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6 de jul. de 2015 | By: @igorpensar

O Problema da Nudez Moral

Ao aprofundar as reflexões sobre a cultura afetiva, e a partir de muito do que se tem ouvido em minha comunidade de fé, chego a conclusão de que a couraça ou o revestimento moral que deveríamos ter está ausente ou comprometido.  O que significa enfim que vivemos o tempo presente em "carne viva".  Daí nossa hipersensibilidade, reatividade, fobia social e intolerância.

Explico melhor: por revestimento moral entendo a vida pessoal equipada por uma sabedoria que se constitui da internalização de valores morais e virtudes que orientam nossa resposta em relação ao mundo e a vida com as pessoas.  O sábio é aquele que tem suas pulsões contidas e/ou educadas para agir e interagir com o mundo e com as pessoas de forma ética e responsável.

Pessoas despidas de revestimento moral tendem a ser como sujeitos em “carne viva”.  Sabe quando alguém encosta em uma queimadura?  Não resta outra coisa ao queimado senão uma reação desproporcional, desmedida e até violenta para proteger-se e livrar-se do desconforto e da dor.  A cultura afetiva vem despindo e expondo à nudez gerações inteiras que não possuem dispositivos morais suficientes para lidar com e tolerar o convívio social.  A desorientação provocada é tão grande, que resta ao estado moderno, por via jurídica, criar dispositivos impessoais para compensar a pobreza ou falta de revestimento moral nos indivíduos.

Importante destacar aquilo que o filósofo alemão Immanuel Kant chamava de “sociedade civil ética” segundo ele é “um estado em que [os homens] se encontram reunidos sob leis não opressivas, ou seja, simples leis de virtude”¹.  A comunidade ética se distinguiria do “estado jurídico”, pois este se sustenta pelo poder coercitivo e pela força da lei institucionalizada, enquanto aquele funda-se em valores morais internalizados, ou seja, virtudes.   Ainda, Kant chama a atenção para o fato de que o estado jurídico, o estado como conhecemos, deveria promover a comunidade ética para seu próprio bem.  A truculência, o abuso e onerosidade estatais devem-se justamente a indivíduos, e consequentemente, uma sociedade moralmente empobrecidos.

Curiosamente os que adotam o campo afetivo como critério de justiça acabam por promover uma cultura amoral de alta reatividade.  Querem superar a violência removendo precisamente aquilo que tem o poder de conter a violência. Ao invés de promover instituições que formam armaduras morais, eles colocam no mundo sujeitos moralmente empobrecidos e criam leis e jurisdições para que ninguém se esbarre, criando a atmosfera perfeita para o individualismo, o caos e tensões interpessoais.  E, claro, ampliando o poder do estado e sua ingerência em esferas que não são de sua alçada.

Nossa intolerância a dor, ao sofrimento e em relação ao convívio social se devem em muito a este estado de nudez moral.  Criamos uma distância ou uma margem de segurança em relação ao outro por medo do desconforto.  Só nos resta o isolamento e a fuga de qualquer tipo de vínculo comunitário e convívio social.  Ao invés de lidar com nossa nudez, elaboramos vestes improvisadas de “folhas de figueira” e nos isolamos de Deus e das pessoas.  O resultado só poderia ser Caim matando Abel, ou seja, a violência.  Quando Sartre diz que "o inferno são os outros", o faz a partir de seu lugar de homem já queimado pelo fogo eterno.  Sua carne está sendo devorada, não resta outra coisa a ele senão a intolerância.

Mas quem promove capital moral?  Quais são as instituições que manufaturam roupas moralmente apropriadas para imergimos na vida social sem medo do outro?  Sem dúvida instituições providenciais e consagradas pelo tempo como o casamento, a família e a comunidade de fé.   Porém o que o cristianismo propõem é algo além e mais consistente.  A raiz da nudez do ser humano encontra-se no fato de que ele se encontra curvado sobre si mesmo.  Ao perder a visão do sagrado, a noção de transcendência, ele se descobriu nu (Gênesis novamente).  Ou seja, despido e privado de um revestimento de sabedoria que pudesse equipá-lo para viver sem medo no mundo de Deus.  Não é em vão que a “árvore da vida” é associada com a sabedoria na literatura sapiencial hebraica.

Agora fica claro que quando o apóstolo Paulo usa expressões como "revestir-se do novo homem" ou "revestir-se de Cristo" ele se refere a necessidade da apropriação de uma nova existência.  Sem esta couraça da fé, a roupa do Cristo ressuscitado, ainda que se tenha vestimentas morais, socialmente necessárias, elas ainda são insuficientes para lidar com o ardor da permanente presença de Deus no mundo.  Neste caso, devemos recorrer à noção apostólica de que Cristo é a interface entre o cristão, as pessoas e o mundo, nosso amor em relação ao próximo não é sentimentalista, é mediado por Cristo.  Nas palavras do pastor e mártir Dietrich Bonhoeffer:
“Entre meu próximo e eu está Cristo.  Por isto não é me é permitido desejar uma comunhão direta com meu próximo.  Unicamente Cristo pode ajudá-lo, como unicamente Cristo pode me ajudar.   Isto significa que devo renuncia as minhas intenções apaixonadas de manipular, forçar ou dominar a meu próximo.”²
Enfim, Cristo é a resposta mais adequada para o empobrecimento moral generalizado, e por incrível que pareça, nele se encontram os recursos para uma vida livre da ingerência e do controle estatal e do empobrecimento sentimentalista da cultura afetiva.  Qualquer ataque contra ou tentativas de redefinição do casamento, da família ou da igreja, devem ser encaradas como uma violação das principais instituições responsáveis pela proteção da liberdade humana.  São elas as responsáveis pela produção e revestimento da vida moral.  Promoção de capital moral desonera e protege a sociedade civil do abuso estatal, e por outro lado, equipa indivíduos para lidar com a vida em sociedade superando a pulsão por violência.
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¹ A Religião nos Limites da Simples Razão, Parte III, Seção I.
² Livro “Vida em Comunhão”.
17 de out. de 2014 | By: @igorpensar

Corrupção Capilar

Já falei por aqui sobre a pobreza moral que acomete o Brasil. Hoje, vendo a notícia sobre motociclistas circulando em passarelas no Rio de Janeiro, que foram feitas para proteger o pedestre de veículos automotores (olhem a ironia), isso ficou ainda mais forte.

O evento representa inúmeras situações de práticas corruptas em estruturas capilares da sociedade brasileira. A corrupção moral em instâncias mais evidentes, onde o poder político e econômico se concentram, reflete apenas a corrupção moral do brasileiro em níveis bem mais palpáveis.

Temos que admitir que nossa pobreza moral é alarmante. Nosso projeto civilizatório é um fracasso. Esta falha está lá em nossa história, religiosidade e vida familiar. Desde pequenos tivemos, em geral, pais e parentes, vizinhos e amigos, que nos ensinaram este "jeitinho brasileiro" (do quintos dos infernos), este mania transgressora, que burla sistemas, que cria atalhos ilegais e que aparecem claramente no esquema "eu-te-indico-você-me-indica". Esta transgressão que nos parece quase inata, mas culturalmente cultivada, está relacionada àquela imoralidade do "fura-fila", do esquema do trocador que pede pra você descer pela frente e ganha parte da passagem, compra e venda de senhas, é um mundo de trambicagens e cambalachos.

Quando se vive em um mundo imoral, se cai inevitavelmente em um esquema moralista. Já falei aqui desta teodiceia exógena, esta tendência latino-americana de perceber o mal como algo desencarnado, presente nas corporações capitalistas etc. Esta tendência que concebe instituições e prédios públicos como ídolos sob possessão demoníaca. Assim, acabamos por terceirizar a responsabilidade. Porém, ainda acho que o mal está aqui em gente como a gente. A presença dele em estruturas objetivas é porque o homem está lá.

Penso que combater a corrupção é de outra instância. O Estado não conseguirá fazer isso, o que ele pode fazer é reprimi-la pelos meios institucionais e jurídicos, a começar, erradicando a impunidade. Mas, nós, que estamos aqui em instâncias mais concretas e encarnadas, precisamos nos engajar na promoção de uma vida virtuosa. Vamos começar por viver uma vida mais significativa, mais ordeira e mais ética. Que possamos promover uma vida de comprometimento, educar nossos filhos a respeitar as relações humanas, leis públicas, regras de convívio humano e a generosidade com os mais vulneráveis. Que possamos nos comprometer com a promoção de uma cultura mais ordeira, pontual e de convívio legal.

Não adianta fugir do Brasil, alegando que o país é corrupto, e ir para o estrangeiro ilegalmente. Não adianta fugir de uma realidade que nós produzimos. Vamos assumir nossas responsabilidades e educar nossos filhos nisso, e parar com este "mimimi" moralista. Não será a escola pública a nos ensinar ética. Capital moral é produzido por instituições que estão aí antes do Estado Moderno: igreja e família.

Chega de gambiarras morais!
5 de out. de 2011 | By: @igorpensar

Sabedoria Judaico-Cristã (Vídeo)

Pessoal,

Disponibilizamos aqui a palestra que ministramos na Escola de Engenharia da UFMG na 3a. Semana do Cristianismo organizado pela Aliança Bíblica Universitária (ABU) sobre o tema: Sabedoria Judaico-Cristã: por uma liberdade responsável.


9 de out. de 2009 | By: @igorpensar

Sabedoria para além do racionalismo

Por Igor Miguel

Minha investigação no mestrado tem sido uma tentativa de aproximar o conceito hebraico de sabedoria (chochmá | חכמה) e as novas perspectivas educacionais, neste caso, os modelos que procuram aproximar ética, cognição e afetividade.

Uma das coisa que percebi em minha investigação, principalmente no livro
Provérbios de Salomão, também conhecido em hebraico pelo nome Mishlei [משלי], é que o conceito de sabedoria ali apresentado diferenciava em muito da forma moderna e popular da idéia de sabedoria. A primeira definição do termo no Dicionário Aurélio é: "grande conhecimento, erudição, saber, ciência.", curiosamente, não é este o conceito de sabedoria presente entre os antigos judeus.

Chochmá (sabedoria) na Bíblia é um tipo de habilidade específica, que envolve desde de habilidades técnicas como a metalurgia (p.ex. Bezalel que trabalhava com ouro e bronze), a costura (p.ex. as mulheres que faziam roupas sacerdotais e cortinas para o tabernáculo), indo até a gestão, a capacidade administrativa, por exemplo aplicado ao sábio Rei Salomão.

Porém, no livro de
Provérbios de Salomão, onde o termo ocorre com mais freqüência, a sabedoria está associada a uma série de princípios éticos de cunho comportamental. De alguma forma, não há uma separação entre o "conhecer" e o "fazer", não há dicotomia entre o "logos" e a "práxis", o que se vê é um conhecimento tácito, tão tácito, que o sábio de provérbios recorre frequentemente à natureza para obter exemplos e analogias para orientar determinados comportamentos. A orientação de que o preguiçoso deveria ir às formigas para aprender a diligência é interessantíssima. De fato o homem socrático obteria tal orientação nos mitos, ou mesmo, na metafísica, ou ainda na transcendência, mas para Salomão, a resposta esta lá na Criação, nas coisas feitas por Deus.

Chochmá tem aspectos multidisciplinares, quando envolve desde o conhecimento técnico, passando pelo comportamento ético, ao conhecimento natural e chegando até a associação rabínica de "sabedoria" à Torá.

Mas, de onde veio a concepção moderna de "sabedoria" ligada ao conhecimento enciclopédico, à performance cognitiva e à algum tipo de conhecimento puramente teórico?

São Tomas de Aquino, considerado o pai da escolástica, introduziu no pensamento europeu a dicotomia entre graça e natureza, separando a esfera
metafísica-teológico-espiritual da dimensão natural-material-objetiva. Descartes, mais tarde, foi o responsável por separar (no sopro da teologia tomista) o sujeito que pensa (res cogitans) da coisa extensa (res extensa), ou seja, Descartes separou a mente do corpo, as ideias da natureza, a inteligências das emoções, resultado? Uma ênfase na racionalidade em detrimento da dimensão física e da realidade chamada "objetiva", assim nasce o racionalismo-moderno.

A percepção cartesiana de mundo foi tão eficiente, que até hoje pessoas percebem o mundo ou si mesmas dentro do seguintes esquemas binários: razão/emoção, subjetividade/objetividade, espírito/corpo, metafísico/físico, sobrenatural/natural, teoria/prática e outros pares.

Quando retomamos a percepção bíblico-judaico-cristã de
sabedoria, encontramos um modelo pré-moderno e digamos pós-moderno, de superação da percepção de mundo cartesiana. Chochmá é integradora, sabedoria é "saber viver" e não apenas "saber pensar".

O sábio, no sentido bíblico, é alguém integrado com Deus e com a criação, está enraizado na realidade, interage com ela e com os outros seres humanos. O sábio bíblico não é um filósofo grego, não é alguém que vive em um
gueto intelectual, em um areópago de devagações metafísicas, é alguém enraizado na vida, nos círculos sociais, na comunidade e na natureza. O sábio articula toda sua integridade humana, em toda sua complexidade (alma, corpo, mente, emoções e intelecto) a serviço da vida e da existência.

A sabedoria hebraica, não é racionalista, naturalista ou materialista, ela não permite reducionismos, é integradora. A sabedoria está com a costureira, o ferreiro, o rei, o guerreiro, a dona-decasa e é o princípio ativo da criação, arquiteta do mundo.

Curiosamente, sob muitas críticas, especialistas classificam diversos tipos de inteligência (como a teoria das inteligências múltiplas de Gardner), esta abordagem é uma tentativa de superação do modelo cartesiano de restringir as habilidades humanas à dimensão da razão, à lógica. Como a história e a experiência demonstram, há pessoas profundamente articuladas no campo da racionalidade, mas são desarticuladas na vida social e nas relações humanas.


A sabedoria bíblica, não permite esta fragmentação, propõe, pode-se dizer uma "inteligência integral", um saber holístico, integrado com a ação, o comportamento e a responsabilidade ética.

Um pergunta final: então por que o mundo ocidental ignora estas fontes? Por que a modernidade é tão resistente à tradição judaico-cristã? Aí, seria necessário outro post!
28 de mai. de 2009 | By: @igorpensar

Natashenka

Por Igor Miguel

Uma notícia surpreendente me atingiu em cheio hoje quando lí o título de uma matéria do Jornal Zero Hora com o seguinte título: "Menina era criada junto com cachorros". Eu já tinha ouvido falar de casos similares. Crianças que viviam confinadas em casas, barracos ou outro espaço, cujo convívio social era restrito, as vezes conviviam com animais, completamente isoladas de outros seres humanos ou pouco contato com humanos e que quando tinham algum convívio social apresentavam um comportamento animalizado.

Isso foi o que aconteceu com Natashenka. Uma menina russa de 5 anos, residente na Sibéria que vivia em um apartamento confinada com cães e gatos e que apresentava um comportamento similar aos dos animais com quem convivia. Segundo a matéria, ela arranhava e emitia sons similares a gatos e cães.

Talvez o que chame mais a atenção neste artigo, seja o sentimento de revolta ou o desconforto ao vermos um pai que abandona sua filha neste estado, etc. Certamente, este é o objetivo da matéria: chocar.

Porém, a violência do tratamento que a menina Natashenka recebe não concentra-se no espetáculo de horror envolvido no abandono ou como foi encontrada, não é simplesmente o abandono. A pior agressão, foi sua privação de humanidade.

Diferente de outros seres existentes no mundo, o homem é um ser 'dependente' de educação. Ele precisa ser 'instruído'. O homem não nasce com instinto ou programado. Ele precisa ser instruído, carece migrar do estado de ser 'biológico' para o estado de ser-humano em toda sua integridade.

Misterioso pensar que o homem é este ser, que para ser, precisa do outro. Sem o outro, ele nunca é plenamente ele mesmo. Isso levanta um problema interessante. Se precisamos tanto do outro, se dependemos tanto de relacionamento, por que o mundo moderno enfatiza tanto a singularidade, a individualidade e a solidão?

Essa é a contradição! Natashenka é a evidência mais forte, é a expressão mais explícita desta privação do outro. Mas, quantos de nós não somos 'menos-humanos' em maior ou menor grau? Quantos de nós nos isolamos ou isolamos o outro e nos arranhamos em nossos guetos? Quando trocamos esse contato com o humano, pela mídia de massa, pela TV, pelas interações interfaceadas por objetos, não estamos tirando a alma ou abstraindo nossa humanidade?

Natashenka tinha tanta sede pelo outro, que se abriu ao que tinha (gatos e cães) e absorveu o que eles lhe apresentavam. Porém, quem é o nosso outro? Quem é ou quem são estes que matam nosso desejo de ser? Com quem seremos parecidos, quem nos fará a sua imagem e semelhança?

Dolorido pensar, que as vezes, no lugar de cães e gatos, temos nos domínios de nossas relações pessoas egoístas, impulsivas, manipuladoras ou arrogantes. As vezes, a antiga e não antiquada ética bíblica, dizia '... não se assente na roda dos escarnecedores...' (Salmo 1), era uma antiga advertência ao risco de que certas relações sociais não são adequadas.

Eu preciso do outro humano, do outro plenamente humano. Mas, se outro não estiver lá como homem, mas como coisa e que já assumiu a vida animalizada, impulsiva e imediatiazada, como redimí-lo? Como trazê-lo para a vida?

A pergunta é: Se o homem é um livro que está aí para ser escrito, o que pode ser escrito nele? Que palavras podem ser usadas? Que caligrafia usar? Quais caracteres? Que idioma? Que escritor ou escritores podem compor minha biografia?

Natashenka foi jogada aos cães e nós fomos jogados a quem? Natashenka está possuída pelos gatos que a mediaram e quem vai me mediar? Quem ou que permitirei que entre em minha consciência?

São várias perguntas, que desencadeiam uma série de possibilidades. Sinceramente, o que precisamos para continuar plenamente humanos é de sabedoria.

Estudando provérbios, deparo-me frequentemente com o termo 'sabedoria' (em hebraico 'chochmá'). Interessante pensar que 'sabedoria' para o hebreus, não tem a conotação que os gregos davam para 'sofia' (sabedoria em grego). Para os gregos, a sabedoria teórica determinava um comportamento virtuoso. Para os hebreus 'saber' e 'viver' são faces indissociáveis da mesma moeda. Sabedoria é o 'saber-viver', que realizar-se plenamente no mundo é a consciência de se estar presente na vida.

Sabedoria é transmitida de humano para humano, funda-se na tradição e na memória. A sabedoria vem de alguém, que recebeu de alguém e que foi passando pelas gerações. Sabedoria e tradição ligam-se, fundem-se. Animais não podem produzir tradição, pois são imediatos, estão ligados às necessidades imediatas de seu instinto. Nós homens, somos 'mediatizados' pelo outro, pelo símbolo, pela palavra e pela presença do 'mediador' cultural: o outro.

O pai dá significado, a mãe dá significado, mestres dão significados e nos ensinam a 'saber-viver', pois são mediadores entre a realidade bruta e a realidade pensada.

O mundo moderno derrubou a figura paterna, a idéia do sábio ancião, do "velho barbudo" cheio de experiências de vida e segredos do passado. A voz da vovó não pode ser ouvida, a faculdade não deixa, a ciência roubou o direito dos sábios. Nos perdemos, pois perdemos a memória, perdemos o desejo de ouvir o humano. Trocamos a sabedoria, pelos grunidos, ruídos, latidos e mios de um mundo cada vez menos humano, cada vez menos à imagem e semelhança de Deus.

O convite inevitável é: Sente-se aqui, quero te ouvir. O que pensas? O que podes me dizer? Fale-me alguma coisa! Precisamos ouvir, precisamos conversar mais. Precisamos discernir o que nos é posto como verdade. Julgar a realidade sem piedade, não aceitar qualquer som ou imagem que nos impõem. Discernir o tempo e o espaço, a música e a imagem, pedir ao vovô para me explicar o azul do céu, a imensidão do mar e pedir que minha mãe me explique a razão da vida.
7 de mai. de 2009 | By: @igorpensar

Rirás: o drama da obediência

Por Igor Miguel

Meu nome é Rirás. Sentei-me aqui em uma pedra para narrar o que me aconteceu há pouco em um monte, um Lugar de ver Deus.

Tudo começou quando meu pai – Pai de Povos – acordou cedo e pegou seu jumentinho, selando-o para uma jornada relativamente longa. Para mim, meu pai sairia a procura de pastos para o rebanho ou iria em contato com alguns dos vilarejos da região, mas estranhamente ele veio até minha esteira, com a sandália de suas peregrinações e me chamou:
- Rirás! Rirás!
Chamou-me enfaticamente, meu pai e Pai de Povos. Levantei-me imediatamente. Pois, entre nosso povo, se o pai chama, logo levantamos e respondemos. Perguntei-lhe o que desejava e que estava à sua disposição. Apontando para um monte ao longe, meu pai referiu-se a uma região onde há muito tempo atrás ele teve um encontro com um tal Rei da Justiça, governante de Paz, sacerdote do Deus dos Lugares Altos, homem misterioso, sem história e sem genealogia.

Meu pai tomou uma faca, que costumeiramente usamos para abater ovelhas, pegou os mantimentos para a viagem e quando partíamos, ele chamou minha atenção para um feixe de lenha que estava amarrado em um canto. Tomei-o sem entender, também não perguntei, pois afinal, meu pai sabia certamente o que queria, sempre confiei em tudo que ele fazia. Aprendemos a não questionar nossos progenitores, por isso obedeci e fui com ele.

Na caminhada meu pai contava histórias sobre minha infância e sobre como meu nascimento foi especial. Que minha mãe riu-se de um mensageiro do Deus dos Lugares Altos que lhe dizia que em breve ela daria luz a um filho. Riu-se pois era velha, há muito não sabia o que eram os prazeres do Éden. Por rir-se, deu-me o nome de Rirás. Pois de fato, ela riu-se de alegria quando percebeu que estava à espera de um filho sendo já de muita idade. Meu pai sempre se emociona quando conta esta história, mas ele continuava caminhando, narrando contos antigos, como que para se consolar. Ele relutava em se manter obtuso, eu percebia que meu pai vivia um conflito entre firmeza e medo, mas não parava de caminhar.

Passamos por um altar, provavelmente levantado por sacerdotes locais, imediatamente ele se lembrou dos altares que levantou e lembrou-se de suas peregrinações, lembrou-se quando recebeu seu nome por promessa, pois recebera uma letra do nome do Deus dos Lugares Altos, confirmando seu nome Pai de Povos.

Estávamos no sopé da montanha e ele me disse que ela se chama Lugar de Ver Deus e respirando como que vendo algo, disse que um dia aquele lugar receberia povos de todos os lugares do mundo, que se tornaria uma Cidade de Paz.

Continuamos a marcha e meu pai, apresentava um cansaço que não lhe era peculiar, mas encontrou forças sabe-se lá onde, para continuar, tentava ajudá-lo, era idoso, mas perseverava em sua marcha. Finalmente, chegamos ao Lugar de Ver Deus e lá meu pai me pede para ajudá-lo a construir um altar de pedras do deserto.

Quando o altar finalmente estava pronto, meu pai e Pai de Povos, amarrou a lenha, colocou-a sobre as pedras e percebi que ele estava preparando um sacrifício. Perguntei-lhe onde estava o animal para o holocausto para que o pegasse, mas ele hesitou e com os olhos cheios de lágrima, me tomou nos braços e chamou-me e disse-me:
- Rirás! O Deus dos Lugares Altos, nos fez chegar a este Lugar de Ver Deus e Ele Certamente Verá. Deita-te no altar!
Dentro de mim, vieram vários questionamentos. O que meu querido pai estava pensando naquele momento?

Vi que naquele instante, meu nome não era compatível com o que estava acontecendo. Como rir em um momento tão difícil. Seja lá o que meu pai estava fazendo, eu sabia que tinha que obedecê-lo, meu pai me ensinou bem sobre obediência, que devemos ser obedientes se necessário até com a vida. Deitei-me sem demora, ele me amarrou como se amarra uma ovelha e lágrimas continuavam rolando em seu rosto, isto sim me preocupava.

Repentinamente distrai-me com uma pequena gota de lágrima que escorreu de sua barba e tocou a minha testa, distrai-me e lá estava ele – Pai de Povos e meu pai, erguendo a faca que abate ovelhas e quando já descia com ela, fechei meus olhos e ele também, até que um voz densa e de fazer tremer os ossos gritou, dizendo:
- Pai de Povos. Basta!
Meu pai, caiu de joelhos e em profundo respeito ouvi a voz que do céu vinha. Era a voz do Deus dos Lugares Altos, que lhe dizia que por sua obediência ele confirmaria seus descendentes e o faria crescer e se multiplicar. Enquanto meu pai ouvia eu permanecia no altar, sem saber exatamente o que acontecia, salvo as vozes e os ditos.

Ao terminar isso, meu pai levantou-se com o rosto pálido e aos poucos, o rubor voltou junto com sua consciência. Ele tirou apressadamente as cordas que me amarravam e vimos um animal para o sacrifício amarrado à alguns arbustos. Meu pai o tomou, o imolou e a fumaça subia até o Lugar Alto de Deus e finalmente vi uma alegria nunca vista no rosto do meu pai. Ele ria, ria muito, pegou-me nos braços, dançava e se alegrava e dizia:
- Ri filho! Ri! Pois Ele viu e nós o vimos. Podemos ser testados, mas no final, quando obedecemos rimos! Essa é tradição do nosso povo, certamente Rirás!
Foi assim, que meu pai tornou-se Pai de Povos. Ele mostrou que o homem quando responde àquele que o chama, pode aprender a arte da obediência e assim realizar-se, não no que possui, mas no quanto está disposto a se desprender por amor ao Deus das Alturas. Pois, realizar-se está em realizar Sua vontade, que é surpreendente, pois Ele Sempre Verá.
Enfim, meu pai me ensinou a alegria da possibilidade do ser, ao invés do sofrimento causado pela perda da posse.
___________________
Elenco:

Abraão: (hb. avraham) - Pai de Povos.
Isaque: (hb. Itschák) - Rirás.
Melquisedeque: (hb. malki-tsédek) - Rei da Justiça.
El Elion: (hb. El-Elion) - Altíssimo, Deus das Alturas.
Monte Moriá: (hb. Makon Ree Iá) - Lugar de ver YHVH.
Jerusalém: (hb. Yerushalaim) - Cidade da Paz.
O Senhor Proverá: (hb. YHVH Ireê) - Yhvh Verá.
29 de abr. de 2009 | By: @igorpensar

Por uma Espiritualidade na Cidade

Por Igor Miguel

* Leia este texto ao som da música Sometimes you can't make it on your own - U2

Quem inventou a cidade? Ninrode quando fundou Babel? Os egípcios quando construíram um complexo cultural às margens do Nilo? Os gregos quando inventaram as pólis gregas? A elite comercial que no final da idade média organizam os burgos ou os americanos quando inventaram Nova Iorque? Ao invés de responsabilizar alguém pela invenção da cidade, talvez seria mais interessante encará-la em um primeiro momento como algo que está aí, que foi universalizado, por isso está sujeita à crítica e mais do que isso, ela desafia sujeitos que procuram uma espiritualidade para além dos limites do concreto, do asfalto e do aglomerado de pessoas evidentes nos grandes centros.

A cidade foi inventada como centro de disseminação e distribuição dos bens da civilização. Que bens a cidade distribui? Ela distribui bens de consumo, bens culturais, bens religiosos e entretenimento. Porém, o que é civilização? Sigmund Freud em Mal Estar da Civilização dizia que "Civilização é a distância do homem de seu estado de natureza". Mas, por que o homem quer fugir deste estado? O que há de complicado no estado de natureza?

Por que foges homem? O que te espanta nas matas densas? O que te oprime nas cores da criação? Por que te escondes entre as folhas de figueira? Por que escapas da voz do teu Criador?

Ora, o que é a civilização se não um abrigo (ethos) artificialmente elaborado, um mundo paralelo, uma grande matrix tecnologicamente elaborada? A civilização é um mundo conveniente onde o anonimato e a artificialidade criaram uma falsa realidade. Um mundo entorpecente que impede o homem de ouvir a voz que lhe exige explicações.

O que é a cidade se não um grande câncer que devora o mundo (como na foto ao lado mostra os EUA à noite, os grandes centros são os mais iluminados), a força "civilizadora" se apropria do mundo criado sem qualquer pudor. Vai expandindo seus tentáculos babilônicos arrancando esperanças e neutralizando a sensibilidade. Neste aspecto, a cidade é uma grande meretriz!

Qual espiritualidade tem-se ante os tijolos da grande torre? Como permanecer sensível ante os grandes muros, as luzes de neon e as vitrines dos shopping centers? Como ser ouvido ou como ser gente quando gente é o que não falta?

Há como trazer shalom (paz) de volta, orando o trecho do "Pai Nosso": '... venha a nós o teu reino...'. Trazer a realidade, quebrar os pés de barro da civilização em um único golpe. Criar pequenos centros conspiratórios de paz, jardins de espiritualidade, implantá-las no meio das cidades. Imprimir nas paredes, escrever nos muros e contagiá-lo.

Para isso é necessário que oráculos se levantem, profetas quebradores de ídolos (iconoclástas) e propaladores do amor. Sujeitos subversivos que apontem o caminho de volta para a Cidade de Deus. Espiritualidade na pólis só é possível de forma ativa, os passivos serão engolidos, mas ação justa organizará a realidade, humanizará as relações. Trazer o reino é assumir pequenos gestos como colocar uma flor na mesa, sentir a beleza, cultivar jardins nos quintais, andar de bicicleta, ler bons livros, cantar boas músicas, comer uma boa refeição, tomar um bom café, amar sua esposa, dizer bom dia, olhar nos olhos, respeitar a faixa de pedestres e estender a mão ao pobre.

Pequenos gestos, pequenas ações que só os livres podem desfrutar. Liberdade que não é realizada pelos feitos, mas por um grande feito, gracioso e misterioso que a civilização não consegue perceber.

"A cidade não precisa nem do sol, nem da lua, para lhe darem claridade, pois a glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada"(Apocalipse 21:23).


17 de fev. de 2009 | By: @igorpensar

Existe Vida Além de Vênus!

Por Igor Miguel

Já escrevi por aqui sobre como somos intérpretes do mundo e como nos deparamos com códigos culturais e valores; como lidamos com o mundo e os fenômenos a nosso redor a partir de valores que possuímos. Neste aspecto, pode-se dizer que aquilo que amamos, valorizamos e imaginamos tem grande peso sobre nosso comportamento. A doutrinação não é negativa per si, na verdade não temos muito como escapar disso. Todos os homens se comportam a partir de um ethos ἦθος, que se interpõe entre eles e o mundo.

Fui um jovem que cresceu em um lar diferente. Meus pais nunca se casaram formalmente, meu pai nunca foi um homem de valores religiosos muito bem estabelecidos e minha mãe, ao contrário, sempre foi muito ética, sua criação rigorosa e os sofrimentos que encarou na vida lhe ensinaram que a melhor forma de sobreviver no mundo dos anos 70 era enraizar sua vida pessoal naqueles valores e velhos conselhos de sua mãe.

Tenho 29 anos [este texto foi escrito em 2009], nasci no final dos anos 70, sobrevivi a era dos abortos como Moisés. Sobrevivi à subversão cultural da década de 80 e os esvaziamento das mentes adolescentes da década de 90. Tive vários amigos que se perderam no caminho e graças a um aparente fundamentalismo religioso, fui arrancado do encantamento e do entorpecimento viciante da tríade: sexo, vício e violência. Claro, não podia me esquecer, de alguma forma isso me libertou da alienação intelectual e cultural que estava inserido por ignorar o mundo ao meu redor.

Hoje, aprendo a viver e a desfrutar daqueles velhos valores que nunca deveriam ter acabado. Como é bom ser casado, ter uma esposa, [agora filhos], tomar um bom café-da-manhã, trabalhar, conviver com pessoas agradáveis, divertidas e inteligentes e o mais interessante, descobrir que a vida não é só sexo e dinheiro.

O divórcio é uma estatística da maioria, mas eu tenho o direito de não pertencer à estatística. Aquilo que acontece com a maioria não precisa ser necessariamente o que vai acontecer comigo. Não acho que sexo e dinheiro sejam fundamentais para minha existência. De fato, são periféricos. Tenho meus demônios pessoais, luto diariamente para vencê-los, mas sou livre! Optei pelo casamento clássico, planejo ter filhos, não estudo engenharia, tampouco medicina e não quero ser advogado, sem desprezar, obviamente, aqueles que assim o fizeram.

Pois bem, optei por viver uma vida de valores éticos-religiosos e acho que essa é a melhor opção. Não me considero fundamentalista, no sentido estrito do termo, apesar de possuir um personalidade radical em menor ou maior grau em alguns aspectos da vida. Mas, qual é o problema? De alguma maneira, um agnóstico é tão crente em sua descrença quanto um fundamentalista religioso. Um ateu é tão convicto da não existência de Deus como qualquer teísta crédulo. Não haveria nisso um "q" de radicalidade?

Não acredito em neutralidade ideológica e tampouco religiosa, como qualquer pessoa com um pouco de senso filosófico. Por isso, procuro compreender o mundo inescrupulosamente a partir de meus valores, que considero libertadores, por isso os exponho aqui, na espera de que outros possam encontrar algum alívio como eu encontrei.

Quando vemos a televisão tudo se resume em dinheiro e sexo, a mesma coisa acontece nas conversas sociais, nas revistas, nos jornais, na internet e nos diversos segmentos sociais, o discurso é: estabilidade financeira e desempenho sexual. Ora, desculpe-me, mas será que não existe vida além de Vênus? Será que estes são os únicos aspectos da vida?

Vênus - o planeta - era conhecido desde a época do império babilônico. Prova disso é um velho achado arqueológico conhecido como Tábua de Vênus de Ammisaduqa (4 d.C.). No referido achado, o planeta Vênus era conhecido como Ishtar. Esse era o nome da deusa da mitologia assírio-babilônica associada ao amor, a fertilidade e ao erotismo. O mito de Ishtar tem raízes na deusa suméria Innana, também conhecida como "rainha dos céus". Não por menos, a deusa do mito greco-romano associada às questões sexuais é Vênus, também conhecida em sua forma grega por Afrodite. Os cultos afrodisíaco, com sacerdotisas sexuais, eram bem conhecidos em Atenas e Corinto.

Vênus/Afrodite é esta atmosfera cultural em que as pessoas respiram o sexo e encontram nele um rito, um culto ao corpo e ao prazer. Os cultos de fertilidade eram, obviamente, muito populares e de certa forma, o sexo é algo que está muito próximo da devoção espiritual.

Há algo de religioso na sensualidade, talvez, isto explique como facilmente há um movimento pela divinização do erotismo, um tipo de "sexolatria". Por outro lado, está posto o desafio pela redenção da sexualidade e do prazer aos limites da liberdade proposta pelos valores éticos, antes considerados obsoletos, ou digamos, até o momento deslocados da direção que o mundo está tomando.

A explicitação do erótico vai contra a sacralidade de um ato tão belo, tão profético e harmonioso como o sexo. O encontro, a troca, o toque e a intimidade são elementos de um mistério de ordem espiritual profunda, de uma expressividade estética assombrosa, que precisa ser sujeita a princípios que o proteja. A banalização do sexo, sua predominância e o exibicionismo que gira em torno da temática, são de uma violência desconfortante, um ato de vulgaridade que rouba a santidade de um ato tão incrível.

Todo momento em que a civilização procura priorizar certos aspectos da realidade sobre outros, ela comete suicídio cultural. Fazer a vida girar em torno de uma dádiva do Criador, é como permanecer cativo na caverna, enquanto há também tanta riqueza e beleza em um momento de oração, na arte, na música, no comer, na prática de um esporte, há tanta sensibilidade na modéstia e na natureza.

O discurso de sucesso sexual associado ao quantum de sexo é um mito centralizador e reducionista. Deve-se pensar em sucesso existencial em que o sexo, a estética, a política, a arte, a economia, a educação e outros dons de Deus prestam um enorme serviço para que o homem possa refletir uma realidade mais profunda e significativa à sua própria identidade e presença na história.

Qual era a intenção por traz da orientação bíblica de que os casais israelitas deveriam se manter distantes sexualmente durante o período menstrual? Esse período, já diria um famoso rabino, seria de grande importância para a mulher. Na ocasião ela se ausenta dos filhos, do marido e da família e vive um tempo independente. Após esse período, obviamente, o próximo encontro íntimo deste casal seria de uma intensidade tão poderosa, que o ato amoroso poderia ser traduzido em termos como da primeira vez... Sinceramente, existe vida além do sexo.

Há uma explicação da psicologia evolucionária que em um passado distante, os homens não mantinham relações sexuais com suas esposas na lua-cheia, pois era o período em que a noite era iluminada e os homens aproveitavam para ir à caça à noite. Biologicamente, neste período as mulheres ficavam menstruadas em um ciclo de aproximadamente 7 dias (período da lua cheia até a minguante).

Durante esses dias de caça, o homem descobria a natureza, tinha contato com o mundo exterior, conhecia os riscos da aventura, a devoção ao desconhecido e o assombro. Se tornava livre, aberto às possibilidades e descobria enfim a arte de viver. Sabia que seria honrado por sua esposa e filhos se trouxesse o alimento para casa, quando, enfim, seria recebido como herói, digno de sua humanidade.

O homem moderno esqueceu a aventura, a liberdade, a simplicidade da vida e que a rotina é uma grande expressão daquilo que somos: simplesmente humanos.

A erotização do mundo está na contra-mão desses valores. O mundo é mais do que sexo e o sexo é muito mais do que pensam. O desejo de estar ligado ao outro, expressa o desejo de estar ligado a Deus, de rever vínculos rompidos. Algo se rompeu na história, se desligou e religare (religião em latim) é uma exigência para que a vida volte a ter sentido, para que, enfim, o homem se complete.

A modéstia e a vida simples podem evidenciar que o som do vento nas folhas das árvores é de uma riqueza incomensurável, que acordar e olhar sua esposa dormindo como um anjo é como um toque nos domínios de Deus. Não precisamos de nada mais intenso do que a intensidade das coisas simples.

Enfim, é no alvorecer de um novo tempo que raiou com o Cristo ressuscitado, que a vida no tempo presente assume conotação transcendente, e que aspira, por um horizonte de renovação de todas as coisas. A esperança pela eternidade presentifica a graça de corações capturados a um bem maior e por isso podem ser gratos pelos bens menores que foram dados como antegostos do que virá. Uma vida para além de qualquer astro criado. Uma vida além de Vênus.
4 de ago. de 2008 | By: @igorpensar

ENTRE O SUJEITO E O PREDICADO

Por Igor Miguel

Você já se perguntou porque uma árvore em condições naturais não morre de fome? Por que os pássaros não passam necessidade? Por que um cão não tem crise existencial e se suicída? A resposta não é tão simples, mas tem raízes profundas na ética monoteísta.

Segundo a ética monoteísta, cuja origem remonta o patriarca Abraão, o mundo e tudo que nele existe, existe por causa de leis que determinam relações corretas entre as coisas e os seres. Células sobrevivem por causa de leis químicas que estabelecem trocas com um conjunto de outras células e orgãos, em uma complexa rede de permutas e relações que a estabilizam e a equilibram.

A tendência dos fenômenos naturais e físicos ao eqüilíbrio, opera-se justamente por causa da complexidade de leis e regras relacionais inerentes às propriedades físicas da matéria, que quando operam umas com as outras, elaboram uma grande estrutura de permuta de forças e entropia, até que toda estrutura desfrute da estabilidade.

Uma pedra aparentemente estática, tem mais energia e fluxo de relações do que se pode imaginar, não é em vão que é necessária grande energia para tirá-la de sua estabilidade, por exemplo o uso da dinamite.

O que me impressiona é que esta estrutura legal que permeia os fenômenos naturais, origina-se da idéia monoteísta de um Deus que governa todas as coisas integralmente. Por ele ser um, todas as coisas tendem à unidade, à integridade e ao mutualismo. Diferente da tendência positivista de fragmentação da realidade em partes para chegar-se à compreensão do todo, no pensamento monoteísta, as partes interagem, formando uma grande unidade estrutural, pois é da natureza de um Deus criador e único, imprimir sua unidade na diversidade da criação. O monoteísmo reconcilia paradoxos, não é monista e nem dualista.

Incrível como a ciência ocidental, se devidamente analisada, esbarra em uma filosofia teísta que paradoxalmente explora a unidade da diversidade e a diversidade da unidade. Esse fluxo de parte para o todo e do todo para as partes, que manifesta o conceito de um Deus que criou com PALAVRAS.

Ele interpolou o verbo entre o sujeito e o predicado, animou o mundo pela palavra, deu movimento... No princípio era o verbo. Imprimiu regras gramaticais entre as coisas, e as coisas se relacionaram, as partes se conectaram, e tudo começou a pulsar por sua Palavra.

Os físicos estudaram palavras, os químicos estudaram palavras, a ciência estudou palavras, as leis que permeiam todas as coisas, o código, o DNA que ELE imprimiu em uma realidade que revela o que Ele é, e permite as pessoas experimentá-lo além do número, gênero e grau.

Voltando à pergunta inicial: Por que as plantas e os animais em seus habitat natural não sofrem das angústias dos homens? A resposta é só uma: O homem de alguma forma está fora de seu habitat, se rebelou contra as leis que determinam como ele deve se relacionar com as coisas, com o mundo que o cerca, com as outras pessoas e os animais. O homem é um ser anômico, anárquico e solto, uma alma penada deslocada da estrutura que o beneficia. Todos os seres o fazem por instinto natural, mas o homem não o faz por sua rebelião. Sua insistência em se manter por fora, baseado no suposto discurso de liberdade e autonomia, mandou-o para o cativeiro do vazio.

Só há uma forma desse homem voltar a existir que é colocar o verbo entre o sujeito e o predicado.

28 de jun. de 2008 | By: @igorpensar

Homoculturalgenéticosexual... um neologismo.

O querido Pr. Guilherme (teólogo) em seu blog fez uma interessante reflexão sobre os pressupostos genéticos usados por cientistas para justificar a homosexualidade.

Seu artigo está disponível neste link: http://guilhermedecarvalho.blogspot.com/2008/06/o-homossexualismo-no-contra-natureza.html

Fiz um comentário sobre seu artigo, que é como se segue:

Guilherme,

Excelente post. O calcanhar de Aquiles é o termo "natureza". Interessante pensar que Freud define civilização em seu "Mal estar da civilização" como a 'distância do homem de seu estado de natureza'. Interessante pensar que o mesmo criador da psicanálise postula a existência de um hiato no homem, uma inacabalidade, por isso criou-se uma "prótese" (em suas palavras), que mais tarde foi traduzida pelos antropólogos pelo nome de "cultura". Que é definida pela maioria dos estudiosos como algo ligado à valores, códigos, leis, etc. Interessante, pois para eles, é nessa esfera que reside a "natureza humana" algo que o distancia dos animais, da "natureza" propriamente dita. Admite-se a distância, mas quando se quer justificar alguma nova invencionisse cultural, apela-se às leis da não-civilidade (natureza). Contradição irônica? Não! Falta de Bíblia, de perceber que o hiato é um efeito da queda, de um homem fragmentado ou estilhaçado pela queda. De uma corrida aos totens e às roupas de folhas de figueiras, para esconder os efeitos da tragédia. Ironia? Recorrer à natureza para esconder a vergonha, não é novidade, ai se aquelas folhas falassem.

Abraços e parabéns!
Igor

26 de jun. de 2008 | By: @igorpensar

Deus na Escola. Templos sem Deus?

Por Igor Miguel

Hoje palestrei em uma escola pública sobre holocausto e o conflito árabe-israelense, e me chamou a atenção as impressões de uma professora "evangélica" que me abordou dizendo que deveria falar da Bíblia de forma mais "rasgada", pregar o "sangue de Jesus", tudo isso sob àquela verborragia convencional do neo-pentecostalismo. Segundo ela, falar mais "espiritual" e menos "cultural".

Minha contra-resposta: Por meu discurso ser cultural, não quer dizer que ele é menos espiritual. O fato de não usar o jargão religioso convencional, não significa que minha fala é desprovida de espiritualidade. Não preciso falar o "evangeliquês" ou o "cristianês" para ser compreendido por alunos do Ensino Médio, preciso operar nas mentes com contra-argumentos enraizados na ética judaico-cristã, para minar os fundamentos sofismáticos do mundo moderno que é anti-semita e caminha para a fragmentação da família e dos valores forjados por Deus no homem. A mensagem de Jesus implica em justamente libertar mentes do cativeiro cultural, de uma visão de mundo distorcida.

Falei de ética, falei de vida, falei de paz, política e princípios. Discursei sobre a existência de Deus conduzindo um povo do sofrimento à restauração de seu país, em uma linguagem que professores, alunos e jovens (entre os 17-20 anos) podiam compreender, não preciso levantar uma bandeira confissional ou religiosa, para falar a mensagem essencial, ela foi dita na espiritualidade da cultura.

Acho incrível como os religiosos do ocidente (em geral), despedaçam a realidade, fragmentam o mundo, excluem Deus de tudo e não conseguem perceber que Seu governo se estende a todas as esferas da existência humana.

A espiritualidade não está fora da dimensão cultural. A cultura é manifestação espiritual em sua raiz, impressões de uma alma que quer se religar (religare - religião em latim) com a transcendência de um Deus que governa a história, mesmo que ela pareça caótica.

A referida devota de Cristo, poderia ver as coisas como eu vi, os olhos daqueles jovens brilhando, quase que hipnotizados, algo que buscavam há anos estava ali diante deles, almas sedentas, sujeitos cansados de serem explorados pelo hedonismo que nada custa, salvo para aqueles que se vendem para adquiri-lo.

Deus está profundamente preocupado com esses jovens, preocupado principalmente porque os guetos religiosos falam uma linguagem hermética, um dialeto quase intocável para a maioria deles. Quando se toca essas almas com as palavras certas, com a palavra donde procede a fé, as máscaras caem e finalmente são despidos ante a esperança de que podem ser melhores, que nossas decisões têm conseqüências e que as coisas não são descartáveis como nos ensinam.

Ouvi perguntas, que raramente ouço de religiosos convencionais, ouvi angústias que raramente ouço de sacerdotes e caciques espirituais, ouvi a alma.

Sinceramente, raramente vi Deus de uma forma tão nítida como vi hoje. Realmente nosso templos religiosos precisam melhorar sua espiritualidade. Deus está na escola, só espero que também esteja em nossos templos.
20 de jun. de 2008 | By: @igorpensar

Pensamento Judaico-Cristão Ocidental

Por Igor Miguel

Não é de hoje que pensadores e filósofos percebem que a ética do ocidente tem profundas raízes na visão de mundo do judaísmo e do cristianismo seu desdobramento. Até diria mais, perdoem-me pela ousadia, o ocidente de alguma forma nasceu do conflito entre judaísmo e cristianismo.

De alguma forma, os conflitos internos, as respostas da inquirição que logo virou inquisição, o pensamento progressista de protestantes e judeus, ante à ética católica-medieval de apego à abstinência e ao ascetismo, a visão dualista de um mundo objetivo e outro subjetivo do escolasticismo, desse emaranhado de coisas, de linhas que se encontram e se desencontram, de reformas, contra-reformas, conversões forçadas e reavivamentos, nasce o ocidente.

Porém, os efeitos são diversos quando se pensa em hemisfério sul e norte. Lá, os fundamentos éticos tem raízes no puritanismo, no avivamento inglês, em um cristianismo que prima pelo comportamento e pelo "negócio*", combate a ociosidade, e evoca a criatividade dos "predestinados".

Aqui, importa-se o medievalismo, o dualismo, a desintegração da realidade, e o reducionismo eclesiológico, centrado na justificativa da pobreza como virtude, da ignorância como um dom, da sacramentalização da injustiça. Quando não, reduzem Deus a um ídolo, a um mordomo fiel, que presta serviços mágicos em nome de Mamon, no final das contas J. Knight autora da obra neo-pagã "O Segredo" tem razão quando sob posse de uma suposta entidade de Atlantida diz: "Nós somos Deus".

Me cansa essa estupidez, esse velho discurso do sr. Nimrode, a semântica da velha serpente. Derrubem os altares, saiam de Babilônia, já dizia Bob Marley parafraseando a Apocalipse de João, esta é a ordem do momento.

Doi pensar que essas são nossas raízes, dói pensar que nos foi legado a marginalização. Quem dera fossemos uma colônia holandesa, ao menos receberíamos a ética protestante, a iluminação judaica, o trabalho calvinista.

Ora, o que nos angustia é pensar que não herdamos o convívio entre judeus e gentios presente nos amigos do Norte, os representantes da eclesiologia oficial levantaram a parede de separação, e o equador sentiu os efeitos dessa aberração. Enquanto judeus e gentios andarem juntos, haverá espaço para evolução, para diálogo, para reconciliação. Um bom começo, para não dizer o fim - em sentido teleológico - seria retomar o legado dos judeus, a ética do Monte Sião, desalojar o ocidente do dualismo de plotino, afinal dizia Tertualiano: "o que tem haver Atenas com Jerusalém?", boa pergunta!

Mesmo, o crescente "avivamento" carismático católico e o neo-pentecostalimo evangélico, não dão conta da demanda ética, ou tendem a um moralismo anacrônico, ou ao liberalismo justificado pela "graça", tão profunda graça, manchada pelo antinomismo veementemente combatido por João Calvino.

Cansei de ser mal-caráter, cansei de viver uma fé desprovida de respostas objetivas, uma fé que não me liberta. A verdadeira fé tem raízes na expressão hebraica emuná que significa acima de tudo crer confiantemente e fielmente, firmeza doutrinária e ética, obediência irrestrita para aqueles que já desfrutam da condição de filhos de Deus por sola gratia.
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*No sentido de negar o ócio.