Vulnerabilidade: pobreza e violência
Por Igor Miguel
O ofício me obriga a pensar sobre fatores de vulnerabilidade. Estou convencido, o que torna o homem vulnerável, ou seja, aquilo que fragmenta ou compromete sua dignidade como ser criado à imagem de Deus é, em geral, uma privação ou uma violação.
Privação é falta, um tipo de pobreza. E não pense que pobreza aqui seja a mera ausência de recursos financeiros, penso em uma “pobreza” complexa, a falta de algo que é de direito ou a ausência de “bens” que cooperam para o “florescimento” do ser humano. Não há apenas pobreza, mas pobrezas. Se a integralidade do homem é complexa, tão complexa é a pobreza que incide sobre sua condição. As pobrezas são muitas: intelectual, afetiva, biopsicossocial, cultural, moral, e me reservem o direito, também religiosa. Falta educação de qualidade, vínculos familiares significativos, garantia a serviços de direito, capital moral e espiritualidade significativa.
Por outro lado, o que também torna o ser humano vulnerável é a violência. Ela sempre implica na violação de algo que deveria ser respeitado e sacralizado. A violação é sempre uma profanação. A invasão de um lugar santo, é como sujar o altar com sacrifícios a ídolos. Pense na violação do corpo de uma criança, no estupro, na agressão gratuita a mulheres e idosos. E ainda, na violação emocional pelo assédio moral ou na violência psicológica. Considere a violação do direito à vida, a um tribunal e à justiça pública. Pense nas diversas violências, na invasão da vida privada, pense que somos carregados de violência. E quando somos entregues às nossas ufanias, em casos extremos, matamos em câmaras de gás ou na vida intrauterina mesmo.
Ainda, sob as últimas notícias que publicizam a violência e a degeneração de qualquer confiança nas instituições incumbidas de garantir segurança e justiça públicas, somos tomados de consternação. De fato, a tensão está entre alguma violação ou privação. Desta forma, mais uma vez, estamos diante da vulnerabilidade, que não é um “privilégio” dos aglomerados, há uma pobreza insistente acometendo nossa ridícula classe média também. Por isso, insisto, explicações ideológicas maniqueístas que polarizam as causas, tornam-se brincadeira de criança, quando lidamos com a complexidade das tensões que permeiam projetos civilizatórios tomados por seres humanos pecadores.
Finalmente, temos que relevar a sabedoria e a denúncia do Apóstolo Paulo, a verdade nua e crua, a situação humana que está estampada na TV e nos jornais. Sem a generosidade divina, nossa condição:
Privação é falta, um tipo de pobreza. E não pense que pobreza aqui seja a mera ausência de recursos financeiros, penso em uma “pobreza” complexa, a falta de algo que é de direito ou a ausência de “bens” que cooperam para o “florescimento” do ser humano. Não há apenas pobreza, mas pobrezas. Se a integralidade do homem é complexa, tão complexa é a pobreza que incide sobre sua condição. As pobrezas são muitas: intelectual, afetiva, biopsicossocial, cultural, moral, e me reservem o direito, também religiosa. Falta educação de qualidade, vínculos familiares significativos, garantia a serviços de direito, capital moral e espiritualidade significativa.
Por outro lado, o que também torna o ser humano vulnerável é a violência. Ela sempre implica na violação de algo que deveria ser respeitado e sacralizado. A violação é sempre uma profanação. A invasão de um lugar santo, é como sujar o altar com sacrifícios a ídolos. Pense na violação do corpo de uma criança, no estupro, na agressão gratuita a mulheres e idosos. E ainda, na violação emocional pelo assédio moral ou na violência psicológica. Considere a violação do direito à vida, a um tribunal e à justiça pública. Pense nas diversas violências, na invasão da vida privada, pense que somos carregados de violência. E quando somos entregues às nossas ufanias, em casos extremos, matamos em câmaras de gás ou na vida intrauterina mesmo.
Ainda, sob as últimas notícias que publicizam a violência e a degeneração de qualquer confiança nas instituições incumbidas de garantir segurança e justiça públicas, somos tomados de consternação. De fato, a tensão está entre alguma violação ou privação. Desta forma, mais uma vez, estamos diante da vulnerabilidade, que não é um “privilégio” dos aglomerados, há uma pobreza insistente acometendo nossa ridícula classe média também. Por isso, insisto, explicações ideológicas maniqueístas que polarizam as causas, tornam-se brincadeira de criança, quando lidamos com a complexidade das tensões que permeiam projetos civilizatórios tomados por seres humanos pecadores.
Finalmente, temos que relevar a sabedoria e a denúncia do Apóstolo Paulo, a verdade nua e crua, a situação humana que está estampada na TV e nos jornais. Sem a generosidade divina, nossa condição:
“Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.” (Rm 3:11-18)
Dissertação de Mestrado
Prezados leitores,
Título: Mischlei e Mediação Educacional: uma análise pedagógica de Provérbios de Salomão.
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Abraços,
Igor
Disponibilizo minha dissertação de mestrado aos interessados.
Título: Mischlei e Mediação Educacional: uma análise pedagógica de Provérbios de Salomão.
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Nota.: Citações podem ser feitas livremente e sem prévia autorização, desde que citada a fonte e a autoria. Respeite o direito à propriedade intelectual.
Igor
Auto-vitimização
Auto-vitimização é quando uma pessoa ou instituição se coloca como vítima ou perseguida para desqualificar objeções contra as quais não pode contra-argumentar. Auto-vitimização é um tipo de manipulação emocionalista, acontece principalmente quando se esgotam os argumentos e o debate precisa ser suspenso por incompetência ou por falta de lógica nos posicionamentos que o criticado supostamente deveria defender.
Geralmente, a suposta "vítima" confunde ideias com sentimentos, ideologias com pessoas, apologética com ofensa pessoal, e no fundo revela falta de modéstia em admitir que simplesmente pode estar errada. E o pior, a auto-vitimização é uma espécie de desonestidade intelectual; geralmente, o que defende suas ideias se torna o grande vilão, e o que se vitimiza consegue adeptos que são exatamente como ele: "vítimas" de um sofrimento virtual que só tem plausibilidade em sua teimosa imaginação. A auto-vitimização precisa de platéia para funcionar.
Todos nós somos tentados a cair nesta armadilha em nossas relações humanas, principalmente em nossa sensível e epidérmica cultura latino-americana. Mais discernimento e sobriedade, pessoal.
Curtíssima: calvinismo & política
O cristianismo, particularmente de tradição calvinista, é uma boa matriz filosófica na orientação de posicionamentos políticos que defendem a liberdade individual e comunitária, por um motivo básico: não admite que ninguém e nada se torne absoluto, exceto Deus. A soberania absoluta é uma exclusividade da divindade. Todas as esferas de poder que aí estão foram constituídas por Deus e são relativas a Ele e umas às outras. Sendo assim, a defesa calvinista do Deus bíblico como absoluto, e tudo mais relativo a Ele, possibilitaria filosoficamente uma perspectiva política realmente plural. Esta seria a diferença básica entre uma visão política cristã e ideologias que defendem um pluralismo fictício baseado na absolutização/divinização do Estado ou dos indivíduos. Nestes termos, teologia e política encontram-se, mais uma vez, na arena pública. Política nunca foi religiosamente neutra. E religião nunca foi politicamente neutra.
Falarás!
"Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas." (Dt 6:6-9)
O povo de Deus se alimenta de narrativas de fé. Eventos localizados na história, de fato, mas que também a transcendem. Somos a família da memória. Na liturgia cristã, as Escrituras são abertas e a história da salvação nos é contada. Ouvimos ali, a partir deste livro antigo, histórias sobre personagens antigos, de um povo pequeno, mas peculiar. Nossos heróis são reis e guerreiros, mas também, pastores, profetas que cuidavam de gados, pescadores e homens banidos. A Bíblia nos fala de sábios, legisladores, regentes, prostitutas, viúvas, pobres, donas de casa, soberbos e humildes. Os personagens bíblicos tornam-se arquétipos psicológicos, traços de personalidade perfeitamente compatíveis com nossa frágil condição humana. Por isso, somos o povo que conta e reconta a existência, deles e nossa.
De fato, quando ouvimos tais histórias ou narrativas da salvação, não temos a dimensão total dos eventos, afinal é um livro e não um registro cinematográfico. Um livro que precisa ser narrado e que afeta diretamente nossa imaginação. Há um elemento retórico, poético e imaginativo nas Escrituras. De acordo com a pedagogia bíblica: "a doçura no falar aumenta a aprendizagem"¹.
Tenho percebido que boa teologia se faz com boa lógica, mas também com bela arquitetura retórica. Quando lemos Agostinho e mesmo Calvino percebemos que beleza nunca esteve ausente do bom discurso teológico. Assim, teologia se conecta com beleza e imaginação, e novamente, nos vemos imaginando o mundo a partir de narrativas e homilias que nos afetam a partir da indispensável iluminação do Espírito Santo.
Não é esta exposição permanente das Escrituras que insiste o apóstolo ao jovem presbítero? Sim, Paulo encoraja Timóteo a perseverar na leitura pública das Escrituras². Prática eternizada em toda estrutura de culto cristão que faça jus ao nome. A pregação bíblica, herança da liturgia judaica, antiga prática pedagógica que imprime no Povo de Deus, a comunidade eleita, sua identidade, seu lugar no tempo e no espaço. Somos herdeiros de uma comunidade esperançosa, que traz à memória os atos salvadores de Deus.
No encontro de Deus com Moisés, o legislador de Israel atreveu-se a perguntar-lhe o nome. Desta forma, obteve como resposta: "Eu Sou o que Sou [...] o Deus de Abraão, Isaque e Jacó" (Ex 3). Em outras palavras, um Deus que é narrado, contado e recontado na trajetória de seus escolhidos. Ele não se revela em ídolos estáticos, mas em homens animados por sua imagem e semelhança, transformados de glória em glória, pelo Espírito Santo³.
O ápice da revelação narrada e contada sobre Deus, encarna-se (há um tom dramático aqui) em Jesus Cristo. Lembra o que foi dito pelo apóstolo? "Ninguém jamais viu a Deus, por isto, o Filho Unigênito que está no seio do Pai o revelou" (Jo 1:14). Pois é, me maravilhei quando descobri que a palavra traduzida por "revelou" na versão João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada, tem um sentido retórico-narrativo. A palavra eksêgeomai [εξηγεομαι] tem o sentido de "narrar", "contar" ou "relatar", de fato, foi isso que Cristo fez. O Unigênito veio para declamar de forma mais expressiva, por meio de sua encarnação, quem é o Pai. Esta é a narrativa, o kerygma, a mensagem que nos foi anunciada pela exposição pública do Filho de Deus. Uma pedagogia radical, para uma obra salvadora igualmente radical.
A partir do Verbo Encarnado, Jesus Cristo, o púlpito cristão tornou-se o local do anúncio, a velha pregação ainda tem sido a grande plataforma de transformação de vidas e comunidades. Por esta razão ela é tão central para o cristianismo. Pois é a partir da Palavra que mentes e corações são iluminados pela graça evangélica, escamas caem e corações são elevados ao Deus que se revelou em Jesus. Entretanto, o sucesso da pregação cristã, sua homilia, encontra-se na centralidade de sua mensagem: Jesus Cristo. Sem Cristo, o anúncio torna-se retórica vazia, comunica morte. Entretanto, a partir do Verbo do interior do homem podem "fluir rios de águas vivas" (Jo 7:38), a aridez de um coração alienado pode ser inundado pelo Espírito Santo.
Assim, comunidade de Cristo, que possamos insistir em contar a história de nossa salvação, que nossa imaginação seja afetada pelo anúncio, que sejamos salvos por este Cristo, que se faz presente na narrativa evangélica, como foi dito pelo Apóstolo Paulo:
"Depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa." (Ef 1:13).
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¹ Tradução livre de Pv 16:21 - לַחֲכַם־לֵב יִקָּרֵא נָבֹון וּמֶתֶק שְׂפָתַיִם יֹסִיף לֶֽקַח
² I Tm 4:13
³ II Co 3:18
O Calvinista: um poema.
É desse jeito que queremos ser... "The Calvinist" (O Calvinista) um poema de John Piper.
O calvinista
Por John Piper (Tradução: Roberto Vargas Jr)
Veja-o de joelhos,
Ouça seus constantes apelos:
Coração de cada objetivo:
"Santificado seja o teu nome."
Veja-o na Palavra,
Desamparado, calmo, tranquilo,
Amontoando brasas
Com cuidado até o fogo.
Veja-o com seus livros:
Árvore ao lado dos córregos,
Bebendo na raiz
Até o ramo dar frutos.
Veja-o com a sua caneta:
Linha escrita, e então,
Um pensamento melhor,
Aprofundado a partir da Palavra.
Veja-o na praça,
Preservado do laço sutil:
Guardião implacável
Da fragrância da verdade.
Veja-o na rua,
Em busca de súplica,
Manso e a entesourar:
"Você conhece o meu Rei?"
Veja-o em controvérsia,
Firme e decidido,
Impulsionado pela fama
Do nome de seu Pai.
Veja-o em seu negócio.
Concluído. O plano está feito.
Os homens terão suas habilidades,
Se o Pai o desejar.
Veja-o em sua refeição,
Orando agora a sentir-se
Grato e, seja agraciado,
Deus em cada sabor.
Veja-o com o seu filho:
Ele já sorriu
Tal sorriso antes,
Brincando no chão?
Veja-o com sua esposa,
Parábola para a vida:
Nesta cena sagrada
Ela é a rainha do céu.
Veja-o em devaneio. Ele geme.
"Um é verdade", ele reconhece.
"O que me resta?
Falibilidade".
Veja-o em lamento
"Devo agora me arrepender?"
"Sim. E então proclamar:
Tudo é para a minha fama."
Veja-o adorando.
Assista ao pecador cantar,
Poupado do fogo consumidor
Apenas pelo sangue .
Veja-o na praia:
"De onde provém esse oceano?"
"Do seu Deus acima,
Dedal de amor."
Veja-o agora dormindo.
Observa a colheita dos indefesos,
Mas nenhum crédito a reivindicar,
Assim como quando acordado.
Veja-o à beira da morte.
Ouça a sua respiração,
Através da dor desvanecendo:
Sussurro final: "Ganho!"
Pedagogia e Olavo de Carvalho
Por Igor Miguel
“A partir dos anos 1980, a elite esquerdista tomou posse da educação pública, aí introduzindo o sistema de alfabetização “socioconstrutivista”, concebido por pedagogos esquerdistas como Emilia Ferrero, Lev Vigotsky e Paulo Freire para implantar na mente infantil as estruturas cognitivas aptas a preparar o desenvolvimento mais ou menos espontâneo de uma cosmovisão socialista, praticamente sem necessidade de “doutrinação” explícita.”
Não é a primeira vez que encontro afirmações dessa natureza nos escritos e ditos de Olavo de Carvalho, e já adianto, já encontrei coisas muito válidas em seus dizeres. Porém, como alguém certa vez disse a respeito de Freud: como filósofo ele foi um excelente psiquiatra. De fato, Olavo falha muitas vezes em questões de natureza educacional, e este é o ponto que tenho que compartilhar, pois Olavo tem se tornado referência para muitos educadores que se alinham com uma tradição mais conservadora como forma de reação a uma pedagogia mais à esquerda.
O referido trecho foi publicado no Diário do Comercio em 30 de outubro de 2012, e encontra-se em um dos capítulos do recente livro do Olavo intitulado: “O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota”. Há alguns problemas em termos de teoria educacional no excerto. Pra começar, misturou-se teoria psicológica do desenvolvimento com método (que ele chamou de sistema) de alfabetização. De fato, há um método de alfabetização, e não um sistema, sob influência do estruturalismo piagetino que é denominado de método construtivista, que tem sido associado corretamente com a educadora argentina Emília Ferrero. Paulo Freire, por sua vez, não tem qualquer relação, em termos teóricos, nem com Vygotsky e tão pouco com Piaget, ele se relaciona muito mais com movimentos libertários na pedagogia e na filosofia, do que com teorias da psicologia do desenvolvimento como a epistemologia genética de Piaget ou a teoria sócio-cultural ou sócio-interacionista de Vygotsky¹. Ainda, Olavo falha ao afirmar um sistema de alfabetização “concebido” por Vygotsky, Emilia Ferrero e Paulo Freire.
Então, vamos lá: Vygotsky nunca “concebeu” um método de alfabetização, Emilia é proponente de um método, o construtivista; e tem-se falado de um método “Paulo Freire” de alfabetização, que é em algum sentido, o método silábico, porém ideologizado. Mas, se existe um método Paulo Freire, ele tem pouca ou nenhuma relação com o estruturalismo de Piaget ou a abordagem sócio-cultural de Vygotsky.
Não tenho dúvida de intenções na arena educacional na tentativa de uma hegemonia teórica, principalmente oriunda daqueles mais à esquerda, e isto tem anos. Por outro lado, de fato, a teoria vygotskiana e a piagetina, lembro-vos, teorias do desenvolvimento cognitivo, não teorias pedagógicas necessariamente, são elucidativas em diversos aspectos para explicar o fenômeno da aprendizagem.
O problema do texto é que ele é um tanto sofismático no argumento. Não entendi a conexão entre “estruturas cognitivas aptas” com “doutrinação”. Repito, acho que há doutrinação sim, mas em termos teóricos, não há qualquer argumento plausível que sustente a tese de que as abordagens teóricas, tanto de Vygotsky como de Piaget, favoreçam uma abertura “cognitiva” para a doutrinação marxista. Se ao menos isto fosse dito a respeito de Paulo Freire, mas não foi o caso. Houve aí uma mistura de teóricos, uma falta de distinção entre método, teoria e filosofia educacionais. Não defendendo uma neutralidade ideológica nas perspectivas desenvolvimentistas aí apresentadas, ao contrário, tenho críticas e reservas tanto a Piaget como a Vygotsky. Mas, o salto “quântico” que associa uma teoria da psicologia e intenções doutrinárias nos termos que acontecem nas escolas no Brasil, alegando um “sistema” baseado diretamente nas teorias mencionadas, em particular Vygotsky e Piaget, seria um erro crasso e grosseiro.
Ironicamente, há pouco vi um vídeo em que Olavo de Carvalho criticava a filosofia paulofreiriana², e defendia, em contrapartida, a “pedagogia” do cientista israelense Reuven Feuerstein. Fiquei feliz dele ter feito tal menção, tenho defendido a relevância da Experiência da Aprendizagem Mediada (EAM) de Feuerstein há algum tempo, eu mesmo estive com ele pessoalmente há alguns anos em Jerusalém. Porém, ironicamente, o próprio Feuerstein é explicitamente influenciado por Vygotsky e Piaget. O próprio conceito de mediação é vygotskiano em certa medida, e a ideia de modificabilidade estrutural em sua teoria é oriunda do estruturalismo piagetiano. Então veja bem, Olavo de Carvalho encontrou alguma plausibilidade na teoria de Reuven Feuerstein, mas ignorou, em grande medida, como o cerne de sua teoria está radicado tanto no estruturalismo de Piaget, como na abordagem sócio-cultural de Vygotsky. Para compreender a relação entre estes dois teóricos e Reuven Feuerstein, vale a pena dar uma lida no livro de Alex Kozulin: “Psychological Tools: social cultural approach in education.”
Enfim, o que temo nisto tudo é que nesta gana de combater a imposição hegemônica do materialismo histórico dialético nas escolas, tanto em termos teóricos como metodológicos, Olavo de Carvalho, e muitos educadores conservadores, caiam em argumentos falaciosos desqualificando uma crítica apropriada ao esforço doutrinário em questão. Repito, não se pode colocar todos os teóricos em uma única sacola, e simplesmente repudiá-los por serem soviéticos ou por terem sido cooptados por uma ala proselitista de esquerda. O mesmo vale para cristãos que simplesmente ignoram determinados saberes teóricos produzidos por cientistas da educação ou da psicologia, por serem eles meramente não-cristãos. Neste caso, recorro ao reformador francês, João Calvino, que assevera: “Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus.” (As Institutas da Religião Cristã, Livro II, Capítulo 2).
_________________
¹Sem mencionar uma influência relevante que considero não-desprezível do filósofo existencialista judeu Martin Buber. Que é precisamente o que ainda me faz ler Paulo Freire, não obstante, a maioria dos pedagogos não fazer qualquer menção a respeito desta relação.
² Lembrando que Paulo Freire não desenvolveu nenhuma teoria psicológica ou do desenvolvimento, mas uma filosofia ou visão política educacional.
Estás servido?
Trabalho com crianças, muitas cuja "inocência" foi precocemente violada. Elas são a parte mais frágil, as primeiras vítimas dos efeitos colaterais de uma sociedade baseada na iniquidade e injustiça. Não trabalho com elas por achar que são "anjos", mas porque não consigo não fazê-lo. Cristo ama tais crianças e me afetou por este amor. Cristo se move em favor do vulnerável, por isso, quando me dou conta, estou lá junto com Jesus em missão. Parafraseando Agostinho, nenhum amor autêntico é possível fora do amor Cristo. Eu não amarei uma criança ou um adolescente vulnerável adequadamente, exceto se eu estiver "doente" de amores por Cristo, e se Cristo mesmo amá-las por mim. O melhor que posso oferecer é não oferecer nada que de mim procede, mas entregar-se à oferta de Cristo, à presença dele que se faz por faces humanas, em "vasos de barro", como somos. Não poucas vezes, a vulnerabilidade da criança remete a minha própria vulnerabilidade e fraqueza. Servi-las em alguma medida é me ver servido por Cristo. No final de uma aula, não foram só elas que foram humanizadas, eu mesmo me humanizei, logo, a diferença entre assistencialismo e serviço cristão é que no primeiro sempre achamos que estamos dando; no segundo é sempre Cristo que se dá a todos, tanto ao que serve como àquele que é servido.
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Igor Miguel
Congresso Missão Integral na IBL
Divulgando um evento cujo tema é inédito na Igreja Batista da Lagoinha. Eu (Igreja Esperança/OMCV), Guilherme de Carvalho (Igreja Esperança/L'Abri), Rodolfo Amorim (L'Abri), Antônio Costa (ONG Rio de Paz), Tiago Guedes (Seminário Inconformados), Vinícius Zulato (Cristo Vivo/Mocidade IBL) e outros, fazendo uma mistura, pensando sobre a Grande Comissão.
Por Cristianismo Público [áudio]
Tema que ministramos no Ciclo de Palestra do L'Abri sobre Política & Fé Cristã. Neste caso, tratamos sobre o direito, a obrigação e as implicações de um Cristianismo Público Para baixar o arquivo clique aqui.
Eles Amaram Demais
Hoje, em um momento completamente ordinário, passando por entre livros em um seção de livros sobre "religiões", em uma determinada livraria, fui tomado pelo desejo de "passar os olhos" em "Confissões" de Agostinho de Hipona. Obra que nunca li dignamente, ao mesmo tempo, obra que não me é completamente estranha. Mas, fui assaltado com palavras que me queimaram por dentro.
Deparei-me com os suspiros do mestre africano, inflamado de desejos pelo Deus Trino. Percebi que os grandes mestres do cristianismo são grandes, não por causa de um academicismo árido, mas porque simplesmente foram assaltados pelo amor. Eles se derretiam diante do Eterno. Tais homens não negavam o desejo, simplesmente desejavam demais, eram amantes de mais. Eles sempre souberam que mulheres, poder, riqueza e glória eram finitos demais para saciá-los. No final, cristãos assim são amantes, tomados de excitação quase no tom dos salmos que dizem que a "alma suspira", "os ossos se despedaçam" e os "rins louvam". Eles não amavam analiticamente, amavam visceralmente, como vulcões com lavas afogueadas de veneração. Os afetos foram feridos por este amor. Daí, descobri uma coisa incrível: precisamos desejar mais, desejar ao ponto de sermos tomados pelo prazer de fazer a vontade de Deus. Não como uma afeição estranha, mas que nossos impulsos e hábitos sejam saturados de tal forma pelo amor de Deus que não tenhamos outro desejo.
Que sejamos tomados de amor pelo Criador a ponto de dizer como Cristo: "que não seja o que eu quero, mas o que tu queres." Amor que sacrifica a vontade própria, porque a vontade própria é desejo menor. Sim, descobri que boa teologia e boa espiritualidade acontecem quando se ama, quando se ama radicalmente o Único que pode satisfazer suficientemente tal amor.
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Igor Miguel
Deparei-me com os suspiros do mestre africano, inflamado de desejos pelo Deus Trino. Percebi que os grandes mestres do cristianismo são grandes, não por causa de um academicismo árido, mas porque simplesmente foram assaltados pelo amor. Eles se derretiam diante do Eterno. Tais homens não negavam o desejo, simplesmente desejavam demais, eram amantes de mais. Eles sempre souberam que mulheres, poder, riqueza e glória eram finitos demais para saciá-los. No final, cristãos assim são amantes, tomados de excitação quase no tom dos salmos que dizem que a "alma suspira", "os ossos se despedaçam" e os "rins louvam". Eles não amavam analiticamente, amavam visceralmente, como vulcões com lavas afogueadas de veneração. Os afetos foram feridos por este amor. Daí, descobri uma coisa incrível: precisamos desejar mais, desejar ao ponto de sermos tomados pelo prazer de fazer a vontade de Deus. Não como uma afeição estranha, mas que nossos impulsos e hábitos sejam saturados de tal forma pelo amor de Deus que não tenhamos outro desejo.
Que sejamos tomados de amor pelo Criador a ponto de dizer como Cristo: "que não seja o que eu quero, mas o que tu queres." Amor que sacrifica a vontade própria, porque a vontade própria é desejo menor. Sim, descobri que boa teologia e boa espiritualidade acontecem quando se ama, quando se ama radicalmente o Único que pode satisfazer suficientemente tal amor.
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