Por Igor Miguel

A primeira coisa que conversão faz, não é apenas uma mudança de "deus", mas uma mudança no sentido espiritual da relação com a divindade.
A idolatria caracteriza-se em geral por uma tentativa de criar um "deus" à imagem e semelhança do "adorador". A maioria dos "deuses" encontrados nas diversas culturas não-judaico-cristãs caracterizam-se por um tipo de "domesticação", ou seja, uma tentativa de elaborar "deuses cômodos" ou "ídolos customizáveis" que fossem adequados ou moldados à expectativa de um determinado "interesse" humano.
Em geral, os deuses são aqueles que satisfazem, primariamente, as expectativas humanas com respeito ao amor (p.ex. Eros ou Afrodite), o dinheiro (p.ex. deusa fortuna ou Tique), a guerra (p.ex. Ares ou Marte) e assim por diante. Tais divindades representam aspectos da realidade ou do mundo criado. Quando um adorador de Afrodite se curvava ou ofertava diante de sua imagem, o que se esperava no final das contas, era servir o "erotismo" de modo a obter algum tipo de sucesso sexual (reprodução ou satisfação sexual). Por isso, pode-se afirmar que idolatria é sempre um reducionismo religioso e existencial.
O problema é quando tais "devotos" se "convertem" e acabam preservando a mesma lógica em relação ao Deus bíblico. Ao invés de se curvarem à vontade deste Deus em suas atribuições, acabam por lhe dar o mesmo tratamento que davam aos ídolos.
Um filósofo moderno acha que cada homem crê necessariamente, seja em Deus, seja em “ídolos”, isto é, em algum bem finito – sua nação, sua arte, no poder, no saber, no dinheiro, no “constante triunfo com mulher” - um bem que se lhe torna absoluto e que se interpõe entre Deus e ele e que basta somente demonstrar-lhe a qualidade relativa deste bem para “destruir” os ídolos e para o ato religioso voltar, por si mesmo, ao objeto adequado. Esta concepção supõe que o contato do homem com bens finitos que ele “idolatra” é, em última análise, da mesma natureza que o contato com Deus e só difere quanto ao objeto; neste caso, a simples substituição do objeto falso pelo autêntico poderia salvar o pecador. [...] Aquele que é dominado pelo ídolo, que ele quer ganhar, possuir e reter, que é possuído pela vontade de posse, não tem outro caminho para Deus senão a conversão que é uma mudança, não somente quanto ao fim, mas também quanto ao tipo de movimento. Cura-se o possesso revelando-lhe e ensinando-lhe o verdadeiro vínculo e não orientando para Deus sua obsessão. Se alguém permanece no estado de posse, o que significa o fato de, em vez de invocar o nome de um demônio ou de um ser disfarçado em demônio, se invocar o nome de Deus? Significa que, com isso, ele blasfema. É blasfêmia quando alguém depois que o ídolo saiu atrás do altar, pretende apresentar a Deus a oferta ímpia sobre o altar profanado (Martin Buber)C.S. Lewis diria: Deus é "selvagem". Tal dito significa que Deus não é "customizável" e tão pouco "domesticável". O primeiro sinal que se está servindo o Deus bíblico é que Ele corrige os desejos para depois realizá-los. A revelação de Deus e a verdadeira conversão envolvem denúncia e reajuste das intenções do coração.
Um idólatra abomina dizer "seja feita a tua vontade". Se alguém que se diz seguidor e servo de Jesus se sente desconfortável ao pedir a vontade de Deus, pode ainda está vinculado a um deus falso ou mantém uma relação de "manipulação" e "posse", típicas da relação idolátrica.
Deve-se considerar que uma autêntica conversão é um confronto às expectativas idólatras. O Deus cristão não se submete a vontades corruptas. Quando transformam Deus em um agente de sucesso profissional ou prosperidade financeira, o que se vê, é uma relação inautêntica dirigida ao Deus autêntico. Logo, entregar-se ao Deus da Bíblia envolveria um confronto contra todas as falsas expectativas egoístas, para a partir da libertação destes ídolos, lançar-se em fé à "boa e agradável" vontade de Deus.
E finalmente, pode-se concluir que a idolatria é instável, pois fracassando o ídolo, fracassa o devoto junto com ele. A única segurança espiritual envolveria um abertura à auto-crítica e ao arrependimento genuíno. Somente assim, a alma inquieta encontrará descanso e graça. Conversão não é apenas uma mudança de divindades, mas uma alteração profunda nos vínculos e na forma de se relacionar com o verdadeiro Deus.
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