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31 de out. de 2012 | By: @igorpensar

Reformando-se

Ecclesia reformata et semper reformanda est.

A famosa expressão acima foi criada pelo teólogo reformado holandês Gisbertus Voetius (1589-1676) durante o Sínodo de Dort. Ela pode ser traduzida da seguinte forma "Igreja reformada está sempre se reformando".  Diferente de algumas interpretações, o sentido não é que a Igreja reformada deveria ser "plástica" ou "relativista", mas que deveria sempre se esforçar para renovar seus fundamentos ou princípios.

Os 5 solas, como são conhecidos, eram os fundamentos do cristianismo bíblico e histórico, que quando esquecidos, sempre dirigem o cristianismo e a Igreja a renovarem seu comprometimento com a fé apostólica.  Quando os reformadores viram o rumo que o cristianismo medieval estava tomando, se articularam para afirmar estes princípios, e assim, corrigir os rumos da fé cristã.

Em tempos em que Cristo é instrumentalizado, mas não afirmado e reconhecido como Senhor, buscamos um cristianismo enraizado nas Escrituras, fiel ao que Deus nos legou pelos profetas e apóstolos, mas igualmente, um cristianismo que se situa na história, com herança, por isso, portadora de uma grande nuvem de mestres e leitores das Escrituras.   De fato, se tivermos algum avanço ou se temos alguma vantagem em relação aos que nos antecederam, deve-se ao fato de estarmos sobre colunas.  Talvez seja esta nossa grande vantagem, o fato de estarmos "sobre ombros de gigantes".

O que gosto nos reformados é que assumem sem reservas que o arbítrio não é dos homens, mas de Deus.  A vontade humana é relativa à soberana vontade de Deus.  Assumem de forma explícita e deliciosamente escandalosa, que o arbítrio entregue pelo humanismo e o iluminismo francês aos indivíduos, é uma repetição ardilosa da tentação no jardim do Éden.   

O que aprecio no cristão reformado é que afirma honestamente que a queda foi radical a ponto de afetar total e profundamente a capacidade do ser humano se chegar a Deus por si só.  A queda colocou o homem em estado de exílio e inimizade contra Deus, e a conclusão apostólica é, reafirmam cristãos reformados, que se Deus não se voltar para os homens, os homens de modo algum se voltarão para Ele.

Gosto da teologia reformada porque ela retoma os fundamentos da doutrina apostólica, que se constituem na centralidade de Cristo e seu senhorio.  Afirmam a grandeza de Deus e como no senhorio de Cristo estende o evangelho a todos os aspectos do mundo criado.

Ser reformado não é apenas ter uma confissão de fé denominacional, é ter um estilo de vida que orbita sobre os 5 princípios da reforma: graça, fé, Cristo, as Escrituras e a Glória de Deus

Os 5 princípios (5 solas) da reforma são caros para um cristão reformado.  Mais do que afirmações dogmáticas ou doutrinárias, eles são afirmações de referências fundantes de um estilo de vida cristão, que infelizmente, são esporadicamente esquecidos ou enfraquecidos pela prática da Igreja.  Retomá-los de forma plena, seria reaver a reforma, a fé apostólica original e ver a comunidade de Jesus florescendo novamente em gratidão, boas obras e testemunho público para a glória de Deus.

Na graça o reformado entende que tudo é dádiva, que a existência é fruto de um presente, cada minuto de vida é fruto de decretos graciosos e amorosos de Deus.  Reconhece que todo ato bem feito e toda boa obra só podem proceder de Deus, do Pai das luzes (Tg 1:17).   Reconhece que a salvação, justificação, santificação, regeneração e fé são resultados de uma série de ações soberanas, por isso, graciosas, não condicionadas em nada no homem.   Não são frutos de um desempenho autônomo, mas de uma atuação constante do amor de Deus, conduzindo e capacitando seus filhos a fazerem a vontade de Deus em gratidão.  É Deus quem opera suas ações no ser humano por graça, é Deus quem implanta no homem o "querer e o efetuar" a salvação (Fp 2:13).  Na graça a pretensão humana é encerrada, e a glória de Deus é evidenciada (Ef 2:9).

Pela  um cristão vincula-se com Jesus.  Pela fé entra-se em união mística, em unidade de amor com o Filho de Deus, em confiança e fidelidade inabaláveis na provisão do amor do Pai em seu Filho.  Sabedores e conscientes de sua condição deplorável como pecadores, cristãos reformados, sabem que só é possível para ser aceito por Deus, se estiverem unidos com Jesus pela fé.  Somente com a confissão dos lábios e a confiança de coração, podem escapar da justa ira de Deus.  Desta forma, fora de Cristo só resta viver sob o teto da "ira de Deus" (Rm 1:18) que já se revela dos céus contra o pecado da humanidade.  A própria degeneração moral das humanidade é por si uma evidência de que sem Cristo só resta a indignação divina.   

Pautados na mesma fé, temos uma grande comunidade (Hb 11) de homens e mulheres que viveram por meio e na fé em Deus confiantes de que sua existência era uma jornada pautada nos planos divinos.  Por isso não esmoreceram, continuaram crendo até verem concretizados os desígnios de Deus em suas vidas.  Então pela fé em Cristo, o cristão une-se com o Filho de Deus, é adotado (tornando-se igualmente filho) e assim tem acesso a uma graça especial que o educa e o dirige de forma operosa até sua glorificação com Jesus.

Um cristão reformado sabe que somente Cristo pode revelar o Pai (Jo 1:18), que Ele é o Ungido, o Messias, Rei, Servo e Cordeiro de Deus e o Verbo de Deus.  Aquele por quem e para quem todas as coisas foram criadas (Jo 1:3; Cl 1:16).  Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, amado desde a Eternidade pelo Pai, revelou-se aos homens por meio de sua encarnação, íntegro de sua divindade e  humanidade, para trazer os homens para o Pai.   Em sua humilhação, morte e ressurreição Jesus Cristo inaugura uma nova criação nele.  Por isso, todos que se unem com Ele são "recriados" (Ef 2:10) e por isso em Jesus um nova humanidade emerge, para a Glória de Deus.  Jesus Cristo é a pedra angular de onde emerge uma comunidade renovada, eleita e preciosa, chamada "Igreja" (Ef 2:20 e I Pe 2: 6 e seg.).  Na Igreja, Cristo se revela e é comunicado.  A Igreja é esta comunidade dinâmica, que em sua discrição e invisibilidade, se visibiliza através do testemunho de verdadeiros cristãos regenerados.  Também se visibiliza na Igreja local, que se reúne ao redor da Palavra de Deus e da mesa da ceia, ordenança de Jesus para os santos.  Lá na Igreja local e visível, cristãos celebram sua páscoa, seu êxodo e retorno do exílio.

Um cristão reformado sabe que as Escrituras são suficientes enquanto recurso de orientação existencial para sua jornada no presente século.  Ele sabe que encontra nela "palavras de vida eterna", plenitude existencial e compreensão de Deus e de sua vontade.   Reconhecem que junto com todos os grandes mestres do cristianismo, debruçam-se sobre esta verdade, buscando em sua complexidade e simplicidade, orientação para viverem para a glória de Deus.  As Escrituras são fontes de sabedoria para um viver habilidoso e que elas compõem a visão de mundo de um cristão, iluminando sua relação com Deus, o próximo e a criação.  A afirmação sola scriptura (somente as Escrituras) da reforma protestante não significava uma rejeição de tudo que a Igreja havia acumulado durante os séculos de interpretação bíblica e doutrinária, mas que a tradição teológica do cristianismo, deveria permanecer sempre sob supervisão e crítica das Escrituras.

Organicamente a graça, a fé, Cristo e as Escrituras, se articulam de forma a projetar a vida do cristão para uma tarefa na criação onde Deus seja sempre glorificado.  O cristão reformado sabe que sua vida e tudo que nela acontece, bem como na sua santa Igreja, envolvem um único propósito final e definitivo: a glória de Deus.   A alegria de um cristão está em tornar Deus conhecido e reconhecido em seus feitos, tarefa e missão.   Não há ato cultural ou laboral de um discípulo de Cristo que não aponte para Deus e se torne uma interface onde Deus é reconhecido e proclamado.

O cristianismo reformado não é aquele que apenas deseja a reforma da Igreja, mas também da cultura, da sociedade, ciência, filosofia, educação e assim por diante.  Um cristão reformado sabe, que as leis de Deus são princípios balizadores para que o salvo possa viver neste mundo de forma submissa e tendo Deus como referência.  Por isso, cristãos reformados resistem a heresia de Marcião que tendia distinguir o Deus criador do Antigo Testamento e o salvador do Novo Testamento.  Ao contrário, eles afirmam a ortodoxia confessional e bíblica em que o mesmo Deus que criou é o que salvou e salva, e vice-versa.

Ser um cristão reformado não é ser um religioso altivo, arrogante, faccioso, reducionista ou denominalista, como se supõe, mas significa ser um cristão unido com Cristo pela fé, na graça, conforme as Escrituras e que viva para a glória de Deus.

Concluímos, que em tempos de arrefecimento da fé, de embustes teológicos, falsos mestres,  falsos profetas, deificação do homem, instrumentalização de Cristo, fragmentação denominacional, escândalos e triunfalismos, mais do que nunca, a Igreja Evangélica no Brasil precisa de uma reforma de dentro para fora.  De comunidades com ortodoxia (doutrina correta), ortopraxia (prática correta) e ortopatia (sentimento correto) alinhadas com a vontade de Deus.  Que seja uma reforma da Igreja local, mas também da criação, da cultura e do comportamento pessoal do cristão.  Todas as grandes reformas e avivamentos da Igreja aconteceram em momentos de crise como a que nos deparamos, a Igreja sempre recebeu saúde e frescor toda as vezes que reafirmou os 5 princípios mencionados.  Que Deus neste dia 31 de outubro, dia da reforma protestante, possa nos convocar para uma vida cristã que sempre se reforma e se renova em Jesus Cristo.
"Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras." (Ap 2:5)
21 de jul. de 2012 | By: @igorpensar

Doutrina de Vida não de Língua

 Por João Calvino (1509-1564), reformador genebrino.

"Pois este [o evangelho] não é doutrina de língua, mas de vida, e não se aprende unicamente com o intelecto  e a memória, como as outras disciplinas, mas, quando recebida, possui afinal toda alma e encontra sede e receptáculo no mais profundo do coração. [...] Concedemos prioridade à doutrina em que se apoia nossa religião, visto que dela advém nossa salvação.  Entretanto, é necessário que a doutrina penetre em nosso peito e chegue a nossos costumes, e de tal modo nos transforme que não nos seja infrutífera. [...] Evangelho cuja eficácia deveria penetrar nos afetos mais íntimos do coração, cem vezes mais do que as frias advertências dos filósofos, e assentar-se na alma e afetar o homem em sua totalidade." 

Fonte:  Institutas da Religião Cristã, Livro III, cap. VI, 4.
10 de dez. de 2010 | By: @igorpensar

Novo Calvinismo?

Excelente artigo publicado pelo site da Revista Ultimato, indicação de minha amiga Dan de Valinhos-SP

Movimento quer trazer jovens às raízes


Três pastores reformados recentemente sentaram juntos nos Estados Unidos para conversar sobre o Novo Calvinismo que esteve varrendo a nova geração de Cristãos. É um movimento para jovens fiéis voltarem às raízes – ou seja, a Escritura e a soberania de Deus.

“Você tem uma geração de Cristãos que cresceram em uma cultura predominantemente secular e não são parte de uma cultura de Igreja,” disse o Dr. Albert Mohler, presidente do Seminário Teológico Batista do Sul, em uma discussão informal realizado por The Gospel Coalition.

“Eles estão percebendo que alguma coisa tem de explicar como chegaram à fé no Senhor Jesus Cristo. Eles têm uma determinação absoluta, pode-se dizer, para deixar claro que o seu primeiro princípio é a soberania de Deus, não a soberania de si mesmo.”

O reverendo Kevin DeYoung, pastor sênior da Igreja University Reformed em East Lansing, Michigan, acredita que parte do apelo do Novo Calvinismo é que “tem algum músculo para isso” e é “robusto em doutrina.”

Há um sentido renovado de que “a soberania de Deus é bíblica e extraordinariamente importante, que Deus nos ama antes que o amássemos, que Ele é o único que faz o trabalho decisivo para a nossa salvação,” disse o jovem pastor.

Nos últimos anos, os pastores têm ponderado o aumento do interesse na teologia reformada – que inclui a manutenção da autoridade da Escritura, a soberania de Deus e a soberania da graça – com alguns propondo que se está saindo de uma inquietação e insatisfação com o evangelicalismo contemporâneo.

“Cansado de Igrejas que buscam entreter mais do que ensinar, sentindo falta depois da carne verdadeira da Palavra, estes jovens estão buscando doutrina e estão se tornando rapidamente novos Calvinistas,” afirma uma postagem no blog popular cristão Internet Monk.

Mohler foi identificado como um dos teólogos evangélicos contribuindo para o ressurgimento. Outros incluem o teólogo batista John Piper, CJ Mahaney das Igrejas da Sovereign Grace, e Mark Driscoll, Igreja Mars Hill.

“A novidade é que você tem gente nova em um novo tempo que estão redescobrindo os mesmos tipos de instintos teológicos e impulsos que levaram à Reforma e os encontra nas mesmas fontes – a Escritura,” explicou Mohler.

E o desejo por respostas carnais a perguntas como “como a graça de Deus vem a mim” emergem” de jovens que tentam nadar contra a maré do secularismo,” disse o conhecido evangélico.

O teólogo reformado Ligon Duncan explica o fenômeno desta maneira, “Eu acho que as antigas tradições confessionais abandonam sua fidelidade a algumas das grandes verdades que todos os protestantes têm valorizado porque nós os encontramos nas Escrituras, e os vemos no âmago do que a vida cristã e ministério são aproximadamente, você tem uma nova geração de pessoas que estão vasculhando a nossa lixeiras e dizendo ‘isso é ótimo, porque nunca ninguém me falou sobre isso?’”
Enquanto os jovens redescobrem as verdades bíblicas, DeYoung considera que pode “realmente revigorar evangélicos.”

Enquanto isso, para Mohler, o rótulo – se é o Novo Calvinismo – não importa.
Tudo se resume às Escrituras e “estar comprometido com o Evangelho, querendo ver a alegrar as nações em nome de Cristo, e querendo ver Igrejas evangélicas construídas e comprometidas,” indicou Mohler.

“Se você vai mergulhar profundamente as Escrituras, se você vai ter que explicar por que as Escrituras têm essa autoridade … [e] como isso se deu certo na vida, francamente, eu não ligo para como você rotula isso, você vai acabar em um bom lugar.”

Globalmente, os três teólogos estão animados.
“Eu acho que é uma coisa maravilhosa e puramente boa que esta nova geração esteja profundamente bíblica, profundamente apaixonada, profundamente convicta, cada vez mais confessional e pronto para fazer algo grande para o nome do Senhor Jesus Cristo,” disse Mohler.

Fonte: Christian Post/Creio
26 de ago. de 2010 | By: @igorpensar

Arte e Ciência por Calvino

Por João Calvino, reformador, século XVI d.C.

Enquanto isso, não esqueçamos, porém, que estes são mui excelentes dons do Espírito Divino, os quais, para o bem comum do gênero humano, ele dispensa àqueles a quem quer. Ora, se a Bezalel e a Ooliabe foi indispensável que se instilassem neles, pelo Espírito de Deus, a inteligência e o conhecimento que se requeriam para a construção do tabernáculo [Ex 31.2-11; 35.30-35], não é de admirar caso se diga que nos é comunicado através do Espírito de Deus o conhecimento dessas coisas que são mui relevantes na vida humana.

Nem há por que alguém pergunte: Que os ímpios, que se alienaram totalmente de Deus, têm a ver com o Espírito? Ora, quando lemos que o Espírito de Deus habita somente nos fiéis [Rm 8.9], é preciso que se entenda isso como referência ao Espírito de santificação, através de quem somos consagrados por templos ao próprio Deus [1Co 3.16]. Entretanto, nem por isso menos preenche, aciona, vivifica a todas as coisas pelo poder do mesmo Espírito, e isso segundo a propriedade de cada espécie, a que a atribuiu pela lei da criação. Pois se o Senhor nos quis assim que fôssemos ajudados pela obra e ministério dos ímpios na e nas demais áreas do saber, física, na dialética, na matemática façamos uso delas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, caso negligenciemos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.

Mas, por outro lado, para que alguém não julgue ser o homem sumamente ditoso, quando se lhe concede tão grande poder de compreender a verdade sob os elementos deste mundo, deve-se, ao mesmo tempo, apreender que não só toda esta capacidade de compreensão, como também a compreensão que daí resulta, é coisa sem consistência e sem estabilidade diante de Deus, quando não subjaz nela o sólido fundamento da verdade. Pois, com muita procedência ensina Agostinho, a quem, como dissemos, o mestre das Sentenças e os escolásticos foram obrigados a subscrever: como, após a queda, foram subtraídos ao homem os dons graciosos, assim também foram corrompidos estes dons naturais que lhe restavam. Não que, até onde procedem de Deus, possam de si mesmos corromper-se, senão que ao homem corrompido deixaram de ser puros, de modo que daí não logre ele algum louvor.

Fonte: As Institutas, Livro II, Capítulo II, Cap. 16 (grifo nosso).

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Uma AnálisePor Igor Miguel

O que me impressiona neste texto de João Calvino é a forma responsável com que nega a percepção escolástica de que aquilo que é produzido por não-cristãos não tem graça, o que incluiria a cultura, o trabalho e a ciência humana em geral. Calvino refuta isto, asseverando que uma percepção apropriada da "lei da criação", aquilo que muito mais tarde Herman Dooyeweerd chamaria de cosmonomia, testemunha que há uma graça comum de Deus despejada na criação. O que significa que a habilidade humana em geral deve ser reconhecida como graça, dádiva divina, e não fruto de uma auto-dotação.

Entretanto, Calvino chama a atenção para o fato de que com a queda, o homem se corrompeu, por isso nem tudo que o homem produz consegue expressar a perfeição e santidade de Deus. Aquilo que estes homens produzem, mesmo que operados pela graça, podem estar comprometidos pelo pecado no homem.

Porém, no parágrafo anterior a este, o reformador genebrino assevera que o cristão não deve ser negligente, antes deve encarar as ciências e as artes, como dádivas, que devem ser desfrutadas, porém com a consciência do trecho posterior. Daí, a necessidade de discernimento do cristão ante ao que o mundo produz.

João Calvino no século XVI, à luz de sua habilidade hermenêutica, não concordaria com a abordagem pietista e legalista presente em alguns círculos evangélicos da atualidade, de que aquilo que é produzido por "mundanos" e "ímpios" não deve ser desfrutado, como a música, a arte, o conhecimento científico. Hoje, o reformador alertaria os cristãos a não serem relapsos, mas que aprendessem a desfrutar destas boas dádivas, sem esquecer porém, que há imperfeições, manchas, que precisam ser discernidas, julgadas e analisadas à luz da boa consciência cristã.

Enfim, a espiritualidade reformada neste sentido não isola o santo do mundo, mas também não permite que ele seja absorvido por ele. Antes o insere lá, porque há graça lá. Porém, o insere consciente de que deve discernir seu tempo, os conhecimentos, tornando-o sóbrio a respeito das consequências da queda.

Soli Deo Gloria
Kol HaKavod LaShem
24 de ago. de 2010 | By: @igorpensar

Realmente Pentecostal

Por Igor Miguel


Não sou pentecostal, no sentido de que minha espiritualidade se resume à "experiência pentecostal", apesar de que a própria experiência dos apóstolos em pentecostes tinha outra conotação.

Os discípulos estavam reunidos no dia conhecido como
festa das semanas (hb. shavuôt), uma referência a festa das primícias de trigo celebrada 7 semanas (49) após a celebração das primícias (hb. bikurim) de cevada (celebrada logo após a pascoa), além de ser uma celebração de conotação agrícola, era uma festa de gratidão e rememoração da dádiva da lei (hb. Torá) no Monte Sinai.

Pentecostes era uma celebração de peregrinação (Dt 16:16) o que significa que as famílias judias eram convocadas a comparecerem em Jerusalém para celebrá-la.

A grande pergunta é:
por que o Espírito Santo foi derramado justamente no dia de pentecostes? A resposta está justamente na relação entre o Espírito Santo e a Dádiva da Lei.

O profeta Jeremias (31:31 e seg.) já houvera predito dias em que o Senhor (YHVH) firmaria uma Nova Aliança com a Casa de Israel e com a Casa de Judá. Dias que Ele inscreveria e imprimiria a
Torá na mente e nos corações. De fato, quando Paulo assevera que seu ministério é do Espírito e não da Letra (II Co 3:6 e seg.), não despreza a lei (a Palavra/Torá) da Nova Aliança, mas admite, que ela é reabilitada e opera de forma distinta naqueles que estão sob a graça de Cristo. Nestes termos, João Calvino observa de forma brilhante:
Quando, porém, nos movem acusação, de que nos apegamos demasiadamente à letra que mata, nisto incorrem na pena de desprezarem a Escritura. Ora, salta à vista que Paulo está ali [2Co 3.6] a contender com os falsos apóstolos, os quais, na realidade, insistindo na lei à parte de Cristo, alienavam o povo da graça da nova aliança, na qual o Senhor promete que haverá de gravar sua lei nas entranhas dos fiéis e lhas imprimir no coração [Jr 31.33]. Portanto, morta é a letra, e a lei do Senhor mata a seus leitores, quando não só se divorcia da graça de Cristo, mas ainda, não tangido o coração, apenas soa aos ouvidos. Se ela, porém, mediante o Espírito, é eficazmente impressa nos corações, se a Cristo manifesta, ela é a palavra da vida [Fp 2.16], a converter as almas, a dar sabedoria aos símplices etc. [Sl 19.7]. (Institutas, Livro I, Cap. IX, pgf. 2).
Confesso que fiquei muito feliz de ler as impressões de Calvino (no século XVI) e seu cuidado em deixar claro a perenidade da Lei na Nova Aliança, demonstrando que Paulo se opõe a uma observância legalista, desprovida de graça, da Torá (lei) que é santa, justa e boa (Rm 7:12).

O que ocorreu em pentecostes, foi uma "segunda" dádiva da "Torah" (lei ou instrução divina). Naquele dia, os preceitos de Deus foram inscritos nos corações dos santos, tornando-os em "testemunhas" (At 1:8). Outrora o que anunciava a vontade de Deus eram as "tábuas do testemunho" (Ex 31:18), tábuas de pedra. Agora, a partir de pentecostes, os santos testemunham a verdade de Deus, pelo Espírito Santo, em corações de carne [regenerados] e não mais de pedra (Ez 36). Afinal, o próprio verbo de Deus, Jesus Cristo, é inscrito em
união misteriosa com os santos por meio da adoção, pelo Espírito Santo.

Neste sentido, os santos não andam [comportam-se] mais segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm 8), pois o pecado, a única barreira entre o homem e a lei, fora desfeito em sua carne,
"a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito." (Rm 8:4).

Conclui-se que ser pentecostal, significa admitir a atuação do Espírito Santo em condicionar o homem a uma obediência voluntária e operosa, em permanente convite aos preceitos do Senhor, desfazendo a pretensa "autonomia" moderna, entregando-se à Lei da Liberdade (Tg 1:25). Celebrando, assim, a inscrição da lei na mente e nos corações, o que tornou os santos cartas vivas:


"Estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações." (II Co 3:3).
3 de ago. de 2010 | By: @igorpensar

Salvação pela Graça

Por Igor Miguel

Espero que este texto seja o primeiro de uma série de impressões sobre os fundamentos do evangelho e as conexões existentes entre a fé cristã em sentido estrito e suas origens no judaísmo. Quando digo, "sentido estrito", afirmo que a fé cristã deve ser considerada como um movimento legítimo de acolhimento das nações não-judias em Cristo. Porém, devido a sua diversidade confessional e teológica durante a história e os diversos ambientes culturais em que se instalou, alguns ramos do cristianismo e algumas tradições inerentes a seu desenvolvimento, acabaram por absorver elementos não-cristãos e não-bíblicos em seu arcabouço. [clique aqui e baixe o artigo completo em PDF]

27 de nov. de 2009 | By: @igorpensar

Calvino e a Lei

AS INSTITUAS DE JOÃO CALVINO - LIVRO II - CAPÍTULO VII - PARÁGRAFO 14: "A LEI ESTÁ CANCELADA NO TOCANTE À MALDIÇÃO, NÃO A SEU MAGISTÉRIO".
"Portanto, visto que agora a lei tem em relação aos fiéis o poder de exortação, não aquele poder que ate suas consciências na maldição, mas aquele que, com instar repetidamente, lhes sacode a indolência e lhes espicaça a imperfeição, enquanto querem significar sua libertação da maldição, muitos dizem que a lei (continuo falando da Lei Moral) foi suprimida aos fiéis, não significando que não mais lhes ordene o que é reto, mas somente que não mais lhes é o que lhes era antes, isto é, que não mais lhes condena e destrói a consciência, aterrando-as e confundindo-as.
E, sem dúvida, Paulo não ensina obscuramente esse cancelamento da lei. Que esse cancelamento foi também pregado pelo Senhor, disso se evidencia o fato de que ele não refutou aquela opinião de que a lei teria sido abolida por ele, a não ser que essa idéia viesse a prevalecer entre os judeus. Como, porém, não poderia ela emergir ao acaso, sem qualquer pretexto, crê-se que ela se originou de uma falsa. Primeira edição: “Pelo que, isto não refiramos a uma era única: que Davi faz permanente na meditação da Lei a vida do homem justo ...” interpretação de sua doutrina, exatamente como quase todos os erros costumeiramente se arrimam na verdade. Nós, porém, para que não tropecemos na mesma pedra, distingamos acuradamente o que foi cancelado na lei e o que permanece firme até agora.

Quando o Senhor testifica que não viera para abolir a lei, mas para cumpri-la, até que se passem o céu e a terra não deixaria fora da lei um til sem que tudo se cumpra [Mt 5.17, 18], confirma ele sobejamente que, por sua vinda, nada seria detraído da observância da lei. E com razão, uma vez que ele veio antes para este fim, a saber, para que lhe remediasse às transgressões. Por parte de Cristo, portanto, permanece inviolável o ensino da lei, a qual, instruindo, exortando, reprovando, corrigindo, nos plasma e prepara para toda obra boa."
(grifo meu)
15 de jul. de 2009 | By: @igorpensar

João Calvino e os Judeus

Em memória do grande reformador francês João Calvino e pela comemoração de seus 500 anos, achei por bem traduzir um trecho de um post do blog: Right Turns intitulado "John Calvin and the Jews", façam bom uso!
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Uma das melhores explicações do que está por trás do filosemitismo de Calvino pode ser encontrado em Azure em um tocante artigo por Armand Laferre, um Huguenote francês, intitulado "The Huguenots, the Jews, and Me":
Esta pequena nação [os judeus], ele [João Calvino] explica, foi escolhido por Deus para manifestar seu amor, não porque os judeus eram menos pecaminosos que os outros povos, mas porque esta foi a eterna, imerecida e inqüestionável decisão de Deus: 'Deus tem atestado isto [predestinação] não apenas em pessoas individuais', ele escreveu, 'mas nos deu um exemplo disto em toda descendência de Abraão...'. Ele também sustentava que: '[aqueles que dizem que a bondade de Deus se estende a todas as criaturas], deixe-os responder porque Deus vinculou-se a um povo, para ser seu pai..'.
Finalmente, enquanto católicos e luteranos argumentavam que a Lei de Moisés era mas um símbolos de uma aliança espiritual de Deus e o homem em Cristo, Calvino insistiu que a lei, que foi dada apenas para os judeus, deveria ser vista como um sinal do amor particular de Deus por Israel.
Texto original. Tradução: Igor Miguel.