12 de ago. de 2007 | By: @igorpensar

CRENDO PARA PENSAR, PENSAR PARA AGIR

Uma mensagem que precisa alcançar o homem integral.

Por Igor Miguel

Este pequeno texto é uma recente síntese de minhas reflexões sobre a verdadeira espiritualidade – parafraseando Francis Schaeffer.

Desde minha experiência de regeneração, em meus memoráveis 17 anos, até meus atuais 27 anos, permanece em minha consciência a clareza de que todo discípulo do Messias Jesus está em permanente estado de transformação espiritual e intelectual. Todos nós estamos em um processo de restituição do status quo de filhos de Deus, que inclui o chamado culto racional, uma ação dinâmica de Deus pela renovação de nossos conceitos e pensamentos.

Em dias de fundamentalismo irrestrito, minhas idéias pareciam sólidas em minha paradoxal e porosa ortodoxia. Não podia dizer que minha teologia era de autoria própria ou se afinal a recebi pronta. Um dia percebi que alguns dos pilares desta suposta solidez doutrinária estavam comprometidos, pois não eram colunas, mas estanques de madeira prestes a ruir. Senti-me obrigado a removê-los aos poucos e vi parte da estrutura que compunha minha visão de mundo comprometida por causa desta provisoriedade. Mas tudo isto fazia parte de uma grande obra de restauração orquestrada pela genialidade de Deus.

Seria impossível narrar, nesta pequena produção, todo o incrível processo que vivencio de crises e sínteses culturais e espirituais. Seria impossível narrar detalhes tão subjetivos, que talvez, e na maioria dos casos é assim, só fazem sentido para mim mesmo. Espero que ao menos faça algum sentido para aqueles que lerem este texto.

Depois de paradigmas quebrados e a elaboração de novas abordagens teológicas, gostaria de expor uma tríade que sintetiza minha presente visão de fé.

Crendo

Não resta dúvida de que o homem é um ser hermenêutico, voraz intérprete da realidade e leitor assíduo do mundo em que vive. Não há um homem sequer que não se sinta impelido a questionar e a dar significado aos fenômenos que o envolvem.

De alguma forma, todos elaboram um sistema de crenças, seja a partir de uma filosofia própria ou, quase sempre, por empréstimo para interpretar a realidade. Este sistema de crenças pode ser espontâneo, sistemático ou ordenado em uma tabela de credos. De qualquer forma, todos os homens percebem a realidade em que estão inseridos a partir de uma estrutura dogmática. Assim fazem teólogos, religiosos, filósofos, cientistas, leigos e ateus. Do senso comum ao conhecimento científico, respondendo ou negando (como faz o ceticismo) os fenômenos, é sempre impossível se deparar com o mundo sem apego a crenças.

Encontramos finalmente uma ligação interessante entre "crer” e "pensar". A fé, de alguma forma, está profundamente enraizada em algum tipo de racionalidade. Nenhuma estrutura racional é totalmente desprovida de fé e nenhuma estrutura pística (que se relaciona a fé) está à margem da racionalidade.

Porém, há duas vias comumente apresentadas para lidar com a elaboração de uma cosmovisão: Percebê-la como uma estrutura rígida e estável ou como uma estrutura móvel e dinâmica. Na primeira abordagem, em casos extremos, caracteriza-se pela mente dogmática, fechada, reducionista ou legalista. Geralmente o dogmático vê-se aprisionado a um modelo fixo de percepção da realidade, não havendo espaços para resignificação ou quebra de paradigmas. Na segunda, também nos casos mais radicais, há o ultraliberal ou relativista, que descarta quaisquer referenciais teóricos, qualquer certeza. Tudo é questionável e anômico; e os conceitos são flexibilizados conforme a demanda da realidade. Geralmente pensa-se que não há alternativa, que estaremos eternamente aprisionados ao binarismo dogmatismo-relativismo.

Porém, permitam-nos a lógica do terceiro excluído. Pensemos em uma terceira via, em que nossa visão de mundo não é sustentada nem pelo dogmatismo e nem pelo relativismo. Ilustraremos esta concepção com uma árvore cujas raízes naturalmente arraigadas ao solo aprofundam dando estabilidade à árvore. Há também os galhos, que sustentam a copa, se desenvolvem em ar livre, ramificam-se livremente e podem ser podados quando necessário. Semelhantemente, devemos pensar em uma estrutura de pensamento vinculada a uma verdade sólida, em um axioma irrefutável e a partir dela criarmos uma estrutura “aérea” e dinâmica, sujeita ao crescimento livre e à poda se necessário. Uma parcela flexível, não-paradigmática, sujeita à crítica, móvel e aberta, uma esfera de resignificação.

Assim, impediremos uma credulidade sem reflexão e uma racionalidade cética, superando dualismos, como fé e razão, ortodoxia e pensamento livre, assim por diante. Enfim, teremos crentes que pensam e pensadores que crêem.

Pensando

O pensamento raramente aparece no discurso cristão da atualidade e quando abordado sempre está associado a um suposto perigo da racionalidade ou a divagações que conduzem ao pecado ou ainda o risco de perder a fé. Mas, raramente o pensamento é mencionado como um dom, uma graça comum disponibilizada para que o homem possa decodificar e interpretar o mundo e a natureza de seu criador.

Certamente são inegáveis os danos causados pela queda do homem e seu efeito sobre a racionalidade humana. O pensamento humano foi corrompido pelo pecado. Conseqüentemente seu sistema de crença está distorcido e sua intervenção na realidade também foi danificada. Estão presentes no mundo as evidências. Por exemplo, testemunhamos uma era de tecnologias avançadíssimas em capacidade, mas nunca tão agressivas à criação e ao ecossistema.

Mas não estaria na agenda de Deus a restauração de uma racionalidade integral? Não desejaria Ele restituir as estruturas do pensamento humano segundo o modelo que Ele planejou para seus filhos no Éden?

Descobri que muitas das mazelas do cristão moderno são advindas não do diabo, ou do feiticeiro, da "oração contrária", da maldição hereditária ou das crises emocionais, mas principalmente de sua mente, por um pensamento não renovado.

O cristão está sob influência de um reducionismo teológico, que insiste em limitar a ação de Deus a esferas restritas. Tratam-no com competência para administrar apenas a esfera espiritual e invisível. Ou quando não, arbitrariamente arrastam Deus (como se tal coisa fosse possível) à condição de "gênio da lâmpada" para que Ele supra às necessidades pessoais de vivência consumista tão presente no mundo ocidental. Procuram colocar Deus como servo de seus ídolos. Lastimável!

Muitos, ainda adeptos deste falso conceito, excluem a razão e a cognição (pensamento) da soberania de Deus, como se a inteligência, a lógica, a criatividade e a filosofia fossem outras coisas. Colocam a razão como uma entidade autônoma ou, no mínimo, um dom estranho e descartável em questões de fé. Neste ponto, alguns cristãos ignoram que uma fé desprovida de reflexão é contra a natureza do próprio Criador, o qual sempre interagiu com os homens preservando-lhes a consciência.

Para os apóstolos, era óbvio o interesse de Deus sobre a razão, como assevera Paulo: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12:2).

Discute-se pouco a batalha intelectual e o enfretamento que o homem, em processo de santificação, se depara continuamente. Isto é, revisão de conceitos e quebra de paradigmas de uma mente carnal não são debatidas, ao contrário, sataniza-se a realidade e transfere-se a responsabilidade, quando, na verdade, o que está envolvido é uma grande guerra de conceitos e significados.

As leis que norteiam uma mente caída precisam ser abolidas, dando lugar a uma nova estrutura de valores, como expresso pelo apóstolo: "vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros" (Rm 7:23). Por questões óbvias, os velhos sistemas da mente humana estão aprisionados a um modelo de falsos dogmas. Sendo assim, instrumentalizada pela função pedagógica da lei de Deus, a educação dos sentidos tem papel fundamental em conduzir o discípulo à plenitude do homem perfeito - os atributos máximos de Deus manifestos em um homem - JESUS.

Vivemos cercados de falsas leis-credo: a lei do mercado, a lei da moda, a lei do consumo, a lei da violência, a lei da ambição, a lei dos homens. Mas temos por certo que a “lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom" (Rm 7:12), que existem princípios normativos que sustentam uma ética divina, que me reeduca e me ensina a excelência. Isto é levar cativo todo pensamento a Cristo!

Agindo

Este é um aspecto que vem sendo ignorado pela grande maioria dos seguidores de Jesus. Parece simples, mas não é. A distorção do dogma reformado sola gracia trouxe conseqüências perturbadoras, dentre elas a anomia e conseqüentemente a dispensabilidade da ação. De fato, a salvação é um ato gracioso do Criador e não poderia ser de outra forma. Porém, uma percepção míope persiste e tem colocado os salvos em condição de inércia e passividade.

Impressiona-me a herança do idealismo grego sobre a Igreja ocidental, que insiste desde a reforma (para não dizer antes) em estabelecer um sistema de credos, uma lista sistemática de dogmas, que ao invés de expor o desenvolvimento de uma revelação processual, volta ao erro de uma dogmática rígida. Interessante, que Jesus, em seu ministério, não se preocupou em elaborar um modus fidei (modo de crer), mas procurou demonstrar um modus vivendi. Isto significa, que ele apresentou uma espiritualidade profundamente radicada à vida, ao dia-dia e ao testemunho pessoal; um evangelho que dialogava com seu tempo e o influenciava, envolvido com as questões sociais e na demanda de renovação da visão de mundo.

Angustiante pensar quantas denominações existem em território "tupiniquim" por causa desta incessante necessidade de divergência teológica. Os dogmas dividem, os paradigmas quebram vínculos, mas quem pensa em viver a fé? Se nosso credo não nos conduz a uma ação sobre o mundo, o problema pode estar “no que cremos". Dizes tu que tens fé? “Vem com a tua fé, que eu venho com a minhas obras!” Já dizia o judeu-crente Tiago. Obviamente, o apóstolo de Jerusalém estava familiarizado com o sentido hebraico de fé (hb. emuná), que se traduz como fidelidade. Para ele, baseado no pensamento judaico, o que se crê e o que se faz, são duas faces desassociáveis da mesma moeda. Não há dualismos!

Talvez aí esteja o motivo porque um país com uma população crente de mais de 30% não tem respostas concretas para a violência, a desigualdade social, o analfabetismo, a carência de descobertas científicas. Óbvio que ela não "tempera" o mundo em que está inserida. Se os efeitos não são sentidos, devemos questionar: O que será que está de errado no modelo de Igreja que temos? Desejamos sair da mediocridade, da passividade irritante que nada faz e pouco testemunho opera?

Há anos que o evangelismo dos "apelos" mancha a história da Igreja. Há uma necessidade - capitalista - de quantificar o sucesso da Igreja. Será que a Igreja do I século, tão sofrida, tão perseguida e subversiva, era tão dependente das estatísticas assim? Será que quando Lucas mencionava os números dos que iam sendo acrescentados dia a dia, estava preocupado em mostrar apenas a quantidade? Ou não estaria dizendo que sacerdotes obedeciam a fé, que vários judeus criam e eram zelosos da lei (Atos 21) e gentios piedosos davam esmolas (como Cornélio), que, além da quantidade, havia uma Igreja que se qualificava? Certamente, ele não estava preocupado em responder aos apelos modernos de um sucesso numérico, mas a uma demanda existencial, de pessoas que querem ardentemente a devolução de sua condição de Filhos de Deus. Sem dúvida, esta é uma necessidade de todos os tempos e lugares.

Enfim...

Temos que pensar nesta incrível tríade – crer-pensar-agir – do contrário, viveremos em uma nação que continuará refletindo a imagem e semelhança de nosso subdesenvolvimento espiritual. Nossas obras têm função missionária, elas anunciam aos povos o Reino de Deus, anunciam às nações o Messias que venceu a morte. Nosso comportamento é determinante para a evangelização. Muito mais importante, do que panfletos, rádios e megafones; muito mais importante do que um kerygma que não condiz com a vivência.

Desafio os crentes a pregarem o evangelho de forma alternativa. Quem estaria disposto a pregar Jesus através da ética, da generosidade, da retidão moral, do compromisso em pagar as contas em dia, da educação, da inteligência, da pontualidade, da competência profissional, acadêmica e científica?

Por isso disse o emissário aos gentios:

Vós, sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de Messias, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações (II Co 3:2-3).

Que nossa vida possa ser lida, interpretada, desvendada, para que mais pessoas sejam alcançadas para o Reino, discipuladas para também se tornarem agentes da história e não seus servos; senhores do tempo e não seus súditos, cumpridores do mandato cultural.

9 de ago. de 2007 | By: @igorpensar

SUJEITO, SUI GENERIS

Sujeito, senhor de si.
Sujeite-se! Sugere à sujeira.
Súdito, agente de si.
Ageite, agite sim!
Sui generis, súbdito subjetivo.
Enfim, é gente do seu jeito, assim.
Autor: Igor Miguel
5 de nov. de 2006 | By: @igorpensar

Educar para e pelo Pensar

Por Igor Miguel

Durante vários anos especialistas e teóricos da educação debateram sobre uma nova educação que fosse essencialmente não-ideológica, outros se posicionaram ao contrário, afirmando que esta seria uma possibilidade idealista, pois não há neutralidade no processo educativo. Sem dúvida, assumir uma postura imparcial em educação é no mínimo demagógico e necessariamente utópico.

O debate então transfere-se para uma educação pela democracia e a autonomia, que permitisse ao aluno produzir sua própria visão de mundo, levando em conta obviamente o que já vem sendo produzido em conhecimento, lançando finalmente, os fundamentos de um pensar “livre” e autogestor do saber.

Neste ponto, os paradigmas de uma educação pelo conteúdo ou “bancária” (Paulo Freire) é superada pelo “ensinar a pensar”, uma educação que procura fornecer “instrumentos” para que o sujeito se aproprie da realidade por si só. Objeta-se a construção de um sujeito crítico, perceptivo e consciente do mundo que lhe rodeia.

Existem analfabetos funcionais, mas também analfabetos sociais, sujeitos que possuem todos os códigos para descriptografar e até mesmo interpretar um texto, porém não conseguem articular o que se apropriam tendo em vista uma intervenção na realidade, uma leitura de mundo. Compreender as relações, os mecanismos de poder, a política e o que permeia sua realidade. Este sujeito, foi condicionado desde sua formação escolar à passividade, por isto está despreparado, “iletrado” (no sentido amplo), não tendo condições de se posicionar criticamente ante os estímulos que lhe rodeiam.

Propõe-se uma alfabetização social e de cunho antropológico, que se aproxime do outro sem falsos discursos de “respeito às diferenças”, mas transcenda o conforto ideológico e salte para a possibilidade da permuta, da antítese e possíveis sínteses culturais (tradução – Stuar Hall).

Ensinar a pensar é um desafio, não ceder à imposição de uma cultura educacional conteudista não é tarefa fácil. Por gerações foi forjada uma educação pelo “produto”, mas não pelo “processo”. Educar para pensar é deslocar o método dos resultados para o fluxo de micro e macro-processos responsáveis pelo pensar. Dar ferramentas e instrumentos lógicos e cognitivos para que o sujeito saiba ordenar sua realidade, este mundo de informação caótica e cumulativa.

A cultura de massa de nosso século precisa ser “pensada”, não basta ter “informações” disponíveis, é necessário trabalhá-las, julgá-las e submetê-las ao pensar, à crítica. A informação não pode ser imposta, gabando-se de verdadeira per se, antes deve ser colocada em uma malha de significados elaborado na relação autônoma e crítica do sujeito em sua posição no mundo.

Educar hoje, deve ser sim, uma educação pelo pensar. Pensar em sentido amplo.

Diversidade na Trivialidade

Por Igor Miguel
Conforme Stuart Hall a modernidade tardia - chamada questionavelmente por pós-modernidade - caracteriza-se principalmente pela fragmentação do ser e sua conseqüente crise de identidade.
O mundo globalizado, organizado a priori para propiciar a abertura de novos mercados, possibilitou também a permuta de diversas realidades culturais. Se antes a identidade era um produto elaborado provincialmente, com a relativização das fronteiras as diversas realidades culturais interpenetram-se mutuamente. Daí vislumbra-se o que se chama de modernidade tardia, que se caracteriza principalmente pela fragmentação da identidade e por esta invasão transcendente da realidade do outro. A análise stuartina pôde finalmente dar algumas respostas para a diversidade e a multifacetada estrutura cultural brasileira como veremos.
O Brasil, como se sabe, vem sendo berço cultural por longas datas, desde de sua colonização vem abrigando pessoas das mais diversas realidades culturais, sejam de ordens étnicas, nacionais ou religiosas. Temos na formação inicial das “culturas brasileiras” – pois não podemos falar de uma cultura nuclear em Stuart Hall - o intercâmbio entre colonizadores e colonizados, ainda que sob a égide exploratória, realiza-se também uma troca cultural. A relação colonizados-escravizados-colonizadores é fundacional na composição da multiplicidade da identidade brasileira.
Assim não é difícil observar a mencionada fragmentação em ambientes informais, na trivialidade, nas áreas de circulação publica, nas grandes concentrações urbanas ou mesmo em regiões rurais. Qualquer lugar pode se tornar um "laboratório antropológico”, onde se pode observar o crepúsculo de uma era. Pode-se observar as “mil-faces” do brasileiro em qualquer rodoviária, ponto de ônibus, hospital, vilas, etc.
Neste caso escolheu-se um aeroporto como cenário para esta observação, principalmente nas áreas de vôos domésticos. Refiro-me em específico ao aeroporto de Guarulhos em São Paulo, o maior aeroporto do Brasil, no qual circulam em média 100 mil pessoas diariamente, ligando a cidade a 23 países e a 75 cidades brasileiras e estrangeiras, o terminal atende hoje aproximadamente 13 milhões de pessoas por ano. E na correria frenética e nas longas esperas por conexões, muito pode ser observado, desde de um nordestino abarrotado de malas indo ou voltando, até freiras e judeus ortodoxos em perpétuo êxodo por este Brasil. Desde mulçumanos até estudantes universitários voltando de algum simpósio ou congresso.
Nestes espaços onde as mais diversas culturas se concentram, todos, de alguma maneira, fazem questão de externar sua identidade. Olha-se de um lado e vê-se um menino com traços europeus e cabelos rastafaris, no outro, meninas orientais trajando roupas de cores elétricas que mais parecem personagens de quadrinhos japoneses, vê-se um afro-descendente declarando seu orgulho trajando uma camisa escrita “100% negro”, mas com o cabelo pintado de “louro”. Todo o cenário se paralisa com a aparição de uma família mulçumana trajando turbantes e vestes longas com olhares fixos imóveis, no mesmo recinto surge um grupo de judeus ortodoxos com seus sobretudos e chapéus negros, um típico traje das comunidades judaicas do leste europeu do final do século XVIII, paradoxalmente um deles segurava um celular.
Nestes espaços, o tempo e o espaço se embaralham e se chocam. Caoticamente despadronizados, sotaques, tons de vozes e de cores se misturam. Alguns sedem a massividade, mas outros são o que são. Porém há sempre aqueles que delimitam-se dentro de seus guetos culturais, uma resistência à cultura comercializada, esta disponível em tonéis e elaborada a lá Taylor. Uns resistem, outros compartilham e alguns sedem.
Cada um vive sua realidade, mas todos absorvem indiretamente, conscientemente ou não, a realidade do outro, seja em observação distante, seja em observação científica ou mesmo na absorção consciente de um referencial cultural, um estilo de vida que responda ou apresente um utópico paraíso de respostas para tanta fragmentação. Neste ponto a identidade se estilhaça e dos cacos um outro ser vai sendo composto, um ser ímpar e singular em sua composição. Cada um com seu orgulho e cada um com o orgulho do outro. Cada um com sua auto-admiração e cada indivíduo um admirador distante. Ele é ele, mas também é o outro, pois seus mundos se interconectam, e você deixa de ser você, para ser também um todo, composto pelos fragmentos que o outro deixou.
Assim, a modernidade tardia vai se tornando este caleidoscópio, cujos movimentos vão compondo novas realidades e cores variadas. A visão iluminista de um ser estável, de uma Paidéia idealista, vai sendo corroída com as intempéries atemporais de uma modernidade que se esvai em uma ampulheta, cuja areia ao invés de descer, espirala contra a lei da gravidade.
Cada ser constrói e é construído. A identidade não é composta por um, é composta por diversas realidades, cada peça é sua, mas também não o é.
Para Baudelaire o homem moderno: “[...] vai, ele corre, ele procura. Com certeza, este homem, este solitário dotado de uma imaginação ativa, sempre viajando através do grande deserto de homens, tem um objetivo mais elevado que aquele de um puro vadio, um objetivo mais geral que vai além do prazer fugidio da circunstância. Ele procura aquela coisa que se nos permitirá chamar de Modernidade”. A sede pelo novo, o ideal, o progresso é questionável, hoje o passado cruza o presente, o presente é questionado pela incerteza do futuro, o tempo está se relativizando, por isto Foucault fez a seguinte leitura de Nietzsche: “o que anuncia o pensamento de Nietzsche é o fim de seu assassino; é o esfacelamento do rosto do homem no riso e o retorno das máscaras; é a dispersão do profundo escoar do tempo, pelo qual ele se sentia transportado e cuja pressão ele suspeitava no ser mesmo das coisas; é a identidade de Retorno do Mesmo” (Obra Palavra das Coisas). O ser é esta composição, mascarada pelos matizes dele e de outros.
29 de out. de 2006 | By: @igorpensar

Pedagogia em Crise Epistemológica e a Ciência da Educação

Por Igor Miguel

Há um movimento favorável a devolução do “objeto” da pedagogia, cuja terminologia deveria se superada por “ciência da educação”, como já acontece em vários países do mundo. O processo de apropriação do conhecimento, ou do processo de ensino e aprendizagem. Insistir o “educar” ou a “educação” como objeto, é questionável, pois diversas áreas debatem sobre a “educação”, que é muito mais um “tema filosófico” que um “objeto científico”.

Há um processo que a ciência da educação (CE) deveria se ater, o próprio processo de “apropriação do conhecimento”, a chamada aprendizagem. A CE deveria dedicar-se prioritariamente a este alvo, obviamente levando-se em conta as contribuições científicas das diversas áreas (psicologia, sociologia, filosofia, etc.) sobre temas que contribuem para o processo. Talvez haverá aqueles que argumentarão desfavoravelmente a este ponto, argumentando um possível “reducionismo”, mas não o é, neste texto propõe-se a aprendizagem como objeto epistemológico da CE, em todas suas implicações, inclusive as macro-relações envolvidas.

O que impede a elaboração de fundamentos epistemológicos da CE? São os ruídos do senso comum e a introdução de diversos pensamentos, de correntes ideológicas e de outras áreas científicas que desejavam se apropriar da chamada “pedagogia”. Resultado? Uma intensiva psicologização ou sociologização ou uma “heterointerferência” sobre a pedagogia, que aspira por ser CE.

Estas interferências são justificadas pelo discurso da “interdisciplinaridade”. Ela tem seu valor, como um princípio que leva em conta contribuições de outras ciências, para a composição epistemológica da CE. Porém, o que ocorre é uma proeminência de outros campos sobre o objeto da CE: a aprendizagem.

Sugere-se abrir debates e ampliar a discussão sobre a pedagogia e uma possível superação de seus vícios e a reflexão sobre possíveis elementos de caráter pseudocientífico. Sugere-se reabrir o debate para uma possível e definitiva superação da “pedagogia” para a CE. A crescente desvalorização do pedagogo como profissional, a redução do currículo e as recentes diretrizes do curso de pedagogia, são reflexos de que a pedagogia vem sendo destituída e desacreditada, por sua fragmentação e seu “hibridismo” gnosiológico. Somente uma reelaboração de sua estrutura epistemológica e a delimitação de seu objeto científico, e outras variáveis, poderá permitir o desenvolvimento de um CE.

Percebe-se com freqüência o discurso de profissionais da educação frustrados, que insistem na manutenção da dicotomia teoria-prática, ao reafirmarem que o que se aprende na formação (teoria) não condiz com a prática educativa em sala de aula. Em suma, a academia vem formando “pedagogos do senso comum”, menos pensadores e cientistas que refletem e produzem conhecimento sobre a educação. Não conseguem articular o conhecimento adquirido na academia, para produzir novos métodos e abordagens sobre a aprendizagem. Talvez porque o que é fornecido, seja tudo, menos Ciência da Educação.
27 de out. de 2006 | By: @igorpensar

Bom Dia

Bom dia?
Duvidoso
Bom dia...
Longo
Bom dia.
Trivialidade
Bom dia!
Bom
Autor: Igor Miguel

Diálogo e Massificação

Por Igor Miguel

Cultura massificada, mundo-mercado como retomar as abordagens clássicas da Teoria do Conhecimento, que se atêm à relação “sujeito”-“objeto”? Ao menos o que se propõe é abrir espaço para outra opção gnosiológica: o diálogo, a nova e clássica dialogicidade. Não mais a relação sujeito-objeto, mas sujeito-sujeito (Martin Buber). Não é nada novo, remonta aos tempos de Sócrates e dos antigos rabinos judeus. Quando se diz “diálogo”, não há vínculo com a percepção comum do termo, mas fala-se de método, de extensão científica e da apropriação do conhecimento em movimento intersubjetivo (Vygotsky).

O diálogo é certamente o confronto saudável e criterioso, porém com uma ética óbvia, um interesse comum: a produção mútua de saberes. Isto significa muitas vezes abrir-se ao conflito, vivenciar “tempestades de idéias”, rever dogmas ou mesmo abrir mão deles. Esta é a singularidade do diálogo como método, não se dialoga com o inanimado, neste caso o sujeito é fenômeno. O homem é humano, a cultura é humanizada, não há saberes estáticos. Há neste processo, naturalmente, uma sensação de extremo relativismo, mas aí reside o conhecer, quando a “crise” angustia. Na crise, na problematização, nas interrogações e no terreno móvel do saber, surgem paradigmas sujeitos à crítica, se sobreviverem se tornarão “paradigmas”, referenciais teóricos.
Este caráter enigmático do problema é a grande energia que move o conhecer (Mathew Lipman). Nunca em um mundo onde pseudo-saberes são impostos, houve tanta necessidade de diálogo, de submeter as diversas informações ao critério do diálogo.

Uma possível solução? Transformar os espaços públicos em arenas para o pensar, reatar vínculos intelectuais, permutas de saberes “humanos” e não estes “saberes enlatados”. Cruel mundo contemporâneo, rompeu os vínculos, corroeu o diálogo, quebrou-se a crítica e pôs fim à democracia. Democracia do diálogo, pela ditadura unilateral de um mundo midiatico. Deixa-se o desafio, de se retomar a boa conversa, não pelo simples falar, mas como método científico, produção de saber humanizado. Não uma ciência excludente, pelo contrário interativa.

A educação precisa vivenciar o diálogo, dar o último golpe na primazia do saber docente. A religião precisa de diálogo, para refletir sobre si e os outros, pensar-se. A política precisa se abrir ao diálogo, não manipular a opinião pública, antes ser democrática em si, não esta democracia representantiva (representante-ativo), mas participativa (participante-ativo). Esta participação só será possível pelo diálogo, pela abertura de fóruns e pela reformulação de uma ética coletiva, uma ética social e pelo acesso aos que detêm poder. Somente assim, teremos uma rede de debates abertos, de uma coletividade preocupada com o conhecer e não em reproduzir discursos e slogans de um mundo plástico, vendido pelo silêncio da maioria.
26 de out. de 2006 | By: @igorpensar

Caos Ordenado

O mundo é aparentemente caótico, de fato o pode ser, mas não seria um "caos ordenado", ou uma ordem aparentemente caótica? Por mais que possamos refletir sobre um mundo empírico, onde as coisas acontecem na concretude da realidade. Nosso espírito é ávido para possíveis verdades além dos "fenômenos", além dos limites impostos pelos sentidos. Talvez, há algo que rege, D'us? Possivelmente, talvez Ele esteja tão perto que não o vemos mais, talvez como o céu, que está tão perto que poucos se lembram que ele existe. Talvez, sua transcendência esteja o tempo inteiro permeado nossa realidade, nossas relações.
O mundo pode ser caótico, mas a fixidez de suas leis mostram uma ordem, um equilíbrio e ao mesmo tempo movimentos que fogem às previsões humanas. Variáveis, desconfortáveis de um mundo tão ordenado que nos parece caótico. D-us...
26 de out. de 2005 | By: @igorpensar

Conhecimento e Informação


Conhecimento no grego vem de gnosis que pode ser traduzido como "saber" ou "ciência", mas tem uma variável gnômê que pode ser traduzido como "juízo" "opinião", "conselho", "parecer", "acordo", etc. Conhecer é apropriar-se do congnocível, absorver parcialmente ou plenamente (sendo aqui idealista) um objeto ou o outro, o que está fora ou dentro dos limites de nossa observação. Conhecer no hebraico é "Yadá" que está ligado a "intimidade" esta palavra as vezes é usada com conotação sexual, dando a idéia que conhecer é transpor o véu do desconhecido, é entrar no outro, é penetrar a realidade desconhecida. Porém, quando se diz "conhecimento" trata-se do produto do ato de conhecer. Conhecer é a relação, conhecimento é o seu produto, porém está implícito no ato de conhecer que não há conhecimento passivo, este está diretamente ligado ao "ato de conhecer", e não é possível assim "receber conhecimento", o que é possível é conduzir ao conhecimento, mas esta está sempre ligada a própria intervenção do sujeito ao objeto.

Informação é formada por três palavras in + formar + ação, poderíamos dizer que informação é uma ação de interiorizar a formação. Aqui parece que há mais um caráter passivo por parte do sujeito, neste caso se quer há relação direta do sujeito com o objeto, o sujeito tem acesso ao conteúdo, e é formado pelo dado pronto, de uma "relação" prévia e universalmente ou oficialmente aceita, e este recebe este produto pronto, acabado, sem inicialmente nenhuma possibilidade de autonomia no processo que se levou ao dado "informado".