
Pois bem, fiz a primeira contribuição a respeito de Reuven Feuerstein na wikipedia. Uma combinação do artigo em Inglês com meu projeto de monografia.
Verbete "Reuven Feuerstein" na wikipedia.
Abraços,
Igor Miguel

Por Igor Miguel
O conceito inclusão educacional, tão em voga na atualidade, tem implicações muito mais profundas do que se pode imaginar. Normalmente, tal conceito refere-se ao processo de inserção do sujeito com algum tipo de deficiência evidente como síndromes estruturais ou dificuldade de acessibilidade neuromotora-sensitiva, no espaço educacional. Porém, a inclusão fundamenta-se principalmente na chamada declaração mundial dos direitos humanos, que assevera a educação como um direito de todos.
No acesso à educação, aqueles sujeitos com “dificuldades evidentes” eram os primeiros a serem excluídos, por falta de infra-estrutura material e humana.
Ainda que de forma letárgica, a educação no Brasil caminha a passos de tartaruga, mas caminha. Dirige-se no sentido de criar espaços mais adequados e pessoas mais capacitadas para contribuir com a inclusão desses sujeitos com necessidades educacionais especiais.
Porém, há uma exclusão que ocorre no interior dos espaços educacionais, que produz um outro sujeito deslocado ou privado daquilo que é essencialmente educativo. O que dizer daqueles alunos, ditos “normais”, que sofrem uma série de distúrbios psico-afetivos, violentados, traumatizados, excluídos, ou que vivem, em ambientes hostis? O que dizer de professores que rotulam tais sujeitos de incapazes ou justificam o baixo desempenho de aprendizagem baseados em diagnósticos obscuros fundados no senso comum ou em um tipo de ingenuidade pedagógica?
Ora, o problema da exclusão não se resolve a inserção de sujeitos com necessidades educacionais especiais no espaço escolar. Professores, supervisores, orientadores e gestores em geral, podem ser agentes em potencial para excluí-los durante o processo de aprendizagem.
Turmas homogêneas, segregação de alunos com “dificuldades” de aprendizagem, deslocamento de professores ditos “pacientes” ou “bravos” para lidarem alunos indisciplinados, são mecanismos obscuros, parte de um currículo oculto, que sustenta uma exclusão interna.
Não haveria alguma possibilidade de subversão à ditadura dos rótulos ou do discurso da incompetência, da incapacidade? Será que um aluno não pode aprender ou se desenvolver cognitivamente, para além da chamada “deficiência” ou da “dificuldade escolar”?
Segundo Reuven Feuerstein sim, é possível. Este teórico da educação em seus vários anos de investigação com crianças sobreviventes de guerras, com síndromes estruturais ou imigrantes em processo de absorção cultural, afirma que é possível educar para além da deficiência.
Feuerstein escreveu um livro intitulado em inglês por: Don't acept me as I am! (Não me aceite como eu sou), referindo-se ao conformismo de pais e professores ante a deficiência de seus filhos ou alunos, sob o discurso obscuro de adaptação do mundo ao sujeito com “dificuldade”. A idéia é justamente o contrário, é não aceitar a “deficiência”.
O que se vê são estruturas, seja em âmbito familiar como escolar, que produzem nenhuma instabilidade cognitiva, ao contrário, são estruturas conformadas e conformadoras. Conformadas porque se acostumaram com o “deficiente”, e não provocam nenhuma mudança para que o referido aluno saia dessa condição. Conformadoras, porque além de se adaptar à deficiência, ainda contribuem para sua manutenção.
Dinâmicas inclusivas, precisam ser acima de tudo provocadoras, instáveis ou em outras palavras, deve conduzir o “deficiente” à mudança, à sublevação de limites impostos pela estrutura que envolve uma suposta limitação física ou psíquica.
Alunos com necessidades educacionais especiais envolve também aqueles aprendizes com dificuldades de aprendizagem, que sofrem de privação cultural, limitações cognitivas por falta de mediação, ou ainda, que demonstram clara dificuldade de aprendizagem, não porque são portadores de alguma deficiência estrutural, mas porque não foram mediados suficientes.
A ausência de sujeitos decodificadores da realidade, de mediadores humanos que se interponham entre o aluno e o mundo, interventores que expliquem a seus aprendizes como as coisas são, fornecendo-lhes ferramentas psicológicas, instrumentos para a transformação do mundo, tem provocado a exclusão desses sujeitos do processo básico da aprendizagem: o pensar.
Esses são excluídos não porque possuem algum deficiência evidente, mas por causa da baixa intencionalidade de mestres, professores, pais e mediadores naturais.
Os mentores da educação inclusiva poderiam levar em consideração o sentido amplo de inclusão, que implica na intervenção de mediadores culturais provocadores, que se coloquem em posição intermediária entre o universo dos estímulos, das relações sociais e dos conteúdos curriculares, e a vida intrasubjetvia, que envolve o pensamento desse excluídos no interior da dinâmica escolar.
A inclusão inclui ensinar à pensar!

Lá vai ela, menina que corre em terra preta,
Na educação pública - por exemplo - o que se vê são alunos que chegam à vida estudantil dos diversos espaços familiares. Muitos vivem completamente desprovidos de quaisquer "mediação cultural", não lhes são introduzidos conceitos. Elas não são mediados por pais e as vezes muito pouco por professores. Lembro-me que Reuven Feuerstein (2002) desenvolveu o conceito de "Síndrome de Privação Cultural", que não é a falta de informação ou conhecimento. Na verdade, para Feuerstein, tal síndrome caracteriza-se pela privação que certos sujeitos sofrem, quando lhes são suprimidas aqueles códigos culturais necessários para que ele pense em sua própria esfera cultural.
FEUERSTEIN, R.; FALIK, L.H.; FEUERSTEIN, R. S.; RAND, Y. The Dynamic Assessment of Cognitive Modifiability: the learning propensity assessment device: theory, instruments and techniques. Jerusalem: The ICELP Press, 2002.
VYGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
Sempre achei estranho a forma como as coisas acontecem em Minas Gerais em questão de política. Lá no Rio, com todos os problemas e transtornos, quando acontecia algum escândalo ou algum desconforto na esfera política, o esgoto era aberto e todo mundo ao menos tinha garantido o direito de saber o que estava acontecendo. Aqui em Minas Gerais, as coisas são meio obscuras, não são veiculadas de forma explícita, os movimentos são sufocados. A democracia é apenas um outro nome para um processo muito mais repressor, ao menos nestas províncias. Basta refletir sobre o que aconteceu no dia 03/03/2008 no Instituo de Geociências da UFMG.
Por isso achei por bem, republicar o manifesto da FAE/UFMG sobre a ação desnecessária, para não dizer repressora da Polícia Militar no Campus Pampulha.
Igor Miguel
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MANISFESTAÇÃO DA CONGREGAÇÃO DA FAE SOBRE A AÇÃO POLICIAL NO IGC
Fonte: http://www.fae.ufmg.br/manifesto_congrega%E7%E3o_fae.doc
A Congregação da Faculdade de Educação, reunida no dia 07/04/08, considerando os fatos ocorridos no IGC no dia 03/04/08, vem à público manifestar sua posição, nos termos que se seguem:
A ação policial de que a Universidade foi vítima é de enorme gravidade. O último precedente dessa natureza aconteceu há mais de 30 anos, na tentativa de realização do Terceiro Encontro Nacional dos Estudantes, na Faculdade de Medicina. Naquela ocasião a polícia invadiu e prendeu os estudantes, sem que nenhum ato de violência fosse praticado, dada a intervenção direta do então Reitor Eduardo Osório Cisalpino que lá esteve e saiu junto aos estudantes quando estes foram levados aos ônibus que os levariam presos. Há que se lembrar a dimensão dos fatos naquela ocasião: o terceiro ENE tentava reorganizar a UNE, banida por lei da Ditadura Militar. Tratava-se portanto de assunto de segurança nacional numa época de Ditadura.
O incidente que gerou a violência de quinta-feira era infinitamente menos grave e de pouca importância para que tivesse gerado o que gerou. Além disso, os estudantes que tentavam fazer a reunião estavam assegurados pela constituição federal, que no seu artigo 5º garante a liberdade de manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato (inciso IV); a liberdade de expressão de atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (inciso IX); e finalmente assegura que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente (inciso XVI).
Consideramos que o incidente reflete a nossa perda de identidade político-acadêmica. Transferimos nosso poder de decisão para outras instâncias. Nesse incidente, houve uma transferência de autoridade dos dirigentes para as forças repressivas (fossem essas a segurança interna ou a polícia). Estamos incorporando em nossas práticas uma visão criminalizadora da juventude, em que qualquer ato de rebeldia é identificado como ameaça à ordem pública. Excessos, radicalismos ocorrem como sempre ocorreram e ocorrerão. Mas a Universidade, e mais exatamente a UFMG, não pode pretender ser para seus alunos apenas o espaço de afirmação da excelência acadêmica. Ela tem um papel de espaço possível de exercício da rebeldia (quanto mais no mundo conformista de hoje), que atravessa a história da juventude e suas expressões.
Além disso, a polícia não pode invadir o campus sem ser convocada pelo(a) reitor(a). A universidade é território federal e a ação da polícia feriu o artigo 144º da Constituição Federal, que prevê as atribuições das diferentes forças policiais. Houve abuso de poder e extrapolação de competência nesse caso. Ao chamado, se por acaso ocorreu, a polícia deveria ter simplesmente respondido que ações na universidade são da competência da polícia federal.
Nesse sentido, a Congregação da Faculdade de Educação manifesta o apoio ao esclarecimento isento das responsabilidades pelo episódio, e solicita que seja exigido da polícia um pedido de desculpas e a apuração e possível punição dos responsáveis. Entendemos que sem esses encaminhamentos a universidade não vai poder curar sua ferida e o estado de direito que atualmente vigora na democracia brasileira terá sido violentado sem maiores conseqüências.
Sala da Congregação da Faculdade de Educação, 07 de abril de 2008
Por Igor Miguel
A palavra homem vem do latim húmus, referindo-se àquela camada orgânica do solo que a enriquece. De alguma forma, o homem é esse ser em potencial que nutre a vida de cores, de imaginação, símbolos e possibilidades.
Quando o homem deixa de ser húmus ele dá um golpe em sua própria condição fundamental. Ele procura galgar os degraus do poder e assediar os outros moralmente. Ele se torna assim, um ser truculento e amorfo. Não respira, não chora, não come, não ri e não se distrai. Ele vira uma outra espécie e torna-se o homo cúmulus.
Cúmulus vem do latim e significa aquele ponto alto, o clímax. Posição que muitos ambicionam. Ambição que resultou na mutação, o homo húmus deixou sua condição primeva e tornou-se uma subespécie. Perdeu a arte de ser modesto e sua familiaridade com o barro e o pó.
Sim! Certamente a modéstia é uma arte. Principalmente em um mundo onde todos querem se sobressair e “evoluir”. Afinal, quem correria o risco de ser excluído da cadeia alimentar?
Esse homo cúmulus é uma espécie estranha. Estranho a si mesmo e àquilo que é humano. Um ser desprovido de criatividade, de idéias e sonhos. Ele vive em um mundo sem arte, cor e sensibilidade. Ele está tão elevado em relação àqueles que o cercam, que vive só, uma espécie solitária. Ele se parece com aquele filho cujos pais não o permitem brincar na terra, pois temem que ele se suje ou contraia alguma moléstia.
O homo cúmulus é este bicho com hábitos pitorescos. Ele vive na esterilidade de uma redoma com ar-condicionado, um universo sobre-humano (ou seria desumano?) donde não quer sair. Ele perdeu o amor pela terra, perdeu o amor pelo verde e pela aventura, na verdade ele se perdeu. Criou sua selva e seu mundo, e não sabe mais de onde veio. Ele deixou de acreditar que além do azul do céu há alguma coisa ou alguém.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
O TEMPO...
Por Igor Miguel
O tempo é uma abstração paradoxalmente apropriada pelo empirísmo, já dizia Kant.
O tempo é um pedaço da eternidade que nos foi legado, limitação do ilimitado, uma amostra de como é bom viver no tempo. Como é bom, existir e deixar as impressões de um tempo, em que sempre teremos tempo. Um tempo, no qual, as horas deixarão de passar.
A passagem não fará sentido. O que fazemos com o pouco tempo que temos? Temos que cuidar bem dele. Afinal, o que fizermos com o pouco tempo, será determinante para os dias em que tempo deixará de existir. Quando enfim, estaremos imersos na infinitude da vida.
O que é o tempo, se não marcas que deixamos para não sermos engolidos pela eternidade. Todos querem a eternidade, mas muitos a temem. Temos medo de sermos engolidos por ela. A eternidade não tem escoras e marcos, tem apenas homens, homens na suavidade de um tempo perdido.
Só temos um pouco mais de tempo, porque tememos perder o pouco que temos. Nos apropriamos do tempo com tamanha ambição, que perdemos a eternidade.
Eternidade, é um status, é admitir-se senhor do tempo, é assenhorar-se daquele que tentou nos escravizar. Eternidade é liberdade, é a possibilidade de que o tempo não tem mais nada para curar.
O tempo é uma abstração, tão relativa, que as vezes sente-se que o tempo passou rápido, outras vezes, que ele parou. Quem determina o tempo se não nós. O tempo é subjetivo! Não experimentamos os segundo do prazer, e a eternidade da dor, mesmo que aconteçam em milésimos? A norma não determina o tempo, nós o determinamos, porém ao invés disso nos tornamos seus servos. Sujeitos da história, que não se assenhoriam dele. Podemos resistí-lo, mas ele estará lá, tentando novamente se assenhorá de nossa vida, tentando nos confundir.
É conflitante pensar o tempo assim: hora senhor, hora servo. Hora destino, hora livre-arbítrio. Hora Calvino, hora Armínio. Quando a hora vai passar? É melhor parar por aqui, afinal não tenho mais tempo, ou é ele que não me tem mais?