25 de abr de 2016 | By: @igorpensar

Cruz & Cuspe

Cuspir em alguém sempre foi um ato de degradação do cuspido.  Cristo foi para a cruz sob cusparadas.  A projeção do fluido corporal ao corpo alheio não é repulsivo apenas por ser nojento, mas porque comunica que o outro é desprezível, é um não-humano.  Geralmente o alvo da cusparada, para que produza efeitos depreciativos, precisa ser no rosto.  Justamente o lugar onde se estampa as reminiscências de nossa semelhança com Deus.

Insisto, uma genealogia teológica da violência (violação da dignidade alheia) remete a uma pulsão deicida e profana.  Um desejo de eliminar ou ofender a Deus projetado naquele que o alude, o próximo.  O primeiro ato de violência registrado no Livro Sagrado (Caim matou Abel) foi bem isso: um ressentimento contra Deus dirigido ao corpo do próximo.  O senso de justiça para gente que milita na força do cuspe não passa de "folhas de figueira" para dar invisibilidade a uma violência radical.  Violência combativa, mas nunca combatida.  Lamentável que corpos, genitálias e fluídos tenham se transformado em instrumentos e objetos de propaganda política. Sejam os corpos que cospem como os que são cuspidos.  Sejam os corpos torturados ou de torturadores. 

Cristo cuspiu em um pouco de barro para curar um cego, mas foi de outro fluido de seu corpo, seu sangue, que ele reconciliou homens consigo e uns com os outros.  Só lembro que Cristo abraçou na força da sua cruz cuspes e torturas, violadores e violados.  Foi assim que cada gesto de agressão, cusparadas e açoites se tornaram em gotas de graça sobre perpetradores e vítimas: "Perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem!" (Jesus).

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