17 de jun de 2015 | By: @igorpensar

Pelo Sentido Próprio de Casamento

Por Igor Miguel

O casamento funda-se na união da diferença, uma experiência com raízes biológicas e com um fim moral, que exige um salto existencial (o homem conhecer a mulher e vice-versa) e alteridade radicais, enfatiza Roger Scruton[1]. Resultado? Família. O casamento e a família seriam instituições de produção de capital social e moral importantes para manter o tecido comunitário e evitar a atomização social. 

Considere a complexa dinâmica interdependente entre casamento e família: desejo biológico, atração bio-afetiva, pacto marital de responsabilidade mútua, conjunção carnal, alteridade social (homem e mulher), eventualmente concepção, paternidade, educação, formação moral, cognitiva e a socialização do descendente. Tal complexidade foi enfatizada pelo Rabino Jonathan Sacks em recente consulta ao Vaticano sobre a concepção judaica de família: “O que fez a família tradicional marcante foi um trabalho de alta arte religiosa, que conseguiu reunir: pulsão sexual, desejo físico, amizade, companheirismo, parceria emocional e amor, geração de filhos, sua proteção e cuidado, sua educação básica e a apropriação de uma história e uma identidade.”[2]

Se casamento é uma instituição que se projeta para a família, John Milbank[4] convoca a igreja (e por que não sinagogas e mesquitas?) a se erguer, reafirmando, fortalecendo e resguardando o sentido básico supracitado de casamento. E, este posicionamento não pode ser rotulado de homofóbico. Ao contrário, homofóbico seria inserir parceiros homoafetivos a uma instituição cuja dinâmica e natureza se constituem e dependem histórica e radicalmente da paridade biótica macho-fêmea.

O termo "casamento" não pode assumir nenhum outro sentido além ou aquém da conjunção marital, a unidade com a diferença e o fundamento da família, sendo esta a instituição responsável pela promoção de capital moral e social.  Ele não pode se transformar em mero contrato para parceria sexual definida por um projeto de "revolução afetiva", como enfatiza Guilherme de Carvalho.  Nos termos de Scruton: “o casamento deixou de ser um rito de passagem para outra e uma vida mais elevada, ao invés disso, se tornou uma espécie de carimbo burocrático com o qual se endossa nossas escolhas temporárias.”

Há uma sabedoria histórica e tradicionalmente acumulada que já demonstrou o poder social e cultural desta instituição mesmo onde o Estado sequer existia. Ressignificar ou relativizar o sentido de casamento seria ceder à pressão de uma hiper-valorização da subjetividade, uma espécie de hiper-individualismo, o que resultará em inevitável fragmentação de tudo aquilo que promove nosso senso básico de comunidade. 

Um adendo importante refere-se a anomalia que tem sido a instrumentalização do estado no sentido de ressignificar o conceito de casamento e família, como bem observa John Milbank: “há alguma coisa monstruosa sobre a afirmação do estado como tendo o poder legal para mudar a definição de uma realidade natural e cultural que historicamente precede a existência do estado em si.". O Estado não pode se valer de seu poder legal para mudar atribuições ontológicas de instituições que não dependem dele para existir.

Logra-se o “casamento gay” porque a instituição que chamamos “casamento”, fundada tradicionalmente em “uniões sexuais assimétricas”, foi minada com a desconstrução dos papéis e diferenças importantes entre homem e mulher. Como o filósofo James K.A. Smith chamou a atenção recentemente[4], desde os anos 60 nossa sociedade tem confundido a noção de uma justiça baseada na igualdade das diferenças por uma uma noção de justiça baseada na homogeneização e dissolvimento de todo tipo de diferença necessária. 

Enfim, com o enfraquecimento da alteridade radical presente no conceito tradicional de casamento compromete-se o que há de mais básico na experiência humana com a diversidade. Em outras palavras: corrói-se a forma mais germinal de toda abertura para qualquer outro tipo de diversidade em convívios humanos mais complexos. Militantes pela diversidade deveriam considerar isto com mais seriedade. O que está em pauta não é mera guerra semântica mas a tentativa intencional de mudar a atribuição de uma instituição que transcende afeições individuais e imposições estatais.

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1 comentários:

Rogerio Silva disse...

excelente texto. Brilhante