16 de ago de 2012 | By: @igorpensar

Missão e Martírio


Por Igor Miguel
Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.  Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna.  Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará. (Jo 12:24-26).
Ganhar a vida é perdê-la.  Perder a vida é inevitável.  Quem a desperdiça é aquele que a guarda, que a economiza.  Pois ao fazê-lo, acaba por entregá-la às mãos da tirania do tempo.  Ganhar a vida é perdê-la pelo bem último, pelo sentido final, o senso de eternidade, e assim reavê-la.  Os antigos chamariam de martírio.  

Martírio é testemunho, como em grego se encontra.  Martírio não é apenas ser levado à arena e ser comido por leões.  É o testemunho com a vida.  Não é fazer o que Cristo fez na cruz, mas fazer a partir do que Ele fez.  A singularidade de seu feito evoca o testemunho.  O poder da cruz convoca um exército de mártires, que não ceifam vidas, mas se entregam em missão.  Não é possível repetir a cruz, mas somente a cruz teria poder de fazer homens e mulheres se entregarem em ardente missão.

Missão e martírio sempre estiveram associados.  A missão é entregar a vida à tarefa de testemunhar o sacrifício e a ressurreição do Cristo.  A missão é no tempo e nas entranhas da deformidade, da injustiça social, das desigualdade e entre os exilados.  Tal tarefa, envolve perder fatias da própria vitalidade, entregar a própria existência em uma inevitável reprodução, apenas reprodução, da bendita cruz.

O missionário é o monge que quis transformar o mundo em paróquia, como fez John Wesley, ou o que se entregou à maestria como fez João Calvino, educando, semeando dignidade e esperança pautada no anúncio explícito, dramatizado, de que há um Senhor no mundo.
Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.  Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á.  Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? (Mt 16:24-26)
O martírio é sair semeando a vida pelo mundo, para depois sair colhendo os feixes.  A missão/martírio é uma tarefa de esvaziamento e negação de si mesmo.  Tomar a cruz, nos termos de Cristo, é assumir que, uma vez ligado a Ele, é entregue a tarefa existencial de re-dramatizar a paixão e encarnação de Jesus.

Paulo, o perseguidor, foi chamado para ser perseguido.  Sofrer em Cristo é anunciá-lo.
Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel;  pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome. (At 9:15-16)
O apóstolo dos gentios entendera até as últimas consequências o que significava tal tarefa.  A tal ponto foi unido a Cristo, que chegara a afirmar, que morrer seria ganho, enquanto o viver era Cristo (Fp 1:21).  A missão é perder para Cristo, para um ganho intraduzível, satisfação indizível, experimentada apenas por aqueles que se tornaram sacrifícios vivos.

1 comentários:

Daniel Ben Iossef disse...

Ganhar a vida é perdê-la pelo bem último, pelo sentido final, o senso de eternidade, e assim reavê-la.

Muito bom Igor! Tive que compartilhar...creio mesmo neste tempo de missões, pois os campos estão prontos para a ceifa...

Forte abraço!