tem se tornado referência para muitos educadores que se alinham com uma tradição mais conservadora como forma de reação a uma pedagogia mais à esquerda.

O referido trecho foi publicado no Diário do Comercio em 30 de outubro de 2012, e encontra-se em um dos capítulos do recente livro do Olavo intitulado: “O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota”.   Há alguns problemas em termos de teoria educacional no excerto.  Pra começar, misturou-se teoria psicológica do desenvolvimento com método (que ele chamou de sistema) de alfabetização.  De fato, há um método de alfabetização, e não um sistema, sob influência do estruturalismo piagetino que é denominado de método construtivista, que tem sido associado corretamente com a educadora argentina Emília Ferrero.  Paulo Freire, por sua vez, não tem qualquer relação, em termos teóricos, nem com Vygotsky e tão pouco com Piaget, ele se relaciona muito mais com movimentos libertários na pedagogia e na filosofia, do que com teorias da psicologia do desenvolvimento como a epistemologia genética de Piaget ou a teoria sócio-cultural ou sócio-interacionista de Vygotsky¹.  Ainda, Olavo falha ao afirmar um sistema de alfabetização “concebido” por Vygotsky, Emilia Ferrero e Paulo Freire.  

Então, vamos lá: Vygotsky nunca “concebeu” um método de alfabetização, Emilia é proponente de um método, o construtivista; e tem-se falado de um método “Paulo Freire” de alfabetização, que é em algum sentido, o método silábico, porém ideologizado.  Mas, se existe um método Paulo Freire, ele tem pouca ou nenhuma relação com o estruturalismo de Piaget ou a abordagem sócio-cultural de Vygotsky.

Não tenho dúvida de intenções na arena educacional na tentativa de uma hegemonia teórica, principalmente oriunda daqueles mais à esquerda, e isto tem anos.  Por outro lado, de fato, a teoria vygotskiana e a piagetina, lembro-vos, teorias do desenvolvimento cognitivo, não teorias pedagógicas necessariamente, são elucidativas em diversos aspectos para explicar o fenômeno da aprendizagem. 

O problema do texto é que ele é um tanto sofismático no argumento.  Não entendi a conexão entre “estruturas cognitivas aptas” com “doutrinação”.  Repito, acho que há doutrinação sim, mas em termos teóricos, não há qualquer argumento plausível que sustente a tese de que as abordagens teóricas, tanto de Vygotsky como de Piaget, favoreçam uma abertura “cognitiva” para a doutrinação marxista.  Se ao menos isto fosse dito a respeito de Paulo Freire, mas não foi o caso.  Houve aí uma mistura de teóricos, uma falta de distinção entre método, teoria e filosofia educacionais.  Não defendendo uma neutralidade ideológica nas perspectivas desenvolvimentistas aí apresentadas, ao contrário, tenho críticas e reservas tanto a Piaget como a Vygotsky. Mas, o salto “quântico” que associa uma teoria da psicologia e intenções doutrinárias nos termos que acontecem nas escolas no Brasil, alegando um “sistema” baseado diretamente nas teorias mencionadas, em particular Vygotsky e Piaget, seria um erro crasso e grosseiro.

Ironicamente, há pouco vi um vídeo em que Olavo de Carvalho criticava a filosofia paulofreiriana², e defendia, em contrapartida, a “pedagogia” do cientista israelense Reuven Feuerstein.  Fiquei feliz dele ter feito tal menção, tenho defendido a relevância da Experiência da Aprendizagem Mediada (EAM) de Feuerstein há algum tempo, eu mesmo estive com ele pessoalmente há alguns anos em Jerusalém.  Porém, ironicamente, o próprio Feuerstein é explicitamente influenciado por Vygotsky e Piaget.  O próprio conceito de mediação é vygotskiano em certa medida, e a ideia de modificabilidade estrutural em sua teoria é oriunda do estruturalismo piagetiano.  Então veja bem, Olavo de Carvalho encontrou alguma plausibilidade na teoria de Reuven Feuerstein, mas ignorou,  em grande medida, como o cerne de sua teoria está radicado tanto no estruturalismo de Piaget, como na abordagem sócio-cultural de Vygotsky.  Para compreender a relação entre estes dois teóricos e Reuven Feuerstein, vale a pena dar uma lida no livro de Alex Kozulin: “Psychological Tools: social cultural approach in education.” 

Enfim, o que temo nisto tudo é que nesta gana de combater a imposição hegemônica do materialismo histórico dialético nas escolas, tanto em termos teóricos como metodológicos, Olavo de Carvalho, e muitos educadores conservadores, caiam em argumentos falaciosos desqualificando uma crítica apropriada ao esforço doutrinário em questão.  Repito, não se pode colocar todos os teóricos em uma única sacola, e simplesmente repudiá-los por serem soviéticos ou por terem sido cooptados por uma ala proselitista de esquerda.   O mesmo vale para cristãos que simplesmente ignoram determinados saberes teóricos produzidos por cientistas da educação ou da psicologia, por serem eles meramente não-cristãos.  Neste caso, recorro ao reformador francês, João Calvino, que assevera: “Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus.” (As Institutas da Religião Cristã, Livro II, Capítulo 2).

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¹Sem mencionar uma influência relevante que considero não-desprezível do filósofo existencialista judeu Martin Buber.  Que é precisamente o que ainda me faz ler Paulo Freire, não obstante, a maioria dos pedagogos não fazer qualquer menção a respeito desta relação.

² Lembrando que Paulo Freire não desenvolveu nenhuma teoria psicológica ou do desenvolvimento, mas uma filosofia ou visão política educacional.

8 comentários:

Guilherme Burjack disse...

Interessante a sua abordagem.

@igorpensar disse...

Obrigado Guilherme.

Rogério Bordin disse...

Muito bom. Por isso tenho dificuldade em aceitar que Olavo de Carvalho seja considerado filósofo.

Porrek disse...

Muito legal Igor!! É bom encontrar uma postura mais sensata e equilibrada. Sou psicólogo, trabalhando com crianças especiais, e muito do embasamento do meu trabalho é retirado da obra de Piaget e Vigotski (sempre tentando olhar com um "crivo" cristão). Também acho madura sua postura sobre as idéias do Olavo de Carvalho. Muitos cristão, na ânsia de fugir da doutrinação que ocorre em nosso âmbito político e educacional abraçam sem crítica as idéias de outros autores que não comungam da perspectiva cristã e criam um "polarização" na sua abordagem. Parabéns pela sabedoria!

Miguel Maues disse...

Tenho lido bastante sobre Paulo Freire e reconheço algumas críticas que ele tem sofrido, sobretudo por pensadores conservadores. "Ele não ultrapassou o pensamento cristão idealista e liberal; usa categorias marxistas em seus discursos".
Mesmo que essas críticas sejam pertinentes, é impossível negar as contribuições de Paulo Freire: a de que descoberto o caráter político da educação é preciso torná-la acessível a todas as pessoas da sociedade e não apenas a uma pequena camada de privilegiados! Paulo Freire denuncia uma educação elitista que visa apenas desenvolver a "mente" de alguns privilegiados da classe dominante e que por isso garante o status quo. A educação é um espaço de discussão que visa transformar o a realidade social. Todos somos devedores de Paulo Freire.
O resultado de nossa educação (ocupando os tristes últimos lugares da educação mundial, não pode ser imputado a Paulo Freire, pois foi contra isso que ele a vida toda lutou! Só alguém de uma mentalidade retrógrada e conservadora pode falar mal de Paulo Freire. Considero que este sujeito: Olavo de Carvalho quer aparecer às custas de Paulo Freire.

Roberto Santiago disse...

Li e reli este trecho, mas parece haver algo estranho: "Enfim, o que temo nisto tudo é que nesta gana de defender a imposição hegemônica do materialismo histórico dialético nas escolas, tanto em termos teóricos como metodológicos, Olavo de Carvalho, e muitos educadores conservadores, caiam em argumentos falaciosos, desqualificando uma crítica apropriada ao esforço doutrinário em questão."
A meu ver, Olavo de Carvalho e demais conservadores não "defendem" a " imposição hegemônica do materialismo histórico dialético nas escolas, tanto em termos teóricos como metodológicos", mas pelo contrário, a expõem à luz e a denunciam.

@igorpensar disse...

É verdade Roberto, fiz uma correção no texto. Obrigado pela observação. Abraços!

Lissa Pachalski disse...

Igor, gostei muito do teu post! Aliás, aprecio todas as tuas abordagens sobre qualquer assunto, porque apresentam um ponto de vista mais equilibrado e 'sincero' que falta a muitos por aí (e até a mim mesma).

Gostaria de fazer algumas colocações sobre teu texto, tentando articular com o que tenho aprendido na faculdade, pois sou estudante de Pedagogia – em uma universidade federal cercada e enraizada em todo aquele ideário esquerdista ao qual tu te referes aí... rsrs

Sobre a questão do "método": ótimo! Vigotsky e Piaget são teóricos do desenvolvimento humano e aprendizagem e não podem ser confundidos como proponentes de um método de alfabetização, até porque esta nunca foi a intenção inicial (nem final) de ambos, justamente porque seu objeto de pesquisa era outro. Penso também que só porque estiveram (mais Vygotsky, neste caso) imbuídos em uma visão de mundo marxista, não quer dizer que suas propostas teóricas valham nada. Isto me parece uma postura meio tola e dualista. Aliás, particularmente, a maior parte do que sei e entendo sobre aprendizagem devo à elucidação que os dois me trouxeram – com algumas reservas, claro. O problema, penso eu, é o uso que o pessoal faz destas teorias (pedagogos ou não).

Quanto à Emilia Ferreiro, não sei se seria adequado dizer que ela é "proponente de um método", porque uma de suas críticas é justamente relacionada à ênfase exagerada que era dada à questão dos métodos de alfabetização, que acabavam enrijecendo a prática docente e desconsiderando o papel do aluno no processo de aprendizagem. No Brasil, notadamente houve uma apropriação um pouco (ou muito!) indevida das suas ideias na década de 90, o que enrolou ainda mais a alfabetização no país. Agora parece, e pelo que tenho tido oportunidade de estudar, que está sendo discutida uma reapropriação da sua teoria, que seja de maneira mais coerente com o que ela realmente disse. O que te parece, Igor?

E quanto ao Paulo Freire: também concordo com o que tu disseste. E diria ainda que não vejo muito a influência de Freire tão marcadamente assim no campo da alfabetização, principalmente de crianças. Na faculdade, o máximo que li dele (de leituras obrigatórias) foram dois excertos de um dos seus livros e a ênfase dada a partir destes textos era na educação de jovens e adultos.

Enfim, não duvido das intenções de "espalhar a ideologia esquerdista" quando meus professores se propõem a ensinar e basear suas aulas nestes teóricos todos – afinal, sim, há um claro alinhamento ideológico aí. Mas acho imprudente "demonizar" e considerar inúteis as contribuições de pesquisadores como estes.