17 de fev. de 2009 | By: @igorpensar

Existe Vida Além de Vênus!

Por Igor Miguel

Já escrevi por aqui sobre como somos intérpretes do mundo e como nos deparamos com códigos culturais e valores; como lidamos com o mundo e os fenômenos a nosso redor a partir de valores que possuímos. Neste aspecto, pode-se dizer que aquilo que amamos, valorizamos e imaginamos tem grande peso sobre nosso comportamento. A doutrinação não é negativa per si, na verdade não temos muito como escapar disso. Todos os homens se comportam a partir de um ethos ἦθος, que se interpõe entre eles e o mundo.

Fui um jovem que cresceu em um lar diferente. Meus pais nunca se casaram formalmente, meu pai nunca foi um homem de valores religiosos muito bem estabelecidos e minha mãe, ao contrário, sempre foi muito ética, sua criação rigorosa e os sofrimentos que encarou na vida lhe ensinaram que a melhor forma de sobreviver no mundo dos anos 70 era enraizar sua vida pessoal naqueles valores e velhos conselhos de sua mãe.

Tenho 29 anos [este texto foi escrito em 2009], nasci no final dos anos 70, sobrevivi a era dos abortos como Moisés. Sobrevivi à subversão cultural da década de 80 e os esvaziamento das mentes adolescentes da década de 90. Tive vários amigos que se perderam no caminho e graças a um aparente fundamentalismo religioso, fui arrancado do encantamento e do entorpecimento viciante da tríade: sexo, vício e violência. Claro, não podia me esquecer, de alguma forma isso me libertou da alienação intelectual e cultural que estava inserido por ignorar o mundo ao meu redor.

Hoje, aprendo a viver e a desfrutar daqueles velhos valores que nunca deveriam ter acabado. Como é bom ser casado, ter uma esposa, [agora filhos], tomar um bom café-da-manhã, trabalhar, conviver com pessoas agradáveis, divertidas e inteligentes e o mais interessante, descobrir que a vida não é só sexo e dinheiro.

O divórcio é uma estatística da maioria, mas eu tenho o direito de não pertencer à estatística. Aquilo que acontece com a maioria não precisa ser necessariamente o que vai acontecer comigo. Não acho que sexo e dinheiro sejam fundamentais para minha existência. De fato, são periféricos. Tenho meus demônios pessoais, luto diariamente para vencê-los, mas sou livre! Optei pelo casamento clássico, planejo ter filhos, não estudo engenharia, tampouco medicina e não quero ser advogado, sem desprezar, obviamente, aqueles que assim o fizeram.

Pois bem, optei por viver uma vida de valores éticos-religiosos e acho que essa é a melhor opção. Não me considero fundamentalista, no sentido estrito do termo, apesar de possuir um personalidade radical em menor ou maior grau em alguns aspectos da vida. Mas, qual é o problema? De alguma maneira, um agnóstico é tão crente em sua descrença quanto um fundamentalista religioso. Um ateu é tão convicto da não existência de Deus como qualquer teísta crédulo. Não haveria nisso um "q" de radicalidade?

Não acredito em neutralidade ideológica e tampouco religiosa, como qualquer pessoa com um pouco de senso filosófico. Por isso, procuro compreender o mundo inescrupulosamente a partir de meus valores, que considero libertadores, por isso os exponho aqui, na espera de que outros possam encontrar algum alívio como eu encontrei.

Quando vemos a televisão tudo se resume em dinheiro e sexo, a mesma coisa acontece nas conversas sociais, nas revistas, nos jornais, na internet e nos diversos segmentos sociais, o discurso é: estabilidade financeira e desempenho sexual. Ora, desculpe-me, mas será que não existe vida além de Vênus? Será que estes são os únicos aspectos da vida?

Vênus - o planeta - era conhecido desde a época do império babilônico. Prova disso é um velho achado arqueológico conhecido como Tábua de Vênus de Ammisaduqa (4 d.C.). No referido achado, o planeta Vênus era conhecido como Ishtar. Esse era o nome da deusa da mitologia assírio-babilônica associada ao amor, a fertilidade e ao erotismo. O mito de Ishtar tem raízes na deusa suméria Innana, também conhecida como "rainha dos céus". Não por menos, a deusa do mito greco-romano associada às questões sexuais é Vênus, também conhecida em sua forma grega por Afrodite. Os cultos afrodisíaco, com sacerdotisas sexuais, eram bem conhecidos em Atenas e Corinto.

Vênus/Afrodite é esta atmosfera cultural em que as pessoas respiram o sexo e encontram nele um rito, um culto ao corpo e ao prazer. Os cultos de fertilidade eram, obviamente, muito populares e de certa forma, o sexo é algo que está muito próximo da devoção espiritual.

Há algo de religioso na sensualidade, talvez, isto explique como facilmente há um movimento pela divinização do erotismo, um tipo de "sexolatria". Por outro lado, está posto o desafio pela redenção da sexualidade e do prazer aos limites da liberdade proposta pelos valores éticos, antes considerados obsoletos, ou digamos, até o momento deslocados da direção que o mundo está tomando.

A explicitação do erótico vai contra a sacralidade de um ato tão belo, tão profético e harmonioso como o sexo. O encontro, a troca, o toque e a intimidade são elementos de um mistério de ordem espiritual profunda, de uma expressividade estética assombrosa, que precisa ser sujeita a princípios que o proteja. A banalização do sexo, sua predominância e o exibicionismo que gira em torno da temática, são de uma violência desconfortante, um ato de vulgaridade que rouba a santidade de um ato tão incrível.

Todo momento em que a civilização procura priorizar certos aspectos da realidade sobre outros, ela comete suicídio cultural. Fazer a vida girar em torno de uma dádiva do Criador, é como permanecer cativo na caverna, enquanto há também tanta riqueza e beleza em um momento de oração, na arte, na música, no comer, na prática de um esporte, há tanta sensibilidade na modéstia e na natureza.

O discurso de sucesso sexual associado ao quantum de sexo é um mito centralizador e reducionista. Deve-se pensar em sucesso existencial em que o sexo, a estética, a política, a arte, a economia, a educação e outros dons de Deus prestam um enorme serviço para que o homem possa refletir uma realidade mais profunda e significativa à sua própria identidade e presença na história.

Qual era a intenção por traz da orientação bíblica de que os casais israelitas deveriam se manter distantes sexualmente durante o período menstrual? Esse período, já diria um famoso rabino, seria de grande importância para a mulher. Na ocasião ela se ausenta dos filhos, do marido e da família e vive um tempo independente. Após esse período, obviamente, o próximo encontro íntimo deste casal seria de uma intensidade tão poderosa, que o ato amoroso poderia ser traduzido em termos como da primeira vez... Sinceramente, existe vida além do sexo.

Há uma explicação da psicologia evolucionária que em um passado distante, os homens não mantinham relações sexuais com suas esposas na lua-cheia, pois era o período em que a noite era iluminada e os homens aproveitavam para ir à caça à noite. Biologicamente, neste período as mulheres ficavam menstruadas em um ciclo de aproximadamente 7 dias (período da lua cheia até a minguante).

Durante esses dias de caça, o homem descobria a natureza, tinha contato com o mundo exterior, conhecia os riscos da aventura, a devoção ao desconhecido e o assombro. Se tornava livre, aberto às possibilidades e descobria enfim a arte de viver. Sabia que seria honrado por sua esposa e filhos se trouxesse o alimento para casa, quando, enfim, seria recebido como herói, digno de sua humanidade.

O homem moderno esqueceu a aventura, a liberdade, a simplicidade da vida e que a rotina é uma grande expressão daquilo que somos: simplesmente humanos.

A erotização do mundo está na contra-mão desses valores. O mundo é mais do que sexo e o sexo é muito mais do que pensam. O desejo de estar ligado ao outro, expressa o desejo de estar ligado a Deus, de rever vínculos rompidos. Algo se rompeu na história, se desligou e religare (religião em latim) é uma exigência para que a vida volte a ter sentido, para que, enfim, o homem se complete.

A modéstia e a vida simples podem evidenciar que o som do vento nas folhas das árvores é de uma riqueza incomensurável, que acordar e olhar sua esposa dormindo como um anjo é como um toque nos domínios de Deus. Não precisamos de nada mais intenso do que a intensidade das coisas simples.

Enfim, é no alvorecer de um novo tempo que raiou com o Cristo ressuscitado, que a vida no tempo presente assume conotação transcendente, e que aspira, por um horizonte de renovação de todas as coisas. A esperança pela eternidade presentifica a graça de corações capturados a um bem maior e por isso podem ser gratos pelos bens menores que foram dados como antegostos do que virá. Uma vida para além de qualquer astro criado. Uma vida além de Vênus.
28 de jan. de 2009 | By: @igorpensar

Inteligência Hipertextual

Por Igor Miguel

Esta reflexão nasceu de um insigth que tive durante um maravilhoso café teológico com alguns amigos. Bem, este encontro de profundo envolvimento espiritual e intelectual, produz aos seus participantes uma tempestade de conceitos, terminologias e palavras. Como amo palavras! Não as amo por causa de um possível "ar" de sofisticação, mas por causa de sua capacidade de sintetizar e de se conectar com outros conceitos, fazendo pontes e ligações entre idéias.

Em um dos debates, vimos que alguns assuntos estavam indo em áreas, que a priori, não pareciam ter qualquer relação com o eixo temático que estava sendo debatido. Então, para evitarmos esta descentralização, deixávamos de "viajar na maionese" e retornávamos à questão central. Depois de um tempo, íamos novamente para além das fronteiras do assunto e artificialmente voltávamos ao eixo. Percebi que este movimento acontecia com certa freqüência.

Repentinamente me perguntei: Por que todas as vezes que lidamos com temas interessantes e complexos, nossa mente "viaja" por temas periféricos ao eixo temático?

Na verdade se compreendemos um pouco de psicologia sócio-cultural chegaremos à incrível conclusão de que nosso conceitos são organizados dentro de estruturas semânticas (redes semânticas). Nenhum conceito ou idéia que temos estão soltos no cérebro, mas só estão aí porque estão vinculadas a uma teia de outros conceitos, ou como dizem, os conceitos estão grudados em outros conceitos, formando assim uma grande construção de idéias, um 'todo' complexo.

Já falei por aqui no blog sobre pensamento complexo e a nova demanda que surgiu com a Internet, devido a seu grande fluxo de informações e de inovações. Há uma necessidade absurda por um pensamento plástico, fluido e menos linear.

Uma coisa importante. Atualmente lidamos com uma nova modalidade de leitura, principalmente quando lemos um grande volume de textos na tela ou no monitor. Se você já clicou em algum link* pela Internet, com certeza você já está lidando com uma nova modalidade textual denominada hipertexto. O hipertexto criou uma nova categoria de leitura, que implica em uma abordagem estrutural do texto. Não se lê de forma linear, mas leva-se em consideração os vários conceitos presentes naquele texto ligando-os (linking) a outras fontes conceituais.

O que me chama a atenção é que de certa forma a leitura hipertextual vem provocando uma mudança de ordem cognitiva. Durante muito tempo o pensamento era textual, linear, como conseqüência aprendemos a pensar dentro desta estrutura. Porém, alguém que se dedica ao uso freqüente de hipertexto, ou navega em sites de vasta riqueza hipertextual**, pode estar desenvolvendo um pensamento de estrutura hiper-documental. Por isso, não é tão criminal "viajar na maionese" durante algumas discussões, pois enveredar-se por caminhos ditos periféricos, faz parte da riqueza de um tema, é o que torna-o cognoscível, compreensível e parte da grande nuvem semântica que sustentam nossos conceitos.

Vale destacar a contribuição de Lina Morgado e suas investigações sobre o pensamento e o hipertexto. Sua investigação e revisão epistemológica sobre a temática, destaca que alguns pesquisadores salientam as seguintes vantagens do ambiente hipertextual:

[...] permitir diferentes níveis de conhecimento prévio; encorajar a exploração; permitir a visualização de sub-tarefas como parte de tarefas mais globais; e adaptação da informação aos estilos individuais de aprendizagem[1].


Em suma, não me sinto mais desconfortável em "viajar na maionese" durante determinado assunto. Pois esta é a natureza dos debates em mundo cada vez mais complexo, pois encoraja a exploração e o espírito investigativo.

____
*Conhecido também por hiperlink ou em sua versão aportuguesada hiperligação.
** Como a wikipedia por exemplo.
[1] MORGADO, Lina. O Lugar do Hipertexto na Aprendizagem: alguns princípios para sua concepção.
19 de jan. de 2009 | By: @igorpensar

Campus Party 2009

O maior evento tecnológico do mundo está acontecendo em São Paulo e durará até o dia 25 de Janeiro/09. O Campus Party(TM) é um evento incrível que envolve software livre, liberdade na web, Internet 3.0 e muitos outros temas incríveis do universo que pensa "tecnologia" e não apenas consome tecnologia.

Pois bem, entre os palestrantes estão ninguém menos que Timothy John Berners-Lee ou mais conhecido como Tim John Berners-Lee, o criador da WWW e Jon Hall, ou também conhecido por Maddog Hall fundador do Open Source International.

Outro detalhe interessante é a disponibilidade de Internet no local do evento com velocidade de 10 Gb. Muitos temas interessantes serão tratados sobre direitos autorais, tecnologias open source, software livres e outras temáticas de deixar o queixo cair.

Vale a pena dar uma olhada no site oficial em: http://www.campus-party.com.br/

Fica aí a dica...

Abraços,
Igor
13 de jan. de 2009 | By: @igorpensar

Quando eles amarem seus filhos...

“Nós podemos perdoar os árabes por matarem nossos filhos. Nós não podemos perdoá-los por forçar-nos a matar seus filhos. Nós somente teremos paz com os árabes quando eles amarem seus filhos mais do que nos odeiam” - Golda Meir

12 de jan. de 2009 | By: @igorpensar

Dê a Israel uma oportunidade

RAFAEL L. BARDAJÍ

Nenhuma nação sobre a Terra aceitaria ser bombardeada permanentemente por um território vizinho e permanecer impassível. A atuação do castigo israelense contra o Hamas em Gaza, não deveria ser, portanto, uma surpresa.

O que é verdadeiramente surpreendente é isso não ter acontecido muito antes. Israel aguentou o que não se pode aguentar: mais de 4 mil foguetes palestinos que, se não causaram mais mortes, foi em boa medida devido ao imenso esforço realizado na proteção passiva --em forma de bunkers-- das populações do sul de Israel.

Exigir que Israel pare suas operações militares é uma imoralidade, assim como um gravíssimo erro estratégico. O objetivo político da União Europeia e da comunidade internacional não deve ser um cessar-fogo, mas sim um fim ao terrorismo que vem de Gaza.

A manipulação midiática a que nos acostumaram as facções palestinas, terroristas ou não, está novamente em marcha, oferecendo as imagens do sofrimento de seu povo, desgraçadamente inevitável em qualquer confronto bélico.

Ela é tão hábil que faz esquecer o sofrimento que os terroristas palestinos têm imposto a uma boa parte da população israelense. Até a retirada total de Israel de Gaza em 2005, o Hamas justificava os ataques suicidas e por outros meios como um instrumento necessário para lutar "contra a ocupação israelense".

Pois bem, desde que Sharon decidiu deixar Gaza para os palestinos, o único israelense na faixa foi o soldado Gilad Shalit, sequestrado faz dois anos pelos militantes de Gaza. Sem exagero, o fato de Israel já não ser uma "força ocupante" não diminuiu a ânsia por violência do Hamas e de outros grupos palestinos em Gaza. Por uma razão muito simples: o que o Hamas quer não é a solução de dois Estados convivendo pacificamente um junto ao outro.

O islamismo palestino aspira a um único Estado, palestino e islâmico. Por isso não quer nem pode renunciar ao seu objetivo de eliminar Israel. E por isso Israel se vê forçado a se defender. Se não o fizesse, simplesmente deixaria de existir.

Como em toda a guerra, não faltaram os corifeus clamando aos céus por causa da desproporção da resposta militar israelense. Não sabemos o que propunham como alternativa, mas o que sabemos é que não apenas a atuação das Forças Armadas Israelenses, a IDF, tem sido escrupulosa em relação ao direito de guerra, mas também está sendo altamente eficaz quanto a discriminação de seus alvos.

Certo, em toda ação bélica existe o risco de causar baixas civis inocentes, mas, pelo que contam os observadores no local e a sacrossanta instituição das Nações Unidas, talvez menos de 10% das vítimas poderiam ser consideradas como vítimas inocentes. O resto, 90%, seriam membros e militantes do Hamas.

O que quer dizer, entre outras tantas coisas, que a execução dos ataques israelenses foi mais bem preparada do que as ações da OTAN no Afeganistão, por exemplo, onde a proporção de mortes por erro é bastante mais alta.

Em suma, Israel tem o direito de se defender e o faz da melhor forma possível, com justiça, legitimidade e proporção. Enquanto luta contra os terroristas de Gaza, permite que a ajuda humanitária flua até os palestinos da região.

E é preciso lembrar que, se hoje Gaza está na situação precária em que se encontra, isso se deve à péssima gestão dos líderes do Hamas, muito mais interessados em aterrorizar os israelenses do que em criar oportunidades para os seus eleitores.

Porque seria um erro estratégico pressionar Israel para que pare sua ofensiva agora? Por uma razão muito simples: porque acabar com os arsenais e os foguetes do Hamas não é suficiente e é isso o que os bombardeios da IDF têm feito até agora.

Foi Douglas MacArthur quem disse que "na guerra não há substituto para a vitória". Com a exceção da derrota, claro. E se há uma lição que devemos aprender com os conflitos inacabados ou mal-acabados, como a guerra de Israel contra o Hizbollah no verão de 2006, é que a ausência de uma vitória clara e visível, isto é, a ausência de uma vitória decisiva, se torna rapidamente uma derrota.

A sobrevivência do Hizbollah foi entendida pelos seus e por boa parte do mundo árabe como uma derrota israelense. Correto ou não, isso é o de menos. A imagem é o que importa. Por isso, acabar com os foguetes do Hamas não é suficiente. Deve-se retirar dele por completo o sentimento de vitória e, para isso, há que se conseguir com que eles desistam de seus planos.

Se a comunidade internacional dá esperanças aos dirigentes do Hamas de que, se aguentarem um pouco, obrigarão Israel a parar suas ações, a única coisa que se estará fazendo é alimentar seu sentimento de vencedor. Pior ainda, se estará patrocinando diretamente os palestinos radicais em detrimento dos moderados, aqueles com quem se pode falar de uma solução pacífica para todos. Se o Hamas não sai derrotado politicamente, a Autoridade Palestina, seu presidente, Abbas, e o governo de Salam Fayyad é que sairão derrotados.

Se o Hamas não for derrotado, pode vir a ter força para tentar um golpe na Cisjordânia, similar àquele feito contra o poder em Gaza em 2007. Isso sim seria o final de todo o processo de paz. Se o contrário ocorre, se o Hamas sai claramente derrotado, será aberta uma nova oportunidade para que a Autoridade Palestina retome seu papel na faixa de Gaza, que é hoje, de fato, um Estado palestino separado.

Por último, não podemos esquecer que, apesar de Israel estar lutando para defender a tranquilidade das populações vizinhas a Gaza, a derrota do Hamas não só traria novas oportunidades para uma paz estável na região, mas também representaria um grave revés para os desígnios do Irã na região.

Nesse sentido, não podemos esquecer que Israel não luta apenas por sua segurança, mas também o faz pela nossa, europeus e ocidentais. Deter um Irã cada dia maior, mais irresponsável, mais provocador e às portas de se tornar uma potência atômica só pode beneficiar a paz internacional. Ou seja, nossa paz e nossa segurança.

Rafael L. Bardají é membro sênior do GEES (Grupo de Estudos Estratégicos) e ex-conselheiro executivo do ministro da Defesa espanhol de 1996 a 2002. O GEES é um grupo de estudos independente com sede em Madri, Espanha, cujo foco de trabalho e pesquisa recai principalmente sobre a segurança internacional, os conflitos e o terrorismo.


7 de jan. de 2009 | By: @igorpensar

O Rapaz e o Manuel

Por Igor Miguel

Solicitaram minha opinião sobre o conflito entre o Hamás e Israel. Traduzi minhas impressões em uma crônica, que ilustra o crônico conflito que testemunhamos - Igor

Manuel era forte e inteligente, mas com certeza não estava entre os mais fortes. Manuel morava em um bairro de periferia esquecido pelo mundo, um bairro perigoso e cheio de hostilidades. Manuel sofria hostilidade, talvez por sua mente aberta e seus sonhos ou talvez por ter chegado no bairro vindo de lugar nenhum, como um forasteiro.

No começo Manuel não era tão forte, era uma criança, seus pais eram pobres, vieram de andar o mundo a procura de emprego. Mas, Manuel cresceu e de tanto apanhar e sofrer, aprendeu as artes, a cultura e a se defender. O antes pequeno e fraco Manuel, agora se tornou forte e criou seus meios para continuar existindo.

Quando Manuel chegou no bairro, havia muitos meninos, que não aceitavam a forma como Manuel se comportava, mas o respeitavam, pois Manuel tinha fama de forte e que sabia se defender.

Mas, havia um rapaz muito "marrento" na vizinhança, menino encrenqueiro e que tinha muita inveja de Manuel.

O rapaz vivia todo o tempo, planejando formas de acabar com Manuel, talvez por inveja, talvez por opressão de seus vizinhos que cobravam dele uma posição, mas o rapaz passava noites e dias planejando uma forma de acabar com a fama do Manuel.

Mas, esse rapaz era covarde, ao invés de lutar contra o Manuel, tocava naqueles que o Manuel gostava, agredia seus parentes, seus amigos próximos e criava formas de atingi-lo indiretamente, afinal não podia contra ele.

Então um dia o rapaz viu a namorada do Manuel. Ela era linda, seus olhos eram castanhos claros, seus cabelos de cor caramelo anelados e sua pele queimada pelo deserto. O rapaz pensou em uma estratégia para roubar a namorada do Manuel: fazer-se de vítima. Essa seria a estratégia final.

Um dia o rapaz encontrou com o Manuel e o encarou. Provocou relembrando tudo que tinha feito contra seus amigos e próximos. Como Manuel não reagia, o rapaz lhe deu uma cusparada no rosto. Manuel ainda não reagira e finalmente, o rapaz lhe disse que ele era um fracassado, filho de homens errantes, de conspiradores e que se aproveitava de sua trágica história para comover a vizinhança.

Nesse momento Manuel teve que reagir, deu-lhe um belo soco no rosto, o rapaz caiu sangrando e começou a chorar. Todos correram para ver o que acontecia. O comportado Manuel batia no rapaz, o rapaz chorava, esperneava e a namorada do Manuel, bela da cor do deserto, pulou no pescoço do rapaz para ajudá-lo. A namorada do Manuel tinha pena dele, e começou a gritar contra o Manuel, lhe dizendo que ele era covarde, impiedoso e que o rapaz tinha razão.

O plano deu certo! Manuel* virou vilão e o rapaz** tornou-se vítima.

________________
*Israel
** Hamás
22 de dez. de 2008 | By: @igorpensar

Diálogo: o logos em via de mão dupla

Por Igor Miguel

Martin Buber, acima de qualquer rotulação, pode ser qualificado como um 'filósofo existencialista'. Mas, sua filosofia é acima de tudo monoteísta-judaica. Buber é o reflexo de um antigo modus cogitare bíblico, com raízes profundas em uma civilização que derruba os mitos e problematiza a existência de múltiplas forças "espirituais" que "animam" as coisas.

Buber retoma a visão de mundo dos chassidim, o desdobramento último de um religião ordinária e consegue retirar da inteligência dos 'rebes' princípios que tocam as profundezas do que geralmente considera-se superficialidade, trivialidade ou rotina.

Para Buber as coisas não são 'coisas' autônomas, elas são por causa da palavra. Para Buber, a palavra está antes das coisas e o que existe, só existe enquanto e a partir da palavra.

A relação sujeito-objeto é denominada por Buber por "EU-ISSO", uma relação "monológica", pois não se espera uma resposta do ISSO. Por outro lado, há a estrutura EU-TU, enquanto relação dialógica, o logos (palavra) que se emite e que se recebe.

Para Buber, o EU enquanto aquele vai ao encontro do TU, só é EU (existente) quando se relaciona ou se vê no TU. Sem o TU, ou sem o diálogo, não há humano. Por outro lado, qualquer primazia ao ISSO, resultaria em coisificação*, em uma não-humanização e finalmente a não-existência.

"Se o homem não pode viver sem o Isso, não se pode esquecer que aquele que vive só com o Isso não é homem" (BUBER, 2007, p.37).

O Isso precisa ser compreendido, a partir da dialogicidade EU-TU, do diálogo, de uma perspectiva obviamente humana. Porém, esta relação estrutura-se pela "palavra", que ordena, que filtra a realidade, que evoca sentido nas relações inter-subjetivas ou inter-objetais.

O sacramento do diálogo encontra-se em sua etimologia, uma palavra que vai e que volta. Exatamente este 'logos' que sai do emissor, espelha-se, refrata-se e volta ao EU, que cria os vínculos que remetem ao diálogo primevo entre o ser que dirige a palavra e o que a traduz e a devolve como palavra subjetivada, humanizada.

O diálogo não acontece necessariamente pelo "dito", pela locução e pela sonoridade, ela se traduz em palavras que já estão e são decodificadas ou traduzidas por gestos, olhares, abraços, beijos ou intercurso corporal. O diálogo é esse vínculo romântico, sedutor na relação com o outro, essa mensagem que vai, mas volta como um 'querer-ouvir' e 'ser-ouvido', alteridade no sentido mais profundo da palavra.

Em uma realidade em que as pessoas servem às coisas e aos objetos, o diálogo é um interessante referencial para elaboração de ethos para a vida moderna, pois converte o objeto e a técnica em servos do humano e não senhores destes. A burocracia enquanto racionalização, controle das coisas e mecanismo de vigilância do fluxo dos valores objetais, pode ser restruturada a partir de pequenos gestos dialógicos que reconstituam a racionalização, humanizando-a. Conforme Buber (2007):

"Não há fábrica nem escritório tão abandonado pela criação que neles um olhar da criatura não se possa elevar de um lugar de trabalho ao outro, de uma escrivaninha à outra, um olhar sóbrio e fraternal, que garanta a realidade da criação que está acontecendo: quantum santis. E nada está tão a serviço ao diálogo entre Deus e o homem como esta troca de olhares, sem sentimentalidade e romantismo, entre dois homens num lugar estranho".

O grande perigo de um homem que estrutura sua existência pela relação em que o ISSO prevalece sobre o EU, é que esse sujeito tem sua percepção da realidade distorcida. A relação EU-ISSO é sem reciprocidade e resposta, é de natureza monológica. Um sujeito acostumado com o objeto silencioso, relaciona-se com outros homens a partir desse paradigma, tratando-os de forma silenciosa, como sujeitos sem resposta, sentimento ou competência. Esta relação objetal é cruel, pois desaloja a subjetividade do outro, arranca-lhe a "alma", rouba-lhe sua preciosidade humana e singularidade. Resultado? Um homem truculento, bruto e insensível.

Por outro lado, o homem dialógico é provocador, apaixonado, fluido e romântico. Permite-se e abre-se para o outro, deixa-se levar, mas também deixa-se ir, devolve-se ao outro enquanto si. O sujeito dialógico é curioso, quer ouvir e apaixona-se pelo que o outro tem a dizer e a entregar. Ele também espera uma resposta humana, não elogios demagógicos ou de natureza bajuladora, mas a verdade que liberta, voz e palavras de uma natureza familiar. Esse é o o proprietário da palavra que vai, mas volta.

Ainda assim, o homem não vive sem o ISSO. Mas, como lidar com ISSO sem que ele se apodere do humano? Lidando com o ISSO sob uma perspectiva humana. Uma abordagem humana sobre o ISSO, implica em lidar com a realidade de forma generosa e sustentável, implica em uma postura ecologicamente humana. O que não se traduz em termos animistas ou panteístas, como se entidades autônomas estivessem na materialidade ou na natureza, que com certeza não é um ente orgânico - Gaia. Mas, entender que pela palavra tudo foi ordenado a serviço e sustento do humano, mas pela mesma palavra imprimir na objetividade a subjetividade.

O homem tem um nome, que se traduz em termos de subjetividade e identidade, por isso pela palavra pode nomear o ISSO, imprimindo nele sua humanidade, sua generosidade dialógica, pela palavra que vai, mas volta. O logos*** em via de mão dupla!

formatis igitur Dominus Deus de humo cunctis animantibus terrae et universis volatilibus caeli adduxit ea ad Adam ut videret quid vocaret ea omne enim quod vocavit Adam animae viventis ipsum est nomen eius - Gênesis 2:19**.

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REFERÊNCIAS

BUBER, Martin. Do Diálogo e do Dialógico. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2007.

_____________. Eu e Tu. 10 Ed. São Paulo: Ed. Centauro, 2006.

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*Coisificação: O termo não é usado por Buber, apesar do processo "coisificação" estar presente indiretamente em suas idéias. Adaptação do termo "reificação" usado por Karl Marx. Refere-se ao processo de alienação, em que o ser humano enquanto força produtiva, se marginaliza em relação à produção, tornando-se nulo, objeto e coisa, descaracterizando as matizes que o fazem humano.
** Tradução : "Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles".
*** Uso o termo em seu sentido simples em grego λογος (lógos), simplesmente como 'palavra', mas também ligado ao sentido que São João dá ao termo, associado ao hebraico דבר (davár), em que a 'coisa' e a 'palavra' estão semanticamente integrados.


21 de dez. de 2008 | By: @igorpensar

Finalmente Graduado

Finalmente, terminei minha graduação em pedagogia pela Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais ontêm (dia 20/12) à noite.  A cerimônia de colação de grau foi incrível, foram momentos realmente de muita alegria.  Agradeço minha esposa, meus pais, minhas irmãs, meus sogros e meu sobrinho, pela torcida e consideração por este rito de passagem.

Abraços!
Igor
19 de dez. de 2008 | By: @igorpensar

Pensamento Complexo e um Mundo Complexo (revisado)

Por Igor Miguel

O que está acontecendo com o mundo?

Esta é um pergunta desafiadora e tem implicações profundas com nossa existência neste mundo, pois apesar de não pedirmos para nascer nele, aqui estamos e o desafio está posto. O que fazer agora, que os fatos são tão rápidos e as coisas tão complexas?

Por complexidade, entende-se a percepção de que as coisas que aí estão e os fenômenos que nos deparamos, não são tão simples como parecem. Uma gota d'água, não é uma coisa fluida, é uma composição complexa. Água para químicos é H2O, mas para os que vivem em países em que ela é escassa é sinônimo de sobrevivência e toda uma complexidade de relações que estão envolvidas no fator água.

Durante muito tempo, as coisas e os fatos eram compreendidos dentro de uma linearidade e de leis estáticas que explicavam tudo. Hoje porém, sabe-se que o elemento humano torna tudo mais profundo e com múltiplas matizes e significados.

Falar de complexidade sem evocar Edgar Morin, judeu sefardita, seria no mínimo uma ingratidão. Este filósofo e acima de tudo epistemólogo, elaborou o conceito de pensamento complexo. Basicamente, pode-se dizer que o pensamento complexo lida com a idéia de totalidade, de uma estrutura de partes que interagem e que só estão aí por causa de sua existência nas relações que a sustentam.

A grande contribuição dessa abordagem é que ao invés de se tentar organizar o que é aparentemente caótico, desorganizado, deve-se pensar o descontínuo, como algo inteligível desde que abordado dentro de uma ótica que permite sua estadia aí, na realidade.

Não poucas vezes, o ser humano lida com pequenos "incidentes" irracionais e a-matemáticos, que esbarram em sua rotina que são denominados por ele de coincidências. O que ele faz quando essas coincidências acontece? O homem elabora uma explicação artificial com ares de probabilidade para justificar o não-explicável. A isso os antigos chamavam de "milagre".

O milagre é complexo e é de uma ordem incrível, tão fascinante que não se enquadra aos modelos clássicos de racionalidade. Mas, é um fenômeno e acontece. Um acontecimento não mensurável, incalculável, mas ainda um acontecimento que conflita nossos paradigmas e nos aterroriza.

Interessante a reação do homem com as coincidências, como que por um lapso mesmo os mais céticos viram religiosos, um tipo de xamã, de místico e procura explicar de forma fantástica - ainda que na discrição de seus silenciosos pensamentos - o inexplicável. Incrível, como que neste momento, o homem remente às funções mais "primitivas" de sua mente para lidar com o caos.

O grande problema é que este pensamento dito "fantasioso" ou "místico" é de uma esfera ainda desconhecida para o homem, que prefere artificialmente ignorá-la, dando-lhe ares de infantilidade, quando na verdade é um mecanismo que ele traz desde de sua infância.

Alguns deram asas a esta "imaginação", ingenuamente e sem medo peregrinaram pelas veradas do espiritual, do misterioso e foram absorvidos pelas transcendência.

Porém outros, ao invés de lidarem com um misticismo absorvente, optaram por uma percepção religiosa com uma racionalidade típica e de natureza própria.

A experiência religiosa da fé monoteísta (em todas suas matizes) desafia o mundo a compreender o aspecto transcendente sem perder contato com a realidade. O monoteísmo toca em uma máxima filosófica paradoxal deliciosa: 'o caos ordenado'. O mundo é caótico, não porque ele está aí seguindo uma trajetória não mensurável, mas porque caminha dentro de uma racionalidade de outra natureza, seu eixo tem uma matemática sui generis, para além do que pode-se dizer ou pensar.

Este mundo complexo, mas inteligível, criou uma nova demanda sócio-cultural e um novo desafio cognitivo. O grande desafio é pensar fé, ciência, educação e filosofia a partir dessa complexidade, deste mundo de "milagres" que escapam aos critérios convencionais. A explicação não estaria nem em um misticismo espiritualista icognoscível e nem em um materialismo objetivista e quantificável.

Interessante pensar que a matemática lida geralmente com o 'ideal', mas o 'real' (natural) é cheio de interrupções, números ímpares e primos, de 7 e não de 10. Sabe-se que há um trabalho pela complexidade e pelo caos, mas até que ponto este ainda não é um serviço viciado, uma tentativa de submeter a profundidade da realidade em um tubo de ensaio?

De certa forma, Jesus estava certo quando disse: "Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele" (Mc 10:15). O que é o Reino de Deus, se não este mundo de Deus, do supervisor soberano, que colocou o mundo como um enigma e o homem como um grande curioso? Ele deu o segredo, ser como uma criança, resgatar aquele pensamento complexo, aquele desejo de explicar as coisas por sua natureza e evocar a idéia da um senhor soberano.

Pensamento complexo é pensar como uma criança nesse sentido, de se portar curiosamente e naturalmente, sem se preocupar com o que vão dizer, se recorremos a fantasias, explicações religiosas ou milagreiras. Essas coisas estão aí e os que abandonaram a infância, foram engolidos por um racionalismo sintético e artificial que não leva em conta a multiplicidade cores e matizes nesta grande bolha da vida.

11 de dez. de 2008 | By: @igorpensar

O que mudou na ortografia brasileira?

Este é um guia prático sobre o que mudou na língua portuguesa. Confesso que é um alívio saber que trema (ü) acabou, e que se restringe apenas as expressões em língua estrangeira, como o alemão "Müller" e outros. Fiquem atentos aos prefixos e às paroxítonas que não são acentuadas. Outra notícia, acabou o acento diferencial.

Segue abaixo um guia rápido disponível na fonte indicada.

Abraços,
Igor
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Guia Prático da NOVA ORTOGRAFIA

Saiba o que mudou na ortografia brasileira
por Douglas Tufano
(Professor e autor de livros didáticos de língua portuguesa)

O objetivo deste guia é expor ao leitor, de maneira objetiva, as alterações introduzidas na ortografia da língua portuguesa pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990, por Portugal, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e, posteriormente, por Timor Leste. No Brasil, o Acordo foi aprovado pelo Decreto Legislativo no 54, de 18 de abril de 1995.

Esse Acordo é meramente ortográfico; portanto, restringe-se à língua escrita, não afetando nenhum aspecto da língua falada. Ele não elimina todas as diferenças ortográficas observadas nos países que têm a língua portuguesa como idioma oficial, mas é um passo em direção à pretendida unificação ortográfica desses países.

Como o documento oficial do Acordo não é claro em vários aspectos, elaboramos um roteiro com o que foi possível estabelecer objetivamente sobre as novas regras. Esperamos que este guia sirva de orientação básica para aqueles que desejam resolver rapidamente suas dúvidas sobre as mudanças introduzidas na ortografia brasileira, sem preocupação com questões teóricas.

Mudanças no alfabeto

O alfabeto passa a ter 26 letras. Foram reintroduzidas as letras k, w e y. O alfabeto completo passa a ser:
A B C D E F G H I J
K L M N O P Q R S
T U V W X Y Z


As letras k, w e y, que na verdade não tinham desaparecido da maioria dos dicionários da nossa língua, são usadas em várias situações. Por exemplo:
a) na escrita de símbolos de unidades de medida: km (quilômetro), kg (quilograma), W (watt);
b) na escrita de palavras e nomes estrangeiros (e seus derivados): show, playboy, playground, windsurf, kung fu, yin, yang, William, kaiser, Kafka, kafkiano.

Trema

Não se usa mais o trema (¨), sinal colocado sobre a letra u para indicar que ela deve ser pronunciada nos grupos gue, gui, que, qui.

Como eraComo fica
agüentaraguentar
argüirarguir
bilíngüebilíngue
cinqüentacinquenta
delinqüentedelinquente
eloqüenteeloquente
ensangüentadoensanguentado
eqüestreequestre
freqüentefrequente
lingüetalingueta
lingüiçalinguiça
qüinqüênioquinquênio
sagüisagui
seqüênciasequência
seqüestrosequestro
tranqüilotranquilo


Atenção: o trema permanece apenas nas palavras estrangeiras e em suas derivadas. Exemplos: Müller, mülleriano.

Mudanças nas regras de acentuação

1. Não se usa mais o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas (palavras que têm acento tônico na penúltima sílaba).

Como eraComo fica
alcalóidealcaloide
alcatéiaalcateia
andróideandroide
apóia(verbo apoiar) apoia
apóio(verbo apoiar) apoio
asteróideasteroide
bóiaboia
celulóideceluloide
clarabóiaclaraboia
colméiacolmeia
CoréiaCoreia
debilóidedebiloide
epopéiaepopeia
estóicoestoico
estréiaestreia
estréio (verbo estrear)estreio
geléiageleia
heróicoheroico
idéiaideia
jibóiajiboia
jóiajoia
odisséiaodisseia
paranóiaparanoia
paranóicoparanoico
platéiaplateia
tramóiatramoia


Atenção: essa regra é válida somente para palavras paroxítonas. Assim, continuam a ser acentuadas as palavras oxítonas terminadas em éis, éu, éus, ói, óis. Exemplos: papéis, herói, heróis, troféu, troféus.

2. Nas palavras paroxítonas, não se usa mais o acento no i e no u tônicos quando vierem depois de um ditongo.

Como eraComo fica
baiúcabaiuca
bocaiúvabocaiuva
cauílacauila
feiúrafeiura


Atenção: se a palavra for oxítona e o i ou o u estiverem em posição final (ou seguidos de s), o acento permanece. Exemplos: tuiuiú, tuiuiús, Piauí.

3. Não se usa mais o acento das palavras terminadas em êem e ôo(s).

Como eraComo fica
abençôoabençoo
crêem (verbo crer)creem
dêem (verbo dar)deem
dôo (verbo doar)doo
enjôoenjoo
lêem (verbo ler)leem
magôo (verbo magoar)magoo
perdôo (verbo perdoar)perdoo
povôo (verbo povoar)povoo
vêem (verbo ver)veem
vôosvoos
zôozoo


4. Não se usa mais o acento que diferenciava os pares pára/para, péla(s)/pela(s), pêlo(s)/pelo(s), pólo(s)/polo(s) e pêra/pera.

Como eraComo fica
Ele pára o carro.Ele para o carro.
Ele foi ao pólo Norte.Ele foi ao polo Norte.
Ele gosta de jogar pólo.Ele gosta de jogar polo.
Esse gato tem pêlos brancos.Esse gato tem pelos brancos.
Comi uma pêra.Comi uma pera.


Atenção:
- Permanece o acento diferencial em pôde/pode. Pôde é a forma do passado do verbo poder (pretérito perfeito do indicativo), na 3a pessoa do singular. Pode é a forma do presente do indicativo, na 3a pessoa do singular. Exemplo: Ontem, ele não pôde sair mais cedo, mas hoje ele pode.

- Permanece o acento diferencial em pôr/por. Pôr é verbo. Por é preposição. Exemplo: Vou pôr o livro na estante que foi feita por mim.

- Permanecem os acentos que diferenciam o singular do plural dos verbos ter e vir, assim como de seus derivados (manter, deter, reter, conter, convir, intervir, advir etc.). Exemplos:
Ele tem dois carros. / Eles têm dois carros.
Ele vem de Sorocaba. / Eles vêm de Sorocaba.
Ele mantém a palavra. / Eles mantêm a palavra.
Ele convém aos estudantes. / Eles convêm aos estudantes.
Ele detém o poder. / Eles detêm o poder.
Ele intervém em todas as aulas. / Eles intervêm em todas as aulas.

- É facultativo o uso do acento circunflexo para diferenciar as palavras forma/fôrma. Em alguns casos, o uso do acento deixa a frase mais clara. Veja este exemplo: Qual é a forma da fôrma do bolo?

5. Não se usa mais o acento agudo no u tônico das formas (tu) arguis, (ele) argui, (eles) arguem, do presente do indicativo dos verbos arguir e redarguir.
6. Há uma variação na pronúncia dos verbos terminados em guar, quar e quir, como aguar, averiguar, apaziguar, desaguar, enxaguar, obliquar, delinquir etc. Esses verbos admitem duas pronúncias em algumas formas do presente do indicativo, do presente do subjuntivo e também do imperativo. Veja:
a) se forem pronunciadas com a ou i tônicos, essas formas devem ser acentuadas. Exemplos:
verbo enxaguar: enxáguo, enxáguas, enxágua, enxáguam; enxágue, enxágues, enxáguem.
verbo delinquir: delínquo, delínques, delínque, delínquem; delínqua, delínquas, delínquam.
b) se forem pronunciadas com u tônico, essas formas deixam de ser acentuadas. Exemplos (a vogal sublinhada é tônica, isto é, deve ser pronunciada mais fortemente que as outras):
verbo enxaguar: enxaguo, enxaguas, enxagua, enxaguam; enxague, enxagues, enxaguem.
verbo delinquir: delinquo, delinques, delinque, delinquem; delinqua, delinquas, delinquam.
Atenção: no Brasil, a pronúncia mais corrente é a primeira, aquela com a e i tônicos.

Uso do hífen

Algumas regras do uso do hífen foram alteradas pelo novo Acordo. Mas, como se trata ainda de matéria controvertida em muitos aspectos, para facilitar a compreensão dos leitores, apresentamos um resumo das regras que orientam o uso do hífen com os prefixos mais comuns, assim como as novas orientações estabelecidas pelo Acordo.
As observações a seguir referem-se ao uso do hífen em palavras formadas por prefixos ou por elementos que podem funcionar como prefixos, como: aero, agro, além, ante, anti, aquém, arqui, auto, circum, co, contra, eletro, entre, ex, extra, geo, hidro, hiper, infra, inter, intra, macro, micro, mini, multi, neo, pan, pluri, proto, pós, pré, pró, pseudo, retro, semi, sobre, sub, super, supra, tele, ultra, vice etc.

1. Com prefixos, usa-se sempre o hífen diante de palavra iniciada por h. Exemplos:
anti-higiênico
anti-histórico
co-herdeiro
macro-história
mini-hotel
proto-história
sobre-humano
super-homem
ultra-humano
Exceção: subumano (nesse caso, a palavra humano perde o h).

2. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal diferente da vogal com que se inicia o segundo elemento. Exemplos:
aeroespacial
agroindustrial
anteontem
antiaéreo
antieducativo
autoaprendizagem
autoescola
autoestrada
autoinstrução
coautor
coedição
extraescolar
infraestrutura
plurianual
semiaberto
semianalfabeto
semiesférico
semiopaco
Exceção: o prefixo co aglutina-se em geral com o segundo elemento, mesmo quando este se inicia por o: coobrigar, coobrigação, coordenar, cooperar, cooperação, cooptar, coocupante etc.

3. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por consoante diferente de r ou s. Exemplos:
anteprojeto
antipedagógico
autopeça
autoproteção
coprodução
geopolítica
microcomputador
pseudoprofessor
semicírculo
semideus
seminovo
ultramoderno
Atenção: com o prefixo vice, usa-se sempre o hífen. Exemplos: vice-rei, vice-almirante etc.

4. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s. Nesse caso, duplicam-se essas letras. Exemplos:
antirrábico
antirracismo
antirreligioso
antirrugas
antissocial
biorritmo
contrarregra
contrassenso
cosseno
infrassom
microssistema
minissaia
multissecular
neorrealismo
neossimbolista
semirreta
ultrarresistente
ultrassom

5. Quando o prefixo termina por vogal, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma vogal. Exemplos:
anti-ibérico
anti-imperialista
anti-inflacionário
anti-inflamatório
auto-observação
contra-almirante
contra-atacar
contra-ataque
micro-ondas
micro-ônibus
semi-internato
semi-interno

6. Quando o prefixo termina por consoante, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma consoante. Exemplos:
hiper-requintado
inter-racial
inter-regional
sub-bibliotecário
super-racista
super-reacionário
super-resistente
super-romântico

Atenção:
- Nos demais casos não se usa o hífen.
Exemplos: hipermercado, intermunicipal, superinteressante, superproteção.
- Com o prefixo sub, usa-se o hífen também diante de palavra iniciada por r:
sub-região, sub-raça etc.
- Com os prefixos circum e pan, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por m, n e vogal: circum-navegação, pan-americano etc.


7. Quando o prefixo termina por consoante, não se usa o hífen se o segundo elemento começar por vogal. Exemplos:
hiperacidez
hiperativo
interescolar
interestadual
interestelar
interestudantil
superamigo
superaquecimento
supereconômico
superexigente
superinteressante
superotimismo

8. Com os prefixos ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró, usa-se sempre o hífen. Exemplos:
além-mar
além-túmulo
aquém-mar
ex-aluno
ex-diretor
ex-hospedeiro
ex-prefeito
ex-presidente
pós-graduação
pré-história
pré-vestibular
pró-europeu
recém-casado
recém-nascido
sem-terra

9. Deve-se usar o hífen com os sufixos de origem tupi-guarani: açu, guaçu e mirim.
Exemplos: amoré-guaçu, anajá-mirim, capim-açu.

10. Deve-se usar o hífen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando não propriamente vocábulos, mas encadeamentos vocabulares. Exemplos: ponte Rio-Niterói, eixo Rio-São Paulo.

11. Não se deve usar o hífen em certas palavras que perderam a noção de composição. Exemplos:
girassol
madressilva
mandachuva
paraquedas
paraquedista
pontapé

12. Para clareza gráfica, se no final da linha a partição de uma palavra ou combinação de palavras coincidir com o hífen, ele deve ser repetido na linha seguinte. Exemplos:
Na cidade, conta-
-se que ele foi viajar.

O diretor recebeu os ex-
-alunos.

Resumo - Emprego do hífen com prefixos

Regra básica
Sempre se usa o hífen diante de h:
anti-higiênico, super-homem.

Outros casos
1. Prefixo terminado em vogal:
- Sem hífen diante de vogal diferente: autoescola, antiaéreo.
- Sem hífen diante de consoante diferente de r e s: anteprojeto, semicírculo.
- Sem hífen diante de r e s Dobram-se essas letras: antirracismo, antissocial, ultrassom.
- Com hífen diante de mesma vogal:
contra-ataque, micro-ondas.

2. Prefixo terminado em consoante:
- Com hífen diante de mesma consoante: inter-regional, sub-bibliotecário.
- Sem hífen diante de consoante diferente: intermunicipal, supersônico.
- Sem hífen diante de vogal: interestadual, superinteressante.
Observações
1. Com o prefixo sub, usa-se o hífen também diante de palavra iniciada por r sub-região, sub-raça etc. Palavras iniciadas por h perdem essa letra e juntam-se sem hífen: subumano, subumanidade.
2. Com os prefixos circum e pan, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por m, n e vogal:
circum-navegação, pan-americano etc.
3 O prefixo co aglutina-se em geral com o segundo elemento, mesmo quando este se inicia por o: coobrigação, coordenar, cooperar, cooperação, cooptar, coocupante etc.
4. Com o prefixo vice, usa-se sempre o hífen: vice-rei, vice-almirante etc.
5. Não se deve usar o hífen em certas palavras que perderam a noção de composição, como girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista etc.
6. Com os prefixos ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró, usa-se sempre o hífen:
ex-aluno, sem-terra, além-mar, aquém-mar, recém-casado, pós-graduação, pré-vestibular, pró-europeu.

Fonte: http://michaelis.uol.com.br/novaortografia.html
9 de dez. de 2008 | By: @igorpensar

Apresentação de Monografia - Convite

Caros amigos,

Este é um convite para a apresentação e defesa da minha monografia de conclusão de curso.  Segue abaixo maiores informações, será um prazer recebê-los.

Título: A Importância da Educação Cognitiva no Processo de Inclusão Escolar
Data: 10/12/2008
Orientador: Profa. Mestre Regina Leal
Local: No auditório da Faculdade de Educação da Universidade de Minas Gerais.
Endereço: Rua Paraíba , 29 Bairro Funcionários - Belo Horizonte/MG (Próximo ao Hospital João XXIII).
Horário: 9:30 hs 

RESUMO DA MONOGRAFIA:

A monografia aborda os paradigmas legais e teóricos que sustentam o conceito de inclusão social e suas implicações educacionais, bem como a possível importância da educação cognitiva para esse processo.  A investigação tem por objetivo geral abordar a importância da educação cognitiva e programas educacionais inerentes a essa perspectiva, que possam facilitar o desenvolvimento de sujeitos com dificuldades educacionais especiais.  Como objetivo específico, concentra-se em uma experiência realizada in loco no Instituto de Educação de Minas Gerais, uma escola pública da rede estadual que se encontra situada na região central de Belo Horizonte, caracterizada pela alta diversidade de seu público.  A referida experiência deu-se em sessões de mediação cognitiva com alunos da referida instituição, que apresentavam evidentes dificuldades de aprendizagem.  A pesquisa foi norteada por teorias do desenvolvimento como a epistemologia genética de Jean Piaget; a abordagem sócio-cultural[1] de Lev S. Vygotsky e principalmente as teorias da modificabilidade cognitiva estrutural e a experiência da aprendizagem mediada desenvolvidas por Reuven Feuerstein, que sintetizou as duas teorias anteriores.

Palavras-chave: Inclusão; aprendizagem; educação cognitiva; mediação; Reuven Feuerstein.



[1] Adotamos a terminologia usada por Alex Kozulin

3 de dez. de 2008 | By: @igorpensar

Hinê MaTôv (Quão Bom!)

Essa é uma sugestão do meu amigo Tiago Murillo, a versão mais incrível que já ouvi em minha vida, do clássico salmo Hinê MaTôv Umanaim Shêvet Achim Gam Yachad (Quão bom e agradável é que os irmãos estejam unídos).  Vale a pena ouvir, mesmo!  E por favor, preste a atenção na voz do solista (como se fosse necessária a observação). ;  )



13 de nov. de 2008 | By: @igorpensar

O que estou ouvindo...

Essa semana estou ouvindo:

Palavrantiga Volume 1 Do meu amigo Marquinho, músico formando-se na UEMG. Simplesmente fantásticas as letras da música, os solos de guitarras, com timbres de teclado, ótimo! Difícil encontrar letras de músicas religiosas (gospel) que tratam as coisas como são. Estou cansado de músicas sensitivas, tácitas e espiritualistas. Preciso de músicas históricas, enraizadas no homem enquanto sujeito que caminha para a redenção. Chega de "quero te sentir", "quero te abraçar", etc.

Shattered de Mataisyahu muito, mas muito bom, quatro músicas incríveis. Rap, Rock, Reggae e música mizrachí (oriental) hebraica. Simplesmente Matisyahu.

Fica aí a dica.