20 de jun de 2008 | By: @igorpensar

Pensamento Judaico-Cristão Ocidental

Por Igor Miguel

Não é de hoje que pensadores e filósofos percebem que a ética do ocidente tem profundas raízes na visão de mundo do judaísmo e do cristianismo seu desdobramento. Até diria mais, perdoem-me pela ousadia, o ocidente de alguma forma nasceu do conflito entre judaísmo e cristianismo.

De alguma forma, os conflitos internos, as respostas da inquirição que logo virou inquisição, o pensamento progressista de protestantes e judeus, ante à ética católica-medieval de apego à abstinência e ao ascetismo, a visão dualista de um mundo objetivo e outro subjetivo do escolasticismo, desse emaranhado de coisas, de linhas que se encontram e se desencontram, de reformas, contra-reformas, conversões forçadas e reavivamentos, nasce o ocidente.

Porém, os efeitos são diversos quando se pensa em hemisfério sul e norte. Lá, os fundamentos éticos tem raízes no puritanismo, no avivamento inglês, em um cristianismo que prima pelo comportamento e pelo "negócio*", combate a ociosidade, e evoca a criatividade dos "predestinados".

Aqui, importa-se o medievalismo, o dualismo, a desintegração da realidade, e o reducionismo eclesiológico, centrado na justificativa da pobreza como virtude, da ignorância como um dom, da sacramentalização da injustiça. Quando não, reduzem Deus a um ídolo, a um mordomo fiel, que presta serviços mágicos em nome de Mamon, no final das contas J. Knight autora da obra neo-pagã "O Segredo" tem razão quando sob posse de uma suposta entidade de Atlantida diz: "Nós somos Deus".

Me cansa essa estupidez, esse velho discurso do sr. Nimrode, a semântica da velha serpente. Derrubem os altares, saiam de Babilônia, já dizia Bob Marley parafraseando a Apocalipse de João, esta é a ordem do momento.

Doi pensar que essas são nossas raízes, dói pensar que nos foi legado a marginalização. Quem dera fossemos uma colônia holandesa, ao menos receberíamos a ética protestante, a iluminação judaica, o trabalho calvinista.

Ora, o que nos angustia é pensar que não herdamos o convívio entre judeus e gentios presente nos amigos do Norte, os representantes da eclesiologia oficial levantaram a parede de separação, e o equador sentiu os efeitos dessa aberração. Enquanto judeus e gentios andarem juntos, haverá espaço para evolução, para diálogo, para reconciliação. Um bom começo, para não dizer o fim - em sentido teleológico - seria retomar o legado dos judeus, a ética do Monte Sião, desalojar o ocidente do dualismo de plotino, afinal dizia Tertualiano: "o que tem haver Atenas com Jerusalém?", boa pergunta!

Mesmo, o crescente "avivamento" carismático católico e o neo-pentecostalimo evangélico, não dão conta da demanda ética, ou tendem a um moralismo anacrônico, ou ao liberalismo justificado pela "graça", tão profunda graça, manchada pelo antinomismo veementemente combatido por João Calvino.

Cansei de ser mal-caráter, cansei de viver uma fé desprovida de respostas objetivas, uma fé que não me liberta. A verdadeira fé tem raízes na expressão hebraica emuná que significa acima de tudo crer confiantemente e fielmente, firmeza doutrinária e ética, obediência irrestrita para aqueles que já desfrutam da condição de filhos de Deus por sola gratia.
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*No sentido de negar o ócio.

4 comentários:

Moises disse...

teólogo
muito interessante.
você ja deve ter percebido, lógico;
que o "nosso" cristianismo é uma tentativa, e no atual tempo, uma tentativa frustrada de conciliação de leis e cerimônias judaicas e costumes pagãos. o cristianismo é na verdade um verdadeiro desastre religioso. ele é tudo aquilo que cristo falou para não ser. e se é aquilo que não teria que ser, então, na verdade não passa de um não ser, metido a ser aquilo que não é. e com pessimismo que me é peculiar sobre este tema, digo, que talvez nunca será.
o que nos resta então?
sermos imitadores de cristo

tiago disse...

Shalom, Igor!

A "teologia bob marleyana" se enfatizada literalmente, é só uma repetição do chamado bíblico à pureza espiritual. É o que a Igreja precisa ouvir.

Concordo que se tivéssemos permanecido com uma colônia holandesa, provavelmente seríamos uma potência em várias áreas, principalmente na espiritual e filosóficas. Não haveria cripto-judaísmo e "marranos".

Tenho refletivo muito sobre as 2 tônicas do relacionamento do homem com D-us: AMÁ-LO E TEMÊ-LO. Muitas vezes, sob o discurso da INTIMIDADE COM DEUS, limitamo-nos a Amá-lo mas relaxamos no "Temê-lo", e aí, agimos de modo pecaminoso e "sem caráter". Se por outro lado, "O termermos", mas sem amor "De nada valeria (I Co 13)", seria uma filosofia e não um RELACIONAMENTO. O "AMOR" GUIA E PROMOVE A INTIMIDADE, O "TEMOR" SUSTENTA A INTEGRIDADE DE NOSSA PARTE COM D-US.

Seu escrito ficou muito agradável!
Um grande abraço!

Tiago

Igor Miguel disse...

Moisés, muito obrigado por seu postulado, o "pessimismo" é um realismo que dói, em gente que transforma uma fé que pensa, em entorpecente. Louvo a D'us pela sua palavra, que encara a realidade como ela é, desmascarada, desprovida de quaisquer utopia. O Reino de D'us, é a mais pura realidade, pois descontrói o que chamam de civilização, para dar espaço ao verdadeiro governo que perdemos. A Bíblia é clara, o mundo jaz no maligno, é mundo cão, mas, este mundo é outro e não aquele que D'us viu que era muito bom.

Igor Miguel disse...

Tiago,

Sua reflexão sobre "amor" e "temor" me fizeram tremer os ossos, pois comentei com meus alunos do CATES sobre justamente isso, que as pessoas justificam seus erros apelando ao "amor" de D'us, mas elas mesmas não amam ou temem a D'us suficientemente para obedecer sua "verdade", deslocam-se para uma posição ilusioriamente "confortável".

Que possamos amá-lo, mas com uma vida permeada de temor, no sentido hebraico, "y'ree" (temer ~ ver), Temor, nesse = ter consciência que se está sendo observado por D'us.