6 de mai de 2016 | By: @igorpensar

Lamento e Temor

Conheço minha geração, sei que é inquieta, ela é sensível à injustiça, não suporta a contradição e o abuso de poder. Reconheço que é uma inquietação legítima, eu também não consigo ficar passivo diante de tais contradições. Na maioria das vezes resta-me somente o lamento. Eu lamento crianças cujos pais não podem ajudá-las na tarefa de casa, lamento pelo adolescente que é indisciplinado porque troca "F" com "B". Lamento a criança ou o adolescente abusado pelo namorado da mãe ou pelo próprio pai. Lamento pelo morador de rua que por causa do labirinto de uma pedra de crack ou o alcoolismo não consegue viver mais em família. Eu lamento!

Porém, temo que meu lamento se torne em revolta, e que minha inquietação se torne em puro ressentimento. Temo que meu desconforto se torne em um tipo de autocomiseração ou uma espécie de "salvação pelas obras", para que eu me sinta "moralmente" ou "espiritualmente" melhor do que os outros.

Temo que o pobre seja abstraído de suas idiossincrasias, singularidades, sua humanidade, e seja instrumentalizado por um pietismo sociológico. Temo por um enfraquecimento da centralidade e suficiência do Evangelho, como se o Evangelho não tivesse recursos suficientes para afetar o modo como lidamos com a pobreza e a vulnerabilidade.

Eu temo uma transferência do mal para o que está "lá", de maneira exógena, como se ele não estivesse "aqui", até mesmo em minha medíocre comiseração.

Nossos dias são dias de lamento e temor, compadecimento e prudência. Que nosso frágil senso de justiça não seja sequestrado por uma pulsão de revolta institucional. Que choremos pelo Templo em ruínas, como fez Jeremias, mas que tememos nossa reação. Não caiamos na utopia zelote, pois Cristo abraçou a cruz. E, antes de pensarmos sobre o que "fazer", que nossa alma inquieta descanse no que Cristo fez, pois 'sem Ele nada podemos fazer'.

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