19 de jan de 2013 | By: @igorpensar

Tesouros em Vasos

Por Igor Miguel


Eu me envergonho de algumas escolhas e não responsabilizo ninguém por causa delas.  Mesmo sendo um crente em um Deus soberano insisto no paradoxo calvinista: sou totalmente responsável.   Sim, sou totalmente responsável por minhas escolhas equivocadas, na verdade meus vínculos com Adão me fazem um com ele em sua escolha primeira.  Péssima escolha, minha escolha.  Vivo re-dramatizando o Éden, e isto me cansa.

Sou um desobediente compulsivo, se Deus me entregar às minhas vontades, vergonhosamente fracassarei.  Não me orgulho disso, me envergonho profundamente.  Gostaria muito de não decepcionar a Deus e as pessoas que estão perto de mim.  Tudo isto acaba se tornando em auto-decepção.  É frustrante ver a possibilidade de fazer a coisa certa, como uma coisa que está ali, e não conseguir fazê-la plenamente: "quem me livrará do corpo desta morte?" (Rm 7).

Quando consigo fazer alguma coisa certa, sou surpreendido pelo bem feito, só posso dizer graça, pois sem ela, não o faria.  Isto quando não "morro na praia" pelo orgulho de ficar naquela "piração" de achar que meus feitos são fruto de alguma "capacidade inata" ou um esforço pessoal.  Tá vendo a miséria?   

Mas, quando faço o que deveria ser feito, ocorre-me uma grande surpresa, assim de repente, como que um espanto diante do milagre.
"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós."  (II Co 4:7).
Verdade que se faço o certo, Cristo fez em mim, como um vaso de barro com um tesouro precioso.  O vaso, por si, nada é, mas por causa do tesouro, adquire dignidade.  Não por causa de si, mas pelo tesouro.  Se o tesouro se for, o vaso volta a ser simples vaso.  Desprezível novamente.  Mas, quando volta o tesouro, lá está o vaso, como um vaso ainda, mas um vaso com um tesouro.  De quem é a glória?  Do tesouro, claro, mas de um tesouro que graciosamente reside em um frágil receptáculo de barro.

Talvez a esta altura, alguém se mexa na cadeira e alegue que minha percepção sobre a humanidade seja obtusa e negativa de mais, e que nós seres-humanos temos uma dignidade.  Sim, tenho que concordar que fomos criados para uma dignidade magnífica: ser imagem de Deus.  De fato, há alguma coisa em nós que aponta para este propósito original.  Entretanto, estamos por demais enferrujados para que se perceba algum brilho de quando saímos das mãos do ourives.  É como uma quadro manchado ou uma imagem de TV cheias de interferências, há ali alguma coisa que faz sentido, algum movimento.  Dá até ansiedade.  Quando olhamos pra nós, não é como em um espelho, é como em um desenho gestáltico, procuramos formas no disforme.  Somos seres incansáveis em busca de sentido.

Mas, algum sentido pode ser encontrado.  Mesmo que nos apelidemos de gente, não há gente como Cristo.  Nele reside toda gentileza, toda condição humana.  Humanizar-se é colocar-se em Cristo, é se unir com Ele.  Como é isso?  Dá-se pela fé, em dar crédito aos feitos dele, olhar para Ele mediante a providência e reconhecer existencialmente que sem Ele não se é gente.  Apenas uma vaso de barro, mero barro.  Com Ele a humanidade brilha, a dignidade é retomada.  Sempre em Cristo, nunca fora de Cristo.   Ele é a imagem de Deus, o resplendor de sua glória, como foi dito:

"O mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos;  aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória." (Colossenses 1:26-27)

Finalmente, nossa identidade reside em Cristo, sem Cristo nada se é, apenas deformidade.  Em Cristo emerge uma biografia, história e plena existência.  Cristo é a luz que brilha e projeta o que verdadeiramente somos nele.  Tudo para a glória do Deus que se revelou em sua face.  De fato, somos transformados de glória em glória à imagem de Seu Filho.  Uma dia a obra que já consumada plenamente se revelará, o que se chama glorificação dos santos, naquele dia tudo será pleno, plena liberdade.  Mas, enquanto isto, andemos movidos pela esperança de nossa plena união com Cristo.

Soli Deo Gloria.

1 comentários:

Vítor Carvalho Ferolla disse...

“É como a luz do sol que, embora não tenha favoritos, não pode refletir-se num espelho coberto de pó com a mesma luminosidade com que se reflete num espelho limpo”. – C.S. Lewis